Mesmo com um duelista a menos, já está aberta a votação para você escolher o melhor texto desta rodada.

Leia os textos e comente neste tópico de votação, dizendo qual você mais gostou.

O prazo de votação vai até o dia 10 de fevereiro (isso se o mundo não acabar antes).

Feb
7
Os primeiros

Manhã veranil, o calor atrai os mosquitos, que atacam a pele de Giacomo. O suor se acumula na nuca do jovem, que pesca sentado às margens da baía. O sol castiga sua pele morena, fazendo arder ombros e as costas das mãos. A temperatura ultrapassa o aceitável, e Giacomo enrola um pano ao redor do caniço de haste metálica. Leva a garrafa junto aos lábios, já duvidando de que tenha sido uma boa ideia sair para pescar num dia tão quente.

O pescador troca as iscas e lança novamente a linha ao mar. Poucos minutos se passam até que algo apareça na superfície a alguns metros de distância. Um peixe de porte mediano bóia de barriga para cima. Giacomo enxuga o suor da testa e solta um palavrão, ao perceber que nem mesmo os peixes estão aguentando o calor exagerado. Quando levanta-se para arrumar o material de pesca, se detém por um instante com os olhos fixos na água em movimento.

Giacomo solta a vara de pesca no chão e leva as mãos à cabeça. Ao seu redor, centenas de milhares de peixes surgem na superfície.

***

- Mamãe, mamãe!
- O que foi, Ariel?
- A lagoa mamãe, a lagoa.
- O que tem a lagoa, filha?
- Tá vermelha, mamãe!
- Vermelha? Tá bom, filha, tá bom. Vai se lavar que logo a mamãe vai ver isso.
- Mas mamãe…

A pequena Ariel nem mesmo teve tempo para conquistar novamente a atenção de sua mãe, que lavava os lençóis no pequeno galpão nos fundos da casa no subúrbio. Antes mesmo que ela pudesse terminar a frase, foi interrompida pelo grito de pavor que sua mãe soltou ao virar-se novamente para o tanque. Os lençóis brancos estavam submerso em sangue rubro e espesso, que já impregnava as mãos da dona de casa e corria com velocidade da torneira.

Nos segundos seguintes, os gritos ecoaram por cada uma das casa da vila.

***

“Doutora Roberta, favor comparecer à enfermaria. Doutora Roberta, favor comparecer à enfermaria”.  Os passos de Roberta ecoavam por causa do sapato fechado, de salto baixo, nos corredores do hospital. “Eu já devia estar em casa a essa hora”, repetia para si mesma, já vestida nas suas roupas do dia-a-dia. Um chamado no final da noite de sábado era o que ela menos precisava para encerrar o seu já prolongado turno de trabalho.

- Doutora, acho melhor você se preparar, temos três ambulâncias a caminho.
- Não há quem possa atender essas pessoas? Eu já me troquei, estou aqui há 14h.
- Doutora, você não entendeu. As ambulâncias estão cheias.
- Cheias, como…?

As portas do Hospital se abrem com o grito dos socorristas, que trazem os pacientes apoiados nos ombros, em macas, cadeiras de rodas, e até no colo. São mais de 40 pessoas com chagas terríveis espalhadas pelo rosto e braços. A maioria grita e arranha os olhos com força.

- Meu Deus, o que é isso?
- Chuva ácida, veio do nada. Temos mais cinco ambulâncias a caminho.

***

Wong Lii acorda como usual, desliga o despertador ainda sonolento e caminha em direção ao banheiro. Abre o chuveiro e escova os dentes enquanto o vapor enche o recinto. O suor escorre das paredes e espelho, e ele para por alguns segundos sem ação, embaixo da água quente. O dia de Wong Lii é tomado pela rotina. Exatamente à 6h50min seu relógio desperta, e ele logo está embaixo do chuveiro. São cerca de 20 minutos para banhar-se e preparar o café com ovos que toma todas as manhãs. Veste-se, separa o material das aulas e coloca dentro da pasta, junto com o notebook. Alonga-se todas as manhãs por pouco mais de dois minutos na sacada do prédio, recebendo no rosto a luz do sol que recém nasceu, beija o retrato da falecida esposa e vai para a faculdade.

Nesta manhã, porém, algo fugiu da rotina de Wong Lii. Parado em pé, na varanda, o professor da Universidade de Tóquio olha fixamente para o sol nascente. Ou melhor, para onde deveria estar o sol nascente. Atordoado, bate com o dedo indicador no vidro do relógio de pulso. O sol deveria estar ali há vários e vários minutos. Pelas ruas e janelas de Tóquio, olhares atônitos fitam a escuridão.

***

Nós destruímos o mundo, você sabe. Foram milhares de avisos, incansáveis pesquisas, alertas atrás de alertas. Mas simplesmente nada mudou. O aquecimento da Terra foi citado como piada por muitos, e mesmo os que acreditavam, não queriam largar o conforto de seus carros e indústrias. O mundo não poderia suportar a doença que o atingia diretamente no coração: os seres humanos. A raça humana é uma praga que atinge o sangue deste planeta de geração em geração. Por muitas vezes tentamos alertar o mundo, por muitas vezes fomos ignorados. Ele veio pessoalmente conversar com sua cria, e foi ignorado. Não houve nada que pudesse ser feito para que a raça humana parasse por ao menos um minuto para pensar no que estava fazendo. Por isso, Ele não teve muita escolha. E é por isso que estamos aqui.

- E os carros, e as pessoas? E as nossas roupas?
- Nada disso nos pertence mais, Eva. Agora somos só eu e você. Recomeçando o mundo da nossa maneira.

Feb
5
Eles

Usando o olho bom que lhe restava, o homem observou a pequena construção de concreto à sua frente. Tentou contar os metros que o separavam do galpão e, em silêncio, encostou a orelha na fresta, procurando o som do vento, do sol crepitando sobre as pedras, dos ratos abrindo caminho entre o fétido mar de lixo no pavimento, driblando os postes. Nada.

Arriscado demais.

Ficou ali por mais algumas horas, protegido dos raios de luz e do calor, esperando. Apenas esperando.

Anoiteceu.

Agora, ele mal conseguia enxergar a construção, mas sabia que ela estava lá. As paredes nuas formando um retângulo rente à rua, o esquelo armado de um dinossauro desenterrado. Resquícios. O quê estava lá? Tentou ouvir algo de novo, mas só escutou o barulho tímido e descompassado da sua respiração contra a madeira. Voltou-se para o quarto escuro e tateou o chão úmido em busca da barra de metal. Encontrou o pé-de-cabra improvisado a alguns metros à sua direita e, com a ponta achatada, pressionou as tábuas para o lado de dentro do quarto, até que os pregos fossem lançados para trás. Não era uma tarefa fácil. Há algum tempo – tempo, quanto tempo?-, alguém tinha se esforçado muito para manter aquela janela fechada, uma abertura para um mundo que não se reconhecia mais como tal.

Teve que parar um pouco para descansar os braços e pensou que devia estar mesmo desesperado para continuar com aquilo. Era o caso.

Momentos depois, antes de retirar a última tábua, hesitou. Um ínfimo rastro de luz atravessou o quarto, vindo do farol alquebrado da embarcação que navegava pelo céu lá acima, abrindo passagem na noite. Lançou-se contra a parede, as costas fixas no concreto. Dali, olhou para a abertura do buraco cavado nos fundos do aposento e, então, percebeu como estava sendo descuidado. Não podia deixar rastro nenhum, caso não voltasse. O Povo estava a centenas de metros de distância, não seguro – naqueles dias, ninguém poderia estar – mas, mesmo assim, poderia ser encontrado. Pegou as mesmas tábuas que havia retirado da janela e cobriu o buraco. Era quase nada, mas esse nada já o confortava.

Abaixou-se sobre a janela e, com o olho bom que lhe restava, olhou para fora.

Silêncio.

Lançou-se pela abertura, desajeitado, apressado. O cheiro do lixo inundou suas narinas, um cheiro misturado – agora podia sentir – com um cataclisma de sangue, suor e óleo diesel. Há quanto tempo não sentia esse cheiro? Há quanto tempo não deixava os túneis e cavernas embaixo da terra? Caminhou em direção a onde achava que estaria a construção, a passos largos, as duas mãos lançadas à frente do corpo, como se tateasse o ar. Achou até que poderia mesmo, de tão concreto e pesado era aquele cheiro que o invadia, vindo de todo lugar, de lugar algum.

Tropeçou nos restos espalhados pela rua, uma, duas, três, quatro vezes. Cada contato brusco parecia um estrondo, tamanho o silêncio ao redor, tamanho o pavor que o envolvia. Sabia – ou ouvia de outras boca do Povo – que, naqueles últimos tempos, Eles dificilmente desciam. Mas, mesmo passado tanto tempo, qualquer um do Povo ainda sabia muito pouco – quase nada – sobre Eles.

Por isso, Eles não tinham nome.

Caiu de corpo inteiro ao tropeçar no meio-fio. Ali, ainda no chão, conseguiu distinguir o vulto da construção, a poucos metros. Levantou-se num pulo e chegou até a grande porta.

Fechada.

Percorreu o galpão, sempre deixando uma das mãos encostadas na parede. O lugar parecia imenso. Outra porta, dessa vez, uma pequena, daquelas que costumavam ilustrar, antigamente, a entrada das casas. Sentiu a madeira quase podre oscilar para dentro quando a empurrou com o ombro, num baque surdo. Deu alguns passos para trás e impulsionou-se novamente contra a porta. Ela quebrou com facilidades, algumas farpas voando soltas para dentro e para fora.

O barulho da madeira rachando o fez fechar os olhos e implorar para um deus que há muito tempo já tinha morrido.

Agora, outro cheiro o afligia. Com a visão comprometida, seus demais sentidos haviam se destacado, assim como acontecera com muitos do Povo, que aprenderam a, acima de tudo, tatear e cheirar. Ele reconhecia aquele cheiro. Seu estômago torceu-se em convulsão, como se validasse aquela sua primeira impressão.

Estava mais escuro ali dentro do que lá fora. Agora, com calma, percorreu o galpão, as mãos, como sempre, lançadas à frente. Dessa vez não havia corredores, labirintos, salas, quartos – ou o que poderiam ser salas, quartos. O lugar devia ter sido um depósito. Restara algo? Tinha que restar. Havia caixas de papelão jogados pelo chão, todas vazias ou contendo ninhos de ratos com o que sobrara dos animais, carcaças de pelos vazias, os olhos há muito comidos pelas formigas ou baratas.

Então, como num milagre, ele encontrou.

Seus joelhos bateram na caixa e ele caiu por cima dela, as mãos impedindo que caísse de rosto no chão. Estava lacrada. Era dali que vinha o cheiro. Tateou para sentir o objeto, o pequeno tesouro. Empurrou com as mãos para sentir o peso. Cheia. Mesmo na sua condição, podia carregá-la. Ia demorar para conseguir retornar até a casa, o buraco de onde saíra, mas valeria o risco.

Praguejou por ter esquecido o pé de cabra e não ter trazido sequer uma faca. Queria ter certeza do que estava carregando. Abaixou as pernas, sentindo os joelhos rangerem, e pegou a caixa nos braços. Pesada. Quase o peso de uma criança do Povo. Virou-se e caminhou, arrastando os pés, em direção à porta, o umbral que conseguia divisar em meio à escuridão.

O cheiro que vinha da caixa era quase inebriante e a saliva tentava afogá-lo em sua boca. Chegou até a porta. Dobrou, encostando um dos pés na parede, do lado de fora, para conseguir se localizar. Seu corpo oscilava, os músculos dos braços e das costas rijos, a dor saindo de seus poros com o suor. Na escuridão, visualizou o Povo junto dele, em farta comemoração, agradecendo, descendo a seus pés. Um milagre.

Chegou em frente ao galpão.

Não restava mais nada.

Sim. Era isso. Não restou mais nada, pensou.

Não restava mais nada.

A casa de onde surgira havia desaparecido. O que poderia se passar por calçada, rua, os postes, tudo havia sumido. Nenhuma construção, fora o galpão, em um raio de quilômetros.

Súbito, a luz se fez.

Uma armadilha.

Com o olho bom que lhe restava, viu o buraco aberto de onde outrora havia saído, as tábuas jogadas ao longe. Ao redor um descampado. Acima dele, a embarcação de metal, silenciosa, em discreta observação, um leve zunido percorrendo sua extensão quilométrica, como o roncar de um estômago recém saciado – tão perto, tão perto.

Eles haviam descido.

E, assim, com as mãos já no chão, tocando apenas a terra, o pó, o nada, o homem enfim reconheceu que não haveria mais salvação alguma.

Quis a fortuna que optasse eu por passar meus últimos dias à beiramar. Não deve demorar agora, mas não há do que se arrepender e contento-me com a ideia de ter podido acompanhar estes últimos eventos. Se fosse de outra forma, creio, não faria muita diferença. Muito menos para mim. E aquilo foi a coisa mais assombrosa que vi. Você certamente não verá. Porque você provavelmente nunca vai existir para ler esta carta, seja lá que for você. Eu sou a última geração.

Acordei cedo naquele dia, como de costume. Tomei o desjejum e saí para caminhar na areia. Naquele dia vi o primeiro sinal. A areia ainda tinha a marca molhada da maré, que agora estava lá embaixo. Bem lá embaixo. Contei cinco barcos pesqueiros pequenos na areia, deitados de lado, quilhas à mostra. Mais alguns encalhados na maré baixa, mastros inclinados balançando quando as marolas estouravam sob os cascos quase completamente aparentes. Os pescadores reunidos em grupos tentando retornar os barcos à água ou imaginar o que havia acontecido. Aproximei-me aos barcos, as âncoras expostas atiradas na areia, e fiquei vendo o mar com os pescadores. A maré nunca esteve tão baixa. Caminhei até a espuma branca e deixei que lambesse fraca meus pés. Virando-me pude ver a sacada do meu apartamento de frente para o mar. A faixa de areia que nos separava estava com o dobro do comprimento habitual.

Lembrei da única história que já ouvira em que a maré havia recuado tanto do dia para a noite. Nesse caso, da noite para o dia. Olhei fixo no mar, além da rebentação, em busca de algum sinal, mas as vagas pareciam querer se retirar escondendo um segredo. Lembrei das polinésias, do Pacífico, daquelas cenas que abalaram o mundo em telejornais aproveitadores. Devo ter deixado escapar a palavra por entre os lábios numa expiração: “tsunami”. Olhei em volta. Dois pescadores me olharam com dúvida. Já havia juntado bastante gente para ver o mar. Aposentados, patricinhas, atletas, velhos de pulmões condenados que tossiam sangue antes de ir caminhar na areia. Por um momento, juro, pensei em não avisar. Deixar que viesse, aguardar a chegada no meio de toda aquela gente. Mas logo vi um casal de uns trinta e tantos, quarenta anos, discutindo a possibilidade. Eles perceberam que eu os olhava. A vantagem de ter poucos mas alvos cabelos à cabeça e muitas e profundas rugas à cara é que, se você consegue evitar uma aparência senil-babona, as pessoas acreditam que o você tem a dizer tem realmente alguma valia. Fiz cara de sábio pra justificar as expectativas deles e confirmei as suspeitas que levantavam. Acrescentei: “Para a maré já ter recuado tanto, já deve estar a caminho”. Depois de alguns segundos de choque, os gritos de tsunami correram a praia. Um pequeno grupo se organizou para evacuar o local e avisar os moradores próximos enquanto o restante correu em pânico para longe do mar. Mas se você tossisse sangue pela manhã e sua melhor perspectiva fosse uma cama de hospital, você também não teria tanta pressa.

Logo estava praticamente só na praia, a marola me tocando os dedos dos pés prenunciando o que estava por vir. Além de mim, apenas dois teimosos e ignorantes pescadores ainda mexendo nos barcos e um outro terceiro, tão teimoso quanto eles, tão velho quanto eu. Olhou-me com o que pensei ser cumplicidade — mas já não tenho tanta certeza — e ficamos, distantes um do outro, olhando o mar. Passou muito tempo. As ondinhas débeis já perdiam força a alguns centímetros de meus pés, nem os tocando. Depois de um tempo o velho acendeu um cigarro e saiu caminhando ao longo da faixa de areia, sem pressa. Quando deu dez horas mais ou menos os homens já tinham conseguido fazer os barcos ao mar. As vagas pareciam as mesmas de sempre, apenas mais distantes. Retornei ao apartamento perdido em pensamentos.

Preparei um almoço rápido e fui à sacada olhar as ondas ao longe, de cima. Apenas uma infinita planície verde espumante. Um ou outro barco percorrendo-lhe as trilhas atrás dos cardumes. Ao chegar da noite, os barcos que tinham os cascos levemente banhos por águas rasas já estavam completamente deitados na areia praticamente seca. As âncoras paradas no mesmo lugar. A dúvida dormiu comigo aquela noite.

Acordei mais cedo do que de costume. Mal percebi-me desperto, corri à sacada. Do meu apartamento se estendia uma enorme faixa de areia. Quatro ou cinco vezes maior do que havia na véspera. Quase duas dezenas de barcos estavam pousados na areia, distantes da água, qual uma carçassa ressequida. Na extensa praia, uma pequena multidão de pescadores e curiosos tentava decifrar o fenômeno. Desci à praia e fui ao mar afastado. Devo ter levado uns dez minutos até sentir a água fria nos pés. Com as mãos em concha capturei um pouco do líquido. Passei provei o gosto, lavei o rosto. Olhei para o apartamento, já pequeno. Olhei de volta para o mar, infinito como sempre. Agora mais do que nunca, um mar de dúvidas. A praia, cheia de indagações, com nenhuma solução ou conclusão. Na areia algumas poucas estrelas do mar, ouriços em pequeno número, aqui e ali. Uma rede de pesca estendida no seco com uns poucos peixes apanhados. Não demorou uma hora para que começassem a aparecer as câmeras, os microfones, as autoridades. Especulações.

Tomei o meu café na sacada, olhando o mar lá longe e a praia cheia. A tevê ligada na sala trazia especialistas e charlatões tentando analisar ou aparecer. Todos com o mesmo sucesso nulo em descobrir uma explicação. Fui buscar mais uma xícara quando vi na TV a imagem de uma enorme vala sobre a qual passava uma ponte cheia de gente. No fundo da vala um lodo lamacento e um fio de apenas dois palmos de largura, de água. Era a ponte que cruzava o rio que dividia a cidade do município vizinho. As estações de tratamento já não estavam sendo abastecidas. Poucos córregos e rios ainda tinha água suficiente para encher os tanques. O mar havia se recolhido em toda a costa. A água estava desaparecendo. E não como uma força de expressão ou papo de ambientalista. Ela estava, de fato e simplesmente, desaparecendo.

Fui ao mercado para descobrir que não fui o único que teve a ideia. Consegui levar apenas algumas garrafas entre uma turba em busca de água para estocagem. Na fila e na confusão ouvi que os outros afluentes do rio também estavam secando. Nas cidades vizinhas o mesmo acontecia em rios diferentes. Voltando para casa vi um grupo de cinco homens enchendo garrafões na fonte em frente à prefeitura. Voltei para casa, abri as torneiras e enchi baldes e panelas. Na TV, praias do mundo inteiro recuando. Rios desaparecendo. Lagos virando crateras. Não demorou muito e o mundo todo estava secando como seu um ralo tivessesido destapado.

Agora já faz bastante tempo. Mais de duas semanas. Do lado de fora do meu apartamento um grande deserto de areia se estende até o horizonte. Dezenas de barcos no meio da areia seca. Fora de vista, centenas, milhares. Alguns dos pescadores resolveram seguir o mar onde o mar fosse. Fizeram os barcos à água e ficaram sempre em águas rasas, próximas da costa. A medida que o mar recuava, eles avançavam. Hoje não sei onde estão. Na TV vi o Everest coberto de pedra. O gelo havia sumido. Os alpes andinos com estações de esqui sobre montanhas castanhas. As plantas, claro, começaram a morrer. Toda a cadeia alimentar logo começou a desmoronar. Fernando de Noronha tornou-se uma montanha. Gibraltar já podia ser cruzado a pé, como vários outros pontos. Imigrantes ilegais começaram a simplesmente andar a outros países. Em busca de água ou de um sonho inútil. O Mar Vermelho foi novamente atravessado. As religiões, não é preciso dizer, foram todas à loucura. O Mar Morto virou uma enorme cratera de sal. Os pólos praticamente sumiram e toda a confusão que os cientistas previram quando isso acontecesse, na maior parte aconteceu. Frio, calor, era glacial. Tudo está começando. Hoje, parece, poucos são os lugares que ainda tem alguma água, mesmo que salgada e não potável. Equipamentos para tornar o líquido potável trabalham sem parar. Pela manhã uma reportagem acompanhava um homem de jipe a caminho da África. Foi barrado por uma cadeira de montanhas, mas ao que tudo indica, se não fosse por isso até poderia ter conseguido. O maior reservatório de água que resta são as Fossas Marianas, guardadas pelo governo americano sob supervisão da ONU. Mostraram uma foto de satélite. A Terra vista do espaço está marrom. Entre os continentes, enormes desfiladeiros. Os rios quase todos se foram. O Brasil ainda guarda o que resta do amazonas, agora só um fiorde inexpressivo. O Nilo parece que foi assumido pela União Européia. O Yang-Tzé está cercado, da forma possível, por tropas chinesas, mas oferece ainda menos esperanças, mesmo para a China. Agora não há nada mais o que fazer. A água que me resta cabe em uma garrafa. Deixo essa carta apenas para mim. Ninguém mais vai lê-la. Não haverá mais ninguém. Eu vou, pela última vez, em busca do mar. Parto a pé, pelas areias que se estendem do lado de fora do meu apartamento. Uma última marcha de um planeta que se vai. A última geração.

Feb
3
O guri.

O guri, às vezes, ficava de canto. E poderia aqui se fazer toda uma dissertação sobre os cuidados às crianças que os adultos e as pedagogas tanto insistem em repetir. À exaustão. E o guri ficava de canto, brincando. (Vale lembrar, para fins didáticos desse texto, que todos fomos deixados muitas vezes de canto assim como, exaustos de um dia cansativo de trabalho, deixaremos os nossos guris para não nos incomodarem ainda mais do que nós mesmos conseguimos nos incomodar). Se ficava em silêncio por muito tempo, vinha o pai à janela ver se aprontava ou se vivia — um salto do sofá, um espasmo!, cadê o guri?, a respiração tranqüila, tá ali brincando.

O guri se entretém com brinquedos variados e aos quais não temos acesso, nós, meros mortais. Este guri pertence a outra estirpe, por assim dizer. E vive sozinho com o pai e a mãe,  não tem irmãos. Então é o tédio. Um dia entrou no escritório do pai e viu brinquedo novo, vários brinquedos novos. Não eram brinquedos, mas o guri não pensou nisso ao levar um deles pro porão.

Nunca mais aprontou, o guri. Não respondia ao pai e à mãe, arrumava o quarto, nunca mais se trancou no banheiro com revista de mulher pelada. O lugar do guri era no porão. Foi pra lá que levou o brinquedo (não é brinquedo, guri, tu não sabes?) que roubou do pai. E agora brinca de dia e de noite, de dia e de noite. Acorda na madrugada, pesadelo!, desce as escadas sem fazer barulho e com um toco de vela ilumina o brinquedo.

Ninguém desce mesmo ao porão. Ninguém se lembra de lá.

Mas veio a hora da mudança, empacotar as coisas, arrumar as malas, encontrar o que há muito não se lembrava que existia — quem já fez mudança, sabe — e visitar todos os cômodos da casa, todos os cômodos da casa, TODOS! Inclusive o porão.

Vem o pai furioso, agarra o guri pelas orelhas, suspende o moleque do chão, atira-o à grama, o guri chora. A mãe tenta acudir (como os adultos e as pedagogas agora intuem fazer), mas o pai levanta a mão e diz não chega perto! A mãe pergunta o que houve, o pai agarra o moleque pelo cabelo, pega a mãe pelo braço, desce as escadas correndo, os pés do guri não tocam o chão, o porão, chega perto do brinquedo e grita:

— Olha o que a merda do teu filho fez!

A mãe, horrorizada, cai em prantos. O pai, desamparado, rende-se à tristeza, maldito moleque, repete, maldito moleque. O guri chora. A mãe tenta ampará-lo, mas não consegue completar o abraço, sente raiva, a coitada, e tem medo do guri.

Nessa noite, ninguém mais falou. E ninguém jantou.

E ninguém dormiu. Só o guri.

Passada a raiva, a manhã seguinte era de empacotar lembranças, raridades e lixo que se acumula. Mas era também a hora da conversa, da calma, o pai a pedir desculpas ao guri — a mãe ainda não consegue abraçá-lo — e chega o momento da conversa. E quando o pai pergunta

— Por que, Javé?

o guri dá de ombros.

O pai se encarregou de destruir o que o filho havia feito. À mãe, coube o papel de limpar toda a sujeira. Na Terra, os momentos finais foram de desespero. Depois, o silêncio e a paz reinaram sobre o nada.

Feb
1
Novo tema

Com um pouco de atraso, mas, antes tarde do que nunca, posto aqui o tema da próxima rodada.

Aproveitando a recente onda de especulações, discussões climáticas e produções cinematográficas, o tema é “Fim dos Dias“.

Ou Apocalipse, Armageddon, como preferirem. Claro que o tema não necessariamente precisa estar ligado à profecias bíblicas ou religiosas. Fiquem à vontade para imaginar os últimos dias da humanidade (que trágico isso) como quiserem.

Textos devem ser postados até o dia 6, sábado.

Boa produção!

Jan
27
Votação

Vote no seu texto preferido aqui nos comentários.

Basta você dizer o nome do autor ou do conto escolhido, e nos dizer o motivo. O texto que receber o maior número de votos, vence a rodada.

A votação corre até o dia 30 de janeiro!

Este é Edgar Allan Poe. Nascido em 19 de janeiro de 1809, na cidade de Boston, nos Estados Unidos. Como muitos moradores de Boston, Edgar vem de uma família de origem escocesa e irlandesa, cujos antepassados emigraram de sua terra natal para tentar construir uma vida mais próspera junto ao sonho americano.

Este sonho de prosperidade foi conquistado, mas apenas nas aparências. Quando caminhavam pelas ruas da cidade que estava em uma fase de crescimento e expansão, o casal David e Elizabeth, pais de Edgar, era bem visto pela sociedade. David era um ator que já havia conquistado alguma fama local, e sua esposa, ainda grávida, era uma belíssima atriz iniciante. Mas as belezas vistas nas ruas não se repetiam dentro de casa. Vivendo um casamento frustrado, numa época em que o divórcio significava falta de nobreza, ainda mais com um rebento à caminho, as brigas entre o casal Poe se tornavam cada vez mais frequentes. Por sinal, o casal só conseguiu manter as aparências até pouco tempo após o nascimento do pequeno Edgar.

- Chega Dave. Não agüento mais.
-Fica quieta, Beth, tem gente na rua.
- Não quero saber de nada. Você tem que escolher de uma vez por todas se quer ou não ficar comigo! Não sou seu cachorrinho pra ter que ficar te acompanhando na rua e depois ser dispensada assim que a gente entra em casa.
- Chega de drama, Beth. Você sabe que a gente tem que manter as aparências. Você tem uma carreira toda pela frente. Não vá estragar com uma burrada.
- Burra, você me chama de burra? Pois saiba que se você não tomar uma atitude eu vou espalhar para a cidade inteira que você tem um caso com aquela sua sirigaitazinha. Ou você larga ela, ou você fica com ela. Se decida, homem!

Pouco antes do garoto completar um ano de idade, David juntou suas coisas e abandonou o seio da família Poe. Até hoje, não se sabe exatamente qual o motivo dele ter abandonado a esposa com um bebê no colo, mas os vizinhos comentavam bastante a respeito das brigas que aconteciam dentro da casa número 33 da rua Hollis. Com uma criança pequena para cuidar, sem um pai presente e com as posses bem mais singelas do que a vida que levava outrora, Elizabeth passou a sair pouco de casa, tornando-se uma reclusa da sociedade.

Todas as noites, contava histórias para o pequeno Edgar, enquanto o embalava junto ao seio. Eram histórias cheias de dor e sofrimento, onde a cor das fantasias que os livros traziam se perdia ao decorrer da leitura, onde a mãe, já castigada pelas mentiras do marido, modificava os finais, mostrando ao pequeno Edgar, desde o berço, que a humanidade podia ter duas caras, e que as belezas das histórias infantis podiam não ser exatamente da forma que eram descritas ali.

- E eles viveram felizes para sempre. Rá, grande piada. Felizes para sempre. Como se alguém pudesse viver feliz para sempre. Histórias imbecis para crianças imbecis…

Tanto sofrimento e tristeza acumulada acamaram Elizabeth, que já não tinha mais forças, depois de tantos meses sem sair de casa, e com as cortinas de casa fechadas na maior parte do dia. Logo, uma grave tuberculose a levou a ficar imóvel numa cama até o dia de sua morte, no ano seguinte.

O pequeno Edgar foi acolhido com muito amor por Francis e John,um casal abastado da região, que ficou comovido pela história de tragédias que marcaram o início da vida da pobre criança, abandonada no mundo. John era um grande mercador de tabaco, bastante respeitado pela sociedade, um homem bastante fechado e ganancioso. Talvez por isso, nunca chegou a aceitar completamente Edgar como seu filho, e nunca aceitou registrar a criança em seu próprio nome, apesar dos pedidos incessantes da esposa.

O que poderia acontecer com uma criança criada desta forma? Um lar inexistente, um pai que abandona a família, uma mãe amargurada que despeja todas as frustrações em sua criança por causa de uma desilusão amorosa? Trocar de família antes dos três anos de idade, para morar com novos pais que cuidavam muito bem dele, mas que nunca deram realmente o carinho que aquela pequena criatura mais precisava. Como seria o futuro de uma criança dessas? O futuro guardou para o pequeno Edgar mais terror do que podemos imaginar. Nada já visto por uma pessoa sã poderia explicar o reino de horror que esta simples mente infantil estava criando em seu íntimo. E sua morte seria tão horrenda quanto estas histórias macabras. No próximo bloco, conheça toda a mente doentia que pode ser criada através de uma infância triste.

Sobe BG. Fade out, isso, corta.

Muito bom, Sérgio! Vamos lá, 8 minutos pra tomar uma água e já voltamos. Bom trabalho, pessoal. Maquigem, preparados, luz, arrumem o poste do fundo, tem uma sombra lá atrás que tem que ser diminuída. Isso aí pessoal, um descanso rápido e já voltamos.

Isso, Sérgio, posição. Posição, pessoal, todo mundo pronto, luz, isso, assim está bom. Voltando ao vivo em oito, sete, seis, cinco…

Um rapaz formado por uma família invisível, uma infância de abandono, morte e amargura, onde a tristeza foi sua babá nos primeiros anos de vida. Podemos imaginar que se tornaria um marginal, um garoto sem futuro. Mas Edgar foi educado nas melhores escolas por sua nova e abastada família. Enviado à Inglaterra para estudar, ganhou uma educação exemplar e logo se tornou um pequeno gênio. Depois da educação fundamental, retornou aos Estados Unidos onde matriculou-se em uma escola na Virgínia.

Lá, Edgar fez novos amigos e logo se destacou no grupo de amizades como um rapaz inteligente, criativo e que não tinha medo de nada. Aos poucos, sua infância triste retornava a transparecer depois de bebedeiras constantes, e com apenas 17 anos, o jovem já vivia uma vida boêmia de drogas e bebidas junto às companhias erradas. Com apenas um ano de matrícula, Edgar foi expulso da escola onde estudava, pelas bebedeiras constantes, falta de respeito aos professores e por colocar não apenas sua própria vida, como também a vida de seus colegas em risco em brincadeiras nada maduras.

Voltando a passar mais tempo dentro de casa, logo teve início uma nova briga no seio familiar. Os desentendimentos com seu padrasto eram constantes, principalmente pelas dívidas de jogo que juntava nas noites de esbórnia pelos bares.

Como forma de protesto contra o padrasto controlador, foi a vez de Edgar seguir os passos de seu pai verdadeiro e abandonar o seio familiar. Alistou-se nas forças armadas sob o nome falso de Edgar Allan Perry quando completou 18 anos. Enquanto servia o exército, passava noites em claro escrevendo em pedaços de um caderno velho que havia encontrado em algum lugar da base militar. Inscrevia-se para participar de todas as vigilâncias noturnas, e escrevia durante toda a madrugada enquanto todos dormiam no alojamento.

Suas memórias amarguradas da infância se reuniam nas linhas doentias que traçava no papel manchado pelo tempo. Eram poemas de dor e angústia, mostrando uma mente doente e carente, que havia perdido a noção exata do que era realidade e do que acabara de ser inventado. A reunião destes poemas escritos nos dois anos em que serviu ao exército foram publicados no ano seguinte, em forma de livro. Com esta primeira obra, Edgar aceitava para si mesmo a condição de intelectual, e toda a criatividade despertou um lado melancólico nunca antes visto em sua geração.

Dois anos após o lançamento de sua obra, quando ainda não tinha conseguido conquistar qualquer tipo de visibilidade no meio literário, sua madrasta morreu. A morte fez com que Edgar se reconciliasse com seu padrasto, e lançasse um novo livro. Seu padrasto o incentivou a voltar para as forças armadas e convenceu-o a entrar na Academia Militar. Quando tudo parecia que voltaria a funcionar na vida do jovem escritor, ele encontrou-se com uma velha e inseparável amiga: a bebida. O comportamento arredio e alcoolizado logo lhe rendeu uma nova expulsão.

Edgar estava novamente vivendo uma vida de embriaguez, e se mudou para Baltimore, para viver na casa de sua tia. Como poderia viver uma mente tão traumatizada com as mudanças de família na infância, ao ser confrontada com uma nova família? Acompanhe a seguir como Edgar conseguiu construir uma carreira de sucesso, mas uma vida de horrores inimagináveis. Seria este pobre homem capaz de dar a volta por cima? Veja em instantes.

Isso, BG. Segura. Afasta a câmera, afasta, foca a luz do poste, isso. Corta.

Ótimo, pessoal, magnífico. Vamos para mais uma pausa. Maquiagem, arruma a franja do Sérgio, tá caindo em cima do olho.

Tudo pronto? Volta em oito, sete, seis, cinco…

Edgar Allan Poe. Filho do mundo, uma criança que cresceu perdida e sem amor, mas que tornou-se um excelente escritor. Após uma juventude de bebidas e brigas, mudou-se para a casa de uma tia, onde passou a viver de seus poemas e contos, histórias fictícias de uma vida que não existia além das páginas. Mas quando mal podia separar o que era ficção do que era realidade, conseguiu um emprego como editor de um jornal literário, que servia como ponto de ligação de Poe com o mundo lá fora.

O mundo doentio de Poe era nutrido enquanto ele passava os dias trancado dentro de casa. Não só pelas histórias de terror e ficção que escrevia, mas também pela secreta e incestuosa relação que mantinha com sua prima, longe dos olhos de sua tia. Os primos se reuniam na calada da noite, para noites de volúpia proibida. Sua tia mal podia imaginar, até o dia em que os primos colocaram em prática seu maior ato de confronto com a sociedade da época, e se casou em segredo.

- Shhhhh. Não faz barulho, a tia tá dormindo.
- Hihihihi. Ai, primo, ‘tamo indo aonde?
- Você já vai ver, prima, vem cá, isso. Dá a mão, sobe aqui. Isso, pronto.

Doença? Enfrentamento? Muito mais do que isso. A prima de Edgar, Virgínia, era apenas uma criança de 13 anos, que cedeu aos encantos do jovem e astuto escritor. Para fugir da pressão da sociedade local, o casal de primos embarcou para a terra das oportunidades: Nova York. Lá, longe dos conhecidos, poderiam viver normalmente e teriam uma vida feliz, se não fossem os pesadelos que insistiam em atrapalhar o sono leve de Edgar.

Sem conseguir dormir, vítima de pesadelos terríveis que só conseguia contar na forma de bizarras e distorcidas histórias de terror, não conseguia arrumar um emprego na cidade grande. Depois de dois anos atormentado pelos pesadelos que criaram nele uma insônia terrível, a noite virou o lar de Poe, que se perdia entre os bares de Nova York. Lá, fez contatos, que logo permitiram que ele voltasse a escrever para veículos da imprensa. Escrevia críticas literárias que eram obras mais detalhistas e com uma narrativa mais fantástica ainda do que as obras analisadas. Tornou-se um adulto ácido e arrogante, que bebia durante todo o dia e despejava sua fúria nas páginas dos cadernos que não cansava de encher. Lançou diversos livros, mas o fracasso financeiro mal conseguia sustentar a ele e a jovem esposa. A situação precária pela qual passaram a viver complicou a saúde já debilitada de Virgínia, que veio a falecer de tuberculose, mesma doença que havia vitimado a mãe de Edgar quando ele ainda era uma criança. Edgar se entrega novamente às bebidas e à literatura.

Você que está aí em casa está acompanhando todo o drama vivido por Edgar Allan Poe, desde sua infância triste até seu amadurecimento como escritor e as suas perversões tanto nos bares quanto dentro de casa. Mas ainda não entendeu o que pode ter acontecido com um homem destes. Um rapaz inteligente, criativo, um escritor de sucesso. O que aconteceu com Edgar Allan Poe?

Depois de perder duas famílias e perder também a jovem esposa, Edgar atingiu o fundo do poço. Suas obras de terror psicológico ganhavam o mundo com histórias que variavam entre a loucura e a lucidez. E foi justamente este fio tênue entre o que é realidade e o que é ficção que passou a guiar os passos do escritor. Amargurado, tentou o suicídio, se perdia entre ruas e garrafas de uísque, estava perdido na vida. E na manhã do dia 3 de outubro de 1849, aos 40 anos de idade, Edgar Allan Poe foi encontrado por um amigo perambulando pelas ruas, vestindo uma roupa que não era sua. Ele Balbuciava palavras desconexas, frases sem sentido, e veio a morrer quatro dias depois. No leito do hospital, repetia incessantemente o nome de Reynolds.

O que acontecera com Edgar Allan Poe? Qual seria a causa da morte? Quem era Reynolds? Desvende este mistérios em instantes, não saia daí.

Corta! Fantástico! Pessoal, tá ótimo! Vamos lá, uma última pausa pra tomar uma água e a gente volta com tudo para o bloco final. Vamos fazer isso ficar perfeito, hein, precisamos fechar com chave de ouro.

Pronto pessoal, luz. Isso, arruma a trilha, câmera a postos, todo mundo em suas posições. Entramos ao vivo em dez, nove, oito, silêncio no estúdio, é pra fechar bonito!, três, dois…

Edgar Allan Poe. Um homem aterrorizado por seu passado e por seus demônios. Um homem que dedicou a sua vida a causar horror através de suas obras. Uma mente atormentada, que teve um final violento. Vamos descobrir agora, neste instante, o que causou a inexplicada morte de um dos maiores autores de todos os tempos.

Na manhã de 27 de setembro, Edgar partiu, no meio da madrugada. Fugiu para encontrar-se com alguém, cuja identidade nunca fora revelada. Na realidade, o famoso escritor pegou uma barca até Baltimore, para encontrar-se com uma amante. Dentro de sua visão deturpada do mundo, Poe criou muitos contatos que fazia questão de manter em segredo, entre eles o da sua amante, Camille.

Camille era uma garçonete em Baltimore, e Edgar fora visitá-la naquela madrugada. O que se passou a seguir, no entanto, foi espantoso: Edgar nunca chegou a se encontrar com ela naquele dia. Ao desembarcar em Baltimore, Edgar encontrou-se com um homem que o esperava no cais. Senhor Arthur Reynolds, integrante da polícia local. De acordo com a informação repassada por testemunhas, naquela noite Reynolds e Poe foram vistos tomando café e discutindo avidamente em uma cafeteria próxima às docas. Contam, estas testemunhas, que após a discussão, Poe saíra da cafeteria, despejando palavrões sobre o Senhor Reynolds a quem quisesse ouvir.

- Cale a boca, Reynolds, você não sabe o que está dizendo?
- Não se faça de tolo, Poe. Você sabe os riscos que corre.
- Riscos? E o que diabos você entende de riscos? Eu quero ver, Reynolds, eu quero a verdade.
- Está maluco? Você vai morrer, Edgar. Não desperdice sua vida, homem. Lute contra isso!
- Morrer, você diz. Morri quando trouxe ele para cá! Esta vida já não me pretence, Reynolds. Eu vou encontrá-lo esta noite! E vou levá-lo até ela!

Reynolds seguiu-o, e encontrou-se com ele novamente em uma esquina de pouco movimento da cidade. Apenas um homem viu o que aconteceu a seguir. O vigia noturno Edward Blanche, que fazia sua ronda no exato momento em que a briga teve início. Mas Blanche nunca disse que foi Reynolds que matou Edgar. Muito pelo contrário. Blanche estava tentando alertá-lo.

Durante a conversa dos dois, uma visão inesquecível surgiu no final da rua. O vigia conta que nem o policial, nem os escritores perceberam a companhia até que fosse tarde demais. Enquanto os dois discutiam, no momento em que menos poderiam imaginar, foram surpreendidos por

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Interrompemos a nossa programação normal para uma notícia de última hora. Um forte terremoto atingiu o Haiti há poucas horas. A defesa civil informa que as instalações do exército brasileiro, que se encontrava em missão de paz no país, foram afetadas pelos abalos sísmicos e esvaziadas por precaução.  Durante os tremores, que vitimaram mais de 100 mil pessoas em todo o país, 14 soldados brasileiros morreram com o desabamento de parte do local onde as tropas estavam abrigadas.

Os tremores alcançaram o grau 7 na escala Richter, por volta das 19h50min desta terça-feira. Um alerta de tsunami também chegou a ser emitido, mas foi cancelado poucas horas depois. Ainda não há números oficiais de vítimas e prejuízos, mas acredita-se que o número de mortos pode ter chegado próximo dos 200 mil. Cerca de oito edifícios do Centro da cidade desabaram, soterrando todos que trabalhavam em suas dependências.

Vários feridos esperam por ajuda médica, que tem dificuldades de chegar até os pontos de maior gravidade. A própria comunicação foi interrompida por diversos minutos, e até o momento seguem com problemas na comunicação.

O Brasil mantém cerca de mil e duzentos soldados em missão de paz no Haiti, e os números não-oficiais comentam sobre a morte de 14 oficiais. Segundo testemunhas, o terremoto devastou o centro da capital, incluindo o Palácio Nacional, a Catedral e até mesmo a sede das Nações Unidas. São incalculáveis os danos causados por todo o país. Um cinegrafista ligado à Associated Press, diz ter presenciado a queda de um hospital, que soterrou todos os pacientes, e que era possível ouvir os gritos de socorro sob os escombros.

De acordo com a medição  do serviço geológico norte-americano, o terremoto ocorreu  a cerca de 10 quilômetros de profundidade, a 22 quilômetros da capital haitiana, que tem mais de um milhão de habitantes.

Em entrevista concedida à televisão americana, o embaixador do Haiti nos Estados Unidos, Raymond Joseph, disse que as conseqüências do terremoto são catastróficas.

- A única coisa que posso fazer agora, é rezar e confiar que o pior não aconteça.

O presidente norte-americano Barack Obama, manifestou-se e alertou que enviará ao país toda a ajuda necessária. O presidente Lula, deu há poucos uma coletiva em que manifestou pesar pelo povo haitiano e disse que o país fará o possível para ajudar o Haiti a se reerguer. As primeiras ações a serem tomadas será trazer de volta os soldados brasileiros feridos durante o terremoto.

De São Paulo, com notícias a todo instante, Fabiane Lemos.

…nunca mais Edgar poderia repetir aquele nome. Por vezes e mais vezes foi tentado montar a reconstrução da cena enquanto o escritor estava internado, em seu leito de morte. Mas até hoje não se sabe se a história é real ou apenas mais um devaneio da mente perturbada de Edgar Allan Poe.

Nos vemos na próxima quinta-feira, às dez da noite para mais um encontro marcado com a verdade. Só aqui, no Mortes Misteriosas através da História. Boa noite.

Jan
26
O corvo
A bebida demais e a alegria de menos o deixavam com a aparência galante – e ele sempre achou curioso como todos os amigos escritores também eram assim. Estava feliz, ou pelo menos deveria estar. Ia casar-se, tinha amigos, os monstros de sua imaginação continuavam sendo exorcizados por folhas de papel rabiscadas. Eram quase quatro da manhã e decidira ir a Baltimore. De barco, como sempre fizera. Encontraria um velho amigo.
Há cerca de duas léguas da costa, talvez mais, ao término da última garrafa de conhaque, Poe começou a morrer. Completamente sozinho e bêbado, percebeu que a única companhia que realmente o fazia feliz era a sua – gargalhou alto e o riso se espalhou pelo mar, sem ter como voltar, ecoar – “coisa metido a gênio egocêntrico”. Para não admitir a necessidade que sentia da própria companhia, começou a conversar com Reynolds.
Ele era bonito, atlético até. Inteligente, de humor refinado, cultura quase insuperável. Teve um caso com a noiva de Reynolds e ele sequer se importara. Tinha cabelos penteados que não pendiam para lado nenhum e uma aparência delicadamente sóbria. Foram quatro dias de convivência. O suficiente para que Poe percebesse que jamais conseguiria viver sem Reynolds. Era o único que entendia. Era quem rimava seus versos.
Quando percebeu que Reynolds estava distante, disforme, opaco e quase invisível aos seus olhos, Poe se desesperou, por vezes quase caiu. Imundo, encharcado e com todo o pouco dinheiro do bolso fez com que Reynolds reaparecesse por mais dois dias. Até que o fundo do poço chegou.
Sóbrio e sem dinheiro, Poe sucumbiu a loucura. Reynolds tinha sido afogado no mesmo mar que nascera.
———–
Posfácio
No barco, Poe concluiu que seu epitáfio seria Reynolds. Morreu antes, morreu cedo, morreu louco. Na pedra, escrito: O Corvo.

A bebida demais e a alegria de menos o deixavam com a aparência galante – e ele sempre achou curioso como todos os amigos escritores também eram assim. Estava feliz, ou pelo menos deveria estar. Ia casar-se, tinha amigos, os monstros de sua imaginação continuavam sendo exorcizados por folhas de papel rabiscadas. Eram quase quatro da manhã e decidira ir a Baltimore. De barco, como sempre fizera. Encontraria um velho amigo.

Há cerca de duas léguas da costa, talvez mais, ao término da última garrafa de conhaque, Poe começou a morrer. Completamente sozinho e bêbado, percebeu que a única companhia que realmente o fazia feliz era a sua – gargalhou alto e o riso se espalhou pelo mar, sem ter como voltar, ecoar – “coisa metido a gênio egocêntrico”. Para não admitir a necessidade que sentia da própria companhia, começou a conversar com Reynolds.

Ele era bonito, atlético até. Inteligente, de humor refinado, cultura quase insuperável. Teve um caso com a noiva de Reynolds e ele sequer se importara. Tinha cabelos penteados que não pendiam para lado nenhum e uma aparência delicadamente sóbria. Foram quatro dias de convivência. O suficiente para que Poe percebesse que jamais conseguiria viver sem Reynolds. Era o único que entendia. Era quem rimava seus versos.

Quando percebeu que Reynolds estava distante, disforme, opaco e quase invisível aos seus olhos, Poe se desesperou, por vezes quase caiu. Imundo, encharcado e com todo o pouco dinheiro do bolso fez com que Reynolds reaparecesse por mais dois dias. Até que o fundo do poço chegou.

Sóbrio e sem dinheiro, Poe sucumbiu a loucura. Reynolds tinha sido afogado no mesmo mar que nascera.

———–

Posfácio

No barco, Poe concluiu que seu epitáfio seria Reynolds. Morreu antes, morreu cedo, morreu louco. Na pedra, escrito: O Corvo.

Jan
26
Mr. Reynolds

“O senhor está longe de casa, não é, mon… monsi… humm, como vocês falam mesmo?”

Monsieur”.

“Isso, isso mesmo, monsieur Dupin. Na verdade não é todo dia que recebemos visitantes de terras tão distantes aqui na nossa pequena cidade.”

O fiscal levanta a armação de óculos e, por baixo dos aros gastos, observa Charles com curiosidade, enquanto folheia os papéis que trouxemos. Uma carta de recomendação redigida por um tal comissário da polícia parisiense, chamado Gustaves. Eu apenas fico calada e mantenho o sorriso no rosto, encarando o fiscal. Madame Tanessy ficaria orgulhosa.

“Ah, não tão pequena assim, amigo, se é que me permite chamá-lo assim. Há muitos anos já estive por aqui e, desde então, sustentava a vontade irremediável de retornar e rever velhos colegas da universidade. Muita coisa mudou desde então, acredito, mas creio também que a beleza e a simpatia característica da gente de Baltimore continuam sendo os principais atrativos dessa aconchegante cidade.”

Os trabalhadores e comerciantes passam em disparada entre nós no porto, enquanto Charles e o fiscal continuam trocando amenidades. O homem de uniforme azul e amarelo gasto desvia o olhar para mim a cada frase, observando-me dos pés à cabeça. Eu retribuo o olhar, até que ele, por fim, acaba por dirigir-se à minha pessoa.

“Espero que a nobre jovem esteja realmente em boas mãos. Não é recomendável uma… uma… humm…”

Mademoiselle é a palavra que busca, amigo”, interrompe Charles.

“Isso, uma mademoiselle trafegar sozinha ou muito à vontade por essas ruas. Ainda mais nessa época. O inverno e os becos escuros podem ser rigorosos, se você me entende.”

Eu me apresso pra responder, mas Charles é mais rápido.

“Ah, sim, ela está em boas mãos. Minha amada irmã Berenice cortaria-me a cabeça se eu ousasse meter sua filha única em alguma enrascada. Na verdade, eu olho para ela com olhos de pai, atentos e vigiantes.”

“Bom… me resta então desejar uma boa estadia. A saída é por ali. Cuidado com o piso liso. Se pagar algumas moedas a um desses garotos, eles podem lhe ajudar com as malas.”

Charles pede que um moleque maltrapilho nos acompanhe e, de braços dados, partimos até as carruagens, deixando pra trás o cheiro fétido que parece se impregnar em meu vestido. Nas escadas, eu levo o braço por suas costas, ajudando-o a subir os degraus, que Charles atravessa com dificuldade. Mesmo com o frio e a chuva que cai fraca, sinto o suor escorrer sobre seu casaco. Eu devia ter insistido mais para que ele não retornasse.

 

Charles que me perdoe, mas eu realmente odeio essa cidade. Desde que chegamos, apenas chove e chove. O cheiro é quase insuportável, mesmo longe do porto. Eu ainda estou em frangalhos após a viagem. Estou a brincar com a colher na xícara de porcelana à minha frente quando ele enfim resolve aparecer, os braços cheios de jornais molhados.

“Pronto, minha bela Anabelle, aqui estão os periódicos que eu procurava. Não foi fácil, mas consegui por um bom preço na livraria de um velho quase cego e ranzinza. Aqui, tome o jornal. Sei que você gosta de saber as últimas notícias, não importa onde esteja”.

Charles me passa o New York Daily Tribune, da edição de 9 de outubro de 1949. 

“Pois acho que cego é você, meu querido. Esse jornal é velho, de três semanas atrás. Não creio que vá encontrar alguma notícia nova aqui.”

“Não são as novidades que me interessam, Anabelle, mas sim o que já aconteceu. Veja, olhe esse artigo na terceira página.”

Eu aperto os olhos e leio em silêncio, para que Charles não me chateie com a minha leitura falha. Ele me ensinou a ler e me obriga, toda a semana, a ler artigos e historietas chatas em voz alta, chamando atenção para cada tropeço nas vírgulas e fonemas. Assim diz o artigo:

 Edgar Allan Poe está morto. Ele morreu em Baltimore anteontem. Este anúncio irá chocar muitos, mas poucos irão sofrer por isso. O poeta era conhecido, pessoalmente ou por reputação, em todo este país; ele possuía leitores na Inglaterra, e em vários estados da Europa Continental; mas ele tinha poucos ou nenhum amigo; e os pesares por sua morte serão indicados principalmente pela consideração de que nele a arte literária perdeu uma de suas mais brilhantes, porém erráticas, estrelas.

 “Humm… o escritor.”

“O redator foi um tanto quanto rude, certamente, mas não deixou de faltar com a verdade. Pelo menos assim nossa missão será mais fácil. Apenas algumas poucas visitas, algumas explicações, considerações e conclusões, e logo poderemos voltar para casa.”

“Nossa missão?. Vim aqui para tomar conta de você, titio, e somente isso. A essa hora, já devíamos estar longe daqui.”

“Ah, adoro quando você me chama de titio…”

Charles pega minha mão esquerda e leva aos lábios, beijando com delicadeza os nós de meus dedos. Eu suspiro, tentando parecer zangada.

“O que, enfim, você quer com esse tal poeta? Aqui não diz nada sobre assassinato ou coisa do tipo.”

“Você sabe que eu tenho uma reputação a zelar. E que só quero o nosso bem.”

“Ah, lá vem você de novo com essas histórias… me acorde quando pudermos voltar.”

“Sempre insolente. Deveria lhe dar umas palmadas de vez em quando.”

Eu rio e pisco para Charles.

“Podemos cuidar disso mais tarde… titio.”

 

O homem calvo nos olha com curiosidade sobre o vão da porta, espichando o nariz proeminente para ver Charles melhor, envolto em suas galochas. Ele parece ainda mais surpreso ao me enxergar por baixo da sombrinha, o vestido encharcado nas bordas. Charles vai até seu encontro e estende a mão enrugada.

“Deixe-me apresentar, doutor. Me chamo Antonnie Dupin, recém chegado de viagem. Esta ao meu lado é minha sobrinha Anabelle. Perdoe-nos por interromper seus afazeres no coração de seu lar.”

“Sim, eu recebi sua carta. Mas achei que era uma brincadeira de mau gosto. Por que alguém que se autodenomina Dupin iria querer conversar sobre Poe? Ainda mais um francês. Desculpe minha incredulidade, mas isso me parece absurdo.”

“Meu falecido pai, apesar de não ter estudo, costumava dizer que nada nessa vida é coincidência. Saiba que eu mesmo fiquei surpreso ao ler meu sobrenome nos maravilhosos contos de nosso nobre poeta, anos atrás.”

“Edgar nunca falou de você.”

“Há muitas coisas sobre esse homem que ambos desconhecemos, sem dúvida.”

“Sei. Enfim, saiam da chuva. Entrem, por favor.”

A casa é pequena, mas muito bem decorada e servida. Vamos até o que parece ser um escritório, com uma poltrona e um pequeno divã encostados em cada lado da parede. No meio, uma mesa de carvalho, coberta por grossos compêndios de medicina. Eu e Charles sentamos no divã, observados com atenção a cada movimento por nosso desconfiado anfitrião. O sotaque carregado de Charles me incomoda e não deixo de pensar que ele, realmente, já está velho demais pra isso.

“Muito obrigado por nos receber, doutor Snodgrass. Prometo ser breve.”

“Me chame de James. Desejam algo, um chá, talvez?”

“Não queremos incomodar. Tempo ruim, não? É preciso uma canoa para atravessar as poças nas ruas.”

“Vá logo ao ponto, monsieur Dupin. Em que posso lhe ajudar?”

“Percebo que o senhor é um homem direto. Como relatei na carta que precedeu minha visita, fui designado por um conhecido do senhor Edgar Allan Poe para esclarecer algumas circunstâncias sobre sua prematura partida, no último dia 7 de outubro. A morte de nosso poeta trouxe consternação a muitas pessoas.”

“Que conhecido?”

“Temo que não possa lhe dizer. Apenas adianto que é um conterrâneo meu e legítimo apreciador de Poe.”

“Edgar era conhecido na França por algumas de suas publicações, mas não creio que tenha despertado tamanha admiração. Poderia entender se fosse algum familiar em busca de notícias, mas não acredito que ele tivesse qualquer parente próximo em alguma parte da Europa. Não compreendo porque alguém mandaria um investigador aqui para esclarecer coisa alguma.”

“Não me considero um investigador, doutor, e tampouco o sou. Estou apenas fazendo um favor.”

“E essa carta de recomendação, assinada pela polícia parisiense?”

“Apenas para prever alguma eventualidade.”

O doutor se afunda em sua poltrona, apoiando a mão no queixo. Como Charles orientou, eu não falo nada, apenas desvio o olhar de um para o outro durante a conversa.

“Presumo então que Edgar tenho adotado o nome de seu famoso personagem em homenagem à sua pessoa, monsieur. Seu amigo deve ter falado muito de você para ele. É tão esperto e intrépido quanto seu irmão de ficção?”

“Creio que Poe adotou somente o sobrenome e investou o resto, sem qualquer fundamento em minha pessoa. Sou apenas um velho, que sempre viveu tranquilo e cansado.”

“Por ser um velho, aparentemente inofensivo, é que eu me permito recebê-lo em minha casa, Dupin. Também espero que essa jovem ao seu lado não faça parte de alguma tramóia perpretada por desafetos de Edgar. Meu amigo estava sempre envolvido em dívidas e jogos e não me surpreenderia se, mesmo após sua morte, alguém quisesse dar um último troco.”

“Garanto que minhas intenções e as de minha sobrinha são as melhores possíveis, doutor. Apenas recebi a missão de esclarecer o que aconteceu naqueles últimos dias e levar um pouco de conforto para alguém que nutre grande carinho pelo nosso poeta.”

O doutor Snodgrass se levanta e abre com uma pequena chave uma das gavetas da mesa. Impaciente, vasculha os papéis até que, aparentemente consternado, traz para junto de si o que parece ser uma carta. Senta novamente na poltrona, em silêncio, parecendo hesitar em mostrar ou não o conteúdo a Charles.

“O que você quer saber pode ser encontrado em qualquer jornal daqui, Dupin. Algum que seja sério, é claro. As especulações renderam muitas páginas ao longo daqueles dias. Muitas delas, infames.”

“E nenhuma que deixe claro as circunstâncias em que ocorreram a morte de Poe, não estou certo?”

“Não se deixe iludir. Não há mistério algum a ser solucionado. Desde a morte de Virginia, Edgar se entregou a uma vida errante, de excessos. A depressão e a consternação eram visíveis em seu rosto, cada vez que nos encontrávamos. No outono passado, ele chegou a ingerir uma grande quantidade de láudano, o que quase o levou a morte. Ficou dias com o rosto paralisado. Sim, eu me lembro e me entristeço cada vez que recordo o triste fim anunciado de meu amigo. Tentei várias vezes convencê-lo a largar a bebida e o ópio, mas Edgar era irredutível. Era óbvio que chegaria um ponto em que seu organismo não aguentaria tanta provação. Como médico, foi o que eu vi naquele dia em que o encontrei e nos seguintes. Já havia visto os olhos vidrados e compartilhado dos delírios de muitos homens condenados pela álcool, no hospital onde atuo, aqui em Baltimore. Não havia nada a fazer. A angústia havia vencido a luta contra meu amigo.”

“Como o senhor o encontrou, doutor?”

“Um homem me mandou uma carta. Um tal Walker, que não cheguei a ver ou conversar posteriormente. É essa carta que tenho em mãos. Imagine minha tristeza ao receber tal aviso.”

O doutor repassa a carta para Charles, que lê em voz alta, para que todos possamos ouvir.

“Vejamos. Há um cavalheiro, um tanto decomposto nas vestimentas, na Rua Ward Polls, dizendo atender pelo nome Edgar A. Poe, que parece estar muito atormentado e diz ter conhecimento com o senhor, e eu asseguro que ele precisa de assistência urgente. Assinado, Walker. Rua Ward Polls, onde é isso?”

“Ao sul da estação de trem, logo após o mercado público. É um antro de sujeira e promiscuidade. A taberna onde ele estava, desmaiado, era reduto dos mais vis homens. Não encontrei valor nenhum com ele, provavelmente, porque já haviam retirado dele qualquer objeto de valor que possuía. Chamei um policial amigo meu para me acompanhar. Não tive coragem de entrar sozinho naquele lugar.”

“Não encontrou lá o tal Walker?”

“Não, como já lhe disse. E, se posso prever o que se passa em sua cabeça, Dupin, adianto: fique longe daquele lugar. E não ouse levar sua jovem sobrinha junto.”

“Não se preocupe, doutor. Eu não cheguei a essa idade sem saber me cuidar. Poe não relatou o que havia acontecido com ele para chegar a tal ponto?”

Snodgrass abaixa a cabeça, tampando os olhos com uma das mãos.

“Ah, meu senhor, meu amigo sequer conseguia falar algo compreensível. Mesmo com a medicação, continuava delirando. Até hoje lembro da sua voz em meu ouvido, puxando as golas de minha camisa, fazendo com que eu me abaixasse para ouvir  aquele nome, balbuciado com dificuldade…”

“Que nome?”

Reynolds. Seria impossível eu esquecer. Perdi a conta de quantas vezes ele chamou por tal pessoa. Pensei em correr em busca de algum parente com tal nome, mas, dadas as circunstâncias, logo cheguei à conclusão que era somente mais um fruto de seu delírio, um nome sem lógica.”

Após essa última declaração, eu toco inconscientemente na mão de Charles, repousada sobre o divã, e sinto ela fria como gelo. Ele está branco e não sou a única a perceber. Snodgrass se lança em nossa direção, ajoelhando-se à frente de Charles.

“O que houve, Dupin? Você está pálido! Viu algum fantasma, homem?”

Charles balança a cabeça, como se retornasse de algum transe. Sorri, tocando no ombro do doutor e apóia-se em mim para se levantar.

“Ah, uma breve indisposição, doutor. Acontece com homens antigos como eu. Nada de mais. Um pouco de ar fresco irá me fazer bem.”

“Não recomendo que saia nesse estado. Aposto que sua sobrinha concorda comigo.”

“Agradeço a preocupação, mas já estou bem melhor. E não quero mais incomodá-lo. Sua atenção foi de grande valia, doutor.”

Charles avança em direção à saída, levando-me a tiracolo. Eu apenas dou de ombros para o doutor e o acompanho pela sala. Em silêncio, Snodgrass abre a porta, as sombrancelhas abaixadas, em sinal de dúvida. Antes que Charles comece a descer os degraus, o doutor interrompe, tocando em seu ombro.

“Quem é Reynolds, Dupin? Ou seja lá qual for o seu nome verdadeiro…”

“Ninguém, doutor, ninguém.”

Charles vira o rosto e avançamos pela calçada, abraçados embaixo da sombrinha. Eu o questiono, perguntando se está tudo bem, mas ele não responde. Permanece calado até chegarmos ao hotel.

 

“Venha tomar um banho comigo, meu querido. Irá lhe fazer bem.”

“Não tenho tempo, Anabelle. Preciso sair, agora mesmo.”

“Não seja rabugento, homem. Olhe esse tempo aí fora. Foi uma longa caminhada. Vamos descansar um pouco pelo menos.”

“Eu vou sozinho, meu anjo.”

“Nada disso, Charles.”

“Não me espere para o jantar, querida. E não fique aflita, estarei bem.”

“Não me diga que você vai até aquele lugar. Não pense em…”

Ouço apenas a porta batendo no quarto. Saio do banheiro e vejo que estou sozinha. Pobre Charles.

 

Acordo no meio da noite nos braços de um homem do qual não lembro o nome. Perco alguns segundos até lembrar-me onde estou. Deslizo para fora da cama, tentando não fazer barulho. Recolho minhas roupas no chão, me visto e saio do quarto. Não encontro viva alma nos corredores do hotel. Subo dois andares e entro no aposento de Charles. Vazio.

 

As batidas na porta me despertam. Os raios de sol – sol, até que enfim! – entram pelas frestas da cortina, iluminando o quarto. Um dos garotos do hotel engasga ao me ver em trajes íntimos, mas recompõe-se a tempo de avisar que Charles está à minha espera no restaurante. Só então percebo que ele ainda não havia retornado.

Encontro Charles sentado à mesa, devorando alguns pães. Ele me vê e faz uma mesura, indicando-me à cadeira à frente.

“Está radiante nesta manhã, bela Anabelle. Presumo que a noite, mais uma vez, foi ótima.”

“Como de praxe. Fiquei preocupada. E a sua noite, como foi?”

“Walker está morto. Ele chegou a me reconhecer, mas não teve chance de revidar.”

“Mais alguém?”

“Aqueles bêbados estúpidos não oferecem perigo. O doutor também não. Não mais.”

“Você disse que o veneno ia matar ele instantaneamente.”

“Deveria. Mas provavelmente o organismo daquele maldito escritor beberrão estava tão acostumado a substâncias degradantes que uma dose não foi o suficiente. Prepare as malas. Partiremos hoje ao meio-dia. Não podemos correr o risco de sermos descobertos.”

“Deus seja louvado. Assim, pelo menos você pode parar de usar esse nome ridículo, monsieur Dupin.”

“Eu não resisti. Vamos, tome o seu chá antes que esfrie, senhora Reynolds.”