16 mai
2012

Novo tema no firmamento

Vapt-vupt a ganhadora da rodada anterior já enviou o tema aos lunáticos de plantão:

LUA

Aos que desejam participar, já sabem, enviem os seus textos até a noite de 26.05.2012 no e-mail participe@duelodeescritores.com.

11 mai
2012

Votação

Aberta a votação para o tema hibernar. Todos tem até o dia 15.05.2012 para lerem os textos e escolher o seu preferido.

11 mai
2012

Na corrente do tempo

Debruçado sobre ele com instrumentos, o senhor de idade avançada enxugava o suor da testa e tentava reanimá-lo. Abriu-o com cuidado, ouvia-se o ranger do instrumento roçando a superfície envelhecida.
Andara tanto tempo no compasso, mas há 7 anos não conseguia mais marcar. Pareceu-me que hibernara… não! Na verdade, pareceu-me que quis hibernar.

 

Na morte de meu avô, seu antigo dono, começou a descompassar e hibernou. Hibernar é esconder-se dentro de si para suportar as dores. Ele suportou.

 

O senhor de óculos quadrado e avançado no nariz, fez uma pausa, encaixou uma peça e olhou para aquele suíço em sua mesa com apreensão – tic-tac, tic-tac, tic-tac, … – sorriu aliviado dando-me um tapa nas costas sem medir a força, gabando-se do feito.

 

Fiquei parado. Ensaiei um sorriso amarelo ao mesmo tempo em que o paguei pelo serviço prestado. Prendi o relógio pela corrente de ouro no meu paletó e o guardei no bolso de dentro.
Três passos. Somente três passos vacilantes foi o que consegui dar até que o tic-tac do relógio me despertasse. Nem ele e nem eu estávamos preparados para acordar.
Em nossas mentes como águas malévolas vieram as tardes de domingo com meu avó, os cafés intermináveis e os passeios sob o leve formigamento que o sol causava em nossa pele. Ah, sem falar nas compulsivas olhadelas no relógio e aquele clack!, que eu tanto gostava de ouvir quando o vovô fechava o relógio num solavanco e o guardava no bolso… Meu peito ardeu junto às engrenagens do relógio que giravam forçadas.

 

Tic-tac, ele marcava sem vontade. O peito do seu dono, Artur, não batia mais.
Puxei-o do bolso pela corrente. Abri a tampa e olhei-o mais uma vez:  tic-tac…, clack!

 

Voltei ao senhor de cabelos brancos que o consertara: Por favor, faça-o hibernar, nosso inverno ainda não acabou.

11 mai
2012

Despertar

Nas entranhas da cordilheira, uma montanha diferente se ergueu.

Conjunções sutis de elementos inefáveis despertaram a percepção do real, transmitidas por cordões de nada que transitavam entre vintenas de dimensões. A consciência abissal, imersa em estase eônico, reascendeu à superfície e travou contato com a trama subjacente do espaço circundante. O reflexo estava lá, esparramando-se em gelo gotejante, mas já não tinha validade como representação da verdade. A extraordinária massa rochosa, a sucessão de presas rasgando o céu, o titânico continente sobre o qual repousavam, tudo se tornou ridículo e miserável quando o transe se quebrou.

Com a lerdeza de fentossegundos preguiçosos, tentáculos amorfos estenderam-se em um espreguiçar de energia renascente, infiltrando-se pelas ondulações insanas de elétrons orbitantes, arranhando delicadamente as amarras inflexíveis de núcleos atômicos. Apêndices neonatos, ainda titubeantes, interagiam e relembravam. Preenchiam e interferiam. Absorviam e se fortaleciam. Um planeta aziago e seus camaradas condenados caíam no abraço que atravessava vazios que não deveriam ser ocupados. Sedentos, mais rápidos que as memórias, agarravam o passado que fugia, tateando o tecido da realidade em busca de lembranças remotas, visões ancestrais do universo pueril.

Aprendizado. Reconhecimento. Familiaridade. Ação.

Toques delicados lançaram perturbações alienígenas na superfície imutavelmente caótica da progenitora celestial. A carícia tornou-se estrangulante e, em uma súbita contração, a estrela foi puxada e rasgada, partículas dilaceradas galopando tão próximas dos fótons quanto sua carcaça permitia. Os insignificantes despojos de sua prole foram tragados conjuntamente no vórtice que se formou, unidos pela primeira vez desde seu nascimento no interior disperso de uma nuvem rodopiante. Apertavam-se e aqueciam-se, o indelével estilhaçando-se em cacos sem identidade. Matéria ondulava e energia se partia, um brilho de morte a ofuscar miríades de nascimentos. Tudo ao redor dançava ao bel-prazer da vontade, que ceifava aquela juventude promissora para mandar um recado ao universo.

O abraço sufocante durou apenas o instantâneo necessário. Com um espasmo orgástico, explodiu em cegueira de sons e pandemônio de cores. O faiscante cerúleo de enganosa paz expandiu-se em ondas de píceo e açafrão, que no limite de sua corrida desatada se dissolveram em testáceos e carmesins, devorando o que tivesse o infortúnio de cruzar com o inexorável vagalhão. A galáxia cintilou e estrelas tremeluziram, cegadas. Mentes temeram e sentidos se retraíram com respostas automatizadas de pavor, fuga e refúgio. Deuses enlouqueceram, demônios choraram, acovardados ante o despertar de um poder que desconheciam. Pois haviam esquecido, mas não foram esquecidos.

O sinal fora lançado e percorreria o vácuo até os limites da totalidade. Na sepultura do antigo sistema, um ato mais dramático se desenrolava ocultamente. O próprio espaço-tempo foi agarrado e retorcido, anos-luz e anos obscuros arrastados para um emaranhado onde o passado era tão próximo quanto o distante e futuro e acima fundiam-se no agora. Lentamente, as delicadas cordas que sustentavam as marionetes do cosmo seriam puxadas para a boca voraz, insaciável em anseios de caos e retribuição, cegas ao seu próprio destino até o horizonte terminal. Um despertar aflorava em incontáveis ocasos de fugitivos impotentes, destinados a um sono tecido na própria substância da qual são feitos os pesadelos.

 

 

 

 

Qualquer semelhança com http://duelodeescritores.com/visao-ancestral/ não é mera coincidência.

11 mai
2012

Acordei

 

 

Quando abri os olhos, percebi que estava sozinho. O silêncio era total e absoluto, e a escuridão tão completa quanto. Estranho, pois eu parecia ter dormido bastante, o suficiente para o dia já ter pelo menos amanhecido.

Estranhei não estar em meu quarto. Estava em uma cama dura, sem acolchoados. Ao tentar me levantar, senti meu corpo dormente, interrompendo meus movimentos.

Depois de alguns minutos tentando me mover, percebi que estava em um lugar apertado. A cabeça ainda estava zonza e não conseguia raciocinar, mas eu tinha certeza de que algo estava muito errado.

Quando ergui o braço, senti que tocava em algo. Uma parede se levantava no alcance de minhas mãos. Com algum tempo de tato, até a percepção se adequar, percebi que não só estava ao alcance de minhas mãos como estava muito mais perto. A distância era irrisória, uma parede de madeira se firmava quase encostada ao meu tronco, impedindo qualquer tentativa de movimentação.

O que era aquilo? O que impedia minha movimentação?

Levei as mãos a percorrer a parede à minha frente e aos meus lados, atrás de mim… eu esteva cercado. Estava encaixotado em uma prisão de madeira, impedindo qualquer tentativa de me libertar. Eu não tinha forças para gritar, muito menos para forçar a parede de madeira que estava ali.

A voz saiu baixa, rouca, e não pôde ser ouvida por quem quer que fosse. Eu estava sozinho lá. Não podia contar com ninguém.

Eu, que havia apenas tomado algumas pílulas para dormir. Agora estava num pesadelo do qual não podia acordar.

10 mai
2012

Ensaio sobre a Hibernação

O mundo é feito de terços. Um terço do planeta Terra, é feito de água. Deveríamos chamá-lo de planeta Água, mas como habitamos as terras, assim ficou. Um terço de nossos corpos, é feito de água. Mais um motivo para a mudança do nome do planeta. Um terço de nossas vidas, passamos dormindo. Neste terço e nos outros dois, um terço de nossas vidas, vivemos. Um terço de nossas vidas, trabalhamos, geramos, e cuidamos da família. Um terço de nossas vidas, morremos. Neste último terço de vida, causamos a discórdia dos países com baixas taxas de natalidade, preocupados com a forma de como irão nos sustentar quando lá estivermos, para aqueles que ainda não lá estão. A preocupação já anunciada fica mais patente quando no terço dedicado a morrer, nossos representantes públicos dedicam-se a enriquecer às custas dos ignóbeis e néscios, eclipsados estes pela falsa esperança de que o sufrágio universal seja o ápice da democracia moderna, por aqueles já não mais respeitada, tanto na posição que lhes cabe na sociedade quanto na autoridade moral que deveriam apreciar. O leitor sabe que não é de agora que estas situações existem, como tem sapiência que não ocorrem mais hoje do que antes, mas, olhando-se para quaisquer lugares, sabemos de tudo que acontece em todos os quatro cantos. Há tempos, não era assim.

Num dos terço de nossas vidas, passamos um terço deste terço labutando. E num destes terços, de terços, de terços, que de nada tem com o rosário católico apostólico romano, apenas a designação, é que o funcionário de respeitado ambiente de trabalho retorna para seu recanto de descanso. Após o terço que lhe coube produzir, digo, degustar, pois é do cozinheiro de famoso restaurante que me refiro, cabe-lhe, agora, o terço de repousar os sentidos. O corpo produz substâncias. O cérebro engana-se. Obriga-se à auto-gerência, coordenando a produção e o consumo, como oferta e procura, de moléculas necessárias a nossos genes otimizarem o consumo de energia para continuarem sendo passados à geração seguinte, preservando-se do e no meio. É estranho, e o leitor há de concordar comigo, um mesmo corpo produzir e consumir o que necessita. É como uma padaria que produz pão a partir de… pão! Não vende, nem compra. Apenas produz. Ah, mas não é bem assim, diria o leitor mais atento. Mas de tanto atento, sabe que não deve ater-se a esses pormenores, usados apenas para que, no futuro, uma teoria possa ser formulada para tentar explicar o  inexplicável, por mais plausível que sua teoria possa parecer.

Sabe-se lá porque, as mutações ocorrem e, graças a elas, temos a variedade de seres que ignoramos, por sermos inteligentes, frente a eles, e elas. Mesmo entre os gêneros, essas diferenças existem, uns com mais, outras com menas. Mesmo sabendo que menas não existe, mas elas não percebem isso. Fazem o que lhas cabe. Por isso, não descrevemos uma cozinheira, mas o cozinheiro, que a esta hora está em seu leito, possivelmente tendo o sonho dos não mais inocentes, contudo ainda esperançoso, por mais contraditório que isso possa parecer a um trabalhador. Na verdade, ele não sonha. Praticamente não respira. Quiçá pulsa. Sabendo o tema deste duelo quinzenal, o sábio leitor sabe que nosso personagem não está partindo desta para melhor, ou pior, como costumam afirmar dos muçulmanos, que encontrarão setenta e duas virgens no paraíso. Sim, pior. Eu trocaria as virgens por uma(s) safada(s), sem o esse se só o singular fosse possível, bastando que esta soubesse fazer bem o que espera-se que seja feito. Essa de “Assim não!”, “Aqui não!”, “De jeito nenhum!” que as inexperientes têm, chega a tornar desgostoso o que de melhor podemos fazer. Nesses assuntos é sempre melhor aprender que ensinar. Esse também foi um dos motivos que levou nosso cozinheiro, que neste exato momento hiberna, a optar pela vida conjugal capitalista, obtendo o produto que quer pelo que predispõe-se a pagar.

Não descrevi a cena do chegar em casa. Não por negligência, mas por opção. Não pensem que sou machista ou ache que as mulheres devam ser destratadas. Adoro quando elas mandam, e vocês sabem do que estou falando, porém a ira, o ódio e a raiva para com o autor podem ser usadas para atrair mais leitores. Falem mal, mas falem de mim. Essa explicação precede a não descrição dos atos fornicários que a consultora presta ao cozinheiro e procede após as opiniões falaciosas do autor, querendo chamar atenção. O importante é que a consultora, que presta serviços a vários patrões, e, em alguns casos, patroas, será a próxima a cair nas garras do tema escolhido pelo vencedor do duelo anterior. Culpo-o pelos personagens vitimados neste conto, assim como o meu futuro ato hibernatório, também já sabido pelo atento leitor que lê os comentários do blog. Obviamente, após acertada a conta com o cozinheiro, a consultora nova de idade, em que ainda vale a máxima “lavou, está limpo”, por conhecer muito bem de sua área de atuação e pela forma que presta os serviços, e que é muito requisitada, atua novamente no mercado que lhe cabe, sendo muito bem recompensada pela aprazível feitura.

Não! Nada de doença transmitida, nem de mutação genética. Ele era ateu, até conhecer a consultora. Ela, como não poderia deixar de ser, é evangélica. Ajoelha e reza como ninguém. Suas preces são quase sempre atendidas. As que ainda não foram atendidas, não serão mais, pois neste momento, já passadas algumas poucas horas da despedida com o cozinheiro, encontra-se na mesma situação que ele. Só, por azar, está não no leito domiciliar, mas num hotel de luxo no centro da cidade, a poucas quadras do restaurante que nosso primeiro personagem atua. Atuava, pois agora dorme. Digo, hiberna. Acompanhamento espiritual, encosto, praga, macumba – sim, tem gente que acha que macumba é um tipo de magia – nada disso tem relação com nossos dois personagens que hibernam. Pelo menos eu, como autor, analisando os fatos, dilacerados em minha mente durante a produção do texto, não consegui perceber relação alguma com os ocorridos. Perceba o leitor também que neste momento, outros personagens, em outros lugares também começam a hibernar. Certamente parece ser apenas um surto de sono coletivo puntual, mas em breve tornar-se-á (adoro mesóclise) não uma praga, pois ela não mata, mas um certo incômodo, pois famílias ainda acordadas preocupar-se-ão (hehe!) com os parentes que não dão sinais de vida.

A procura inicial, dá-se pela mãe da consultora. Ela liga para a filha, sem obter retorno. Por hibernar apenas durante o sono, pouquíssimos acidentes e/ou mortes anômalas acontecem por esta estranha letargia que toma conta da cidade. Em rodovias, os eventos entram nas estatísticas por motoristas adormecidos ao volante, já que a esta nossa vivência não pertencem mais. Em pouco tempo, pegar um ônibus, por exemplo, torna-se uma dificuldade. Não, o trânsito nunca esteve tão bom, e este não é o problema. O que falta são motoristas. Os ônibus das linhas mais requisitadas estão cheios. De hibernadores. No trajeto casa-trabalho, não acordaram mais. O consumo de energia das residências nunca foi tão baixo. Nas empresas, pouquíssimos funcionários trabalham. Até dormir. A coisa espalha-se tão rapidamente que não há tempo hábil para as autoridades competentes fazer algo.

Há muitas horas ou pouquíssimos dias que isto ocorre. Como sei disso tudo?

Oras, estou acordado ainda. Mas de tanto ver as pessoas ao meu redor hibernando, uso máscara, tento proteger-me com uma roupa mais grossa, até mesmo porque é inverno. Tomo pó de guaraná e outros estimulantes para tentar manter-me acordado. Até que num dado momen…

Fiquei em dúvida se descrevia os eventos durante minha hibernação ou não. Terminar com um simples “acordei”, (lembram?) talvez deixasse o texto menos pior. Mas não é uma característica minha. Peco pelo excesso, não pela falta. Mas me passa pela cabeça: “Ótimo, um ‘acordei’ faria o leitor pensar: ‘Quanto tempo terá passado?’, fazendo com que os pseudo-críticos pudessem achar ‘fantástico’. Mas, e a minha identidade? Não estou em crise, apenas quero mostrar para mim mesmo o que sou capaz de fazer. Mas não posso esquecer que estou hibernando, e o leitor há de querer saber o que há de acontecer.” Inevitavelmente, toda a população hiberna. Todos, sem exceção (ah, é assim que se escreve então!). Sabe-se lá se rápida ou lentamente, os serviços autônomos, que não são tão autônomos assim, deixam de funcionar. Por mais autônomo que sejam, sempre há alguém para, pelo menos, apertar um botão. Não, não há mais essa pessoa, que também hiberna. Como estão todos na mesma, o tempo deixa de ser um parâmetro nas equações e passa a ser uma incógnita no seio da mente humana que, quem sabe um dia, irá acordar. O tempo passa. Animais morrem. Outros nascem, crescem, reproduzem… E morrem. Algumas gerações do animal que o leitor mais gosta, partindo do ponto que o leitor gosta de algum animal, passam pela Terra. Os animais há tempos considerados silvestres já não merecem esse adjetivo. Obviamente não esqueci da fauna. Em todos os lugares surgem plantas. Já não há mais a mão do homem para destruí-las.

Incrivelmente, os animais predadores não atacam os hibernantes. Sua crença, leitor, é que salvou a humanidade das atrocidades animalescas. Seja ela num Deus, anjos, espíritos, influência genética do meio, esperança. Digo isso para aproximares-te mais do texto. Não negligencies teu poder de leitor. Afinal, a decisão do que será feito adiante depende de ti. Não fujas desta responsabilidade. E as doenças, posso acreditar nelas autor?, perguntaria o leitor nefasto. Podes, mas pense antes que, hibernando, não há contato físico. Pela respiração, respira-se muito menos amiúde do que dormindo. Deixemos este pensamento de lado e passemos ao fim da história.

Mas temos um penúltimo parágrafo. Um dos motivos que a evolução dos seres levou à criação do mecanismo da hibernação foi a seleção, na verdade a intenção pela propagação dos genes, à geração seguinte, *ad hoc*. Para preservarem-se, os genes criaram meios para seguir adiante frente às adversidades. Escassez de água, alimentos, sol, parceiros, excesso de frio ou calor. Somos cegos tateando partes diferentes de um elefante tentando descrever do que se trata, quando queremos desvendar o funcionamento da natureza. Os efeitos conhecemos. As causas, os detalhes, os motivos e os porquês, ficam à mercê da imaginação daqueles que dedicam a vida ao entendimento desta nobre ciência, que busca entender como foram resolvidos todos os problemas existentes já percebidos, e os que não foram ainda percebidos, de forma elegante, eficaz, eficiente e atrativa.

Acordam primeiro os que primeiro hibernaram, como tem que ser. O cozinheiro assusta-se com a poeira ao seu redor. Maior é seu espanto ao olhar pela janela. Nada é visível pelo que já fora transparente. A leve fome leva-o à agora desconhecida cozinha, pelo também agora estranho corredor. As comidas que tinham data de vencimento já haviam tornado-se vivas e mortas há muito. O cheiro não era o pior dos pesadelos, mas não era agradável, e só agora o cozinheiro dava-se conta disto. A situação piorou na abertura da geladeira. O ato reflexo de fechar a porta fez com que a situação não piorasse. Água na torneira da pia ainda há. Desconfia que não faz só poucas horas que retirou-se ao próprio leito. Não longe dali, num quarto de hotel de luxo, uma bela mulher torna à vida. Sem náuseas nem enxaquecas. Nada. Um pouco mais detalhista, percebe, pela situação do cômodo, não muito diferente do cômodo supracitado, que a situação parece estar um pouco diferente. Não sabe como nem porque. Àqueles que hibernaram nos dois, até três primeiros dias, é demorada a percepção do que pode ter ocorrido. Sabem-no pela leitura de antigos jornais. Aos poucos todos acordam. Os que iniciaram a jornada da hibernação tardiamente sabiam já de antemão o que poderia ocorrer. Contudo acordam, saindo do torpor. Todos.

9 mai
2012

Desencarne

Parecia que eu caía, mas não saía do lugar. Troço estranho quando a gente sabe que não consegue dormir, mas puxa o cobertor pra cima da cabeça do mesmo jeito. Quando eu era moleque, fazia isso porque tinha medo do espírito daquela mulher que, dizia no jornal, tinha se enforcado na ponte por pura tristeza. (Porra! Precisava escrever isso, seu repórter? Agora eu vou ficar pensando que ela vai vir se lamentar no meu ouvido quando eu menos esperar. Que merda.)

A questão é que eu tava ali sem estar de verdade. Saca? Como quando você enche a cara, seus amigos conversam alto ao seu redor mas, por algum motivo que você nunca sabe qual é, os olhos não conseguem encontrar foco. Lembra daquela música que o Humberto (grande Betão!) escreveu? “Casa vazia, luzes acesas”? Era assim que eu me sentia. A voz contida da minha mãe chamava de algum canto e depois cantava baixinho, mas eu não sabia de onde ela vinha. Senti cheiro de flores murchas lavadas pela chuva. Senti cheiro de barro e café amanhecido. Lembrei que eu sou de Leão, e que gente de signo de fogo tem uma percepção muito mais forte das coisas ao seu redor. Não era o meu caso.

Aí eu lembrei da Nana, aquela menina que eu namorei no ano passado, e de como ela curtia toda essa besteira de esoterismo e astrologia. Eu concordava com tudo e sorria amarelo, porque sabia que dar moral pra esse tipo de viagem garantiria uma bela trepada depois. E era o que sempre acontecia. (Nana, sua safadinha. Saudade de você.) Certa vez, li no dicionário que hibernar é “esperar por um período que vai passar”. Eu tava mais ou menos nessa vibe, sabe? Esperando alguém arrombar aquela porta invisível daquele lugar que eu não sabia onde ficava pra me dizer que porra era aquela que tava rolando. Um som de goteira desviou minha atenção de novo, e eu quis chorar de ódio depois de duas horas de repetição daquela coisa. Por favor, alguém me tire daqui. Mãe, canta mais alto. Cadê o meu pai? Quero ir embora; quero não ter batido meu carro; quero que meus pulmões, meu coração, meu cérebro e todo o resto que eu ferrei volte ao normal. Que saco.

Então põe aí, seu médium: eu tô hibernando e esperando alguma coisa passar. Só não sei bem o que é. (E pula a parte da Nana, por favor. Não quero minha mãe lendo esse tipo de putaria, não. Minha mãe é mulher direita. É uma santa.)

8 mai
2012

Jesus x 100

300 anos depois, acordei
e estava tudo a mesma merda!

1 mai
2012

Novo tema

Você foi dormir, num dia qualquer (ou não) e acordou após um longo período. Pode ser um curto período ou até milhares de anos, você é quem sabe. O que importa é que você HIBERNOU.

 

Mande seu texto com o tema HIBERNAR para participe@duelodeescritores.com até o dia 10 de maio para participar.

 

Leia o regulamento, prepare a criatividade e boa sorte!

27 abr
2012

Votação

Aberta a votação ao tema epitáfio(s). Escolha a composição que melhor lhe agradou e vote na danada. O resultado será computado dia 30.04.2012 e o vencedor escolhe o próximo tema. Então, ‘bora votar?

Duelos de Escritores

O Duelo de Escritores ocorre em rodadas de quinze dias. A cada rodada, os duelistas escrevem um texto relacionado a

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