Aberta a votação para os textos com o tema lendas japonesas. Leiam e critiquem, mas não se esqueçam de também votar no seu preferido. Promoção válida só até 30.01.2012.
A História, com agá maiúsculo, é um tanto quanto confusa, principalmente quando queremos destrinchar, esmigalhar, entremear ou conhecer algo a fundo. Tomemos um caminho qualquer, de uma época qualquer, de uma
civilização qualquer. Quem manda? Quem obedece? Por que é assim? Quem definiu? Ou melhor, quem impôs? Desde quando? De onde vem essa ideia (sem acento) ? Inevitavelmente, há sempre uma resposta para estas e outras perguntas.
Parte dos considerados nerds de hoje, pertencentes à dita “Geração Y”, vem desencobrindo, de forma mais extenuante, a origem da acepção da palavra Orientação. Aquilo que vem do oriente. Queria dizer “o nosso ‘norte’”, mas não ficaria bem, mas sim, “o nosso oriente”. Quando estamos perdidos, pedimos “orientação”, pois de lá vem uma indicação do caminho a ser seguido.
Não esquecendo a taxonomia social humana, não podemos imputar à supracitada geração, o exclusivo retorno da acepção, que vem de outras gerações, mas agora está num ponto que talvez seja o ápice da influência
quasi-intelectual. Explico com o desenrolar: mangá e animê. Não sei se felizmente, ou infelizmente, sou da geração Zé Carioca, Tio Patinhas, Super Homem e Popeye. Tento, mas não consigo entender o que de tão atraente, para os ocidentais de hoje, tem de tão maravilhoso em gibis que se leem de trás pra frente, e em desenhos (ou seriam sagas?) aparentemente sem fim. Esses desenhos tem duelos intermináveis. Os personagens se encontram na época do carnaval e, lá pela páscoa, eles começam a se esbofetear. No natal a luta
termina. E quem perde um diálogo que seja, afinal, há muitos diálogos, quase todos infinitos, não consegue viver o mundo real novamente. É necessário destrinchar a história.
Voltando às perguntas feitas e não respondidas (não espere que muitas sejam respondidas, pois não serão), alguém deve ser o culpado pela característica principal que funde os desenhos “americanos” e os “japoneses”. Maldito Tezuka. Mas percebamos a visão, inteligência, sacada ou seja lá o que for: como criar personagens que façam sucesso? Copiando as características daqueles que já fazem sucesso. Quem fazia sucesso à época? Os personagens de Disney e Fleishcer: Donald, Mickey, Boop, Popeye. O que eles tem em
comum? Daí até a regra 34 foi apenas um passo.
A hegemonia do passado não é a mesma de hoje. Ontem era o presencial, a quantidade, a imposição. Hoje é a ausência, a qualidade, a escolha. Pouco sabemos sobre o antigo Japão, como cultura geral. Mas conhecemos seus carros, seus computadores e seu entretenimento. Ninguém nos obriga a compra-los, mas nossa opção por qualidade e custo x benefício faz optar por eles. Hoje não associa-se mais a cultura japonesa a um samurai, mas sim a um mangá. É a cultura sendo o guia, pelo menos nesse momento, de quem são os expoentes a serem seguidos. E na cultura, as duas maiores lendas japonesas são ocidentais. Um polonês e um americano. Foi espalhada por um japonês, mostrando que o que vai, um dia volta.
Desde o primórdio dos tempos, quando o mundo tornou-se mundo e o homem tornou-se homem, existem pessoas que, diferente de nós, possuem além de um espírito, um corpo imortal. Mantem-se sempre jovens, não podem ser feridos e não adoecem. O poder do tempo não tem efeito sobre sua carcaça humana e seu vigor nunca acaba. Ninguém sabe como ou porque esses humanos surgiram. Suas capacidades são muitas vezes desconhecidas por eles mesmos durante muitos anos até que possam perceber que não envelhecem mais do que a seus 20 ou 30 anos ou que sejam atingidos por uma ferida que para nós, seria mortal, porém em seus corpos cicatriza rápida e facilmente. Dentre esses imortais existiu um que foi mais feroz, ágil e imponente do que qualquer outro, seu poder era imcomparável e suas habilidades com a espada eram insuperáveis. Seu nome era Abel.
Com o tempo ele começou a amaldiçoar sua condição e seu maior desejo, muito além de porder, riquezas ou mesmo amor, passou a ser, a morte. Desesperado, vagou por todo o Japão em busca de conhecimento. Conversou com monges e mestres em todos os templos e finalmente, quando não tinha mais alternativas, barganhou sua vida com poderosos demônios. Muitos homens fariam de tudo para obter o seu poder. Você é um deus entre os homens, poderia conquistar todos os reinos que quisesse, por que deseja a morte? Todos aqueles que um dia eu amei estão mortos, tudo o que possuo um dia se tornará pó entre meus dedos, não há propósito em minhas habilidades; minha condição é muito mais do que um dom, uma maldição. Por que deveria eu, não desejar a morte? Mas os demônios escarneceram dele, sua malícia e crueldade eram tamanhas que, áquem de tudo o que um homem como Abel poderia lhes proporcionar, preferiam ver seu sofrimento.
Sem poder contar com a misericórdia dos deuses e nem mesmo com a ambição dos demônios, mais uma vez ele amaldiçoou sua imortalidade. Tomado por revolta e ira deixou o ódio dominar seu coração. Um Deus entre os homens, eles disseram, QUE ASSIM SEJA.
Em pouco tempo o império foi tomado e uma nova era de terror instaurou-se no Japão. Muitos lutaram ao seu lado. Buscavam ascenção política e riquezas materias, mas muitos mais, além disso, temiam a lâmina de sua espada. Abel, que um dia fôra um virtuosos guerreiro, tornara-se um tirano cruel e impiedoso. Jamais alguém ousaria me desafiar, pensava, meu corpo é imortal, não podem me ferir. Por toda a costa seu nome era temido e venerado. Àqueles que ousam desobedecer a Minha Lei tem uma prova da minha clemência. Todos que fossem acusados de conspirações contra o reino eram sumariamente decapitados, Ele mesmo cortava suas cabeças e ordenava a seus soldados que os corpos dos mortos fossem expostos na praça das vilas onde habitavam, para que o reino todo saiba qual destino aguarda os traidores.
No entanto, Abel possuía uma fraqueza, quando ainda jovem, não tendo mais do que 400 anos, viajou por todo o mundo em busca de outro imortal, e tendo fracassado em sua procura, acreditava ser o único.
- Você deveria voltar comigo.
- Alguém tem que fazer isso, se você não fará, irei eu.
- Não é tão simples assim, nós ainda não estamos prontos, não podemos derrotá-lo.
- Nós somos muito mais poderosos do que ele agora, e temos uma vantagem, Abel não sabe que somos como ele, talvez até seja fácil.
- Você não pode fazer isso sozinho. É perigoso demais…
- Mas você pode! Se lutarmos juntos ele não vai vencer. A guarda será fácil de derrotar, são soldados comuns, não temos que nos preocupar. Por favor megumi, por favor!
- Eu… Eu não posso, Não consigo!
- Você ainda o ama, não é?!
- …
- Não temos outra escolha, é assim que tem que ser.
Adrian correu para invadir o castelo enquanto Megumi estava lá, parada, incapaz de se mover. O homem que um dia amou era agora um monstro e talvez ela fosse a única capaz de derrotá-lo. Fazia frio naquela noite e a chuva fina deixou suas roupas enxarcadas, muito tempo se passou até que ela fosse capaz de sair dalí. Quando finalmente chegou ao castelo, encontrou Adrian caído com um grave ferimento no estomago e Abel de costas, triunfante, olhava a chuva através do grante vitro atrás do trono, infelizmente ela estava certa, eles ainda não estavam prontos, não eram fortes o suficiente.
Abel.
Megumi! – Assim, com as roupas e o cabelo incrivelmente liso completamente encharcados, criando uma grande poça d’água no chão, foi como Abel a virá pela primeira vez, a mais de 170 anos. Megumi estava na época com apensa 15 anos – COMO?!
Você não é único, Talvez haja mesmo um propósito.
Abel soltou a espada, correu para abraça-la. Por que? Por que você não me procurou quando descobriu? Nós podemos ficar juntos, eu posso, eu posso finalmente ficar junto… Mas essas foram suas últimas palavras. Soluçando sua tristeza e com lágrimas escorrendo pela face Megumi cravou uma adaga no abdomem de Abel, Somente um imortal é capaz de matar um imortal.
-Não tenho outra escolha, é assim que tem que ser.
Assim aconteceu a morte de um amor imortal, uma perda que será sentida por toda a eternidade. Dizem que os imortais ainda vivem entre nós, disfarçados de pessoas comuns e dizem que Megumi também está entre eles, caçando um a um, garantindo que nunca surja entre eles outro como Abel.
A última vela foi apagada e todos saíram do templo.
Era costume na pequena vila de Oh’ngo, no baixo Vale Vermelho, expulsar as mulheres que não produzissem filhos. Afinal, toda árvore que não dá frutos após florescer deve ser cortada. Diziam as anciãs que a praga poderia espalhar-se à outras quando não tratada com rapidez e severidade. Foi o que aconteceu com a pequena Liam depois de dois anos casada. O marido a expulsou de casa aos olhos atentos de toda a vizinhança. As mulheres que já eram mães, cuspiam no caminho por onde ela passava e a amaldiçoavam. As crianças atiravam ovos, frutas podres e pequenos gravetos. Seria o último dia de felicidade na vida de Liam, mas diferente das outras expulsas antes, ela não tinha para onde fugir. Não possuía a coragem para sair pelo mundo e enfrentar estranhos, por isso resolveu que seria mais fácil enfrentar aqueles a quem já conhecia. Alojou-se em um pagode abandonado fora dos limites da vila e passou a trabalhar dia e noite.
Com o tempo, Liam conseguiu uma pequena horta que plantava nos fundos. Dos ovos que buscava no mato, construiu um galinheiro. Do rio, colheu os seus peixes. Moradora vizinha da única estrada que levava à Oh’ngo, sempre era vista trabalhando pelos viandantes. Alguns destes, mais observadores, proporam a Liam que cuidasse de seus filhos enquanto estavam trabalhando ou em viagem. Liam aceitou a tarefa como uma dádiva divina. Se não lhe fora permitido ter filhos nascidos de seu próprio ventre, tinha a oportunidade de ter filhos por intermédio das outras mulheres. Trabalhadora, zelosa e paciente, Liam ensinava com carinho extremo os pequenos deixados aos seus cuidados. A maioria voltava para casa melhor e mais obediente. Logo, os filhos passaram a ser deixados aos cuidados da Casa de Liam mesmo em ocasiões menos importantes, como dias de festividades locais ou caso os pais desejassem alguns dias de sossego. Liam cobrava barato: apenas o que a criança consumisse e uma pequena moeda. As próprias crianças gostavam de ficar com Liam e quando os pais as deixavam com vizinhos ou parentes, viria a se arrepender depois arcando com os prejuízos causados pelos pequenos.
Um dia, Liam surgiu cuidando de um menino que ninguém sabia quem era. Ele a seguia por todos os lugares e a ajudava a cuidar das outras crianças. Quando perguntavam a ela quem era o garoto, ela simplesmente abria uma pequena caixa e mostrava o seu conteúdo: uma safira alaranjada como o por do sol, muito rara e valiosa, cujo nome era Padparadscha. Era o pagamento dado pelo pai do garoto, o grande guerreiro Musashi, para que Liam cuidasse de seu filho enquanto o pai perambulava pelo mundo. O nome do guerreiro era conhecido no pequeno vilarejo e a reputação de Liam aumentou por ser tutora do rebento do afamado espadachim. Muitos passaram a deixar os filhos com mais frequência na Casa de Liam na esperança de encontrarem com Musashi pessoalmente ou de verem seus filhos criando laços de amizade com o filho dele. Mas nunca ninguém chegou a ver Musashi além de Liam e do garoto.
Com o passar dos anos, as estações revezaram a sua ciranda ao redor de Liam, fazendo com que, por fim, ela atingisse o inverno. A geração em que ela nascera já fora colhida há tempos. Era tempo de novas famílias, novas crianças, novas perspectivas e ideais. A Casa da Mãe Liam, como ficou conhecida em todo o vale, contava agora com vários empregados para educar as crianças e cuidar dos órfãos, instruindo-os no nobre caminho dos oito passos. O filho de Musashi cresceu e tornou-se líder da vila, que igualmente aumentara e virara uma cidade de porte considerável. Liam jamais voltou a pisar na vila desde que de lá saíra, até a noite em que vieram correndo contando-lhe que estavam a expulsar uma mulher estéril. Enquanto a mulher era humilhada pelo marido e demais membros da população até chegar ao portão da cidade, Liam apareceu amparada por dois ajudantes. A mulher, aos prantos, jogou-se aos pés de Liam, pedindo-lhe para que intercedesse por ela. Lentamente, Liam ajudou-a a se levantar e cuspiu-lhe na face. Após este gesto, totalmente contrário à conhecida bondade da idosa mãe de todos, Liam declarou-lhe:
- Décadas atrás eu estava em seu lugar, filha. Por isso me escute pela última vez: a maioria dos que estão te maltratando passaram pelos meus cuidados. Eu poderia, com uma única palavra, abolir este costume vil que perdura por séculos em nossa vila. Mas não o farei. As adversidades são as melhores provas para que você transforme a sua vida. O seu caráter precisa ser temperado no fogo das dificuldades e a sua pele curtida na tempestade dos obstáculos. Se eu não tivesse sido expulsa, hoje não seria quem sou; estaria morta e esquecida como os outros da minha geração. Eu não teria acumulado riquezas como fiz e deixado como legado a Casa que leva o meu nome hoje educando e abrigando as crianças da região. E não teria recebido o grande guerreiro Musashi em minha cama e não seria honrada por conceber-lhe o seu descendente. Portanto, filha, eu vim somente para lhe dar o meu adeus e desejar-lhe que nunca mais volte a pisar nesta vila!
Mais uma vez eu escolho o tema? 2012 tá sendo um ano bom
Então já que já falamos um pouco sobre coisas bem atuais, como esse ano, vamos falar um pouco sobre aqueles coisas que são passadas de geração em geração, desde os tempos mais antigos até os dias de hoje.
O tema desta rodada é:
“Lendas japonesas”
Enviem seus textos (todos podem participar) para participe@duelodeescritores.com até o dia 26 de janeiro.
Aberta a votação para o tema minha vida mudou em 2012. Todos tem até o dia 15.01.2012 para lerem os textos e escolher o seu preferido.
No primeiro mês, a câmera mostrava uma panorâmica da ampla sala de estar, de aspecto antigo, paredes de madeira, mas visivelmente decoradas pela Empresa … Decorações para aparecerem em rede nacional, e doze pessoas sentadas em um sofá em forma de U ao redor de uma televisão de muitas polegadas, ainda não lançada no mercado, da marca japonesa … entre outras tantas ferramentas tecnológicas ou tão necessárias para uma vida moderna e confortável. Os doze vestiam roupas da Grife … e as mulheres exibindo jóias da boutique de mesmo nome. Na tela, o apresentador explicava as regras aos milhões de telespectadores. “…este será o desafio dos participantes do mais revolucionário programa da televisão brasileira, inovando em 2012: A Casa Assombrada. E não é qualquer casinha que escolhemos para testar a coragem dos nossos guerreiros, ela é considerada uma casa maldita pelos vizinhos, na cidade de Rialma, estado de Goiás. Localizada às margens do Rio das Almas, os moradores mais antigos contam a história que a casa de três andares antigamente era um bordel famoso. As garotas da Dona Clô tiravam muito dinheiro dos viajantes que por ali pernoitavam após a venda do gado. Só que o bordel era barra pesada, e muitos assassinatos – de clientes, meretrizes, policiais e jagunços – aconteciam, fazendo com que a casa conquistasse a fama de mal assombrada após a sua desativação na década de 1950. Dizem que os fantasmas dos que morreram ali continuam na casa, inclusive o da proprietária, Dona Clô, que desapareceu uma noite e nunca mais foi vista. A casa foi especialmente preparada para acompanharmos – especialmente os assinantes do nosso canal Pague-para-ver – os participantes vinte e quatro horas por dia, sete dias da semana, dando aquela espiada em qualquer cômodo, em qualquer horário, até mesmo no escuro, com as nossas câmeras de visão noturna. E só existem dois modos de se sair da casa: ou o participante pressiona o botão do pânico, localizado na porta da frente e desistindo da competição por covardia ou então quando os nossos sensores detectarem que somente uma pessoa restou na casa e tocarem a música da vitória, anunciando ao último felizardo que ganhou 10 milhões de reais. E você que está aí em casa: quem vai ganhar esta disputa? Façam as suas apostas agora mesmo pelo 0800… mas lembrem-se: quanto menores as chances do seu concorrente favorito vencer, maiores serão as chances de você ganhar!”. Neste instante ouviu-se uma risada feminina histérica vindo da cozinha. Todos correram para lá, e a tela muda para mostrar o local, mas encontram o cômodo vazio.
No terceiro mês, todas as revistas e jornais – sensacionalistas ou não – comentavam a tragédia do programa. Nem uma única desistência até então. Fora as noites de insônia por causa de barulhos estranhos e inexplicáveis e a sensação de mal estar generalizada atribuída ao confinamento, os jogadores pareciam estar em uma colônia de férias, se divertindo jogando vídeo games ou fazendo musculação na academia montada no porão. Mas a mídia foi unânime ao mencionar aos altos índices de audiência da emissora na madrugada devido a quantidade de cenas sexuais protagonizadas por dois, ou mais, participantes. Algumas bizarras ou sadomazoquistas. Um destaque especial chamava a atenção para a participante Carol, que mesmo mostrando-se inicialmente tímida, em apenas um mês já havia transado com todos os homens da casa. E com algumas mulheres. O programa ganhou o apelido de A Casa Sodomizada.
No quinto mês, o comentário nas ruas era sobre o conteúdo do baú encontrado em uma parede falsa da casa. Fotos mostravam a Dona Clô em rituais sexuais de magia negra. O diário dela foi lido e relido várias vezes, primeiro por curiosidade dos jogadores, depois por orientação da produção, e narrava com descrições detalhadas o que acontecia naquela casa no passado. Muitos telespectadores discutiam sobre sacrifícios humanos e outras perversões. Os participantes, para se livrarem um pouco da monotonia – e talvez por orientação da emissora pressionada pelos patrocinadores – resolveram simular um dos rituais descritos no diário, no sótão, sentados em um pentagrama desenhado no chão. As cenas tiveram de ser editadas para irem ao horário nobre, mas vazaram integralmente na internet. A brincadeira terminou em uma orgia sem precedentes. Todos transaram com todos. Alguns patrocinadores retiraram o seu apoio. A audiência aumentou. Outros patrocinadores se interessaram. Carol assumiu o apelido de Dona Clô e tornou-se uma espécie de líder do grupo.
No sétimo mês, os jornais televisivos – em especial os concorrentes – deram destaque à investigação conduzida pela Polícia Federal para apurar o que de fato acontecera com os participantes do programa. Alguns comentavam ser apenas uma estratégia da emissora para ganhar audiência em cima de um programa que não dera certo. Porém, parentes e amigos dos participantes desaparecidos exigiam indignados uma solução para o caso. Deputados e políticos pressionavam por respostas. O delegado-chefe das investigações repetia em incontáveis entrevistas que os técnicos e perícia estavam analisando as filmagens que inexplicavelmente pareciam defeituosas na hora em que os sensores acusaram em rede nacional que restara somente uma pessoa na casa. Não foi filmado ninguém saindo pela porta da frente, apenas os participantes de madrugada se dirigindo para outros cômodos, embora não aparecessem nas câmeras dos locais para onde se dirigiram. A última a desaparecer foi Carol, que antes mandou um beijo para a câmera de visão noturna e deu uma gargalhada. E, mesmo dias após o ocorrido, o sensor continuava acusando erroneamente que uma pessoa ainda permanecia na casa.
Lembro perfeitamente do momento em que minha vida mudou. Acho que a vida de todo mundo mudou em 2012, foi um ano que definitivamente mudou vidas, se me permitem o humor negro. Mas eu lembro do ponto exato. O instante em que deixei de ser quem eu era.
Não me lembro de que horas eram, ou qual era o dia do mês. Mas uma série de coisas me vêm à memória para refazer em minha mente o período exato em que minha vida mudou. Lembro de um brinquedo infantil, um pianinho, sendo tocado na mesa ao lado. Era um presente recém-ganhado pela menina loira de cabelos encaracolados que estava com os pais na mesa daquela cafeteria em frente ao ponto de ônibus.
Lembro de uma vontade louca de fumar. Eu havia largado o cigarro na época, e nada pior para um ex-fumante do que esperar por algo. O cigarro é o companheiro perfeito para as esperas. E ali, ex-fumante, eu sentia o gosto dele em meus lábios, mesmo que estivessem vazios.
Lembro também do ponto de ônibus vazio. Ou melhor, quase vazio. Nele havia uma garota. Apenas uma garota e seu cigarro. A pele era branca, de uma brancura inacreditável. As roupas, pelo contrário, eram completamente negras. Trazia uma série de piercings nos lábios, nariz e orelhas, um pentagrama no ombro e mais uma série de tatuagens pelo corpo. Os cabelos, negros e lisos, chegavam quase na cintura. A calça de couro tinha como acessório um cinto largo com pinos de metal. Os fones de ouvido brancos contrastavam com as roupas e a mantinham isolada em seu próprio mundo musical.
Na mesa, meu café esfriava. Algumas moscas já pousavam por perto na esperança de que eu não terminasse o que quer que estava comendo. Nos alto-falantes espalhados entre as mesas, um cantor brega anunciava: “and I’m still alive”. Nunca imaginei que a trilha sonora que marcaria o momento mais importante da minha vida fosse um rock fora de moda.
E isso tudo poderia ser muito normal, o que faria com que esta história fosse apenas mais uma história comum sobre amor platônico. O diferencial acontece agora, com a chegada do ônibus.
Estava lá a garota, fumando um cigarro que deixava meus olhos vidrados naqueles lábios pálidos, quando a porta do ônibus se abre. Eu lembro muito bem que não olhei para o ônibus, não vi o que ou quem estava lá dentro, e não entendi o motivo que levou a garota a se paralisar de medo daquela forma. O cigarro caiu dos lábios que fizeram menção de gritar, mas voz não se ouviu.
Apenas um passo para trás. Esta foi a única reação da garota ao ser atacada por um grupo de cerca de 15 pessoas que corriam cambaleantes para fora do ônibus. O grupo avançou de forma animalesca sobre a jovem, que foi ao chão rodeada por aquelas pessoas.
Tudo que eu fiz foi franzir o cenho, sem conseguir entender o que havia acabado de enxergar. Apenas quando a família ao meu lado correu apavorada é que o choro da menina me tirou de meu torpor.
Aquelas pessoas estavam literalmente comendo a garota. Eu não estou falando de estupro nem nada em conotação sexual. Eles estava comendo MESMO a garota. Com dentes arrancando a pele do corpo dela e o sangue se espalhando pelo chão.
É claro que assim que percebi o que acontecia (e que não seria possível salvar a garota do ponto de ônibus), corri para longe daquele caos. Mas depois eu voltei. E voltei preparado.
Já se passaram três anos desde aquele fatídico dia. Eu voltei a fumar, parei de beber e construí um corpo que pode aguentar as piores adversidades. Aprendi a atirar e jurei a mim mesmo extirpar aqueles monstros da face da terra.
São três anos andando de cidade em cidade. Matando monstros, pilhando supermercados que ainda não tenham sido completamente pilhados e procurando em vão por sobreviventes.
E tudo que eu preciso é encontrar quem estava dirigindo aquele ônibus.
Ano novo, vida nova. Esse foi o primeiro pensamento que passou pela cabeça de Alfredo ao acordar domingo. Primeiro de dezembro de 2012. Que grande besteira, nada mudou e nada vai mudar. É só a passagem de um dia pro outro, como em qualquer outra data do ano. Ao menos é domingo. Café da manha, lavar o rosto, escovar os dentes, o ritual de sempre. Alfredo morava sozinho. 27 anos. Funcionário público. Uma vida simples e de poucas preocupações. Atento a saúde e crente em todas as coisas que dizem na tv preparou-se para sua caminhada dominical no parque central da cidade. Mal sabia ele que sua vida de fato mudaria e muito graças a virada do ano, devido a um acaso do destino que nada tinha a ver com ele e do qual ele jamais ficaria sabendo.
Despreocupadamente caminhando pelo parque em um ritimo acelerado, ouvindo seu mp3 ele foi baleado. Infelizmente fora vítima de um assassinato nao premeditado. Um assassino de aluguel qualquer, que nada tinha a ver com sua vida havia ganho na mega da virada. Matou-o só por diversão.
*texto enviado por José Gabriel Sausen
- Eita… finalmente acabou… já tava esgotado!
- Ah para que você cansou tanto assim?
- Cara, você não imagina a loucura que tá lá fora…
- Mas o que pode ter de tão ruim assim? É sempre a mesma coisa… pelo menos foi o que eu sempre ouvi…
- Pois é, pois é… também pensava isso, mas vi que não é bem assim…
- Ihh… não vem querendo me assustar que já tá quase na hora de eu entrar.
- Então te prepara amigão… hehehe
- Mas e me diz uma coisa: tá muito quente?
- Depende do lugar né…
- Hum… por via das dúvidas vou levando roupa pra todas as estações.
- Ótima ideia!
- Mas vem cá hein… você não saiu meio cedo demais, não?!?
- Ah cara… ninguém tava me dando bola mais não… só falam em você… resolvi me mandar logo de vez… por falar nisso… tão te chamando oh.
- É… tenho ouvido muito isso faz uns dias já. É pedido de dinheiro pra cá, de amor pra lá… já to de saco cheio… eles acham que eu vou resolver tudo!?! Fazer um esforço pelas mudanças nem pensar né… eu que tenho que resolver…
- Ah, mas nem esquenta. É só no começo que é assim… depois eles te deixam quieto e o tempo “voa”. No final, é só aguentar umas reclamações quando percebem que tu já tá quase indo embora e eles já começam a falar no próximo. Bom, pelo menos foi assim comigo… hehehe
- Tá bom, tá bom.
(Segundos de silêncio)
“10, 9, 8, 7, 6, 5…
- oh, tá na tua hora, doze. Boa sorte!
- Valeu onzee… bom descanso aí pra você!
*texto enviado pelo duelista convidado Mr. Gomelli (www.mrgomelli.blogspot.com)