Perto da venda, na beira da estrada empoeirada, debaixo de uma gameleira o velho observava os meninos chutarem uma velha bola de couro tentando marcar gols entre as traves de um colchete aberto. Era uma correria só e apesar do calor seco de agosto os meninos não paravam. Foi assim a tarde toda, pois era sábado e não tinham aula, até que o dono da bola montou em sua bicicleta e se foi embora, faceiro por ter marcado quatro gols. Sem a bola de couro no chão e com a bola de fogo no céu indo embora também, Bento, o último dos peladeiros, aproximou-se e sentou em frente ao velho. Observou calado este enrolando o fumo grosso na palha fina com cuidado até a perfeição para depois acender com um palito de fósforo o cigarro manualmente produzido. O cheiro forte entrou nas narinas de Bento quando o velho deu a primeira baforada e olhou para ele. Não era preciso dizer palavra, ambos sabiam que havia chegado a hora.
- Qual causo o sinhô vai contá hoje, vô?
- Quar ocê quer que eu conte: o do romãozinho, o do negro d’água ou o do pé-de-garrafa?
- Essas não vô, conta uma diferente. Uma de verdade.
- Todas elas são verdade, meu fii. – respondeu o velho antes de dar outra baforada.
- Tá, mas conta uma história que alguém daqui viu e não uma que contaram que outro contou que outro contou e não dá pra saber donde veio.
O velho enfiou a mão no bolso e tirou a boceta onde guardava o fumo. Em um compartimento à parte, pegou um caroço de milho e mostrou à frente dos olhos do garoto.
- Tudo bom então vô contá a história desse caroço de milho que trago comigo faz muito tempo e de como ele prova um milagre que eu vi acontecer.
- Mesmo?
- Sim, com estes olhos que a terra há de comer. Você já ouviu a história da santa guerreira?
- O senhor fala da Santa Dica? Só escutei a professora falando que ela era muito conhecida antigamente. Ela era santa mesmo, vô? Você conheceu ela?
- Ê, meu fii, seu avô fez bem mais que conhecer a Benedita, o seu avô foi o principal capataz dela na época em que gente do Brasil todo vinha em romaria pedir milagre dela. Era um mundão de gente que não acabava mais. Todos tinham ficado sabendo da menina que voltou dos mortos depois de três dias, igual o Nosso Senhor. Eu era um mulecote como ôce naquela época mas lembro ainda de tudo. Chegava gente doente e saía gente curada. O pai da Dica era cumpadre do meu pai, que prometeu que eu ajudaria a cuidar dela quando ela ficou mocinha. E eu aceitei, senão seria só pegar na enxada o tempo todo. Assim, eu mudei pra casa da Dica ainda novo, assim como muita gente que chegava e ficava por estas bandas. Tudo ia bem até os coroner começar a ter ciúmes da Santa, Bento. Ela tinha umas ideias boas até, dizia que a terra é de Deus e que deveria ser de todos e queria criar, mas que os chefão daquela época não gostava nem um pouco. Os padre também não gostava quando ela fazia milagres, rezava as missa e conversava com os espírito do Doutor Fritz, da Princesa Silveira e do Comandante. Diziam que ela tava endemoniada. Não demorou muito tempo pro Governador mandar as tropas prenderem a Santa e acabarem com o movimento que eles chamavam de insurreição contra a República.
- E o que aconteceu, vô, eles mataram a Santa?
- Mas o quê, meninu! A Santa não podia ser matada não. Eu mesmo vi com esses olhos quando o pelotão todo disparou contra a casa da Dica, as balas que acertavam ela, enrolavam nos seus cabelos compridos e rolavam por ela até chegarem ao chão. E ela sorria naquela noite como se o próprio Pai estivesse segurando a sua mão. Mesmo assim, as balas acertaram três dos nossos. Quando ela viu que não conseguia proteger todo mundo dos soldados, mandou o povo todo atravessar o Rio do Peixe, que passava atrás da casa dela. Depois, pegou uma sucuri enorme e amarrou no banhado perto do rio pros soldados não atravessassem o rio tamém. Os soldados ficaram bestas vendo aquilo e não teve um com coragem de pisar no banhado. E ficaram mais bobos ainda quando viram ela atravessando o rio andando em cima das águas, igualzim Nosso Senhor fez.
- Então todo mundo escapou dos sordado?
- Infelizmente não, tinha outro tanto do outro lado do rio só esperando a gente chegá. A Dica foi presa, mas não durou muito tempo na cadeia porque o povo quis ela solta.
- E aí acaba a história, vô?
- Acaba não, meu fii, ainda tem as guerra que a gente lutou pra Santa em Sumpaulo e em Minas, contra a Revolução de 32, depois contra a Coluna Prestes. Eu era um dos soldados da Santinha que o povo chamava de “pé com palha e pé sem palha”. Graças as bênçãos dela nenhum homem que lutava por ela morreu. A gente atravessava ponte cheia de mina, de olhos vendados e nada acontecia. Quando as balas dos inimigos batiam na gente, advinha no que elas viravam?
O menino arregalou os olhos enquanto olhava para aquilo que o velho ainda segurava na mão.
Texto escrito por L.S. Alves.
Em meio as trevas da floresta ardia uma fogueira. Ao seu redor
conspiradores planejavam o sequestro e a morte de seus inimigos. Em
jogo a hegemonia sobre o folclore nacional. Saci-pererê, Boi Tatá,
Caipora, Mula Sem Cabeça, Boto, Cobra Grande e outros membros do
imaginário popular estavam lá discutindo acaloradamente o que fazer.
Esses malditos ianques imperialistas! Temos que matá-los.
Calma Caipora. As coisas não são bem assim.
São assim sim. Tem que matar esses porcos capitalistas. – o Cobra
Grande fazia parte do grupo dos exaltados.
O saci que pitava quietinho no seu canto deu dois pulinhos até a beira
da roda e disse:
O caso é o seguinte. Os americano tão vindo. E vem pra ficar. Ou a
gente expulsa eles ou nem nos livro de história vamo ter espaço. Diz
que a invasão tá planejada pra dia 31 de outubro. Eles bolaram uma
grande festa, enquanto o povo brasileiro festeja eles se instalam pra
tomar o nosso lugar. – o Saci estava por dentro das coisas e já
preparava o plano de ataque.
Isso é pecado, só pode ser coisa do diabo só pode. – a mula-sem-cabeça
relinchava e batia os cascos no chão, nada mexia mais com seus brios
católicos do que bruxaria e satanismo. – Fazer as crianças se vestir
de bruxa e induzi-las a praticar rituais de necromancia. Ouçam o que
eu digo. Isso é uma estratégia do capeta!
Deixa de ser carola Sem Cabeça! Se você tivesse medo de pecado não
tinha ido fazer sacanagem com o padre. – Realmente o Cobra Grande
estava pra lá de agressivo naquela noite.
Mas será que tudo isso é necessário? – o Boi Tatá era da turma do
deixa disso. – Eu soube que o governo já fez uma lei pra criar o dia
do folclore e outra pro dia do Saci.
Agora você vai começar a acreditar em político?
Com muita calma e paciência o Saci foi contornando os egos e disputas
internas. Explicando a todos o que estava acontecendo e o que deveriam
fazer para reagir e firmar o posto que detinham no imaginário popular.
Primeiro precisamos descobrir quem são nossos inimigos e quais são as
suas fraquezas. Pra isso eu já havia distribuído tarefas a alguns de
vocês.
Para aqueles que não me conhecem eu sou o Boto. Por me transformar em
humano pude andar no meio deles e descobri que o dia 31 é o dia das
bruxas e elas vem ai acompanhadas de vampiros, múmias, lobisomens e
fantasmas. Pelo que pesquisei as bruxas a gente mata jogando água
nelas. Parece que elas derretem. Se isso não funcionar a gente faz uma
fogueira igual de São João e joga elas lá dentro.
Eu sou a Mula Sem Cabeça e pelo que soube o símbolos desses adoradores
de Satã é a abóbora. Isso mesmo, pra demarcar os lugares conquistados
espalham jerimuns entalhados em forma de rostos demoníacos.
O que eu descobri foi que eles funcionam na base da extorsão. Batem na
porta das pessoas e exigem doces ou truques. É óbvio que não se trata
de truques inocentes. Isso é coisa da máfia. O negócio é mais pro lado
ou paga ou morre. Ah ia me esquecendo, pra quem não notou ainda eu sou
o Caipora.
Gritos de morte e vingança contrastavam com clamores de derrota e
pessimismo. A divisão do grupo era óbvia. Uns queriam resistir até o
fim outros já contavam estar derrotados e pretendiam se matricular em
cursos de inglês. Quietinho no meio das sombras o Saci pitava seu
cachimbo de olhos fechados, mas bastante desperto. Quem prestasse
atenção a cena notaria que algo estava sendo matutado em baixo daquela
carapuça vermelha. Antes que a coisa desandasse de vez ou que todos se
matassem ele pulou no meio da roda e começou:
Quié isso minha gente. Tem causo pra medo não. Deixa os gringo vim que
a gente dá jeito neles. Se bruxa tem medo d’água nóis manda a Iara
resover. Os jirimum a Mula pode escoicear. Os mafioso deixa que eu e o
caipora eliminamo.
Depois disso não houve muito mais discussão. Tomaram cada um o seu
caminho e foram para suas casa se aprontarem para a grande noite.
…
A manhã de primeiro de novembro foi triste para todos os que
conseguiram retornar ao ponto de encontro definido. Aos poucos foram
chegando esfarrapados, com caras inchadas, Alguns ainda traziam
lágrimas nos olhos. A derrota era visível, agora faltava descobrir o
que tinha dado errado.
Na roda o Caipora, Boi Tatá e o Cobra Grande. De vez em quando um
olhava pro outro e depois baixava os olhos em direção ao chão. O tempo
passou e ninguém mais retornou. O Boi Tatá foi o primeiro a tomar a
palavra:
Então gente o que aconteceu com vocês? Cadê o Saci, o Boto e o resto do pessoal?
Nós estávamos seguindo o plano. Íamos bater em algumas casas, berrar
aquele negócio de “doce ou truque” é claro que íamos pegar os doces e
depois barbarizar a casa das vítimas, mas logo na primeira casa deu
tudo errado. Eu já tinha metido o pé na porta e o Saci entrou de
rodamoinho gritando doce ou truque. De repente era tiro pra todo lado.
A casa era uma boca de fumo. Eu fugi pela janela. E a última notícia
que tive do Saci foram os gritos que vieram de dentro da casa “Perdeu
neguinho. A casa caiu” – o relato do Caipora não explicava muito mas
já dava uma ideia do que tinha acontecido.
O Boto foi preso. Parece que a polícia não entendeu as intenções dele
com uma bruxinha. Dizem que ela era menor de idade apesar de que eu
não vi nada de menor nela. Na verdade a bruxa era bem avantajada. Ele
pediu pra avisar a todos e que aqueles que pudessem ir visitá-lo na
cadeia seriam de grande ajuda. Eu vou assim que eu puder. – o Cobra
Grande terminou de falar e deixou que o silêncio voltasse a reinar.
Gente pelo visto essa tal Guerra do Raluim não vai dar em nada mesmo.
Acho que o melhor que temos a fazer é cada um voltar pro seu lugar e
assombrar os seus políticos locais até eles aprovarem uma lei
garantindo um dia pra vocês ou uma estátua ou qualquer coisa que o
valha, pois se a gente depender das crianças e da cultura popular nós
vamos todos entrar em extinção. Então é tchau pra vocês e a gente se
vê no Raluim do, digo no dia do Saci do ano que vem. – com isso o Boi
Tatá deu as costas ao grupo e sumiu queimando pela floresta.
Sentou entre os arbustos na beira do rio e ficou ali, o rosto atento, numa mão a peixeira, na outra, a espingarda do Totonho. De onde estava, tinha uma visão privilegiada do imenso corredor de água doce à sua frente, iluminado àquela hora pelo globo branco resplandecente flutuando no negrume em cima de sua cabeça. Mesmo dali, podia ouvir a algazarra na vila, a fogueira seria acesa dentro de instantes.
Ele podia estar lá, se divertindo também, tomando cachaça e enchendo a pança de pé-de-moleque, mas não era homem de levar desaforo pra casa. Quer dizer, o desaforo já tinha levado pra dentro de casa faz tempo, inclusive já tinha parado de chorar à noite o garoto. Mas, um ano depois, podia finalmente botar um ponto final naquele negócio e andar pela vila de cabeça erguida.
“Ainda com isso, Zé? Não acredito que vai perder a festança pra ficar de tocaia lá, home de Deus”, tinha dito o Totonho.
“Me arranja a tua carabina. De hoje, aquele maldito bicho não escapa”.
Não tinha falado nada pra Rosália. Já ouvira ela contar todo o negócio inúmeras vezes, logo no começo, quando tentava explicar o bucho que não parava de crescer, mesmo antes do casório. E a Dona Firmina, que já morava por aquelas bandas antes mesmo de ele nascer, tinha sido bem clara: terno branco, roupa branca, o chapéu também branco com a aba descida pra frente, pra esconder o narigão.
Além de limpar a honra, também seria conhecido como o primeiro homem que deu fim àquele bicho do capeta desvirtuador de moças. E, se o danado não demorasse muito pra aparecer, ainda ia poder aproveitar um pouco da festa, quem sabe até ver a fogueira cair. Bom demais da conta.
A fogueira foi acesa, queimou, caiu e nada.
O globo branco andou um quantos passos lá em cima, e nada.
Apoiou o corpo num dos arbustos e cochilou.
Acordou, sei lá quanto tempo depois, com o barulho dos passos na terra, ali pertinho. Puxou a espingarda e a peixeira e viu, na beirinha do rio, o rapaz de costas pra ele, mijando na água, todo vestido de branco, parecendo brilhar no meio daquela escuridão toda. Então o danado ainda por cima sujava o próprio rio onde morava! Levantou de um pulo só, mirou e pá! bem no meio das costas. O bicho cambaleou e caiu, metade do corpo dentro do rio, metade pra fora. Correu até lá e terminou de fazer o serviço, descendo a peixeira três vezes nas costas do danado. Ah, nunca mais o maldito ia fazer filho em mulher nenhuma!
O terno branco, tão limpinho que tava, se inundou de sangue e terra. Até que nem era tão narigudo assim. E o chapéu, cadê o chapéu?
O grupo desceu correndo e gritando até o rio.
“Zé, minha nossa, home, minha nossa, o que você fez?”
“Peguei o maldito do boto, peguei! Olha só, tá aqui ó!”
“Mas que boto, home, que boto? Minha nossa, é o Juan, filho do Seu Zacarias!”
Lá longe, quase do outro lado do rio, um bicho grande mergulhou e sumiu.
Bem, como quem ganhou o duelo passado foi um duelista convidado, repasso abaixo a indicação de tema que o L.S. Alves enviou por email:
“O tema para o próximo desafio será folclore brasileiro. Vamos ver o que somos capazes de produzir com matéria-prima nacional.”
Postagens e envios de textos para o email participe@duelodeescritores.com até o dia 06.09.2010 com o marcador folclore brasileiro.
Boa sorte a todos.
Aberta a votação até o dia 30/08/2010.
Escolham o texto que melhor se adaptou ao tema proposto.
Um abraço a todos.
Texto de L.S. Alves.
Céu vermelho mítico afogado em grandiloquente música clássica cenário divino encontro inesperado. Ser puro casto selvagem cornudo pasta tranquilo na aurora dos dias. Olhos vazios vagando pelo mundo perdido vislumbram criatura emoldurada manhã de sol.
– O que é isso?
Rasga o firmamento:
– Um unicórnio – Homem túnica branca. Deus? Pai meu pai severo ríspido sempre.
Aproximo do animal. Noite lua estrelas. Vento morno. Estendo mão crina balança.
– Nunca vi um assim de tão perto.
– Que beleza! – criança ao lado. Menina, pequena cabelos pretos encaracolados olhos escuros grandes sonhadores. Eu a amo.
– Vá embora! Vá embora! – proclama homem da túnica.
Unicórnio foge. Contrariada bate pés no chão. Campo se abre brecha traga tudo. Árvores grama eu ela. Agarrado barranco estendo-lhe mão.
– Desculpe.
Ela está com os olhos cheios d’água. Choro não consegui salvá-la. Choro por mim. Adormeço sou lançado num estranho mundo. Onde nada faz sentido e os unicórnios nunca existiram.
Aos oito anos de idade eu tinha um amigo imaginário. Sempre considerei o Fred como o meu lado mais peralta, o culpado pela maioria das encrencas em que me meti. Mas não me arrependo: foi por causa do Fred que eu pude ter uma infância diferente da programada pelos meus pais, fugindo das aulas de piano, esgrima, natação, tênis, equitação etc. Foram os meus pais e os psicólogos contratados pelos meus pais quem me disseram que o meu amigo imaginário seria a compensação por uma perda que eu tive naquela época. O engraçado é que só quando atingi os dezessete anos é que me lembrei do que havia perdido que precisava ser compensado.
O meu avô era um aventureiro por profissão. Curador do museu da capital, tinha orgulho em manter uma coleção particular em casa, geralmente de artesanatos de tribos exóticas de diversas partes do mundo, porém de pouco valor para merecerem um espaço no museu. Sempre que viajava para adquirir uma peça para o museu voltava com outras duas ou três para si. Como seu único neto, eu me divertia muito quando ele me conduzia pela mão explicando o valor de cada objeto, a história de sua origem e mostrando no mapa mundi de onde ele viera. Alguns me faziam sorrir, porém outros me davam medo. Mas nenhum me amedrontava tanto quanto a pequena caixa branca, feita de ossos humanos, com caveiras entalhadas na tampa e proveniente de um povo desconhecido da antiga Mesopotâmia. A história que meu avô contava a respeito dela era que era capaz de realizar os desejos de quem a abrisse. É claro que nunca o vi a abrindo na minha frente e eu também nem queria chegar perto daqueles olhos que pareciam me encarar. Me davam pesadelos. Talvez tenha sido por este motivo que depois de um tempo o meu avô parou de me levar na sua sala de objetos exóticos. Não me lembro de ter voltado lá novamente até atingir a adolescência.
Toda escola tem um valentão e o da minha se chama Raul. Raul gosta de bater nos outros, sente um prazer doentio em ser um brutamontes malvado. Eu e meus colegas sempre mantivemos a devida distância dele esperando nunca sermos importunados. Isso funcionou até o dia em que o Paulinho, amigo meu, esbarrou com o Raul no corredor da escola. Paulinho até tentou justificar que tinha sido sem querer, mas não adiantou. No dia seguinte, Paulinho não foi a aula. Quando fui visitá-lo na casa dele, vi o olho roxo e o lábio cortado. A mãe inocente me contou que ele caíra da bicicleta, mas eu soube de imediato qual era a verdade. E eu não podia fazer nada a respeito. Quem dedurasse o Raul levava uma surra maior. Ele chegava a prometer quebrar o braço dos traidores. Porém foi ali, na casa do Paulinho, que Fred me apareceu mais uma vez e sussurrou outra de suas ideias, que confesso ter gostado.
Coloquei o plano em andamento. Na escola, procurei Raul no canto em que costumava ficar com outros valentões fumando cigarro e beijando garotas, me aproximei e propus: se ele me deixasse andar com ele por duas semanas e me ajudasse a ser um cara popular na escola, eu o ajudaria a entrar na casa do meu avô e levar qualquer objeto de valor que ele quisesse. Contei que meu avô havia falecido há pouco tempo e que eu sabia como entrar na casa que estava se ninguém. Raul me avaliou de cima em baixo, mas acabou topando. Era um negócio bom demais para ele recusar. Contudo, quem não entendeu foi o Paulinho quando me viu andando com o Raul, com as roupas no mesmo estilo dele. Cortou totalmente a amizade comigo. Mas eu o compreendi e pensei que faria o mesmo se estivesse no lugar dele. Paulinho desconhecia o meu plano.
Na noite marcada para a invasão, somente eu e Raul entramos na casa. Eu tinha a chave da porta dos fundos, e usamos lanternas para não chamar a atenção dos vizinhos. Fomos direto para a sala de antiguidades do meu avô. Mesmo sendo uma invasão controlada, a sensação de fazer algo proibido me trouxe à memória a sensação de que eu já tinha feito aquilo no passado. Foi quando vi Raul parar em frente a caixa dos desejos.
- O que é isso?
Expliquei para ele, relembrando as palavras exatas de meu finado avô. Raul pegou a caixa nas mãos enquanto eu me afastei. Aquela quantidade enorme de olhos fúnebres o convidavam a prosseguir. Ele parecia hipnotizado. E eu agora me observava como um garotinho de oito anos. Entrando na sala sorrateiramente junto com um vizinho, Frederico, dois anos mais velho que eu. Ambos chegamos até a caixa, exatamente como acontecia agora, e eu presenciava Frederico abrir a tampa da caixa do mesmo modo como Raul estava fazendo. Postado do outro lado da caixa, eu podia ver com a memória o brilho intenso que saía de dentro da caixa refletir no rosto de Frederico e com os olhos o mesmo brilho iluminando o rosto de Raul.
- Um unicórnio – suspirou Frederico – Nunca vi um assim de tão perto.
Antes que eu tivesse tempo de olhar dentro da caixa, Frederico desapareceu junto com a luz, no mesmo instante que a caixa se fechou. Frederico pareceu ter sido sugado para dentro dela.
- Que beleza! – foram as ultimas palavras que escutei Raul falar antes que ele sumisse por completo, da mesma forma que eu havia presenciado sete anos atrás.
Foi quando o meu avô entrou correndo na sala e viu apenas o seu garotinho sentado atônito no chão em frente a caixa. Errou quando imaginou o que acontecera, que o menino entrara sozinho ali, inocentemente abrira a caixa e se assustara com algo. Ergueu as mãos à cabeça e murmurou que jamais se perdoaria se algo acontecesse ao seu neto. Se aproximou de mim, me de um longo abraço forte, tão longo que ainda o sinto, depois me deu um beijo na testa e me levou até em casa. Antes que eu entrasse, olhei para ele parado na calçada, que se despedia abanando as mãos e com os olhos repletos de lágrimas.
– Vá embora! Vá embora!
Mas o que o velho não conseguia ver é que o seu neto não estava mais sozinho. Todo o caminho até a minha casa e vim acompanhado pelo mesmo garoto que entrou na sala comigo, Fred. Frederico não parecia triste com o que aconteceu, e a partir daquele momento seria sempre o responsável pelas ideias mais criativas que eu tive. Seria o meu melhor amigo, imaginário ou não, a compensação por uma perda na infância, talvez explicada pelo abrupto afastamento do avô, conforme diriam os doutores nas sessões de análise.
A escuridão ainda domina a sala. Calmamente me dirijo até o interruptor e aciono a luz. Surpreso, verifico que a sala está praticamente inalterada desde a minha infância. Poucos itens foram acrescentados por meu avô. E ao lado da caixa com as caveiras, Fred me olha sorrindo, pois mais um de seus planos funcionou. Ao lado dele, Raul o olha, sacode a cabeça negativamente e lhe dá uma bronca, dizendo que agora eu terei dois amigos imaginários, e não há maneira de eu explicar isso sem soar como doido. Fred olha para mim como se não tivesse pensado naquilo até o momento e, cabisbaixo e envergonhado, profere uma única palavra.
- Desculpe.
Bastava fechar os olhos num breve cochilo para que ela surgisse incólume à sua frente, vestida em diáfano traje imortal, babados e tiras, Beatriz, a Fada dos Sonhos.
seus sonhos
No começo, apenas divisava o vulto, entre esquinas e paredes, tapetes e cortinas, mas, com o passar das noites – ou dias – o corpo começou a ganhar forma, preenchendo o vestido que flutuava embalado por uma triste sinfonia particular. Logo, o rosto começou também a ganhar rosto, cílio, olhos, bocas, dentes e gengivas, enfim, rosto.
A Fada não vinha agora mais sozinha, tímida, solitária. Bastava fechar os olhos para que todo um universo mítico, mitológico, misturado em pequenas porções, surgisse em volta de Beatriz, seja a galope ou a voo, entre nuvens de concreto.
Ah, como eram belos
e intrigantes
aqueles sonhos!
Quando acordava, porém – sempre há um porém, no entanto, apesar disso – a fútil realidade o esmagava entre os travesseiros e lençóis. Estendia o braço na cama procurando por ela, a doce Beatriz, mas, é claro, não havia ninguém ali, nem sequer um botão que porventura tivesse caído de seu traje transparente, transformista.
Assim, vestia-se, escovava os dentes, tomava uma caneca de café e partia para a garagem, onde embarcaria em sua própria máquina transportadora até o trabalho, aquele Gigantesco Exercício de Futilidade (GEF).
No intervalo do almoço, corria engolir algumas poucas colheres de um prato qualquer, apressado, para que pudesse, no estacionamento, cochilar ainda alguns minutos, embalado pelos braços dela. Juntos, então, passeavam por bosques e montanhas, montados em cavalos que não eram cavalos, de mãos dadas, sorrindo, o coração guardado em uma bolsa de couro, para que não se agitasse demais no trote profundo daqueles animais.
Ah, como eram reais
e magníficos
aqueles sonhos!
Uma noite, porém – sempre há – acordou assustado, em pânico! Sim, não havia sonhado! Mas como! Lembrava-se de coisa alguma e podia jurar que aquela escuridão ao fechar os olhos era tudo que havia. Beatriz, a Fada dos Sonhos,
seus sonhos,
vestida em diáfano traje imortal, o teria abandonado?
Não havia mais tempo para lamentar. Atrasado para o GEF, vestiu-se, desajeito, às pressas, tomando apenas um gole de água, e desceu para o estacionamento do prédio. Foi até o fundo do pavilhão e só não chegou até lá porque um outro veículo chamou sua atenção. O motorista terminava de estacionar, as quatro patas procurando o caminho traçado no chão em tinta amarela. Desembarcou e deixou-o ali.
“O que é isso?”, perguntou, deixando um pouco de lado a pressa incontida.
“Um unicórnio”, respondeu o outro homem, pouco interessado.
“Nunca vi um assim tão de perto”.
Ficou a sós com o cavalo – cavalo, era um cavalo, é isso que era? – e não resistiu a tentação de tocar a tez branca e misteriosa, macia e quente.
“Que beleza!”, exclamou, para si mesmo.
Tão logo falou, o dito unicórnio – que modelo era aquele? quem fabricaria? – levou o corpo para trás e, num impulso selvagem, levantou as duas rodas dianteiras.
“Vá embora! Vá embora!”, ressoou o alarme, ecoando no pavilhão.
“Desculpe”, limitou-se a responder, assustado.
Ficou ali ainda mais alguns segundos, a uma distância segura, apenas contemplando aquela figura mágica e veloz. Por um momento, esqueceu Beatriz, o vestido, os babados e tiras. Esqueceu o próprio carro, o trabalho (GEF), a caneca de café.
Deitou no frio chão de cimento do estacionamento e voltou a sonhar.