Archive for the ‘fábio ricardo’ Category
- Ei, Lulu! Vamo se jogar com o pessoal lá na figueira?
- Ix… sei não… amanhã tem prova e tal.
- Dá nada, moleque. Vamo lá que todo mundo já foi. Nem esquenta.
Foi assim, com um convite simples feito depois da aula, que tudo começou. A história é simples. Luciano Ferroso Peixoto, Lulu, aos 14 anos e com ótimas notas na escola começou a andar de skate nos arredores do colégio com a turma da oitava série.
Crianças, basicamente. Obviamente, na sexta série, estas crianças já se aventuraram por mundos como o do álcool e do cigarro, tentando se enturmar em outros grupos sociais. Foi embaixo da figueira que Lulu tragou o primeiro cigarro, seguido de uma tosse seca e vergonhosa. O que foi vergonha para ele, porém, foi considerado um charme pelas gêmeas.
As gêmeas. Alvo dos olhares de 8 a cada 10 alunos do colégio, viviam sendo alvo das fofocas das meninas e objeto do desejo dos meninos. As histórias diziam que usavam drogas, que eram violentadas pelo padrasto, que eram lésbicas e até mesmo que eram satanistas. Nunca ninguém soube ao certo quais desses boatos eram reais e quais não passavam de especulação.
Lulu era baixinho, magro e tímido. As gêmeas eram louras, altas e magérrimas. As duas se interessaram imediatamente pelo rapaz franzino.
- Toma.
- O que é isso?
- Um baseado, dá uma bola. Nem dá nada.
Não havia como dizer não. Cercado pelas garotas, cada uma o olhando de um lado com aqueles olhos sacanas que desmembravam qualquer mente de um pervertido rapaz da oitava série, não havia como dizer não.
Depois da figueira foram os passeios na pista de skate, as invasões a fábricas abandonadas, as festinhas na casa de conhecidos da turma. Em uma dessas festinhas, o exagero no álcool e na maconha foi natural.
Acordou deitado, só de cueca. Olhou para o teto irreconhecível com uma dor de cabeça nunca antes sentida, e se desesperou. “Que horas são? Minha mãe vai me matar!”. Olhou em volta e viu uma cena que apenas seus sonhos já tiveram a audácia de imaginar: as gêmeas. Lindas, nuas, louras. Foi sua primeira vez – com certeza não a delas – e ele nem sequer se lembrava. Sua mente estava em branco, um vazio completo tomava o dia anterior.
As noitadas ficaram mais frequente, o sexo também. Logo, outras meninas quiseram provar o que as gêmeas haviam despertado no garoto. Uma noite, voltando da aula de violão, encontrou a turma bebendo em frente ao posto de gasolina, sentados no meio fio. Logo deixou de tocar os clássicos sertanejos que seu professor insistia em lhe ensinar para renovar o seu repertório com Nirvana, Ramones e Guns and Roses.
Quando entrou numa banda punk, virou quase um ídolo no colégio. Ensinou muitas garotas a beber, a fumar e a transar. Da maconha, evoluiu no peso das drogas. Os shows de festivais de colégio perderam a qualidade com os integrantes visivelmente alterados.
Logo, era ele que caía nas fofocas das portas de banheiro e corredores de ginásio. As notas despencaram, passou a faltar nas aulas de educação física. Mas ainda assim saía com os colegas para andar de skate e para todas as festas que pudessem surgir.
No dia que seu computador estragou e foi levado a um técnico de informática, fotos das gêmeas tomaram o colégio. Além delas, mais três outras garotas mostravam tudo que Lulu tinha ensinado a elas.
Expulso do colégio, Lulu sumiu. Foi o assunto do ano na oitava série. Passou a ser usado como exemplo pelos professores e pela diretora, sempre que precisavam ameaçar algum estudante.
Toda tarde, porém, a mesma frase ainda seria repetida à eternidade.
- Vamos lá, cara. É só uma bola. Nem dá nada.
E a história se repete.
As mãos estavam enrugadas embaixo da água que corria da torneira. Lembrava-se com um sorriso no rosto da época em que, ainda criança, aproximava a cadeira do balcão da pia e abria a torneira. Tudo para poder colocar as mãos embaixo da água corrente e ver os dedos enrugados, pois como seu pai lhe dizia, “é assim que sua mão será quando você for bem velhinha”. Agora, que já era bem velhinha há alguns anos, olhava as rugas nas pontas dos dedos sabendo que ao desligar a torneira elas continuarão lá.
Os passos arrastados deram a dica: pantufas. Pantufas se arrastando no chão gelada da cozinha.
- Vovó.
- Fala, meu lindo.
- Como a vó sabia que tava apaixonada pelo vô?
A pergunta pegou ela de surpresa. Não imaginava que o netinho, ainda tão pequeno, se questionava esse tipo de coisa. Estaria ele apaixonado?
Enquanto se perguntava os motivos, olhou para os olhos brilhantes do neto. Os mesmo olhos do avô. E num segundo, viajou de volta para Santa Catarina.
- Gê, aqui tem lugar, vem ver, eles estão chegando!
Gertrudes se apertou entre as pessoas para chegar mais perto da rua onde acontecia o desfile. Era outubro e as ruas centrais de estavam repletas de pessoas que se acotovelavam para assistir ao desfile de Oktoberfest. Gertrudes veio com uma amiga para conhecer a festa. A origem germânica ambas também tinham, mas na pequena cidade onde moravam, isso era parte comum da vivência dos moradores, sem grandes festas.
Quando chegou no final da calçada, um esbarrão fez com que seu chapéu alemão fosse ao chão. Quando se abaixou, viu a mão firme agarrando o chapéu antes dela. Levantou os olhos e quase ficou cega com tanto beleza.
Seu nome era Mannfrid, filho de alemães e um dos participantes do desfile, que cantarolava uma música típica enquanto entregava o chapéu na mão da bela senhorita.
- Não vai querer estragar tão belo traje.
Antes que pudesse retribuir o elogio, ele se foi, pulando abraçado aos amigos. Antes de sumir de seu campo de visão, porém, virou-se e gritou:
- Meu nome é Mannfrid! E você é linda!
A pequena mão puxando a barra de sua saia quebrou o quase transe em que se encontrava.
- Então, vó. Como você soube que estava apaixonada pelo vô?
- Ah, meu lindo… eu e seu avô somos amigos de infância, éramos vizinhos desde pequenos. Nos tornamos tão próximos que nos apaixonamos.
A informação foi suficiente para o neto. Deu um beijo rápido no rosto da avó, que se abaixou, e saiu correndo pela casa.
Naquela noite, Gertrudes abraçou o corpo do velho Honorato, para se proteger da noite fria. Mas foi com Mannfrid que ela sonhou.
Fred caminhava pelas ruas da capital quando passou em frente a um bar, onde uma banda se apresentava. Parou e olhou pela janela. Poucas pessoas assistiam a uma banda, com uma bela mulher cantando. Sua voz era suave e cheia de força. Fred entrou, pediu uma cerveja e sentou-se numa mesa em frente ao palco.
A banda terminou de tocar e os integrantes sentaram-se numa mesa próxima. A vocalista levantou e caminhou em direção ao banheiro. Fred pediu mais uma cerveja. A garota voltou e sentou novamente.
Um rapaz forte, de camisa vermelha, chegou até a mesa onde a banda estava e chamou a garota. Fred assistia tudo à distância. O rapaz pegou a garota pelo braço e levantou-a com força. Ninguém na mesa agiu. Começaram a discutir e ele a arrastou para fora do bar. Fred se levantou e foi atrás.
- Cala a boca! Você não manda em mim! – gritava a garota.
- Cala a boca você, vadia! – falou o rapaz segurando seu braço.
- Me larga, você tá me machucando! Sai da minha frente!
Fred caminhou até os dois e afastou o rapaz de camisa vermelha.
- Não ouviu a moça? Ela disse pra você largar ela!
- Quem é você? Não se meta, palhaço!
Fred desferiu um soco que quebrou o nariz do rapaz. O sangue se confundia com a camisa vermelha e ele caiu sentado no chão.
- Você está bem garota?
- Sim, obrigada.
- Quer uma carona pra casa? Meu carro está a umas duas quadras daqui.
Caminharam até o carro e foram para a casa dela. Chamava-se Ana e morava sozinha. Havia vindo para a capital para tentar seguir a carreira de cantora. Era publicitária e namorava um colega de trabalho.
Chegaram em sua casa e Fred levou-a até a porta.
- Não vai me convidar para subir e tomar uma cerveja?
- Oh, certo, eu te devo essa. Venha.
Entraram e ela foi buscar duas cervejas. Fred sentou-se e admirou os porta-retratos, todos com Ana e algumas amigas. Quando ela voltou, sentou-se no sofá à sua frente.
- Ana, certo? Você é muito bonita para aturar um panaca daqueles.
- É… eu sei disso. Pegue sua cerveja.
Fred se levantou, pegou a cerveja e sentou ao lado dela.
- E por que você continua com ele?
- Não sei, comodidade, eu acho.
Fred colocou sua cerveja sobre a mesa de centro, passou a mão pelas costas da garota e beijou-a rapidamente. Ela se assustou, mas sorriu. Beijou-a de novo, dessa vez mais lentamente. Ela largou a cerveja e retribuiu o beijo. Levantou e pegou Fred pela mão, puxando-o até o quarto.
Na manhã seguinte, Fred acordou e viu que a garota tomava banho. Caminhou até a cozinha e encontrou a mesa posta, o café preparado, e um bilhete carinhoso.
Vestiu-se, foi até a geladeira e tomou uma cerveja. Pegou uma maçã e saiu. Pegou seu carro e foi para casa. Poderia se gentil e cavalheiro quantas vezes fosse preciso para comer uma garota. Mas um café da manhã romântico não estava em seus planos.
Nunca mais voltou àquele bar.
Era noite. O frio batia à janela com força, tentando entrar. Eduardo levantou pela primeira vez os olhos, desde que começara a falar.
- …e é isso. É isso que sou.
Isabela o olhava, atônita. O rosto já não tinha cor alguma, aparentando com o pálido rosto do amante. Queria falar algo, mas a voz não rompia o silêncio que se fazia mais forte. Gaguejava ar, já que o som lhe faltava. Segurou a mão do homem que estava sentado de frente para a parede, e que neste momento parecia apenas uma criança. Indefesa. Delicada. Amedrontada.
No fundo, ela sabia que a história que acabara de ouvir não fazia o menor sentido. Ainda assim, acreditava nas palavras do rapaz, mesmo que sua cabeça sequer tenha feito menção de tentar entender o que estava acontecendo. Estava amortecida por sua beleza cadavérica, pela maciez de sua voz, pela tristeza em seu olhar e pelas palavras que tropeçavam sôfregas de sua língua.
- V…
Antes de conseguir perguntar a dúvida que lhe veio à mente, foi interrompida de forma sutil.
- Vampiro, isso mesmo. Sou um vampiro.
Eduardo a olhava como quem já não esperasse ser compreendido. Como quem soubesse que a reação da menina seria de deslumbre, um olhar apaixonado de quem não entende o que este peso poderia acarretar.
Ele sabia que, pela sua aparência, todos imaginavam que ele tivesse apenas 17 anos. Assim, todas as meninas de 15 anos se apaixonavam por ele. Não apenas pelo fato de ele ser um garoto bonito, o que era inegável, mas pelo fato de ele ter um magnetismo diferente dos demais. Estava em seu cheiro, em sua pele. Ele era um vampiro, afinal de contas. Os hormônios que liberava tinham um único objetivo, conquistar sua presa e atraí-la para perto. Indefesa. Em poucos instantes, qualquer mulher se apaixonaria por ele. Em instantes ainda mais curtos, seu sangue teria se esvaído completamente.
Isabela o olhava com admiração. Eduardo já tinha vivido essa mesma cena inúmeras vezes. Sempre jurava que as amaria até a eternidade, prometia as transformar também em vampiras, para que pudessem viver eternamente unidos, um ao lado do outro, sobrevivendo a guerras, catástrofes, viajando pelos continentes sem fim e compartilhando de seu amor, maior do que qualquer coisa sobrenatural que pudesse ser imaginada.
Juraria amor eterno. Prometeria fazer dela também um ser imortal.
- Você vai fugir, não vai? Sabe que não podemos viver juntos.
- Podemos sim, Eduardo. Podemos superar qualquer coisa.
- Mas eu sou um monstro, Isabela. Um vampiro. O caçador das sombras, o assassino da eternidade. Um monstro.
- Mas eu te amo.
- Eu também te amo.
- Então superaremos isso. Nosso amor está acima de qualquer maldição que você tenha.
- Eu me alimento de sangue. Eu mato pessoas.
- Me leve com você. Vamos viver juntos por toda a eternidade.
- Por toda a eternidade.
O beijo do casal tinha gosto de sangue. Enquanto Isabela se entregava aos braços daquele que era o dono de seu coração, Eduardo se segurava. Sentia os lábios de sua caça, o gosto da morte em sua boca, o calor que o faria superar qualquer maldição, encostado em sua língua.
Amaram-se. Com volúpia e calor, com selvageria e sussurros, com excitação e paixão adolescente.
Na manhã seguinte, Isabela acordou sozinha. Chorou ao perceber que a eternidade pode durar pouco quando se tem apenas 15 anos.
Eduardo, no topo de uma árvore no bosque que cercava a cidade, apenas olhava de longe, ainda sentindo o cheiro de Isabela em sua pele. A eternidade era um fardo pesado demais para ser carregado a dois.
- E é bom que seje macho!
O grito de Adilson se ouviu por toda a rua, enquanto a porta de madeira do casebre fechava. A mulher, Helena, ainda correu para a entrada da casa, abriu a porta, e teve tempo de reclamar.
- Que é isso homem, tá maluco?
- Você me ouviu! É bom que seje macho! Se o piá não jogar na seleção, tu vai ver só. Só me traz mulher pra dentro de casa!
Adilson era fissurado por futebol. E desde pequeno sonhara com a seleção canarinho. Como seu talento para a bola nunca fora descoberto, esperava um filho homem para lhe dar esta alegria. Mas seu casamento com Helena parecia tomado por uma maldição: só lhe nasciam filhas mulheres. Nas duas tentativas anteriores de trazer o craque ao mundo, Miriam e Suzana o decepcionaram. Nunca jogariam uma Copa do Mundo.
Miriam, a mais velha, ainda jogava bem, adorava bater bola pelas ruas de barro da pequena cidade de Itaiópolis. Mas o pai não lhe dava bola. Não era a mesma coisa. Restava à Suzana, a caçula, acompanhar a irmã. Boneca de pena segurada por um braço, corria descalça atrás das bolas que a mais velha chutava para o gol sem redes. Trazia a bola abraçada aos braços, sujando o vestidinho e já era repreendida pela irmã, por não trazer a bola aos pés.
…
- Negão, senta uma.
- Mas já de manhã, Adilson?
- Senta uma que a Helena tá grávida.
As atenções no pequeno boteco se viraram para o novo papai. O pessoal do balcão fez um brinde, dois negros corpulentos que jogavam sinuca disseram que queriam charutos, e outros murmuraram piadinhas. Mas foi o Negão que fez a pergunta que todos queriam fazer.
- E é homem?
- É bom que seje! É bom que seje!
Com o aumento do tom de voz, todos voltaram aos seus afazeres. Ainda lembravam da arruaça promovida pelo homem com o nascimento de Suzana. A conta das garrafas e cadeiras quebradas foi alta, mas nunca foi cobrada. Não se tocava no assunto desde então.
- E a Miri, como tá? Meu moleque disse que ela dá drible de deixar marmanjo torto.
- E mulher lá pode jogar futebol? Vai ter que aprender a costurar mais cedo ou mais tarde. Ou vai passar a vida chutando bola no campinho? Eu quero um moleque, Negão. Tem que ser um varão pra jogar na seleção, jogar uma Copa do Mundo.
- Não tá sonhando meio grande de mais não, homem?
- Que nada! Assim que nascer, já inscrevo o moleque no Santos.
A pergunta veio da mesa de sinuca:
- Ih, qualé Adilson? Tu não era Palmeirense?
- Sou sim, porra. E com muito orgulho. Mas tu já viu jogador do Palmeiras jogar na seleção? Tá maluco, rapaz? O piá vai treinar no Santos! Logo se manda pra Europa e vocês vão ver ele só em época de Copa do Mundo.
…
- GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLL!!!!!!!!!!!!
Apesar da empolgação do narrador da Rádio Guaíba, do juiz correndo em direção ao centro do campo e da comemoração nos gramados, as arquibancadas do estádio estavam quase vazias. Miri ajoelhou-se, fez o sinal da cruz, beijou a ponta dos dedos e tocou no coração. Era artilheira do campeonato amador de futebol feminino. Sabia, que se fosse menino como seu pai sempre quis, a esta hora já teria sido encontrada por um olheiro. Mas como nasceu menina, as arquibancadas tinham apenas algumas dezenas de familiares das atletas. Das outras atletas.
…
- Pelé Brasileiro dos Santos.
- O senhor tem certeza?
- Tenho sim! Pode escrever aí: Pelé Brasileiro dos Santos, futuro atacante da seleção.
Foi assim que o pequeno Pelé, mais novo integrante da família Santos, foi registrado no cartório da cidade. Pelézinho, como logo foi apelidado, nasceu com a bola nos pés. Tinha um talento nato para o futebol. Também pudera, assim que o garoto nasceu, Adilson juntou as últimas economias para comprar um aparelho de DVD e um Box com todos os jogos do Brasil nas Copas. Custou uma fortuna, que a família não podia pagar. Mas o auxiliar de pedreiro trabalhou nos turnos extras como marceneiro e também fez alguns bicos de vigia noturno, até o dia que foi pego dormindo em serviço.
Pelézinho cresceu acompanhando a TV ligada. Jogadas e mais jogadas, muitas ainda em preto e branco, mostravam os dribles mais desconcertantes, os melhores lançamentos, os chutes mais precisos. Não demorou para que ele começasse a copiar as jogadas também no campinho de terra. Desafiava todos os garotos do bairro, era sempre o primeiro a ser escolhido na divisão dos times e já tinha colocado bolas entre as pernas de todos os adversários.
…
- O que foi?
- Nada não, tô feliz, só.
- Feliz com essa cara? Que é isso, a gente ganhou o campeonato! Vamos comemorar com a gente? A Marta vai dar uma festa lá na casa dela.
- Vou não, Cris. Tô cansada. Foi um jogo puxado.
- Sei… o Dudu vai estar lá, pediu pra te avisar.
…
Marco Henrique Zanetti. Nome certo em 8 de cada 10 times de base da capital paulista. Se algum garoto já tinha brilhado no Campeonato Paulista sub 17, com certeza esse garoto tinha passado pelas mãos de Zanetti.
Foi uma matada no peito e uma bomba no ângulo esquerdo. Apenas isso já foi o suficiente para Zanetti anotar, e depois circular, o número 28 no bloco de anotações.
- O 28, chama ele aí.
- Pelé, vem aqui rapidinho!
- Pelé?
- E não é apelido não. O nome do coitado é Pelé Brasileiro, vê se pode.
…
- Cacete! O que é isso aqui?
- Um troféu, ué. Nunca viu na vida, não?
- Porra, mais tanto?
- Ah, como não tem campeonato organizado, a gente se inscreve em todos que têm. E sempre leva, né.
- Cacete, Miri. Não é só fora de campo que tu bate um bolão, hein?
- Seu bobo! Vem Dudu, vamos lá pra dentro.
…
- Mulher! Corre, mulher! Corre que vai começar o jogo!
A casa de seu Adilson estava cheia. No quintal, improvisaram a televisão em cima de uma mesa, e Negão cedeu as cadeiras plásticas para acomodar todo mundo. Era a estreia de Pelé Brasileiro dos Santos, o Pelézinho, jogando justamente no Santos, clube que revelou o ídolo que lhe deu o nome. O atacante principal estava lesionado, por um carrinho providencial no último jogo, e o técnico resolveu poupar o outro atacante, pois o jogo era contra um time fraco, praticamente para cumprir tabela. No time misto, Pelézinho era a novidade do campeonato.
Não foi um bom jogo, mas o garoto deu bons chutes a gol e um passe para o gol do colega de time, o que deixou seu pai furioso. “Os jogadores que passam a bola não são lembrados, quem é lembrado é quem faz o gol”, gritava ele para todos os presentes. A vitória fácil por 3 a 1 rendeu a maior cervejada que Itaiópolis já vira.
…
- Dudu, tô grávida.
O rosto do namorado era um misto de medo e felicidade. Talvez dúvida seja a palavra certa. Abraçou Miriam com força e choraram juntos, abraçados. Estavam felizes, porém. Dudu sempre quis ter um filho, e sabia que Miriam era a mulher certa para ele. Mas na cabeça de Miriam, ela sabia que teria que dizer adeus às próximas escalações.
…
No dia 20 de maio, a família de Pelézinho se reunia novamente na casa de seu Adilson. Seu filho viria finalmente ao mundo: era dia de escalação para a Copa do Mundo. O próprio filho, atualmente estrela de um time espanhol, estava presente. A família estava toda reunida, com exceção da filha mais velha.
Há muitos quilômetros de distância, a nova família de Miriam estava reunida. Seu filho viria finalmente ao mundo: a movimentação no hospital era grande. Dudu, ansioso, aguardava na sala de espera enquanto apertava com força a mão da mãe.
Pelo país, fogos de artifício foram estourados e lágrimas foram derramadas. Na casa de seu Adilson, apenas as lágrimas tiveram vez. Já no hospital, as lágrimas eram de felicidade:
- É uma menina.
Quando as pessoas falam a palavra MENTIRA, a conotação negativa é óbvia. O mesmo acontece com FALSIDADE. Outro tanto de palavras do mesmo naipe recebem o mesmo tratamento quando ouvidas: uma torção de lábios, um franzir de narizes e uma enrugação leve de testas e sobrancelhas. Tudo que foge à verdade, absoluta e imparcial, é vista como uma deturpação negativa do que se entende como realidade.
Normal. Principalmente se pensarmos que vivemos em um mundo onde INVENÇÃO é uma palavra também enfraquecida. Claro! Se a verdade é única, absoluta e imutável, qualquer modificação da sociedade se torna uma mentira, uma impureza contra a realidade vigente. Inventar algo é o mesmo que desconstruir a realidade. É mostrar que se a verdade diz algo, essa mesma verdade pode estar ultrapassada. Logo, INVENÇÃO e MENTIRA passam a ser sinônimos.
Se alguém inventar que Deus não existe, é um grande inimigo da sociedade vigente. Afinal, isso é apenas uma invenção, já que é sabido por todos que a verdade é que ele existe e está sempre presente. Se alguém inventar que o petróleo não é melhor fonte de energia a ser utilizada, é um grande inimigo da sociedade vigente. Afinal, muita gente pode mostrar para nós como ele é um combustível confiável, barato e o mais viável em nossas atuais circunstâncias.
As invenções deturpam uma verdade já estabelecida. Por isso, logo são comparadas a falsidades e mentiras. Estas duas palavras, por si só, já são erroneamente encaradas como negativas em sua totalidade. As próprias falsidades e mentiras podem ser apenas um exercício de imaginação, uma fantasia que não causa maiores dores e danos, e por muitas vezes pode render alegrias e uma qualidade de vida acima da “realidade” por muitos defendida.
Quando nos colocarmos em um estado de aceitação da criatividade e da fantasia como algo natural da consciência racional e emocional humana, podemos nos ver além destes paradigmas que apequenam a liberdade criativa da população. A criatividade, colocada como uma qualidade de segunda categoria, mostra-se interessante apenas como lazer, não sendo encarada como fonte de renda, a não ser para um pequeno grupo de classes profissionais que caminham além dos pensamentos mais clássicos.
A vanguarda intelectual, hoje motivada pelo universo digital e pela vivência online cada vez mais duradoura da Geração Y, mostra que a criatividade, a fantasia e até mesmo a falsidade podem ter significados muito mais belos que os apregoados pela mídia e pelos até então detentores do poder. A comunicação 2.0 modifica a forma vigente de contato e o avatares começam a tomar mais força, com a criação de verdadeiros personagens na internet. Personagens estes que ao invés de serem considerados uma mentira inaceitável, transformam-se em uma multiplicação de personalidades benéfica e amplamente utilizada por empresas e personalidades online.
A criação de avatares institucionais demonstra que a utilização de um personagem fortifica a marca, dá ênfase ao assunto em questão e defende com mais força e dinamismo a gama de interesses relacionados ao meio digital.
O cheiro de sexo ainda enchia o ambiente. Abriu os olhos, meio atordoado pela luz do sol que entrava por entre as cortinas, e percebeu que estava sozinho. Levantou-se, caminhou até o banheiro e lavou o rosto. Lembrava pouco da noite anterior.
Foi quando ergueu a face molhada para se olhar no espelho que percebeu a foto presa com fita adesiva. No retrato, o nobre deputado dormia tranquilo, ladeado por duas belíssimas moças de corpos perfeitos e completamente nus.
Na foto, a mensagem escrita em batom: temos certeza de que seu voto será favorável.
O deputado coçou o olho, cabeça baixa. Não conseguia acreditar que tinha caído em truque tão banal. As duas morenas que riram tanto de suas piadas sem graça na noite passada eram contratadas da empreiteira, era óbvio. Como não havia pensado nisso antes?
A fama de conquistador do deputado já era notória, mas sempre foi discreto o suficiente para nunca deixar escapar qualquer história que pudesse atrapalhar sua carreira política. Agora, em seu rosto, a prova do erro: a traição idiota e quase fantástica que lhe custaria o voto favorável na sessão de logo mais.
Procurou carteira e a encontrou sobre o criado-mudo, exatamente da forma que estava anteriormente. Nem sequer uma nota de dez reais foi roubada. O relógio, a maleta, tudo intocado. Estava lidando com profissionais. Não teria outra opção.
No horário da votação, o deputado levantou-se humilhado. Inconsolável, baixou a cabeça e confirmou o voto favorável à obra. Sentou-se em silêncio, não quis discursar. Envolto em seus demônios, nem reparou que o silêncio invadia também as outras cadeiras ao seu redor. Naquela tarde, a política confirmou seu poder máximo.
- Ei, moleque!
- Oi?
- Como é teu nome?
- Buiú.
- E Buiú é nome?
- Ix… todo mundo diz Buiú…
- E teu nome sério, é como?
- Tipo nome de colégio?
- É, vindo dos teus velhos.
- É Dionísio, senhor.
- Dionísio?
- Isso.
- Por que Buiú?
- Porque sou preto, ué.
- E tu conhece um Buiú? Ele é preto?
- É tipo o bicho, né?
- Queres dizer bugio?
- Ix… é mesmo. E Bugio e Buiú é diferente?
- É sim, guri. Pois tu tens que ter orgulho do teu nome, moleque.
- Dionísio é feio…
- É teu nome e ponto. Tens que ter orgulho do teu nome. Dionísio é um Deus. Motivo de orgulho.
- Deus, é?
- Isso mesmo, um Deus. E segue com teu nome como ele deve ser: Dionísio.
- Uhum…
- Inté, guri. Some.
- Inté…
(No mesmo dia)
- Ei, Buiú!
- É Dionísio.
- Quê? (risos histéricos) Dionísio? Se foder, moleque, de onde tirou isso?
- O hôme disse que tenho que ter orgulho do meu nome. Todo mundo deve dizer sempre Dionísio.
- Hôme? Que hôme?
- O hôme, ué. O hôme dos hôme.
- Pois ele que enfie o Dionísio no cu dele. Quem é o chefe sou eu e ponto. Hôme nenhum diz ordem no meu morro. E tu, tu é Buiú e pronto, entendido?
- Sim, senhor.
- Me vê o isqueiro, Buiú. E te foge pro boteco do teu velho. Diz que ele me deve vinte conto e que cobro hoje mesmo.
- Sim, senhor.
- Some, Buiú! Ô guri lento do meu cacete!