Duelo de Escritores

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Archive for the ‘Traição’ Category

Não importa se autores de adultérios ou cornos de plantão: todo mundo tem direito de votar no Duelo. (E nem precisa dizer de que time você faz parte!)

Votos nesse tópico até o dia 28 de fevereiro. Um dia a menos de votação, então agilizando aí!

Feb
27
traição.

Eu procuro a porta como quem precisa desvendar um segredo, e a cada sombra que vejo se aproximando do chão é quase um crime contra a minha idoneidade física. Eu queria levantar e parar ao lado da porta, esperando que ela viesse. Volta e meia meu coração dá pulos, sobressaltos, e eu penso que ela está chegando. Eu que não acredito nessas coisas acho que deve ser coisa do destino isso de sentir quando ela está chegando.

Tem gente falando comigo e eu quero escutar. É um cara bacana, que fala de coisas legais. Presa atenção, psiu. Ei, olha ele falando que pode precisar dos seus serviços. Dinheiro, rapaz. Ela não vai chegar, calma.

E aí ela vem. E meu peito que eu vivia mandando parar de bater forte pára completamente e o vazio faz com que eu só queira que ele volte a bater e nada funciona porque ela chegou, e ela está linda, e ela é cada vez mais linda, e ela está chegando, e ela vai fingir nem me ver. E quando ela se aproxima, na mesa ao lado, meus olhos fixam nela e eu quero olhar pro outro lado, fingir que não estou nem aí. Respiro fundo pra tentar fazer meu peito parar querer me matar e percebo que parece que cada vez que penso que ele pode se acalmar sinto como se a cadeira fizesse um quase inaudível e completamente ensurdecedor “toc-toc-toc”.

Ela está falando! Escuta, escuta: é aquela voz suave, meio rouca. Ela está feliz. Está falando sorrindo. É bonito quando ela fala sorrindo. Pára, pára. Ela está chegando, ela está chegando.

Quando as mãos delas encostam despretensiosamente nas minhas costas, com um gesto simples, um quase cumprimento, meu corpo simplesmente surta. Eu grito, clamo, quase suplico pra que o meu peito pare de bater tão forte e ele acelera. Minhas mãos suam, meu rosto ferve e eu penso que só queria reagir normalmente: não rir nervoso, não falar alto, não gaguejar.

Pára seu imbecil! Que piada ridícula. Fica quieto. Não, não, não, não arrepia! Ai, cacete. Calma, respira fundo. Não é nada. Um contato de trabalho. Só isso. Não, não! Não encosta nela dessa jeito! Não… não sorri assim bobo.

Quando chego perto dela, me traio. Meu corpo me trai, meu pensamento me trai. E não existe traição pior. E melhor.

Feb
26
Consultório.

Simples, doutor, um dia a gente tem tudo, noutro dia a gente não tem nada. Eu mesmo sou exemplo disso, veja o senhor: já tive Deus. Mas tem um momento na vida da gente em que a gente se perde e que a vida perde a gente. Imagine o senhor como aconteceu: eu era jovem, eu era saudável, até bonito dava pra dizer que eu era: eu era alimentado e me vestia, não passava frio, não tinha uma saudade, não tinha muita ansiedade, por que manter isso de agradecer e pedir e agradecer, essa rotina tosca de quem vai à igreja? Eu me perguntava e não encontrava resposta; pra tanta coisa a gente não tem resposta, não é?, o senhor concorda?, acontece então que larguei Deus, doutor, o senhor veja: não havia mais o que eu pudesse esperar dele, nem mesmo que existisse. Simples, não é? Nem mesmo quando eu comecei a sentir falta dela, o senhor veja, quando eu pensava em me matar, aqueles dias difíceis, o senhor ainda não me conhecia, naqueles dias difíceis eu queria orar, pedir ajuda de Deus e essas coisas todas, mas Ele já não estava mais ali.

 

Eles também não estavam mais lá, eu disse pro senhor: eu tinha uma causa, e foi por eu ter traídos os meus — é assim que a gente se referia um ao outro, éramos os nossos, sabe?, a gente dizia: eu tenho os meus para nos referirmos a nós — que eles me abandonaram; a gente tinha uma causa pela qual todos, sem exceção, estavam dispostos a dar a vida, a pagar com sangue, mas principalmente cobrar em sangue e vidas. Aconteceu de eu me tornar vermelho muito tempo antes de eu saber das coisas, essas coisas, pode se crer numa sociedade, não é? E quando eles precisaram, doutor, quando eu tinha nas minhas costas mais do que dez vidas jovens e idealistas, eu os traí, eu tive medo, o senhor entende? E tanto que nos haviam treinado para que não sucumbíssemos à tortura, mas nem cheguei a tomar choque, não chegaram a esmagar os meus bagos, não fizeram nada comigo, porra! Eu comecei a chorar antes da hora, e a na hora que o policial me agarrou por trás — juro que pensei que ele fosse comer meu cu — eu comecei a chorar como criança e expliquei tudinho, disse quem mandava em quem, disse quem obedecia, dei endereços, dei com os burros n’água, o senhor acredita? E quando eu vou dormir, doutor, quando eu vou dormir eu escuto aquelas vozes que eu não cheguei a ouvir, as vozes dos meus companheiros de causa, dos meus companheiros, sabe? E eles me dizem que eu sou um filho da puta, que eu merecia mesmo era que minha mãe me arrombasse meu cuzinho, será que tem relação, doutor, o meu cu com a traição? E a minha mãe, aonde entra nessa história?

 

Não que eu a amasse, doutor, nem nada. Mas quando eu a vi beijando outro homem, sabe?, um ardume no peito, uma coisa ruim, eu vomitei verde ali mesmo, vomitei meus pés, eu não a amava nem nada, doutor, mas a dor que se sente, a dor que eu senti, entende?, o senhor consegue me entender? Porque eu não consigo, por mais que eu tente. E não é uma questão de ser traído, porque traição acontece com quem ama, não é? Mas eu não amava nem nada, por isso não consigo entender o porquê de tanta dor, de tanta angústia e de tanta saudade. Se eu a amasse, o senhor há concordar, se eu a amasse, poderia muito bem me sentir traído, mas não se tratava disso. O senhor consegue me dizer do que se trata, então?

Arnaldo e Zózimo eram melhores amigos, desde pequenos. Estudaram juntos desde a primeira série do colégio municipal do bairro. Na hora do recreio batiam bafo juntos e todas as tardes se encontravam com o resto da turma no campinho, que hoje já é uma rodovia. Arnaldo, meio gordinho quando era pequeno, sempre ficava no gol. Para ser mais exato, sobrava no gol. E Zózimo era o capitão do time, era quem escolhia os jogadores, era o dono da bola. Não por ter dinheiro ou algum poder de persuasão sobre os colegas, mas por ser o único a saber fazer embaixadinhas e dono de dribles desconcertantes.

Hoje, Arnaldo é Doutor Arnaldo. Formou-se na faculdade federal, constituiu família e uma imagem digna de lorde. É respeitado por todos, tanto profissionalmente quanto no pessoal. Tem uma filha pequena e uma esposa com o rosto do mais belo dos anjos que o paraíso já conseguiu criar. Arnaldo, Doutor Arnaldo, é um homem de posses, mas é simples e feliz. Quando não está no escritório de advocacia, ou está caminhando no parque (sempre de boné branco, regata branca e pernas brancas) ou está no Bar Antonio’s, no Leblon.

Já Zózimo, de doutor não tem nada. Tem no currículo uma faculdade de Engenharia de Telecomunicações abandonada no terceiro semestre e uma de Publicidade trancada a mais tempo do que gostaria de admitir. Nunca se casou, mas chegou a juntar as escovas de dente com duas ou três pequenas. Hoje, vive de pequenos bicos que não costuma explicar detalhadamente e pode ser encontrado diariamente na mesa de sinuca do Antonio’s.

Sua dupla preferida no tapete verde, por sinal, é justamente Arnaldo, o amigo mais fiel desde os primeiros anos de sua errante existência. Os adversários são os mais diversos, e sempre que surge uma nova dupla desafiante, Zózimo fala, sem tirar o copo de cerveja de colarinho largo do bigode: “Conversa com o Arnaldão. E a gente faz as menores”.

Se alguém reclamar do fato de Zózimo sempre contrariar as regras oficiais, cismando por sempre fazer as bolas menores, Arnaldo já sai em defesa do parceiro: “Sabe como é, Zózimo gosta da sinuca como gosta das mulheres: ele só faz as pequenas”. “É, eu faço as pequenas”, sempre respondia, segurando a fumaça do cigarro dentro do pulmão.

A frase, entretanto, não era das mais verdadeiras. A preferência dele era conhecida por todos, e visível toda vez que um mignon passava na calçada. Mas Zózimo tinha, na verdade, uma queda por mulher. Assim mesmo, no geral, e não conseguia jamais dizer não para uma. Pior que isso: não conseguia dizer não para si mesmo toda vez que via uma mulher.

E quis o destino que Letícia, a mulher de Arnaldo, fosse procurar pelo marido no bar justo naquele fim de tarde. Ligou para o escritório do marido e ele já tinha saído, por isso resolveu passar no Antonio’s a caminho da aula de pilates. O advogado, porém, ainda não havia chegado ao bar. Já Zózimo, estava lá, cerveja esquentando no copo baixo e cigarro pendurado no canto da boca, enquanto contava alguma piada preconceituosa ao homem atrás do balcão.

- Oi Zózimo, há quanto tempo!
- Pois digo o mesmo! Que bons ventos o trazem até aqui, Letícia?
- Estou procurando o Arnaldo. Ele apareceu por aqui?
- Ainda não, deve chegar logo. Se quiser esperar por aqui, te faço companhia para uma cerveja. Não acredito que seja o lugar ideal para uma mulher bonita como você esperar sozinha.
- Bobo. Aceitaria a cerveja, mas tenho que ir pra minha aula. Depois eu converso com o Arnaldo. E você, apareça lá em casa para jantar, qualquer hora. Daí negociamos esta cerveja.
- Pode deixar. Combino com o Arnaldo.
- Um beijo então. Nos falamos outra hora.
- Até mais, te cuida.

Sorveu o resto da cerveja quente, pegou a garrafa em cima do balcão e viu apenas umas poucas gotas deslizarem para dentro do copo. Antonio já estava chegando com uma nova garrafa, enquanto puxou papo.

- Essa aí tá caidinha por ti.
- Quê? Tá maluco, português?
- E não é? A mulher tá babando por ti, galã. Vai dizer que desaprendeu a ver quando mulher tá te dando mole? Tá comendo desde quando, Zê?
- Quê comendo o quê, bigode. Não reconheceu a pequena? É mulher do Arnaldo, porra!
- Tu tá comendo a mulher do Arnaldo?

Ao ouvir seu nome, já da calçada em frente ao bar, Arnaldo joga a camisa social suada no banco de trás do carro, enquanto pega uma camiseta de malha no banco do carona e veste o corpo fora de forma.

- Tavam falando de mim, é?
- Er… tava não, Arnaldo. – disfarça Antonio.
- Claro que estavam. Ouvi meu nome lá da rua. Qualé, tavam falando mal de mim?
- Nada não, Arnaldo, a gente tava só reclamando que tu tava demorando. Simbora pra mesa que a sinuca tá nos esperando. – Zózimo tenta consertar.
- Opa, beleza então. Quero aproveitar que hoje acho que estou é com sorte no jogo!

O fato é que depois daquela tarde, Zózimo não conseguia mais tirar a mulher de Arnaldo da cabeça. Podia parecer loucura, a mulher do melhor amigo, mas nos dias seguintes a cabeça já não pensava mais com clareza depois da terceira garrafa, e as pernas de Letícia naquela calça de ginástica apertada insistiam em aparecer em sua mente. A bunda não era das maiores, os seios eram pequenos, mas ela tinha aquele jeito de menina bobinha, cheia de pudor. “Essa menina perde qualquer um”, pensou sozinho, se culpando por imaginar tais coisas.

- E esses olhos brilhantes aí, Zê? Tá pensando em mulher, só pode. – Antonio sempre aparecia para salvar Zózimo de seus pensamentos.
- Deixa disso, bigode. E eu lá sou homem de devanear por mulher? Não convém, não convém.
- Sei, e tava pensando no que então, com essa cara toda engraçadinha?
- Uma pinóia, Antonio! Bebeu, foi?

Mas o fato é que Antonio estava certo. Zózimo andava com a cabeça perdida, e só se livrava dos pensamentos impuros quando o amigo Arnaldo chegava para a partida de sinuca. Naquela noite, já tarde e com o corpo cansado e embriagado, percebeu que Arnaldo esquecera a carteira em cima da mesa. Abriu o objeto abandonado, viu uma quantia considerável de notas, alguns cartões e documentos de doutor, e uma foto dobrada. Abriu a foto para ver Letícia de roupão, cabelos bagunçados, mandando um beijo para a câmera. Quase se perdeu em sua mente novamente, olhando a foto, mas o barulho das cadeiras sendo levantadas pelo dono do bar o fez recobrar a consciência.

Resolveu ir até a casa do amigo para devolver a carteira. Sabia que ele precisaria dela logo pela manhã, e Zózimo não queria estar acordado antes do meio dia. Dirigiu até o bairro rico e estacionou na frente da casa do amigo. Abriu o baixo portão de ferro e entrou no quintal, indo em direção da porta. Quando ia tocar a campainha, viu uma luz se acender no quintal que ficava nos fundos da casa. Imaginou que o amigo lia na rede, como era costume, e achou por bem não tocar a campainha e acabar acordando Letícia, que devia estar dormindo a essa hora.

Deu a volta na casa pelo caminho mal iluminado, e logo chegou ao jardim dos fundos. Lá encontrou, num susto, Letícia vestindo nada mais do que uma camisa larga de Arnaldo e uma minúscula calcinha de algodão. Zózimo ficou paralisado olhando aquela cena. A mulher, de costas, ainda não havia percebido sua presença. Os quadris, livres e vibrantes, recebiam a luz da lua cheia. Zózimo o olhava com vergonha, como um garoto que, de cócoras, quase de gatinhas, colava o olho no buraco da fechadura. Coração em pinotes, não movia um músculo e a própria respiração parecia ter cessado.

Quando Letícia se virou, deu um pulo e segurou o grito. Não esperava encontrar alguém àquela hora, muito menos Zózimo. Tentava esconder o corpo, sem muito sucesso, enquanto tentava falar algo, mas a voz não saía. O visitante inesperado continuava paralisado. Não movia um músculo, não respirava, não falava. A impressão era de que nem o coração estava batendo.

Depois de segundos que duraram um século, Letícia quebrou o silêncio desconfortante. Soltou uma piadinha qualquer para disfarçar o nervosismo e caminhou na direção de Zózimo para pegar a carteira do marido que ele segurava na mão imóvel.

- Ah, que bom que você encontrou a carteira. O Arnaldo tava mesmo…

Zózimo não agüentou. Ignorou as palavras da mulher do amigo e puxou-a para si, com força. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Letícia se viu com os lábios esmagados pelos lábios do forte homem, que cheirava a cerveja e a cigarros. Tentou se soltar, se debateu, mas logo os joelhos já não tinham mais forças para negá-lo. Sua boca desejava o proibido, seus pequenos seios se eriçaram, seu corpo amoleceu e sua língua se perdia em voltas e mais voltas na boca do amante. Ela já não sabia mais o que estava fazendo, apenas se entregava ao corpo masculino, coberto de pelos, enquanto o seu próprio corpo, tão pequeno e tão delicado, era atacado por mãos que pareciam surgir de todos os lugares.

Amaram-se ali mesmo, no chão da varanda. As luzes acesas, a porta aberta esperando que o marido surgisse a qualquer momento. A voz sussurrante de Letícia pedindo “fecha a luz, fecha a luz”, mas Zózimo queria ver seu corpo nu. Esperara tanto tempo por aquele corpo, aqueles seios nascentes e tão absurdamente lindos, crispados de tesão e de volúpia. Amaram-se com desejo, com a voluptuosidade de lábios sôfregos como se nunca o tivessem feito.

Na noite seguinte, Zózimo deixou Arnaldo ganhar na sinuca. Em sua concepção, de certa forma, isso o tornava menos culpado. Não tratou o amigo com distância ou indiferença. Bebeu como nos outros dias, fumou como nos outros dias, apenas não conseguiu se concentrar nas partidas. E no final da noite, apenas engasgou-se ao ouvir da boca do amigo:

- Ah, e obrigado por passar lá em casa ontem de noite. Letícia contou tudo.

Zózimo derramou cerveja no colo. Pigarreou e fingiu calma.

- É mesmo? Contou é?
- Sim, sim. Eu estaria mesmo perdido sem a minha carteira. Espero que não tenha sido um incômodo ter que aparecer lá tão tarde.
- Não, não. Incômodo algum.

Depois daquele dia, Zózimo nunca mais foi à casa do amigo. Não conseguiria mais olhar a mulher nos olhos. Temia que ela não conseguisse disfarçar, temia que Arnaldo desconfiasse de algo. Tirou Letícia da cabeça e prometeu a si mesmo que nunca mais, em toda a sua vida, iria se envolver com a mulher de algum amigo seu.

Mas certo dia, quis o destino que Letícia fosse procurar por seu marido no Antonio’s…

“Antes que o primeiro galo cante, um dentre vós me trairá.” A sentença caiu sobre a mesa como um malho sobre uma bigorna. As centelhas se espalharam nos olhos faiscando bravios de um lado a outro. Como o choque de metal contra metal, o alarido ressoou nas vozes nervosas. A movimentação inquieta foi como o rufar de asas de mil pombos. E se imprecações fossem ali permitidas, teria havido uma chuva delas. Um misto de revolta, surpresa e negação tomou a mesa. Indignados, os presentes trocaram rápidos olhares inflamados e perscrutadores. Todos, exceto um.

Cujos olhos baixos não revelavam brilho algum, mas cujo peito ardia como se tentasse abrasar uma fogueira de chamas ágeis enquanto se esforçava para suportar o calor. Absorto em ideias inflamadas, não deu pela mão que se ergueu espalmada da cabeceira. Só voltou a si quando o silêncio retornou à mesa, como um convidado que chega atrasado. Todos tinham os olhos cravados na cabeceirada mesa. Da cadeira de espaldar alto, o mestre reforçou: “Esta é a última ceia em que estaremos todos reunidos. Em verdade vos digo: antes que cante o primeiro galo, um dentre vós me trairá”. Não olhava diretamente para ele, apenas corria os olhos por todos, de maneira igual. “Um dentre vós me trairá e assim há de ser, antes que brilhe a luz sobre a Terra”.

“Mas, mestre, tem de haver um engano. Quem dentre nós seria capaz?”

“Acaso antes enganei-me? Um dentre vós me trairá e assim será, para que o mundo seja mundo”.

Podia sentir no peito o ardor crescer, como se um tição revolvesse-lhe as brasas fazendo subir-lhe chamas.

“Não temais. A aurora trará um novo tempo, de separação, mas glórias maiores. Para agora e todo o sempre, enquanto o mundo for mundo”.

O pescoço já lhe ardia com o erguer das chamas, o ar ficava abafado à sua volta, o sangue lhe fervia. A cabeça lhe doía e o peito ameaçava explodir.

“Um dentre vós me trairá e com a traição virá a aurora. É chegada a hora”.

Ergueu os olhos injetados e deu com os do mestre lhe olhando da ponta da mesa. Ardendo, levantou-se assombrando a todos. Sentia-se como se a pele fosse o barro do ventre de uma fornalha. Foi até a ponta da mesa — coxeava já um pouco da perna esquerda — inclinou-se sobre o homem na cadeira de espaldar alto e lhe beijou a face, fria ao contado de seus lábios quentes. Com os olhos chamejantes, imaginou um sorriso invisível e nos olhos dele, pensou ter visto compreensão.

Deu as costas à mesa e foi-se, coxeando rápido. O peito já se incendiando. As labaredas começavam a subir-lhe a pele em línguas de fogo a lamber-lhe os braços, as costas, as asas. Alguns dos outros que estavam à mesa se apiedaram. Levantaram-se e o seguiram. Alguns ainda capazes de lançar um olhar frustrado e rancoroso à mesa que ficava para trás. Miguel fez menção de levantar-se, a mão já à bainha, mas a mão que veio da cabeceira da mesa lhe tocou o ombro, conciliadora.

Coxeou com o corpo a queimar, seguido de longe pelos outros. As penas chamuscadas caindo ao chão, a testa latejando. Da beira da existência olhou para baixo e viu a Terra pequena, distante, perdida no escuro. Mal suportando o último passo, atirou-se no espaço enegrecido. Um lume na escuridão. Rebentou-se em chamas, ardeu e luziu como o fogo que se ergue do ferro quente golpeado. E na escuridão se fez luz. A Terra então, pela primeira vez, iluminou-se. Os outros, atrás dele, já se precipitavam também tomados pelo fogo dos caídos, mas próximos dele, que ardia em fulgor, eram ofuscados e pareciam apagados; brilhando apenas quando ele se distanciava, do outro lado do orbe. Assim, passou ele a ser. Uma luz na escuridão, a escuridão para a luz. E com a luz da primeira aurora, cantou o primeiro galo, a antífona do traidor.

Uma cerveja depois e alguns palitos mascados, ele finalmente chega. Matheus acena da mesa para o amigo, indicando a cadeira à frente. É final de tarde e, a essa hora, a choperia ainda está relativamente vazia, os garçons ansiosos pela chegada dos trabalhadores de gravatas para o happy hour. Como é chefe (ou quase isso), Matheus se deu ao luxo de sair mais cedo. Além disso, conseguiu convencer o amigo, Felipe, para uma breve conversa e “uma cervejinha para dar uma arejada”, como falou no telefone. O amigo sabe, é claro, que isso é apenas um pretexto, apesar de encontros na citada choperia não serem tão escassos assim. Enfim. A essa altura, os dois já estão sentados, frente a frente, circurdando a mesa de madeira que sustenta agora um copo a mais, envolto por um guardanapo úmido.

“Fala, cara. Foi o mal o atraso. Trânsito dos infernos.”

“Relaxa. Tudo certo?”

“Na mesma.”

Um gole de cerveja. De ambos.

“Então?”

“Então o quê?”

“Qual o motivo?”

“Do quê?”

“Do encontro. Da cerveja. É seis da tarde. Pelo jeito que você falou, achei que tinha caido o mundo.”

“E não posso convidar o amigo pra tomar uma cerveja, conversar numa boa? Fazia tempo que não se falávamos.”

“Fala sério.”

Um gole de cerveja. De Matheus. Ele molha a boca, olha para as mãos cruzadas em cima da mesa. Olha para os lados. Observa.

“É Vanessa.”

“Que Vanessa?”

“Como ‘que Vanessa’? A Vanessa, porra.”

“A guria do marketing? Tá, sei. O que tem ela?”

“Fiquei com ela de novo.”

“Como assim ‘fiquei’? Parece um adolescente falando. Comeu ela, transou, fez o que?”

“Isso. Dormi com ela. Na casa dela. Anteontem.”

Felipe encara o amigo. Balança a cabeça, os ombros, levemente.

“Tá, e daí?”

“Como assim ‘e daí’?”

“Qual a novidade? Você já me falou dessa mulher antes.”

Um gole de cerveja. Outro gole de cerveja. De Matheus. Suspiro.

“É foda, cara.”

“Ah, sem dúvida. Pelo que você fala da mulher, deve ter sido A foda.”

“Não é isso, porra. Eu sou um merda. Tinha prometido pra mim que não ia fazer mais isso.”

“Ah, para, rapaz. A Paty desconfiou de alguma coisa?”

“Não, não. Deus me livre.”

“Então, qual é o problema? A outra tá pegando no teu pé, agora?”

“Não, não, é sossegado. O negócio dela é só sexo mesmo. Ela sabe que eu namoro há anos, que estou noivo, coisa e tal. Ela é tranquila.”

Um gole de cerveja. De Felipe.

“Então… não estou entendendo. Vai dizer que está com peso na consciência agora?”

“Aí que está.”

“O quê?”

“Antes eu ficava dias cabreiro, pensando só nisso, não tinha nem coragem de olhar na cara da Paty. E ficava uma pilha, achando que ela podia descobrir algo. Agora, sei lá…”

“Sei lá o quê?”

“Ah, cara, eu fui lá, fudi com a guria, dormi lá, voltei pra casa, fui trabalhar no outro dia, jantei com a Paty. E super tranquilo. Como se nada tivesse acontecido. Hoje só parece que me caiu a ficha.”

“Por quê? Bateu o arrependimento?”

“Não. Pelo contrário. Porque percebi que não to nem aí mesmo. Pensei que ainda estava com a razão.”

Felipe apoia as costas no encosto da cadeira, afrouxa a gravata. Vira os olhos pra cima.

“Agora há pouco você tava choramingando, dizendo que era um merda, bla, bla, bla…”

“É que eu to tentando…”

“Tentando o quê?”

“Ficar com peso na consciência, porra. Sei lá. Eu estou com a Paty há seis anos já. Gosto muito dela. No fundo, ela não merece isso.”

“Não é uma questão de merecer, porra. Ela não vai saber disso nunca. A não ser se você falar. Relaxa. Tem mais é que aproveitar mesmo. Ou vai dizer que você já não fez isso outras vezes com ela?”

Silêncio. Um gole de cerveja. De Matheus.

“Ah, vai se fazer agora?”

“Você sabe que sim.”

“Então. Dá nada. É só não fazer cagada.”

Matheus apoia o lado da cabeça com a mão, o cotovelo em cima da mesa. Olha para o amigo, em dúvida.

“Mas e se eu continuar a fazer isso, sem me importar? Eu sei que não é certo. Não com ela. É claro que eu tenho vontade de ficar com outras mulheres, mas é uma questão de respeito, sabe? Ela não merece isso.”

“Cara, se você pega outras e não se incomoda com isso, melhor ainda. Não tem nada mais pé no saco do que comer uma mulher e depois ficar se lamentando por causa disso.”

“Não, não… não é bem assim. Tipo, você e a Regina tão junto há tempo pra caralho, e nem por isso…”

“Tá, mas eu não traio porque não posso. É porque não rola mesmo. Não sou pegador que nem você.”

“Mas e se rolasse uma oportunidade? Sei lá, se uma mulher aparecesse querendo dar pra ti, sem rolo?”

“Sei lá, cara, eu sou tranquilo. Você sabe como é a Regina. Ela não nega fogo, é parceira. Mas se rolasse e a mulher fosse gata, tivesse a fim mesmo… dá nada. Não me complicando em casa, tudo bem.”

Silêncio. Matheus olha para o amigo, incrédulo. Um gole de cerveja. De Felipe.

“Ahhhh, agora eu entendi… você me chamou aqui pra ver se eu te reprovava. Pra eu dizer que a Paty é uma mulher maravilhosa, que não merece isso, que você tá fazendo merda, que tem que largar mão desse tipo de coisa. Já que você não se sente mal, queria que eu fizesse isso por ti. Que eu falasse em nome da tua consciência pesada. Só porque eu tenho fama de ser certinho.”

Um gole de cerveja. De Matheus. Silêncio. Felipe ri.

“Ok. Vou te dar um único conselho. Bate a real pra tua mulher. Antes de casar, pelo menos. Ou senão, esquece isso tudo de uma vez. E se for pra comer alguém, que não venha com essa ladainha de novo. Fala sério.”

Silêncio.

 

Depois de uma pizza e algumas amenidades sobre o dia no trabalho, os dois finalmente relaxam. Sentam no sofá, ela com a cabeça encostada no ombro dele. Vê algo na televisão. Matheus não presta atenção. Passa a mão nos cabelos lisos da noiva. Lembra da conversa.

“Paty?”

“Fala, anjo”

“Preciso te falar algo.”

“O quê?”

Silêncio. Matheus pensa.

“Sabe a Vanessa? Que trabalha lá na empresa, no marketing? Eu dormi na casa dela anteontem. Transamos a noite inteira.”

“FILHA DA PUTA!”

Com as duas mãos no pescoço. De Matheus. Ele sufoca, o rosto arroxeando enquanto baba escorre da boca da noiva, os olhos dela vermelhos, vidrados.

 

Não. Isso não vai dar certo.

“O que foi, querido? Fala.”

“Sabe a Vanessa? Que trabalha lá na empresa, no marketing? Eu estou tendo um caso com ela. Não é nada demais. É só sexo mesmo. Você não precisa se preocupar.”

Vidros quebrados. Da janela. Matheus tenta segurá-la, mas o corpo já avança sobre o ar. O alarme de um carro soando, a lataria amassada no capô. Gritos.

 

Será? Horrível.

“O que foi, querido? Fala.”

“Sabe a Vanessa? Que trabalha lá…”

“Sei, sei. Aquela vagabunda. Eu sei que você anda comendo ela. E quer saber? Que se dane. Eu também dou pro meu chefe já faz um ano. Isso porque ele não goza depois de dez minutos. Ah, você nem imagina…”

 

Não. Isso seria o pior.

“O que foi, querido? Fala.”

Silêncio. Matheus pensa. De novo.

Foda-se.

“Acho que não vou poder ir contigo amanhã à noite no teatro. O Carvalho quer que eu acompanhe ele lá naquela reunião com o pessoal da prefeitura, que eles fazem todo mês. E normalmente vai longe. Uma baboseira só. Mas como ele praticamente mandou…”

“Tudo bem, anjo. A peça vai até semana que vem ainda.”

Um sorriso de concordância. De Matheus. Uma ida até o banheiro. Uma ligação no celular.

“E aí, morena. Sou eu. Vamos repetir a dose? Sim. Amanhã à noite. Certo. Beijo.”

Uma passada na cozinha. Um gole de água. De Matheus.

O tema da próxima rodada do Duelo de Escritores, então, é traição.

Tema fácil, fácil.

Textos postados até dia 26, caros rapazes.

Marina