“O senhor está longe de casa, não é, mon… monsi… humm, como vocês falam mesmo?”
“Monsieur”.
“Isso, isso mesmo, monsieur Dupin. Na verdade não é todo dia que recebemos visitantes de terras tão distantes aqui na nossa pequena cidade.”
O fiscal levanta a armação de óculos e, por baixo dos aros gastos, observa Charles com curiosidade, enquanto folheia os papéis que trouxemos. Uma carta de recomendação redigida por um tal comissário da polícia parisiense, chamado Gustaves. Eu apenas fico calada e mantenho o sorriso no rosto, encarando o fiscal. Madame Tanessy ficaria orgulhosa.
“Ah, não tão pequena assim, amigo, se é que me permite chamá-lo assim. Há muitos anos já estive por aqui e, desde então, sustentava a vontade irremediável de retornar e rever velhos colegas da universidade. Muita coisa mudou desde então, acredito, mas creio também que a beleza e a simpatia característica da gente de Baltimore continuam sendo os principais atrativos dessa aconchegante cidade.”
Os trabalhadores e comerciantes passam em disparada entre nós no porto, enquanto Charles e o fiscal continuam trocando amenidades. O homem de uniforme azul e amarelo gasto desvia o olhar para mim a cada frase, observando-me dos pés à cabeça. Eu retribuo o olhar, até que ele, por fim, acaba por dirigir-se à minha pessoa.
“Espero que a nobre jovem esteja realmente em boas mãos. Não é recomendável uma… uma… humm…”
“Mademoiselle é a palavra que busca, amigo”, interrompe Charles.
“Isso, uma mademoiselle trafegar sozinha ou muito à vontade por essas ruas. Ainda mais nessa época. O inverno e os becos escuros podem ser rigorosos, se você me entende.”
Eu me apresso pra responder, mas Charles é mais rápido.
“Ah, sim, ela está em boas mãos. Minha amada irmã Berenice cortaria-me a cabeça se eu ousasse meter sua filha única em alguma enrascada. Na verdade, eu olho para ela com olhos de pai, atentos e vigiantes.”
“Bom… me resta então desejar uma boa estadia. A saída é por ali. Cuidado com o piso liso. Se pagar algumas moedas a um desses garotos, eles podem lhe ajudar com as malas.”
Charles pede que um moleque maltrapilho nos acompanhe e, de braços dados, partimos até as carruagens, deixando pra trás o cheiro fétido que parece se impregnar em meu vestido. Nas escadas, eu levo o braço por suas costas, ajudando-o a subir os degraus, que Charles atravessa com dificuldade. Mesmo com o frio e a chuva que cai fraca, sinto o suor escorrer sobre seu casaco. Eu devia ter insistido mais para que ele não retornasse.
Charles que me perdoe, mas eu realmente odeio essa cidade. Desde que chegamos, apenas chove e chove. O cheiro é quase insuportável, mesmo longe do porto. Eu ainda estou em frangalhos após a viagem. Estou a brincar com a colher na xícara de porcelana à minha frente quando ele enfim resolve aparecer, os braços cheios de jornais molhados.
“Pronto, minha bela Anabelle, aqui estão os periódicos que eu procurava. Não foi fácil, mas consegui por um bom preço na livraria de um velho quase cego e ranzinza. Aqui, tome o jornal. Sei que você gosta de saber as últimas notícias, não importa onde esteja”.
Charles me passa o New York Daily Tribune, da edição de 9 de outubro de 1949.
“Pois acho que cego é você, meu querido. Esse jornal é velho, de três semanas atrás. Não creio que vá encontrar alguma notícia nova aqui.”
“Não são as novidades que me interessam, Anabelle, mas sim o que já aconteceu. Veja, olhe esse artigo na terceira página.”
Eu aperto os olhos e leio em silêncio, para que Charles não me chateie com a minha leitura falha. Ele me ensinou a ler e me obriga, toda a semana, a ler artigos e historietas chatas em voz alta, chamando atenção para cada tropeço nas vírgulas e fonemas. Assim diz o artigo:
Edgar Allan Poe está morto. Ele morreu em Baltimore anteontem. Este anúncio irá chocar muitos, mas poucos irão sofrer por isso. O poeta era conhecido, pessoalmente ou por reputação, em todo este país; ele possuía leitores na Inglaterra, e em vários estados da Europa Continental; mas ele tinha poucos ou nenhum amigo; e os pesares por sua morte serão indicados principalmente pela consideração de que nele a arte literária perdeu uma de suas mais brilhantes, porém erráticas, estrelas.
“Humm… o escritor.”
“O redator foi um tanto quanto rude, certamente, mas não deixou de faltar com a verdade. Pelo menos assim nossa missão será mais fácil. Apenas algumas poucas visitas, algumas explicações, considerações e conclusões, e logo poderemos voltar para casa.”
“Nossa missão?. Vim aqui para tomar conta de você, titio, e somente isso. A essa hora, já devíamos estar longe daqui.”
“Ah, adoro quando você me chama de titio…”
Charles pega minha mão esquerda e leva aos lábios, beijando com delicadeza os nós de meus dedos. Eu suspiro, tentando parecer zangada.
“O que, enfim, você quer com esse tal poeta? Aqui não diz nada sobre assassinato ou coisa do tipo.”
“Você sabe que eu tenho uma reputação a zelar. E que só quero o nosso bem.”
“Ah, lá vem você de novo com essas histórias… me acorde quando pudermos voltar.”
“Sempre insolente. Deveria lhe dar umas palmadas de vez em quando.”
Eu rio e pisco para Charles.
“Podemos cuidar disso mais tarde… titio.”
O homem calvo nos olha com curiosidade sobre o vão da porta, espichando o nariz proeminente para ver Charles melhor, envolto em suas galochas. Ele parece ainda mais surpreso ao me enxergar por baixo da sombrinha, o vestido encharcado nas bordas. Charles vai até seu encontro e estende a mão enrugada.
“Deixe-me apresentar, doutor. Me chamo Antonnie Dupin, recém chegado de viagem. Esta ao meu lado é minha sobrinha Anabelle. Perdoe-nos por interromper seus afazeres no coração de seu lar.”
“Sim, eu recebi sua carta. Mas achei que era uma brincadeira de mau gosto. Por que alguém que se autodenomina Dupin iria querer conversar sobre Poe? Ainda mais um francês. Desculpe minha incredulidade, mas isso me parece absurdo.”
“Meu falecido pai, apesar de não ter estudo, costumava dizer que nada nessa vida é coincidência. Saiba que eu mesmo fiquei surpreso ao ler meu sobrenome nos maravilhosos contos de nosso nobre poeta, anos atrás.”
“Edgar nunca falou de você.”
“Há muitas coisas sobre esse homem que ambos desconhecemos, sem dúvida.”
“Sei. Enfim, saiam da chuva. Entrem, por favor.”
A casa é pequena, mas muito bem decorada e servida. Vamos até o que parece ser um escritório, com uma poltrona e um pequeno divã encostados em cada lado da parede. No meio, uma mesa de carvalho, coberta por grossos compêndios de medicina. Eu e Charles sentamos no divã, observados com atenção a cada movimento por nosso desconfiado anfitrião. O sotaque carregado de Charles me incomoda e não deixo de pensar que ele, realmente, já está velho demais pra isso.
“Muito obrigado por nos receber, doutor Snodgrass. Prometo ser breve.”
“Me chame de James. Desejam algo, um chá, talvez?”
“Não queremos incomodar. Tempo ruim, não? É preciso uma canoa para atravessar as poças nas ruas.”
“Vá logo ao ponto, monsieur Dupin. Em que posso lhe ajudar?”
“Percebo que o senhor é um homem direto. Como relatei na carta que precedeu minha visita, fui designado por um conhecido do senhor Edgar Allan Poe para esclarecer algumas circunstâncias sobre sua prematura partida, no último dia 7 de outubro. A morte de nosso poeta trouxe consternação a muitas pessoas.”
“Que conhecido?”
“Temo que não possa lhe dizer. Apenas adianto que é um conterrâneo meu e legítimo apreciador de Poe.”
“Edgar era conhecido na França por algumas de suas publicações, mas não creio que tenha despertado tamanha admiração. Poderia entender se fosse algum familiar em busca de notícias, mas não acredito que ele tivesse qualquer parente próximo em alguma parte da Europa. Não compreendo porque alguém mandaria um investigador aqui para esclarecer coisa alguma.”
“Não me considero um investigador, doutor, e tampouco o sou. Estou apenas fazendo um favor.”
“E essa carta de recomendação, assinada pela polícia parisiense?”
“Apenas para prever alguma eventualidade.”
O doutor se afunda em sua poltrona, apoiando a mão no queixo. Como Charles orientou, eu não falo nada, apenas desvio o olhar de um para o outro durante a conversa.
“Presumo então que Edgar tenho adotado o nome de seu famoso personagem em homenagem à sua pessoa, monsieur. Seu amigo deve ter falado muito de você para ele. É tão esperto e intrépido quanto seu irmão de ficção?”
“Creio que Poe adotou somente o sobrenome e investou o resto, sem qualquer fundamento em minha pessoa. Sou apenas um velho, que sempre viveu tranquilo e cansado.”
“Por ser um velho, aparentemente inofensivo, é que eu me permito recebê-lo em minha casa, Dupin. Também espero que essa jovem ao seu lado não faça parte de alguma tramóia perpretada por desafetos de Edgar. Meu amigo estava sempre envolvido em dívidas e jogos e não me surpreenderia se, mesmo após sua morte, alguém quisesse dar um último troco.”
“Garanto que minhas intenções e as de minha sobrinha são as melhores possíveis, doutor. Apenas recebi a missão de esclarecer o que aconteceu naqueles últimos dias e levar um pouco de conforto para alguém que nutre grande carinho pelo nosso poeta.”
O doutor Snodgrass se levanta e abre com uma pequena chave uma das gavetas da mesa. Impaciente, vasculha os papéis até que, aparentemente consternado, traz para junto de si o que parece ser uma carta. Senta novamente na poltrona, em silêncio, parecendo hesitar em mostrar ou não o conteúdo a Charles.
“O que você quer saber pode ser encontrado em qualquer jornal daqui, Dupin. Algum que seja sério, é claro. As especulações renderam muitas páginas ao longo daqueles dias. Muitas delas, infames.”
“E nenhuma que deixe claro as circunstâncias em que ocorreram a morte de Poe, não estou certo?”
“Não se deixe iludir. Não há mistério algum a ser solucionado. Desde a morte de Virginia, Edgar se entregou a uma vida errante, de excessos. A depressão e a consternação eram visíveis em seu rosto, cada vez que nos encontrávamos. No outono passado, ele chegou a ingerir uma grande quantidade de láudano, o que quase o levou a morte. Ficou dias com o rosto paralisado. Sim, eu me lembro e me entristeço cada vez que recordo o triste fim anunciado de meu amigo. Tentei várias vezes convencê-lo a largar a bebida e o ópio, mas Edgar era irredutível. Era óbvio que chegaria um ponto em que seu organismo não aguentaria tanta provação. Como médico, foi o que eu vi naquele dia em que o encontrei e nos seguintes. Já havia visto os olhos vidrados e compartilhado dos delírios de muitos homens condenados pela álcool, no hospital onde atuo, aqui em Baltimore. Não havia nada a fazer. A angústia havia vencido a luta contra meu amigo.”
“Como o senhor o encontrou, doutor?”
“Um homem me mandou uma carta. Um tal Walker, que não cheguei a ver ou conversar posteriormente. É essa carta que tenho em mãos. Imagine minha tristeza ao receber tal aviso.”
O doutor repassa a carta para Charles, que lê em voz alta, para que todos possamos ouvir.
“Vejamos. Há um cavalheiro, um tanto decomposto nas vestimentas, na Rua Ward Polls, dizendo atender pelo nome Edgar A. Poe, que parece estar muito atormentado e diz ter conhecimento com o senhor, e eu asseguro que ele precisa de assistência urgente. Assinado, Walker. Rua Ward Polls, onde é isso?”
“Ao sul da estação de trem, logo após o mercado público. É um antro de sujeira e promiscuidade. A taberna onde ele estava, desmaiado, era reduto dos mais vis homens. Não encontrei valor nenhum com ele, provavelmente, porque já haviam retirado dele qualquer objeto de valor que possuía. Chamei um policial amigo meu para me acompanhar. Não tive coragem de entrar sozinho naquele lugar.”
“Não encontrou lá o tal Walker?”
“Não, como já lhe disse. E, se posso prever o que se passa em sua cabeça, Dupin, adianto: fique longe daquele lugar. E não ouse levar sua jovem sobrinha junto.”
“Não se preocupe, doutor. Eu não cheguei a essa idade sem saber me cuidar. Poe não relatou o que havia acontecido com ele para chegar a tal ponto?”
Snodgrass abaixa a cabeça, tampando os olhos com uma das mãos.
“Ah, meu senhor, meu amigo sequer conseguia falar algo compreensível. Mesmo com a medicação, continuava delirando. Até hoje lembro da sua voz em meu ouvido, puxando as golas de minha camisa, fazendo com que eu me abaixasse para ouvir aquele nome, balbuciado com dificuldade…”
“Que nome?”
“Reynolds. Seria impossível eu esquecer. Perdi a conta de quantas vezes ele chamou por tal pessoa. Pensei em correr em busca de algum parente com tal nome, mas, dadas as circunstâncias, logo cheguei à conclusão que era somente mais um fruto de seu delírio, um nome sem lógica.”
Após essa última declaração, eu toco inconscientemente na mão de Charles, repousada sobre o divã, e sinto ela fria como gelo. Ele está branco e não sou a única a perceber. Snodgrass se lança em nossa direção, ajoelhando-se à frente de Charles.
“O que houve, Dupin? Você está pálido! Viu algum fantasma, homem?”
Charles balança a cabeça, como se retornasse de algum transe. Sorri, tocando no ombro do doutor e apóia-se em mim para se levantar.
“Ah, uma breve indisposição, doutor. Acontece com homens antigos como eu. Nada de mais. Um pouco de ar fresco irá me fazer bem.”
“Não recomendo que saia nesse estado. Aposto que sua sobrinha concorda comigo.”
“Agradeço a preocupação, mas já estou bem melhor. E não quero mais incomodá-lo. Sua atenção foi de grande valia, doutor.”
Charles avança em direção à saída, levando-me a tiracolo. Eu apenas dou de ombros para o doutor e o acompanho pela sala. Em silêncio, Snodgrass abre a porta, as sombrancelhas abaixadas, em sinal de dúvida. Antes que Charles comece a descer os degraus, o doutor interrompe, tocando em seu ombro.
“Quem é Reynolds, Dupin? Ou seja lá qual for o seu nome verdadeiro…”
“Ninguém, doutor, ninguém.”
Charles vira o rosto e avançamos pela calçada, abraçados embaixo da sombrinha. Eu o questiono, perguntando se está tudo bem, mas ele não responde. Permanece calado até chegarmos ao hotel.
“Venha tomar um banho comigo, meu querido. Irá lhe fazer bem.”
“Não tenho tempo, Anabelle. Preciso sair, agora mesmo.”
“Não seja rabugento, homem. Olhe esse tempo aí fora. Foi uma longa caminhada. Vamos descansar um pouco pelo menos.”
“Eu vou sozinho, meu anjo.”
“Nada disso, Charles.”
“Não me espere para o jantar, querida. E não fique aflita, estarei bem.”
“Não me diga que você vai até aquele lugar. Não pense em…”
Ouço apenas a porta batendo no quarto. Saio do banheiro e vejo que estou sozinha. Pobre Charles.
Acordo no meio da noite nos braços de um homem do qual não lembro o nome. Perco alguns segundos até lembrar-me onde estou. Deslizo para fora da cama, tentando não fazer barulho. Recolho minhas roupas no chão, me visto e saio do quarto. Não encontro viva alma nos corredores do hotel. Subo dois andares e entro no aposento de Charles. Vazio.
As batidas na porta me despertam. Os raios de sol – sol, até que enfim! – entram pelas frestas da cortina, iluminando o quarto. Um dos garotos do hotel engasga ao me ver em trajes íntimos, mas recompõe-se a tempo de avisar que Charles está à minha espera no restaurante. Só então percebo que ele ainda não havia retornado.
Encontro Charles sentado à mesa, devorando alguns pães. Ele me vê e faz uma mesura, indicando-me à cadeira à frente.
“Está radiante nesta manhã, bela Anabelle. Presumo que a noite, mais uma vez, foi ótima.”
“Como de praxe. Fiquei preocupada. E a sua noite, como foi?”
“Walker está morto. Ele chegou a me reconhecer, mas não teve chance de revidar.”
“Mais alguém?”
“Aqueles bêbados estúpidos não oferecem perigo. O doutor também não. Não mais.”
“Você disse que o veneno ia matar ele instantaneamente.”
“Deveria. Mas provavelmente o organismo daquele maldito escritor beberrão estava tão acostumado a substâncias degradantes que uma dose não foi o suficiente. Prepare as malas. Partiremos hoje ao meio-dia. Não podemos correr o risco de sermos descobertos.”
“Deus seja louvado. Assim, pelo menos você pode parar de usar esse nome ridículo, monsieur Dupin.”
“Eu não resisti. Vamos, tome o seu chá antes que esfrie, senhora Reynolds.”