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Archive for the ‘Fim dos Dias’ Category

Mesmo com um duelista a menos, já está aberta a votação para você escolher o melhor texto desta rodada.

Leia os textos e comente neste tópico de votação, dizendo qual você mais gostou.

O prazo de votação vai até o dia 10 de fevereiro (isso se o mundo não acabar antes).

Feb
7
Os primeiros

Manhã veranil, o calor atrai os mosquitos, que atacam a pele de Giacomo. O suor se acumula na nuca do jovem, que pesca sentado às margens da baía. O sol castiga sua pele morena, fazendo arder ombros e as costas das mãos. A temperatura ultrapassa o aceitável, e Giacomo enrola um pano ao redor do caniço de haste metálica. Leva a garrafa junto aos lábios, já duvidando de que tenha sido uma boa ideia sair para pescar num dia tão quente.

O pescador troca as iscas e lança novamente a linha ao mar. Poucos minutos se passam até que algo apareça na superfície a alguns metros de distância. Um peixe de porte mediano bóia de barriga para cima. Giacomo enxuga o suor da testa e solta um palavrão, ao perceber que nem mesmo os peixes estão aguentando o calor exagerado. Quando levanta-se para arrumar o material de pesca, se detém por um instante com os olhos fixos na água em movimento.

Giacomo solta a vara de pesca no chão e leva as mãos à cabeça. Ao seu redor, centenas de milhares de peixes surgem na superfície.

***

- Mamãe, mamãe!
- O que foi, Ariel?
- A lagoa mamãe, a lagoa.
- O que tem a lagoa, filha?
- Tá vermelha, mamãe!
- Vermelha? Tá bom, filha, tá bom. Vai se lavar que logo a mamãe vai ver isso.
- Mas mamãe…

A pequena Ariel nem mesmo teve tempo para conquistar novamente a atenção de sua mãe, que lavava os lençóis no pequeno galpão nos fundos da casa no subúrbio. Antes mesmo que ela pudesse terminar a frase, foi interrompida pelo grito de pavor que sua mãe soltou ao virar-se novamente para o tanque. Os lençóis brancos estavam submerso em sangue rubro e espesso, que já impregnava as mãos da dona de casa e corria com velocidade da torneira.

Nos segundos seguintes, os gritos ecoaram por cada uma das casa da vila.

***

“Doutora Roberta, favor comparecer à enfermaria. Doutora Roberta, favor comparecer à enfermaria”.  Os passos de Roberta ecoavam por causa do sapato fechado, de salto baixo, nos corredores do hospital. “Eu já devia estar em casa a essa hora”, repetia para si mesma, já vestida nas suas roupas do dia-a-dia. Um chamado no final da noite de sábado era o que ela menos precisava para encerrar o seu já prolongado turno de trabalho.

- Doutora, acho melhor você se preparar, temos três ambulâncias a caminho.
- Não há quem possa atender essas pessoas? Eu já me troquei, estou aqui há 14h.
- Doutora, você não entendeu. As ambulâncias estão cheias.
- Cheias, como…?

As portas do Hospital se abrem com o grito dos socorristas, que trazem os pacientes apoiados nos ombros, em macas, cadeiras de rodas, e até no colo. São mais de 40 pessoas com chagas terríveis espalhadas pelo rosto e braços. A maioria grita e arranha os olhos com força.

- Meu Deus, o que é isso?
- Chuva ácida, veio do nada. Temos mais cinco ambulâncias a caminho.

***

Wong Lii acorda como usual, desliga o despertador ainda sonolento e caminha em direção ao banheiro. Abre o chuveiro e escova os dentes enquanto o vapor enche o recinto. O suor escorre das paredes e espelho, e ele para por alguns segundos sem ação, embaixo da água quente. O dia de Wong Lii é tomado pela rotina. Exatamente à 6h50min seu relógio desperta, e ele logo está embaixo do chuveiro. São cerca de 20 minutos para banhar-se e preparar o café com ovos que toma todas as manhãs. Veste-se, separa o material das aulas e coloca dentro da pasta, junto com o notebook. Alonga-se todas as manhãs por pouco mais de dois minutos na sacada do prédio, recebendo no rosto a luz do sol que recém nasceu, beija o retrato da falecida esposa e vai para a faculdade.

Nesta manhã, porém, algo fugiu da rotina de Wong Lii. Parado em pé, na varanda, o professor da Universidade de Tóquio olha fixamente para o sol nascente. Ou melhor, para onde deveria estar o sol nascente. Atordoado, bate com o dedo indicador no vidro do relógio de pulso. O sol deveria estar ali há vários e vários minutos. Pelas ruas e janelas de Tóquio, olhares atônitos fitam a escuridão.

***

Nós destruímos o mundo, você sabe. Foram milhares de avisos, incansáveis pesquisas, alertas atrás de alertas. Mas simplesmente nada mudou. O aquecimento da Terra foi citado como piada por muitos, e mesmo os que acreditavam, não queriam largar o conforto de seus carros e indústrias. O mundo não poderia suportar a doença que o atingia diretamente no coração: os seres humanos. A raça humana é uma praga que atinge o sangue deste planeta de geração em geração. Por muitas vezes tentamos alertar o mundo, por muitas vezes fomos ignorados. Ele veio pessoalmente conversar com sua cria, e foi ignorado. Não houve nada que pudesse ser feito para que a raça humana parasse por ao menos um minuto para pensar no que estava fazendo. Por isso, Ele não teve muita escolha. E é por isso que estamos aqui.

- E os carros, e as pessoas? E as nossas roupas?
- Nada disso nos pertence mais, Eva. Agora somos só eu e você. Recomeçando o mundo da nossa maneira.

Feb
5
Eles

Usando o olho bom que lhe restava, o homem observou a pequena construção de concreto à sua frente. Tentou contar os metros que o separavam do galpão e, em silêncio, encostou a orelha na fresta, procurando o som do vento, do sol crepitando sobre as pedras, dos ratos abrindo caminho entre o fétido mar de lixo no pavimento, driblando os postes. Nada.

Arriscado demais.

Ficou ali por mais algumas horas, protegido dos raios de luz e do calor, esperando. Apenas esperando.

Anoiteceu.

Agora, ele mal conseguia enxergar a construção, mas sabia que ela estava lá. As paredes nuas formando um retângulo rente à rua, o esquelo armado de um dinossauro desenterrado. Resquícios. O quê estava lá? Tentou ouvir algo de novo, mas só escutou o barulho tímido e descompassado da sua respiração contra a madeira. Voltou-se para o quarto escuro e tateou o chão úmido em busca da barra de metal. Encontrou o pé-de-cabra improvisado a alguns metros à sua direita e, com a ponta achatada, pressionou as tábuas para o lado de dentro do quarto, até que os pregos fossem lançados para trás. Não era uma tarefa fácil. Há algum tempo – tempo, quanto tempo?-, alguém tinha se esforçado muito para manter aquela janela fechada, uma abertura para um mundo que não se reconhecia mais como tal.

Teve que parar um pouco para descansar os braços e pensou que devia estar mesmo desesperado para continuar com aquilo. Era o caso.

Momentos depois, antes de retirar a última tábua, hesitou. Um ínfimo rastro de luz atravessou o quarto, vindo do farol alquebrado da embarcação que navegava pelo céu lá acima, abrindo passagem na noite. Lançou-se contra a parede, as costas fixas no concreto. Dali, olhou para a abertura do buraco cavado nos fundos do aposento e, então, percebeu como estava sendo descuidado. Não podia deixar rastro nenhum, caso não voltasse. O Povo estava a centenas de metros de distância, não seguro – naqueles dias, ninguém poderia estar – mas, mesmo assim, poderia ser encontrado. Pegou as mesmas tábuas que havia retirado da janela e cobriu o buraco. Era quase nada, mas esse nada já o confortava.

Abaixou-se sobre a janela e, com o olho bom que lhe restava, olhou para fora.

Silêncio.

Lançou-se pela abertura, desajeitado, apressado. O cheiro do lixo inundou suas narinas, um cheiro misturado – agora podia sentir – com um cataclisma de sangue, suor e óleo diesel. Há quanto tempo não sentia esse cheiro? Há quanto tempo não deixava os túneis e cavernas embaixo da terra? Caminhou em direção a onde achava que estaria a construção, a passos largos, as duas mãos lançadas à frente do corpo, como se tateasse o ar. Achou até que poderia mesmo, de tão concreto e pesado era aquele cheiro que o invadia, vindo de todo lugar, de lugar algum.

Tropeçou nos restos espalhados pela rua, uma, duas, três, quatro vezes. Cada contato brusco parecia um estrondo, tamanho o silêncio ao redor, tamanho o pavor que o envolvia. Sabia – ou ouvia de outras boca do Povo – que, naqueles últimos tempos, Eles dificilmente desciam. Mas, mesmo passado tanto tempo, qualquer um do Povo ainda sabia muito pouco – quase nada – sobre Eles.

Por isso, Eles não tinham nome.

Caiu de corpo inteiro ao tropeçar no meio-fio. Ali, ainda no chão, conseguiu distinguir o vulto da construção, a poucos metros. Levantou-se num pulo e chegou até a grande porta.

Fechada.

Percorreu o galpão, sempre deixando uma das mãos encostadas na parede. O lugar parecia imenso. Outra porta, dessa vez, uma pequena, daquelas que costumavam ilustrar, antigamente, a entrada das casas. Sentiu a madeira quase podre oscilar para dentro quando a empurrou com o ombro, num baque surdo. Deu alguns passos para trás e impulsionou-se novamente contra a porta. Ela quebrou com facilidades, algumas farpas voando soltas para dentro e para fora.

O barulho da madeira rachando o fez fechar os olhos e implorar para um deus que há muito tempo já tinha morrido.

Agora, outro cheiro o afligia. Com a visão comprometida, seus demais sentidos haviam se destacado, assim como acontecera com muitos do Povo, que aprenderam a, acima de tudo, tatear e cheirar. Ele reconhecia aquele cheiro. Seu estômago torceu-se em convulsão, como se validasse aquela sua primeira impressão.

Estava mais escuro ali dentro do que lá fora. Agora, com calma, percorreu o galpão, as mãos, como sempre, lançadas à frente. Dessa vez não havia corredores, labirintos, salas, quartos – ou o que poderiam ser salas, quartos. O lugar devia ter sido um depósito. Restara algo? Tinha que restar. Havia caixas de papelão jogados pelo chão, todas vazias ou contendo ninhos de ratos com o que sobrara dos animais, carcaças de pelos vazias, os olhos há muito comidos pelas formigas ou baratas.

Então, como num milagre, ele encontrou.

Seus joelhos bateram na caixa e ele caiu por cima dela, as mãos impedindo que caísse de rosto no chão. Estava lacrada. Era dali que vinha o cheiro. Tateou para sentir o objeto, o pequeno tesouro. Empurrou com as mãos para sentir o peso. Cheia. Mesmo na sua condição, podia carregá-la. Ia demorar para conseguir retornar até a casa, o buraco de onde saíra, mas valeria o risco.

Praguejou por ter esquecido o pé de cabra e não ter trazido sequer uma faca. Queria ter certeza do que estava carregando. Abaixou as pernas, sentindo os joelhos rangerem, e pegou a caixa nos braços. Pesada. Quase o peso de uma criança do Povo. Virou-se e caminhou, arrastando os pés, em direção à porta, o umbral que conseguia divisar em meio à escuridão.

O cheiro que vinha da caixa era quase inebriante e a saliva tentava afogá-lo em sua boca. Chegou até a porta. Dobrou, encostando um dos pés na parede, do lado de fora, para conseguir se localizar. Seu corpo oscilava, os músculos dos braços e das costas rijos, a dor saindo de seus poros com o suor. Na escuridão, visualizou o Povo junto dele, em farta comemoração, agradecendo, descendo a seus pés. Um milagre.

Chegou em frente ao galpão.

Não restava mais nada.

Sim. Era isso. Não restou mais nada, pensou.

Não restava mais nada.

A casa de onde surgira havia desaparecido. O que poderia se passar por calçada, rua, os postes, tudo havia sumido. Nenhuma construção, fora o galpão, em um raio de quilômetros.

Súbito, a luz se fez.

Uma armadilha.

Com o olho bom que lhe restava, viu o buraco aberto de onde outrora havia saído, as tábuas jogadas ao longe. Ao redor um descampado. Acima dele, a embarcação de metal, silenciosa, em discreta observação, um leve zunido percorrendo sua extensão quilométrica, como o roncar de um estômago recém saciado – tão perto, tão perto.

Eles haviam descido.

E, assim, com as mãos já no chão, tocando apenas a terra, o pó, o nada, o homem enfim reconheceu que não haveria mais salvação alguma.

Quis a fortuna que optasse eu por passar meus últimos dias à beiramar. Não deve demorar agora, mas não há do que se arrepender e contento-me com a ideia de ter podido acompanhar estes últimos eventos. Se fosse de outra forma, creio, não faria muita diferença. Muito menos para mim. E aquilo foi a coisa mais assombrosa que vi. Você certamente não verá. Porque você provavelmente nunca vai existir para ler esta carta, seja lá que for você. Eu sou a última geração.

Acordei cedo naquele dia, como de costume. Tomei o desjejum e saí para caminhar na areia. Naquele dia vi o primeiro sinal. A areia ainda tinha a marca molhada da maré, que agora estava lá embaixo. Bem lá embaixo. Contei cinco barcos pesqueiros pequenos na areia, deitados de lado, quilhas à mostra. Mais alguns encalhados na maré baixa, mastros inclinados balançando quando as marolas estouravam sob os cascos quase completamente aparentes. Os pescadores reunidos em grupos tentando retornar os barcos à água ou imaginar o que havia acontecido. Aproximei-me aos barcos, as âncoras expostas atiradas na areia, e fiquei vendo o mar com os pescadores. A maré nunca esteve tão baixa. Caminhei até a espuma branca e deixei que lambesse fraca meus pés. Virando-me pude ver a sacada do meu apartamento de frente para o mar. A faixa de areia que nos separava estava com o dobro do comprimento habitual.

Lembrei da única história que já ouvira em que a maré havia recuado tanto do dia para a noite. Nesse caso, da noite para o dia. Olhei fixo no mar, além da rebentação, em busca de algum sinal, mas as vagas pareciam querer se retirar escondendo um segredo. Lembrei das polinésias, do Pacífico, daquelas cenas que abalaram o mundo em telejornais aproveitadores. Devo ter deixado escapar a palavra por entre os lábios numa expiração: “tsunami”. Olhei em volta. Dois pescadores me olharam com dúvida. Já havia juntado bastante gente para ver o mar. Aposentados, patricinhas, atletas, velhos de pulmões condenados que tossiam sangue antes de ir caminhar na areia. Por um momento, juro, pensei em não avisar. Deixar que viesse, aguardar a chegada no meio de toda aquela gente. Mas logo vi um casal de uns trinta e tantos, quarenta anos, discutindo a possibilidade. Eles perceberam que eu os olhava. A vantagem de ter poucos mas alvos cabelos à cabeça e muitas e profundas rugas à cara é que, se você consegue evitar uma aparência senil-babona, as pessoas acreditam que o você tem a dizer tem realmente alguma valia. Fiz cara de sábio pra justificar as expectativas deles e confirmei as suspeitas que levantavam. Acrescentei: “Para a maré já ter recuado tanto, já deve estar a caminho”. Depois de alguns segundos de choque, os gritos de tsunami correram a praia. Um pequeno grupo se organizou para evacuar o local e avisar os moradores próximos enquanto o restante correu em pânico para longe do mar. Mas se você tossisse sangue pela manhã e sua melhor perspectiva fosse uma cama de hospital, você também não teria tanta pressa.

Logo estava praticamente só na praia, a marola me tocando os dedos dos pés prenunciando o que estava por vir. Além de mim, apenas dois teimosos e ignorantes pescadores ainda mexendo nos barcos e um outro terceiro, tão teimoso quanto eles, tão velho quanto eu. Olhou-me com o que pensei ser cumplicidade — mas já não tenho tanta certeza — e ficamos, distantes um do outro, olhando o mar. Passou muito tempo. As ondinhas débeis já perdiam força a alguns centímetros de meus pés, nem os tocando. Depois de um tempo o velho acendeu um cigarro e saiu caminhando ao longo da faixa de areia, sem pressa. Quando deu dez horas mais ou menos os homens já tinham conseguido fazer os barcos ao mar. As vagas pareciam as mesmas de sempre, apenas mais distantes. Retornei ao apartamento perdido em pensamentos.

Preparei um almoço rápido e fui à sacada olhar as ondas ao longe, de cima. Apenas uma infinita planície verde espumante. Um ou outro barco percorrendo-lhe as trilhas atrás dos cardumes. Ao chegar da noite, os barcos que tinham os cascos levemente banhos por águas rasas já estavam completamente deitados na areia praticamente seca. As âncoras paradas no mesmo lugar. A dúvida dormiu comigo aquela noite.

Acordei mais cedo do que de costume. Mal percebi-me desperto, corri à sacada. Do meu apartamento se estendia uma enorme faixa de areia. Quatro ou cinco vezes maior do que havia na véspera. Quase duas dezenas de barcos estavam pousados na areia, distantes da água, qual uma carçassa ressequida. Na extensa praia, uma pequena multidão de pescadores e curiosos tentava decifrar o fenômeno. Desci à praia e fui ao mar afastado. Devo ter levado uns dez minutos até sentir a água fria nos pés. Com as mãos em concha capturei um pouco do líquido. Passei provei o gosto, lavei o rosto. Olhei para o apartamento, já pequeno. Olhei de volta para o mar, infinito como sempre. Agora mais do que nunca, um mar de dúvidas. A praia, cheia de indagações, com nenhuma solução ou conclusão. Na areia algumas poucas estrelas do mar, ouriços em pequeno número, aqui e ali. Uma rede de pesca estendida no seco com uns poucos peixes apanhados. Não demorou uma hora para que começassem a aparecer as câmeras, os microfones, as autoridades. Especulações.

Tomei o meu café na sacada, olhando o mar lá longe e a praia cheia. A tevê ligada na sala trazia especialistas e charlatões tentando analisar ou aparecer. Todos com o mesmo sucesso nulo em descobrir uma explicação. Fui buscar mais uma xícara quando vi na TV a imagem de uma enorme vala sobre a qual passava uma ponte cheia de gente. No fundo da vala um lodo lamacento e um fio de apenas dois palmos de largura, de água. Era a ponte que cruzava o rio que dividia a cidade do município vizinho. As estações de tratamento já não estavam sendo abastecidas. Poucos córregos e rios ainda tinha água suficiente para encher os tanques. O mar havia se recolhido em toda a costa. A água estava desaparecendo. E não como uma força de expressão ou papo de ambientalista. Ela estava, de fato e simplesmente, desaparecendo.

Fui ao mercado para descobrir que não fui o único que teve a ideia. Consegui levar apenas algumas garrafas entre uma turba em busca de água para estocagem. Na fila e na confusão ouvi que os outros afluentes do rio também estavam secando. Nas cidades vizinhas o mesmo acontecia em rios diferentes. Voltando para casa vi um grupo de cinco homens enchendo garrafões na fonte em frente à prefeitura. Voltei para casa, abri as torneiras e enchi baldes e panelas. Na TV, praias do mundo inteiro recuando. Rios desaparecendo. Lagos virando crateras. Não demorou muito e o mundo todo estava secando como seu um ralo tivessesido destapado.

Agora já faz bastante tempo. Mais de duas semanas. Do lado de fora do meu apartamento um grande deserto de areia se estende até o horizonte. Dezenas de barcos no meio da areia seca. Fora de vista, centenas, milhares. Alguns dos pescadores resolveram seguir o mar onde o mar fosse. Fizeram os barcos à água e ficaram sempre em águas rasas, próximas da costa. A medida que o mar recuava, eles avançavam. Hoje não sei onde estão. Na TV vi o Everest coberto de pedra. O gelo havia sumido. Os alpes andinos com estações de esqui sobre montanhas castanhas. As plantas, claro, começaram a morrer. Toda a cadeia alimentar logo começou a desmoronar. Fernando de Noronha tornou-se uma montanha. Gibraltar já podia ser cruzado a pé, como vários outros pontos. Imigrantes ilegais começaram a simplesmente andar a outros países. Em busca de água ou de um sonho inútil. O Mar Vermelho foi novamente atravessado. As religiões, não é preciso dizer, foram todas à loucura. O Mar Morto virou uma enorme cratera de sal. Os pólos praticamente sumiram e toda a confusão que os cientistas previram quando isso acontecesse, na maior parte aconteceu. Frio, calor, era glacial. Tudo está começando. Hoje, parece, poucos são os lugares que ainda tem alguma água, mesmo que salgada e não potável. Equipamentos para tornar o líquido potável trabalham sem parar. Pela manhã uma reportagem acompanhava um homem de jipe a caminho da África. Foi barrado por uma cadeira de montanhas, mas ao que tudo indica, se não fosse por isso até poderia ter conseguido. O maior reservatório de água que resta são as Fossas Marianas, guardadas pelo governo americano sob supervisão da ONU. Mostraram uma foto de satélite. A Terra vista do espaço está marrom. Entre os continentes, enormes desfiladeiros. Os rios quase todos se foram. O Brasil ainda guarda o que resta do amazonas, agora só um fiorde inexpressivo. O Nilo parece que foi assumido pela União Européia. O Yang-Tzé está cercado, da forma possível, por tropas chinesas, mas oferece ainda menos esperanças, mesmo para a China. Agora não há nada mais o que fazer. A água que me resta cabe em uma garrafa. Deixo essa carta apenas para mim. Ninguém mais vai lê-la. Não haverá mais ninguém. Eu vou, pela última vez, em busca do mar. Parto a pé, pelas areias que se estendem do lado de fora do meu apartamento. Uma última marcha de um planeta que se vai. A última geração.

Feb
3
O guri.

O guri, às vezes, ficava de canto. E poderia aqui se fazer toda uma dissertação sobre os cuidados às crianças que os adultos e as pedagogas tanto insistem em repetir. À exaustão. E o guri ficava de canto, brincando. (Vale lembrar, para fins didáticos desse texto, que todos fomos deixados muitas vezes de canto assim como, exaustos de um dia cansativo de trabalho, deixaremos os nossos guris para não nos incomodarem ainda mais do que nós mesmos conseguimos nos incomodar). Se ficava em silêncio por muito tempo, vinha o pai à janela ver se aprontava ou se vivia — um salto do sofá, um espasmo!, cadê o guri?, a respiração tranqüila, tá ali brincando.

O guri se entretém com brinquedos variados e aos quais não temos acesso, nós, meros mortais. Este guri pertence a outra estirpe, por assim dizer. E vive sozinho com o pai e a mãe,  não tem irmãos. Então é o tédio. Um dia entrou no escritório do pai e viu brinquedo novo, vários brinquedos novos. Não eram brinquedos, mas o guri não pensou nisso ao levar um deles pro porão.

Nunca mais aprontou, o guri. Não respondia ao pai e à mãe, arrumava o quarto, nunca mais se trancou no banheiro com revista de mulher pelada. O lugar do guri era no porão. Foi pra lá que levou o brinquedo (não é brinquedo, guri, tu não sabes?) que roubou do pai. E agora brinca de dia e de noite, de dia e de noite. Acorda na madrugada, pesadelo!, desce as escadas sem fazer barulho e com um toco de vela ilumina o brinquedo.

Ninguém desce mesmo ao porão. Ninguém se lembra de lá.

Mas veio a hora da mudança, empacotar as coisas, arrumar as malas, encontrar o que há muito não se lembrava que existia — quem já fez mudança, sabe — e visitar todos os cômodos da casa, todos os cômodos da casa, TODOS! Inclusive o porão.

Vem o pai furioso, agarra o guri pelas orelhas, suspende o moleque do chão, atira-o à grama, o guri chora. A mãe tenta acudir (como os adultos e as pedagogas agora intuem fazer), mas o pai levanta a mão e diz não chega perto! A mãe pergunta o que houve, o pai agarra o moleque pelo cabelo, pega a mãe pelo braço, desce as escadas correndo, os pés do guri não tocam o chão, o porão, chega perto do brinquedo e grita:

— Olha o que a merda do teu filho fez!

A mãe, horrorizada, cai em prantos. O pai, desamparado, rende-se à tristeza, maldito moleque, repete, maldito moleque. O guri chora. A mãe tenta ampará-lo, mas não consegue completar o abraço, sente raiva, a coitada, e tem medo do guri.

Nessa noite, ninguém mais falou. E ninguém jantou.

E ninguém dormiu. Só o guri.

Passada a raiva, a manhã seguinte era de empacotar lembranças, raridades e lixo que se acumula. Mas era também a hora da conversa, da calma, o pai a pedir desculpas ao guri — a mãe ainda não consegue abraçá-lo — e chega o momento da conversa. E quando o pai pergunta

— Por que, Javé?

o guri dá de ombros.

O pai se encarregou de destruir o que o filho havia feito. À mãe, coube o papel de limpar toda a sujeira. Na Terra, os momentos finais foram de desespero. Depois, o silêncio e a paz reinaram sobre o nada.

Feb
1
Novo tema

Com um pouco de atraso, mas, antes tarde do que nunca, posto aqui o tema da próxima rodada.

Aproveitando a recente onda de especulações, discussões climáticas e produções cinematográficas, o tema é “Fim dos Dias“.

Ou Apocalipse, Armageddon, como preferirem. Claro que o tema não necessariamente precisa estar ligado à profecias bíblicas ou religiosas. Fiquem à vontade para imaginar os últimos dias da humanidade (que trágico isso) como quiserem.

Textos devem ser postados até o dia 6, sábado.

Boa produção!