Ainda não bem amanhecia. O vapor (teria sido um vapor) cortava tranquilamente as águas mansas de Chesapeake Bay. Edgar Alan Poe, esse pobre diabo bêbado que vemos diante de nossos olhos, escorando-se numa das colunas do vapor, sorve em goles tensos um uísque barato, que mantém guardado no bolso de seu paletó. Não vemos seu rosto, mas sabemos que está ali, à espera de.
Sem esperar que alguém lhe acompanhasse com os olhos, Edgar, esse traste, quase cai ao ouvir a voz gutural do homem que lhe observa:
“Boa noite, Senhor Poe. Ou devo lhe dizer bom dia?!”
O homem que se apresenta a Edgar é alto, corpulento e aproxima-se sem dificuldades. Sua presença, apesar de não ser aceita pelo Edgar reflexivo dessa manhã de setembro, não pode ser negada, tampouco. “Há que se acostumar a ele, já não há mais muito mar para chegar a Baltimore”. Assim, pelo menos, acreditamos que Edgar tenha se dito ao permitir-se permanecer perto do estranho.
— Permita-me, Senhor Poe, perguntar-lhe: o senhor não se envergonha do que escreve?
— Ora! E por que o faria?
— Vejo que há muita intuição no senhor. Vejo sua alma inquieta, senhor Poe. Mas vejo que falta-lhe…
— Senhor, é um prazer encontrar um raro leitor que me venha entediar os bagos a essa hora da manhã, mas creio-lhe inoportuno.
— O senhor não entende, senhor Poe? Não quereria jamais importuná-lo. Mas sinto que a escuridão em que se encontra sua alma necessita da luz que talvez eu carregue.
Edgar ri calorosamente. Seu riso é bêbado; os olhos permanecem sérios.
— E como pensa o senhor… Senhor…
— Reynolds!
—…que conseguiria trazer alguma luz à escuridão em que me encontro?
— Ora, Senhor Poe. Vejo que o senhor tem muita imaginação, assim não seria jamais capaz de negar. Mas vejo que falta-lhe, digamos, experiências no obscuro das coisas.
Edgar, pela primeira vez, põe-se a ouvi-lo. Oferece ao interlocutor um gole do seu uísque de bolso, que Reynolds solenemente nega. A companhia inicia, portanto, intenso colóquio a respeito da obra de Edgar “oh, meu caro Senhor Poe”, enunciando os méritos da obra singular e austera de um homem que cheira a angústia.
Reynolds, tendo ouvido de Edgar que este teria “compromissos inadiáveis ao desembarcar em Baltimore”, insiste no convite para conhecer um dos lugares mais mórbidos de que já se tinha ouvido falar no mundo, naquele mundo de 1849.
— Permita-me as mais sinceras desculpas, meu caro Reynolds. Mas não haverá modo de.
— Perdoe-me, meu sensato Senhor Poe. Mas imagino que o senhor não tenha levado em conta a ausência de escolha em relação a o senhor me acompanhar. É necessário que o senhor veja, Senhor Poe. Que o senhor saiba do que eu falo.
Ao aportar em Baltimore, Edgar segue Reynolds pela manhã nebulosa de uma cidade marrom. Caminham em silêncio pela rua de pedras, pela lama das pedras, o orvalho que lambuza-lhes os sapatos, as meias, as narinas, a alma de Edgar. Embarcam numa modesta carruagem posta ali à espera dos dois e em pouco tempo chegam às curvas tensas e escuras que os levarão aos portos no norte, nada metafóricos, tristes portos, reduto de bêbados e prostitutas, órfãos e segregados, infames e canalhas. As ruas fedem a mijo e vômito. Edgar, o gótico, o necrófilo, o medroso:
— Vejo que não gosta do que vê, Senhor Poe.
A carruagem pára defronte a um prédio ainda mais antigo do que o ano de 1849. A construção não inspira em Edgar senão temor. Reynolds quase tem de pegar na mão do visitante. Parados na porta, dois homens gordos, porém fortes, pescadores de que lado do mundo. Não se movem perante a entrada de Reynolds, mas impedem que Edgar entre pela grande porta de madeira. “Idiotas”, grunhe Reynolds, “não vêem que eu o trouxe?”
As horas que ali passaria em pouco tempo se tornariam dias.
Não havia nomes entre os visitantes (dezenas deles) que ocupavam as diversas salas subterrâneas do casario. Sabia-se, no entanto, ao se reparar em suas mãos e seus cabelos — não em suas vestimentas, porque pouco ou nada dispunham delas — facilmente se percebia serem homens e mulheres de posse. Oh! Homens e mulheres e crianças e animais naquilo que Edgar, do alto de sua obscuridade literária, jamais pensou que fosse possível haver.
— Vê, meu honorável Senhor Poe? Vê estes homens e estas mulheres? Atravessam o mundo para poder passar pelas experiências mais imundas que a perversidade humana é capaz de abarcar.
Edgar, os olhos cheios de lágrimas, o uísque sorvido a goles fortes, intransigentes, é incapaz de — oh Deus! oh Deus! — segurar a onda bizarra que agora mesmo — oh Deus! — toma seu corpo magro e disforme e — oh Deus! — endurece-lhe o membro com toda força!
Nos dias que seguiriam, embora os visitantes se fossem, ou seja, não passassem ali mais que o tempo destinado a seus estranhos desejos, Edgar — já sem a presença de Reynolds, fique claro — passaria andando de um lado para o outro entre as salas mal iluminadas dos intermináveis porões da loucura.
Entre os gritos e gemidos que ouvia, o choro de crianças, os dentes crispados de dor, o guincho de porcas, de cabras, de mulheres e homens sodomizados, o obscuro Edgar orava baixinho uma oração que lhe tinha sido ensinada na infância e da qual não acreditava-se que fosse recordar.
Um acidente, certamente, terem se esquecido do visitante. Um acidente, certamente, terem permitido que Edgar saísse às ruas da cidade úmida. Acidente maior ainda ser dia e Edgar poder reconhecer facilmente o caminho, avisar as autoridades, fazer baixar ali a Igreja e o Exército.
No entanto, já nada verdadeiramente sabia esse Senhor Poe. Nem do mundo nem de si. Conseguiu, no entanto, balbuciar que tinha fome ao cafetão Walker, que impedido de tocar no Senhor Poe (“Edgar, meu nome é Edgar. Faça vir ajuda, senhor! Ó, Reynolds, quanta sujeira”) ainda assim pôs-se a alimentá-lo e a avisar um conhecido de Edgar que viria a encontrá-lo no estado mais tarde incansavelmente descrito.
Amarrado a uma cama fria do Washington College Hospital, Edgar não diria mais nada que se pudesse de fato entender. Entre o choro e o riso contínuos, os olhos arregalados, a boca trêmula de prazer ou insana dor, ainda disse que estava tudo acabado, que escrevessem que Eddy — o Eddy das amantes, o prezado Senhor Poe dos admiradores ou simplesmente o nosso Edgar, terceira pessoa — não mais havia.
Horas depois de ter adentrado na escuridão grotesca dos porões do casarão de Reynolds, enquanto este dispunha a Edgar mais uma garrafa de bebida forte, Edgar boquiaberto, os olhos incapazes de perder cada detalhe do que de mais bizarro podia haver no mundo, naquele 1849, disse ao anfitrião “que era impossível que houvesse algo de mais brilhante e demoníaco na história da humanidade do que aqueles porões”. Reynolds sorriu, orgulhoso, e fez que sim com um sinal de cabeça.