Duelo de Escritores

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Archive for the ‘marcelo labes’ Category

Feb
26
Consultório.

Simples, doutor, um dia a gente tem tudo, noutro dia a gente não tem nada. Eu mesmo sou exemplo disso, veja o senhor: já tive Deus. Mas tem um momento na vida da gente em que a gente se perde e que a vida perde a gente. Imagine o senhor como aconteceu: eu era jovem, eu era saudável, até bonito dava pra dizer que eu era: eu era alimentado e me vestia, não passava frio, não tinha uma saudade, não tinha muita ansiedade, por que manter isso de agradecer e pedir e agradecer, essa rotina tosca de quem vai à igreja? Eu me perguntava e não encontrava resposta; pra tanta coisa a gente não tem resposta, não é?, o senhor concorda?, acontece então que larguei Deus, doutor, o senhor veja: não havia mais o que eu pudesse esperar dele, nem mesmo que existisse. Simples, não é? Nem mesmo quando eu comecei a sentir falta dela, o senhor veja, quando eu pensava em me matar, aqueles dias difíceis, o senhor ainda não me conhecia, naqueles dias difíceis eu queria orar, pedir ajuda de Deus e essas coisas todas, mas Ele já não estava mais ali.

 

Eles também não estavam mais lá, eu disse pro senhor: eu tinha uma causa, e foi por eu ter traídos os meus — é assim que a gente se referia um ao outro, éramos os nossos, sabe?, a gente dizia: eu tenho os meus para nos referirmos a nós — que eles me abandonaram; a gente tinha uma causa pela qual todos, sem exceção, estavam dispostos a dar a vida, a pagar com sangue, mas principalmente cobrar em sangue e vidas. Aconteceu de eu me tornar vermelho muito tempo antes de eu saber das coisas, essas coisas, pode se crer numa sociedade, não é? E quando eles precisaram, doutor, quando eu tinha nas minhas costas mais do que dez vidas jovens e idealistas, eu os traí, eu tive medo, o senhor entende? E tanto que nos haviam treinado para que não sucumbíssemos à tortura, mas nem cheguei a tomar choque, não chegaram a esmagar os meus bagos, não fizeram nada comigo, porra! Eu comecei a chorar antes da hora, e a na hora que o policial me agarrou por trás — juro que pensei que ele fosse comer meu cu — eu comecei a chorar como criança e expliquei tudinho, disse quem mandava em quem, disse quem obedecia, dei endereços, dei com os burros n’água, o senhor acredita? E quando eu vou dormir, doutor, quando eu vou dormir eu escuto aquelas vozes que eu não cheguei a ouvir, as vozes dos meus companheiros de causa, dos meus companheiros, sabe? E eles me dizem que eu sou um filho da puta, que eu merecia mesmo era que minha mãe me arrombasse meu cuzinho, será que tem relação, doutor, o meu cu com a traição? E a minha mãe, aonde entra nessa história?

 

Não que eu a amasse, doutor, nem nada. Mas quando eu a vi beijando outro homem, sabe?, um ardume no peito, uma coisa ruim, eu vomitei verde ali mesmo, vomitei meus pés, eu não a amava nem nada, doutor, mas a dor que se sente, a dor que eu senti, entende?, o senhor consegue me entender? Porque eu não consigo, por mais que eu tente. E não é uma questão de ser traído, porque traição acontece com quem ama, não é? Mas eu não amava nem nada, por isso não consigo entender o porquê de tanta dor, de tanta angústia e de tanta saudade. Se eu a amasse, o senhor há concordar, se eu a amasse, poderia muito bem me sentir traído, mas não se tratava disso. O senhor consegue me dizer do que se trata, então?

Feb
16
Chovia.

e tem gente que reclama que chove há tanto tempo, há tanto tempo que chove que revi uma cena do cem anos e os peixes atravessavam a casa pelo ar. atravessavam ou poderiam atravessar, não me lembro. a gente reclama que não tem sol, a gente acha que amanhã o dia limpa e o jornal me encheu de suspeitas quando disse que a umidade ia diminuir.

eu faço tudo errado e estou errando agora, nesse exato momento brilhoso dessa manhã cinza de quarta-feira. eu faço tudo errado porque eu gosto, porque eu sei que dá. certo é duvidoso, primeiro lugar com medalha pintada de ouro e um abraço da mamãe, do papai, da tia e da professora. era domingo e eu corri até quando pude e cheguei em último lugar e ninguém veio dizer seu merda, ninguém veio dizer pra tentar de novo.

era junho ou julho e há quantos anos é junho ou julho, repetidamente. por isso a gente espera o sol, o céu limpo e algum vento gelado que venha chicotear gostosamente as orelhas, só pra lembrar que é junho ou julho ou era junho ou julho naquela vez que. fazia frio.

se eu soubesse de astrologia, o que faria com isso? se eu soubesse de galanteios e de paixões.

eu ando voando baixo, mas voando. e o vôo é tão só meu que dá vontade de compartilhar: tá aqui, voa um pouco junto. mas não. não deve vir. e se vier, o meu aviãozinho fica pesado e cai, ele voa baixo. ou não. uma corrente de ar quente?

eu vi um raio de sol. EU VI A PORRA DO SOL DEPOIS DE TUDO ISSO!

e faz vento dentro de mim.

Publicado originalmente aqui, em 29/07/2009.

Feb
3
O guri.

O guri, às vezes, ficava de canto. E poderia aqui se fazer toda uma dissertação sobre os cuidados às crianças que os adultos e as pedagogas tanto insistem em repetir. À exaustão. E o guri ficava de canto, brincando. (Vale lembrar, para fins didáticos desse texto, que todos fomos deixados muitas vezes de canto assim como, exaustos de um dia cansativo de trabalho, deixaremos os nossos guris para não nos incomodarem ainda mais do que nós mesmos conseguimos nos incomodar). Se ficava em silêncio por muito tempo, vinha o pai à janela ver se aprontava ou se vivia — um salto do sofá, um espasmo!, cadê o guri?, a respiração tranqüila, tá ali brincando.

O guri se entretém com brinquedos variados e aos quais não temos acesso, nós, meros mortais. Este guri pertence a outra estirpe, por assim dizer. E vive sozinho com o pai e a mãe,  não tem irmãos. Então é o tédio. Um dia entrou no escritório do pai e viu brinquedo novo, vários brinquedos novos. Não eram brinquedos, mas o guri não pensou nisso ao levar um deles pro porão.

Nunca mais aprontou, o guri. Não respondia ao pai e à mãe, arrumava o quarto, nunca mais se trancou no banheiro com revista de mulher pelada. O lugar do guri era no porão. Foi pra lá que levou o brinquedo (não é brinquedo, guri, tu não sabes?) que roubou do pai. E agora brinca de dia e de noite, de dia e de noite. Acorda na madrugada, pesadelo!, desce as escadas sem fazer barulho e com um toco de vela ilumina o brinquedo.

Ninguém desce mesmo ao porão. Ninguém se lembra de lá.

Mas veio a hora da mudança, empacotar as coisas, arrumar as malas, encontrar o que há muito não se lembrava que existia — quem já fez mudança, sabe — e visitar todos os cômodos da casa, todos os cômodos da casa, TODOS! Inclusive o porão.

Vem o pai furioso, agarra o guri pelas orelhas, suspende o moleque do chão, atira-o à grama, o guri chora. A mãe tenta acudir (como os adultos e as pedagogas agora intuem fazer), mas o pai levanta a mão e diz não chega perto! A mãe pergunta o que houve, o pai agarra o moleque pelo cabelo, pega a mãe pelo braço, desce as escadas correndo, os pés do guri não tocam o chão, o porão, chega perto do brinquedo e grita:

— Olha o que a merda do teu filho fez!

A mãe, horrorizada, cai em prantos. O pai, desamparado, rende-se à tristeza, maldito moleque, repete, maldito moleque. O guri chora. A mãe tenta ampará-lo, mas não consegue completar o abraço, sente raiva, a coitada, e tem medo do guri.

Nessa noite, ninguém mais falou. E ninguém jantou.

E ninguém dormiu. Só o guri.

Passada a raiva, a manhã seguinte era de empacotar lembranças, raridades e lixo que se acumula. Mas era também a hora da conversa, da calma, o pai a pedir desculpas ao guri — a mãe ainda não consegue abraçá-lo — e chega o momento da conversa. E quando o pai pergunta

— Por que, Javé?

o guri dá de ombros.

O pai se encarregou de destruir o que o filho havia feito. À mãe, coube o papel de limpar toda a sujeira. Na Terra, os momentos finais foram de desespero. Depois, o silêncio e a paz reinaram sobre o nada.

Jan
26
Lama na alma.

Ainda não bem amanhecia. O vapor (teria sido um vapor) cortava tranquilamente as águas mansas de Chesapeake Bay. Edgar Alan Poe, esse pobre diabo bêbado que vemos diante de nossos olhos, escorando-se numa das colunas do vapor, sorve em goles tensos um uísque barato, que mantém guardado no bolso de seu paletó. Não vemos seu rosto, mas sabemos que está ali, à espera de.

Sem esperar que alguém lhe acompanhasse com os olhos, Edgar, esse traste, quase cai ao ouvir a voz gutural do homem que lhe observa:

“Boa noite, Senhor Poe. Ou devo lhe dizer bom dia?!”

O homem que se apresenta a Edgar é alto, corpulento e aproxima-se sem dificuldades. Sua presença, apesar de não ser aceita pelo Edgar reflexivo dessa manhã de setembro, não pode ser negada, tampouco. “Há que se acostumar a ele, já não há mais muito mar para chegar a Baltimore”. Assim, pelo menos, acreditamos que Edgar tenha se dito ao permitir-se permanecer perto do estranho.

— Permita-me, Senhor Poe, perguntar-lhe: o senhor não se envergonha do que escreve?

— Ora! E por que o faria?

— Vejo que há muita intuição no senhor. Vejo sua alma inquieta, senhor Poe. Mas vejo que falta-lhe…

— Senhor, é um prazer encontrar um raro leitor  que me venha entediar os bagos a essa hora da manhã, mas creio-lhe inoportuno.

— O senhor não entende, senhor Poe? Não quereria jamais importuná-lo. Mas sinto que a escuridão em que se encontra sua alma necessita da luz que talvez eu carregue.

Edgar ri calorosamente. Seu riso é bêbado; os olhos permanecem sérios.

— E como pensa o senhor… Senhor…

— Reynolds!

—…que conseguiria trazer alguma luz à escuridão em que me encontro?

— Ora, Senhor Poe. Vejo que o senhor tem muita imaginação, assim não seria jamais capaz de negar. Mas vejo que falta-lhe, digamos, experiências no obscuro das coisas.

Edgar, pela primeira vez, põe-se a ouvi-lo. Oferece ao interlocutor um gole do seu uísque de bolso, que Reynolds solenemente nega. A companhia inicia, portanto, intenso colóquio a respeito da obra de Edgar “oh, meu caro Senhor Poe”, enunciando os méritos da obra singular e austera de um homem que cheira a angústia.

Reynolds, tendo ouvido de Edgar que este teria “compromissos inadiáveis ao desembarcar em Baltimore”, insiste no convite para conhecer um dos lugares mais mórbidos de que já se tinha ouvido falar no mundo, naquele mundo de 1849.

— Permita-me as mais sinceras desculpas, meu caro Reynolds. Mas não haverá modo de.

— Perdoe-me, meu sensato Senhor Poe. Mas imagino que o senhor não tenha levado em conta a ausência de escolha em relação a o senhor me acompanhar. É necessário que o senhor veja, Senhor Poe. Que o senhor saiba do que eu falo.

Ao aportar em Baltimore, Edgar segue Reynolds pela manhã nebulosa de uma cidade marrom. Caminham em silêncio pela rua de pedras, pela lama das pedras, o orvalho que lambuza-lhes os sapatos, as meias, as narinas, a alma de Edgar. Embarcam numa modesta carruagem posta ali à espera dos dois e em pouco tempo chegam às curvas tensas e escuras que os levarão aos portos no norte, nada metafóricos, tristes portos, reduto de bêbados e prostitutas, órfãos e segregados, infames e canalhas. As ruas fedem a mijo e vômito. Edgar, o gótico, o necrófilo, o medroso:

— Vejo que não gosta do que vê, Senhor Poe.

A carruagem pára defronte a um prédio ainda mais antigo do que o ano de 1849. A construção não inspira em Edgar senão temor. Reynolds quase tem de pegar na mão do visitante. Parados na porta, dois homens gordos, porém fortes, pescadores de que lado do mundo. Não se movem perante a entrada de Reynolds, mas impedem que Edgar entre pela grande porta de madeira. “Idiotas”, grunhe Reynolds, “não vêem que eu o trouxe?”

As horas que ali passaria em pouco tempo se tornariam dias.

Não havia nomes entre os visitantes (dezenas deles) que ocupavam as diversas salas subterrâneas do casario. Sabia-se, no entanto, ao se reparar em suas mãos e seus cabelos — não em suas vestimentas, porque pouco ou nada dispunham delas — facilmente se percebia serem homens e mulheres de posse. Oh! Homens e mulheres e crianças e animais naquilo que Edgar, do alto de sua obscuridade literária, jamais pensou que fosse possível haver.

— Vê, meu honorável Senhor Poe? Vê estes homens e estas mulheres? Atravessam o mundo para poder passar pelas experiências mais imundas que a perversidade humana é capaz de abarcar.

Edgar, os olhos cheios de lágrimas, o uísque sorvido a goles fortes, intransigentes, é incapaz de — oh Deus! oh Deus! — segurar a onda bizarra que agora mesmo — oh Deus! — toma seu corpo magro e disforme e — oh Deus! — endurece-lhe o membro com toda força!

Nos dias que seguiriam, embora os visitantes se fossem, ou seja, não passassem ali mais que o tempo destinado a seus estranhos desejos, Edgar — já sem a presença de Reynolds, fique claro — passaria andando de um lado para o outro entre as salas mal iluminadas dos intermináveis porões da loucura.

Entre os gritos e gemidos que ouvia, o choro de crianças, os dentes crispados de dor, o guincho de porcas, de cabras, de mulheres e homens sodomizados, o obscuro Edgar orava baixinho uma oração que lhe tinha sido ensinada na infância e da qual não acreditava-se que fosse recordar.

Um acidente, certamente, terem se esquecido do visitante. Um acidente, certamente, terem permitido que Edgar saísse às ruas da cidade úmida. Acidente maior ainda ser dia e Edgar poder reconhecer facilmente o caminho, avisar as autoridades, fazer baixar ali a Igreja e o Exército.

No entanto, já nada verdadeiramente sabia esse Senhor Poe. Nem do mundo nem de si. Conseguiu, no entanto, balbuciar que tinha fome ao cafetão Walker, que impedido de tocar no Senhor Poe (“Edgar, meu nome é Edgar. Faça vir ajuda, senhor! Ó, Reynolds, quanta sujeira”) ainda assim pôs-se a alimentá-lo e a avisar um conhecido de Edgar que viria a encontrá-lo no estado mais tarde incansavelmente descrito.

Amarrado a uma cama fria do Washington College Hospital, Edgar não diria mais nada que se pudesse de fato entender. Entre o choro e o riso contínuos, os olhos arregalados, a boca trêmula de prazer ou insana dor, ainda disse que estava tudo acabado, que escrevessem que Eddy — o Eddy das amantes, o prezado Senhor Poe dos admiradores ou simplesmente o nosso Edgar, terceira pessoa — não mais havia.

Horas depois de ter adentrado na escuridão grotesca dos porões do casarão de Reynolds, enquanto este dispunha a Edgar mais uma garrafa de bebida forte, Edgar boquiaberto, os olhos incapazes de perder cada detalhe do que de mais bizarro podia haver no mundo, naquele 1849, disse ao anfitrião “que era impossível que houvesse algo de mais brilhante e demoníaco na história da humanidade do que aqueles porões”. Reynolds sorriu, orgulhoso, e fez que sim com um sinal de cabeça.

Jan
14
Carta tardia.

Verônica, sua puta,

eu devia ter ido embora há muito tempo. Não sei ao certo se quando não me quiseste mais como amante ou se quando os vizinhos começaram a comentar do teu caso com o Sérgio, aquele maldito. Não, ele não tem culpa: a tua maldade é que é culpada. Tu, Verônica, que me fizeste rastejar por ti todos esses anos. Aonde eu estaria se não tivesse perdido meu tempo! Não lamento, porque eu hei de tomar todo o tempo perdido de volta.

Sua desgraçada! Não se faz isso com homem algum. Ainda mais eu, Verônica, que te daroa tudo que me pedisses, tudo que eu conseguisse te dar. O que faltou? Não importa mais. O que importa, sim, é que agora sou livre e chegarei aonde eu sempre quis. Aonde? Tu bem sabes.

O que tu não sabes é o quanto demorei para te escrever esta carta. Deveria tê-lo feito há muito tempo, mas precisava esperar a raiva chegar a esse ponto, Verônica: ao ponto de eu não conseguir mais olhar pra essa tua cara de meretriz sem sentir uma náusea absoluta. Não, tu não és feia, tu não vais ser feia nunca. Não, teu corpo ainda é forte e jovem, como tu és, como tu toda és, como tu sempre foste. Eu tenho nojo é de saber que poderíamos ter sido tão felizes e nunca fomos.

Quanto à tua filha (amo essa menina, mas nunca a considerei minha filha, como tu pudeste perceber — e como eu nunca deixei que ela sequer desconfiasse, em função tu sabes de quê), mandarei mensalmente a pensão para que pagues a ela uma escola decente e para que ela mesma, quando puder decidir, invente o que tiver vontade com o dinheiro. Por favor, Verônica, se souber que estás utilizando esse dinheiro para bancar qualquer um desses teus amantes malditos, eu mesmo venho aqui te matar.

Como não espero nunca mais te encontrar — a menos, claro, conforme esclarecido aqui em cima — posso te dizer que é verdade o que tu me disseste certa vez, que não acreditavas em quem amava muitas pessoas. Pelo seguinte, Verônica: todos esses homens com quem tu trepas semana após semana, esses que se resfolegam e suam sobre teu corpo, nunca te amarão e tu nunca os amará, porque o único homem que teve o privilégio de ser amado por ti, e tu bem sabes, fui eu. Acredito nisso, sim: ama-se, de verdade, somente uma pessoa durante a vida.

Eis que explico, portanto, o que quero dizer: nunca te amei, Verônica: me tornei estável. É verdade que por trás de um grande homem sempre haverá uma grande mulher, mas não sou grande; no máximo, mediano. No entanto, estar no meio me permitiu estabilidade financeira e força para encarar o que a vida quisesse me aprontar. Mas aonde quero chegar, de fato, é: se amei uma mulher em toda a minha vida, esta foi a Gabi.

Tu podias ter sido mais esperta, Verônica. Mas não: resolveste cair nisso que se pode chamar de meretrício, vagabundeando tuas coxas e teus olhares para homens que, nunca entendi, jamais mereceriam tais agrados. Mas nesses oito anos nunca deixei de me encontrar com a Gabi, de trepar com a Gabi e de prometer a ela que, no momento oportuno, eu seria inteiramente dela. Eis que o momento chegou, Verônica.

Espero, somente, que encontres um emprego decente. E que aprendas, de uma vez por todas, que a facilidade com que te entregas a qualquer um jamais te dará o prestígio que esperas ter com esses homens noturnos que te possuem a custo de lixo. Não sei se estarás chorando ou rindo quando terminares de ler esta carta, mas Verônica, eu te digo: é lindo ser livre.

Sinceramente,

Pedro.

“Sou um típico homem feliz. De fato, após ter vivido esses quarenta anos e da forma como foi, posso assegurar que um homem não tem muitos motivos para não dar certo na vida. Vejam meu caso: de família humilde, vi meus dois irmãos aventurarem-se pelo que de mau a vida nos oferece no dia a dia e terem se tornado homens angustiados e deprimidos pela difícil situação financeira em que se encontram. Eu previa desde cedo que fossem terminar assim, mas nunca lhes disse: queria que se dessem conta de que seres ignorantes têm vidas ignorantes.

“Da mesma forma, vi meu pai morrer afogado em litros e litros de pinga barata. Eu lamentava tanto a sua decisão quanto a minha tristeza por vê-lo, aos poucos, oferecer a nós, espectadores de sua decrepitude, as cenas mais terríveis a que poderíamos ter sido expostos. É baseado nisto que explico os deslizes de meus irmãos e a infelicidade de minha mãe. Ou a sua ascensão: depois que meu pai finalmente nos permitiu viver um pouco menos angustiados, minha mãe alternava seus relacionamentos entre homens iguais a ele e respeitosos senhores do círculo católico — e tediosos, por deus! — que vinham jantar em nossa casa sábados à noite.

“É evidente que não saí ileso dessa conturbada vida familiar. Ainda hoje, em noites de insônia, lembro do choro calado de minha mãe e dos gemidos de meu pai em seu leito de morte; ora alternados os dois sons, ora sobrepostos. No entanto, tirando meu fatal medo da vida familiar que por alguns momentos tive a oportunidade de criar — eu mesmo teria a minha família, meus filhos, minha casa, meu carro etc. — posso dizer que nada disso me afetou como afetou meus irmãos ou minha mãe ou as pessoas que paravam diante de nossa casa nos sábados à tardinha, quando o pai voltava carregado do bar.

“Mas sou um homem feliz. É bem verdade que se minha elegância se sobrepusesse ao meu temperamento frio, eu teria mais sorte com as mulheres e com os amigos. Não sou muito chegado a amigos: lembro-me dos tempos de escola, quando éramos em três ou quatro e tive de delatá-los para manter a bolsa de estudos que com muito choro minha mãe havia conseguido no colégio católico. Das surras que apanhei após a delação, tirei a lição de que não se pode ser muito achegado às pessoas.

“É daí, certamente, e do meu temperamento, não se pode esquecer dele, que veio meu tino comercial, essa capacidade de fazer negócios e, como dizem os sindicalistas em discursos acalorados, explorar pessoas humildes. Ora, eu também já fui humilde e tirei proveito de tudo quanto sofri para me tornar um homem tão bem sucedido. E feliz, como se pode ver.

“Acontece, sim, às vezes, de eu me perceber solitário, gastando pequenas fortunas em ternos italianos ou nova-iorquinos — que são parte fundamental da minha presença austera e marcante. Mas aprendi com o tempo: para pequenos remorsos há sempre pequenos remédios e isso fica explícito nas doações que faço, duas vezes por ano, de jogos de agasalhos que peço, discretamente, que sejam entregues em instituições de crianças desfavorecidas.

“Tenho meus deslizes. De repente, se eu comentá-los, a imagem que se tinha de mim antes de eu começar a falar de minha vida se deturpe. Tenho uma proximidade sensual com o álcool e com remédios para dormir, hábitos que herdei de minha mãe e meu pai, talvez seu maior legado ao filho mais novo de uma família neurótica. Mas nada disso me diminui, embora tenha ficado constrangido de, ao observar à distância a entrega dos agasalhos, ter visto ali meu irmão mais velho e sua esposa com seus dois filhos. Eles tristemente esperavam na fila a sua vez. Mas isso não pode me diminuir.

“Como eu bem dizia, sou um homem tipicamente feliz. Ou aparentemente, porque feliz de fato sabe-se que não se pode ser”.

E ao pensar estas últimas palavras põe-se absorto entre pensamentos e imagens que somente uísque escocês a mil e duzentos euros a garrafa pode proporcionar.

Não sei ao certo quando foi a primeira vez que Larissa e eu nos amamos. Sua mãe e eu havíamos bebido demais num jantar entre amigos e coube a mim pagar a babá e levá-las até a cama, sua mãe, ao nosso quarto e Larissa, ao festivo quarto rosa onde habitava. Larissa vestia pijama e entre suas curvas pude ver que não usava calcinha, os seios em crescimento despontavam por sob a camiseta de algodão. Tinha doze anos, por essa época.

Não sou seu pai biológico, embora sejamos parecidos. Conheci sua mãe quando de Larissa já lhe caíam os primeiros dentes. Nossa proximidade, apesar dos anos, nunca nos proporcionou o amor vital entre pai e filha. Pelo contrário: sua beleza desde sempre me provocou ao ponto de ambos nos constrangermos com a presença alheia. Não nos tocávamos que não fosse com os olhos. Aliás, penetrávamo-nos com os olhos e assim mesmo, nos olhando, chegávamos aos orgasmos mais bonitos.

Mas não sei como nos amamos a primeira vez. Na prática, quero dizer. Acho que era verão. Larissa trouxe as colegas de escola para uma tarde na piscina. Sua mãe e eu observávamos suas peripécias entre nosso silêncio e os goles que dávamos num uísque que estalava ao contato com o gelo. Sara, Fernanda, Letícia, eram tão joviais aqueles corpos, exalavam doçura. Do alto da minha embriaguez, eu pedia que me convidassem: “Vem, tio, brincar com a gente”. Não me chamavam e eu sabia que a responsabilidade que ainda me restava não me deixaria chegar perto da excitação do Zé Mayer comendo a Mel Lisboa.

As meninas foram embora, a mãe de Larissa foi para a cama com dor de cabeça e Larissa foi se lavar. Quando passava em frente ao banheiro, vi a porta aberta. A dor de cabeça do uísque já começava a dar sinais. Pelo vapor que eu via, adivinhava Larissa em seu banho. Diminuí o passo, mas ciente do meu desejo, me virei a fim de retornar à cozinha, encher mais um copo e ir dormir, inerte. Eis que a porta se abriu. Larissa enrolada numa toalha de rosto, os cabelos cheios de xampu:

— Jorge, me ajuda com o chuveiro? A água tá muito quente!

Nunca me chamou de pai como eu também nunca a considerei minha filha. Não pela falta de contato, de amor que sentíssemos um pelo outro, apenas por uma questão de responsabilidade. Enquanto convivíamos em família — Larissa, sua mãe e eu — sabíamos que o ar que se respirava em comum trazia o peso da excitação que nos acometia quando nos cruzávamos, volta e meia, pelos corredores.

— O que há, Lala? — era assim que, carinhosamente, eu a chamava.

— Aqui, Jorge: a água tá escaldante.

— Espera um minuto, já volto. Tenho que buscar as ferramentas.

Sim, eu precisava, ao mesmo tempo, buscar a caixa de ferramentas na garagem e me certificar de que a mãe de Larissa dormia. Voltei ao banheiro, Larissa sentada sob o vaso, devia estar mijando, a toalha somente lhe cobria os seios, agora. Entrei no box — era daqueles modelos que travam por dentro, nunca entendi direito o porquê —, abri a água, estava tudo normal, temperatura agradável. Atrás de mim, a figura juvenil de Larissa. Virei-me e disse que tudo estava certo. Após fechar a tranca do box, deixou cair a toalha e pude vislumbrar pela primeira vez seu jovem corpo nu. Faria catorze anos no mês seguinte.

(…)

Nunca havia sido um mau esposo. Pelo contrário: a mãe de Larissa e eu formávamos um belo casal. A verdade é que, com o crescimento de sua filha, o seu corpo que naturalmente tornava-se flácido, porque vivido, deixava aos poucos de me interessar. Minha esposa, com o tempo, foi se entregando cada vez mais aos calmantes e ao uísque: não aceitava meu desinteresse e, como se pode imaginar, não tinha coragem de me confrontar. Por causa de suas fugas, Larissa e eu nos tornamos cada vez mais amigos.

Entre a decadência total do meu casamento e a paixão arrasadora entre Larissa e eu puderam-se contar uns curtos meses. Sentia-me um Amaro realizado, com a minha pequena Clarissa sobre mim. Se o Érico tivesse podido, seu romance não seria nunca aquela pasmaceira ingênua. Éramos ali, todo o tempo: transávamos antes de eu levá-la à escola, depois do almoço, dentro da piscina. Para tanto, havia dispensado a empregada e me valia das minhas férias aliadas às fugas de minha esposa, mãe de Larissa.

Tudo corria calorosamente bem até o dia em que cheguei do trabalho, passava das dezoito horas e vi Larissa sentada junto à parede da cozinha. Seu rosto machucado, o sangue lhe escorrendo do nariz.

— O que aconteceu, pelamordedeus!

— Mamãe, ela sabe de tudo!

— De tudo o quê? — gritava ansioso, esperando disfarçar meu nervosismo.

— Tudo sobre a gente, tudo, TUDO!

— Espera, Lala, eu vou conversar com ela.

Antes que pensasse em me dirigir ao nosso quarto, já Larissa punha-se de pé à minha frente. Enlaçou seus finos braços sobre meus ombros, na ponta dos pés, e sorriu, o canto da boca machucada. Sorria.

— O que é isso? Tá maluca?

— Pára, Jorge, ela não vai mais nos incomodar.

— Como assim? — disse eu, nervos à flor da pele.

Larissa sorria o riso do ódio e do orgasmo. Meu desespero alcançou seu extremo. “Como assim, nunca mais incomodar?” Não tinha coragem de repetir a pergunta. Já Larissa me beijava, o gosto doce de sangue surgia na minha boca.

— Nunca mais mesmo? — perguntei, ansioso.

— Não, nunca mais.

E antes de pensar o que dizer à polícia, aos familiares — mesmo antes de imaginarmos maneiras de não nos tornarmos suspeitos, trepamos ali mesmo, no chão da cozinha. Somente uma vez revi aquele sorriso macabro e excitante nos olhos de Larissa. Foi no dia em que me levaram algemado, condenação certa, não havia álibi que me salvasse. E da doçura quente daquele olhar, da maldade sobressalente daquele sorriso só posso dizer o óbvio para um homem que teve Larissa úmida entre seus braços: sinto saudade.

Sentado no primeiro banco do lado direito, ali na praça da matriz,  relembrava: “Foi aqui que a vi? Não teria sido do outro lado?”

O vento sul chicoteava contra seu rosto. Se tivesse sido aqui ou ali, o que importava? Se os anos haviam sido bons, se já não queria que houvesse mais anos, o que importava? Sentado na praça da matriz, tinha a imensa igreja diante de si como paisagem. As mãos dentro dos bolsos, observando o nada com atenção. Relembrava e se dispunha a retroceder nos anos: “Se pudesse refazer, recalcular, reviver — mas vivendo de novo, errando nas horas certas (na quantidade de açúcar no café, no tempo de forno do peru de natal) — eu seria melhor. Deus, como eu seria melhor!”

Os anos. Quantos? Era-lhe duro calcular, muito duro, nunca soube com certeza: esquecia-se das datas, ano após ano: não havia necessidade do mérito, do aniversário: desde o primeiro dia havia sido o mesmo dia. Só agora vê que não: eram dias que se seguiam, se ultrapassavam, datas que se cansavam a si e cansavam-na, ela, que acordava na madrugada fria, pelo tempo que tiveram, para perguntar-lhe:

— Sabes que dia é hoje?

— Terça-feira?

— Não, amor: um outro dia, um dia especial…

Esquecia-se de lembrar. Então por que agora relembra dos meses, das datas, de hora após hora como se precisasse reviver as lembranças para não morrer a cada instante? Morria-se: “Como era mesmo o nome daquela cidade? Daquele disco? Daquele livro? O número do apartamento? A cor da camiseta? A banda preferida? O telefone?” Se não encontrava uma resposta, a mais simples que fosse, o peito rasgava-se, o estômago revirava-se, os pulmões eram comprimidos por tudo que houvesse de culpa nesse corpo agora magro, doente e triste.

Sentado na praça da matriz, riu-se ao perceber que o prédio decrépito ainda exibia mais vigor que a sua parca figura. Foi ali, tinha certeza, dali eles podiam apreciar a monumental escultura de concreto incrustada no centro da cidade — prédios, prédios, prédios — mas uma praça e ali, a construção. Riu-se ao lembrar:

— Vamos embora, tá ficando escuro.

— Não tem problema, querida. É seguro aqui. Vê ali o posto da polícia?

— Não é isso, são esses monstros ali, aquelas imagens de pedra.

— As gárgulas?

Explicou do que se tratavam. Pelos primeiros encontros, pelos primeiros anos, ainda discutiam arte, sexo à oriental, arquitetura. “Não há o que temer. Vê? São de pedra, não podem sair dali: quem ousar dizer o contrário é cineasta americano que quer o dinheiro da gente”. Riram-se juntos.

Calafrio!

Sentado só, já não lhe eram somente imagens de pedra: tentou contar, uma a uma: eram seus demônios, a sobra do que ele havia sido, as razões de toda insônia. Foram as noites em claro que fizeram com que ficasse assim, de pedra, embora não vigoroso como as esculturas: se fosse algo, seria um monturo de calcário e estrume, um monte de merda endurecida.

Calafrio!

Estariam mesmo o percebendo? E rindo? Recitando, uma a uma, sem que para isso fossem requisitadas, os pecados cometidos, um a um? Não podia mais com aquilo: já lhe falaram as paredes, os móveis, o travesseiro, nenhum havia sido tão cruel a ponto de lhe dizer: “Vê, foi aqui que tudo começou”. Levantou-se rapidamente. Para onde correr? Para onde fugir? “Psiu! Vê? É aqui que tudo vai terminar”.

Sem mais pensar, observou atentamente e pela última vez o bloco de concreto esculpido, a praça — que com a luz amarela dos postes exibe contornos tão bonitos — e encarou os demônios, os seus demônios que, sabia, guardavam todas as suas culpas. A mão no bolso, um grito de pedra ecoou pela praça ao tirar dali a arma. E vários gritos puderam ser ouvidos quando mirou contra seu peito. Explica-se: para sofrer com os demônios da memória, para alimentá-los, é preciso estar vivo.

Não se sensibilizou com o desespero das gárgulas. Há anos que vinha aqui, sentava-se nesse primeiro banco e lhes dava de comer com suas lamentações exaltadas. Agora não, não mais, nunca mais: havia chegado a hora de deixar de carregar consigo a culpa que carregava sozinho e que sempre havia pertencido aos dois — só agora se deu por conta de que pertencia aos dois.

Quando a notícia foi adiante, não houve espanto nem surpresa. A não ser com o relato de uma testemunha: a mulher que se sentava no primeiro banco, mas do outro lado, e que ia ali chorar a ausência do seu querido — por onde anda, quanto sofrimento deixou — para seus demônios de pedra: “Primeiro foi um grito, mas eu não sei de onde veio. Depois, muito grito junto, grito de dor, de sofrimento. Daí, olhei pro lado e tava o homem de pé, arma não mão. Soluçava, chorava muito. Então parou, ficou imóvel. E no momento que ele atirou, moço. (pausa). No momento que ele atirou, ele sorria!”