Usando o olho bom que lhe restava, o homem observou a pequena construção de concreto à sua frente. Tentou contar os metros que o separavam do galpão e, em silêncio, encostou a orelha na fresta, procurando o som do vento, do sol crepitando sobre as pedras, dos ratos abrindo caminho entre o fétido mar de lixo no pavimento, driblando os postes. Nada.
Arriscado demais.
Ficou ali por mais algumas horas, protegido dos raios de luz e do calor, esperando. Apenas esperando.
Anoiteceu.
Agora, ele mal conseguia enxergar a construção, mas sabia que ela estava lá. As paredes nuas formando um retângulo rente à rua, o esquelo armado de um dinossauro desenterrado. Resquícios. O quê estava lá? Tentou ouvir algo de novo, mas só escutou o barulho tímido e descompassado da sua respiração contra a madeira. Voltou-se para o quarto escuro e tateou o chão úmido em busca da barra de metal. Encontrou o pé-de-cabra improvisado a alguns metros à sua direita e, com a ponta achatada, pressionou as tábuas para o lado de dentro do quarto, até que os pregos fossem lançados para trás. Não era uma tarefa fácil. Há algum tempo – tempo, quanto tempo?-, alguém tinha se esforçado muito para manter aquela janela fechada, uma abertura para um mundo que não se reconhecia mais como tal.
Teve que parar um pouco para descansar os braços e pensou que devia estar mesmo desesperado para continuar com aquilo. Era o caso.
Momentos depois, antes de retirar a última tábua, hesitou. Um ínfimo rastro de luz atravessou o quarto, vindo do farol alquebrado da embarcação que navegava pelo céu lá acima, abrindo passagem na noite. Lançou-se contra a parede, as costas fixas no concreto. Dali, olhou para a abertura do buraco cavado nos fundos do aposento e, então, percebeu como estava sendo descuidado. Não podia deixar rastro nenhum, caso não voltasse. O Povo estava a centenas de metros de distância, não seguro – naqueles dias, ninguém poderia estar – mas, mesmo assim, poderia ser encontrado. Pegou as mesmas tábuas que havia retirado da janela e cobriu o buraco. Era quase nada, mas esse nada já o confortava.
Abaixou-se sobre a janela e, com o olho bom que lhe restava, olhou para fora.
Silêncio.
Lançou-se pela abertura, desajeitado, apressado. O cheiro do lixo inundou suas narinas, um cheiro misturado – agora podia sentir – com um cataclisma de sangue, suor e óleo diesel. Há quanto tempo não sentia esse cheiro? Há quanto tempo não deixava os túneis e cavernas embaixo da terra? Caminhou em direção a onde achava que estaria a construção, a passos largos, as duas mãos lançadas à frente do corpo, como se tateasse o ar. Achou até que poderia mesmo, de tão concreto e pesado era aquele cheiro que o invadia, vindo de todo lugar, de lugar algum.
Tropeçou nos restos espalhados pela rua, uma, duas, três, quatro vezes. Cada contato brusco parecia um estrondo, tamanho o silêncio ao redor, tamanho o pavor que o envolvia. Sabia – ou ouvia de outras boca do Povo – que, naqueles últimos tempos, Eles dificilmente desciam. Mas, mesmo passado tanto tempo, qualquer um do Povo ainda sabia muito pouco – quase nada – sobre Eles.
Por isso, Eles não tinham nome.
Caiu de corpo inteiro ao tropeçar no meio-fio. Ali, ainda no chão, conseguiu distinguir o vulto da construção, a poucos metros. Levantou-se num pulo e chegou até a grande porta.
Fechada.
Percorreu o galpão, sempre deixando uma das mãos encostadas na parede. O lugar parecia imenso. Outra porta, dessa vez, uma pequena, daquelas que costumavam ilustrar, antigamente, a entrada das casas. Sentiu a madeira quase podre oscilar para dentro quando a empurrou com o ombro, num baque surdo. Deu alguns passos para trás e impulsionou-se novamente contra a porta. Ela quebrou com facilidades, algumas farpas voando soltas para dentro e para fora.
O barulho da madeira rachando o fez fechar os olhos e implorar para um deus que há muito tempo já tinha morrido.
Agora, outro cheiro o afligia. Com a visão comprometida, seus demais sentidos haviam se destacado, assim como acontecera com muitos do Povo, que aprenderam a, acima de tudo, tatear e cheirar. Ele reconhecia aquele cheiro. Seu estômago torceu-se em convulsão, como se validasse aquela sua primeira impressão.
Estava mais escuro ali dentro do que lá fora. Agora, com calma, percorreu o galpão, as mãos, como sempre, lançadas à frente. Dessa vez não havia corredores, labirintos, salas, quartos – ou o que poderiam ser salas, quartos. O lugar devia ter sido um depósito. Restara algo? Tinha que restar. Havia caixas de papelão jogados pelo chão, todas vazias ou contendo ninhos de ratos com o que sobrara dos animais, carcaças de pelos vazias, os olhos há muito comidos pelas formigas ou baratas.
Então, como num milagre, ele encontrou.
Seus joelhos bateram na caixa e ele caiu por cima dela, as mãos impedindo que caísse de rosto no chão. Estava lacrada. Era dali que vinha o cheiro. Tateou para sentir o objeto, o pequeno tesouro. Empurrou com as mãos para sentir o peso. Cheia. Mesmo na sua condição, podia carregá-la. Ia demorar para conseguir retornar até a casa, o buraco de onde saíra, mas valeria o risco.
Praguejou por ter esquecido o pé de cabra e não ter trazido sequer uma faca. Queria ter certeza do que estava carregando. Abaixou as pernas, sentindo os joelhos rangerem, e pegou a caixa nos braços. Pesada. Quase o peso de uma criança do Povo. Virou-se e caminhou, arrastando os pés, em direção à porta, o umbral que conseguia divisar em meio à escuridão.
O cheiro que vinha da caixa era quase inebriante e a saliva tentava afogá-lo em sua boca. Chegou até a porta. Dobrou, encostando um dos pés na parede, do lado de fora, para conseguir se localizar. Seu corpo oscilava, os músculos dos braços e das costas rijos, a dor saindo de seus poros com o suor. Na escuridão, visualizou o Povo junto dele, em farta comemoração, agradecendo, descendo a seus pés. Um milagre.
Chegou em frente ao galpão.
Não restava mais nada.
Sim. Era isso. Não restou mais nada, pensou.
Não restava mais nada.
A casa de onde surgira havia desaparecido. O que poderia se passar por calçada, rua, os postes, tudo havia sumido. Nenhuma construção, fora o galpão, em um raio de quilômetros.
Súbito, a luz se fez.
Uma armadilha.
Com o olho bom que lhe restava, viu o buraco aberto de onde outrora havia saído, as tábuas jogadas ao longe. Ao redor um descampado. Acima dele, a embarcação de metal, silenciosa, em discreta observação, um leve zunido percorrendo sua extensão quilométrica, como o roncar de um estômago recém saciado – tão perto, tão perto.
Eles haviam descido.
E, assim, com as mãos já no chão, tocando apenas a terra, o pó, o nada, o homem enfim reconheceu que não haveria mais salvação alguma.