Duelo de Escritores

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Archive for the ‘marina melz’ Category

Apr
27
sofri-mente
Sorria e só conseguia pensar em como gostaria de chorar. Alegrava-se e só conseguia pensar na própria tristeza. Começava e já sofria pelo final. Cozinhava e imaginava os restos no lixo. Escrevia cartas a podia vê-las sendo rasgadas. Banhava-se pensando na sujeira. Sambava pensando no silêncio que viria depois. Bebia pensando em ressacar. Jogava pensando na derrota. Beijava pensando no sumiço do dia seguinte. Batucava pensando na sua falta de ritmo. Olhava o sol ouvindo a trovoada que viria. Escolhia pensando nas opções que deixou de acatar.
Vivia e só pensava em morrer. E morria sem querer. Sem viver.

Sorria e só conseguia pensar em como gostaria de chorar. Alegrava-se e só conseguia pensar na própria tristeza. Começava e já sofria pelo final. Cozinhava e imaginava os restos no lixo. Escrevia cartas a podia vê-las sendo rasgadas. Banhava-se pensando na sujeira. Sambava pensando no silêncio que viria depois. Bebia pensando em ressacar. Jogava pensando na derrota. Beijava pensando no sumiço do dia seguinte. Batucava pensando na sua falta de ritmo. Olhava o sol ouvindo a trovoada que viria. Escolhia pensando nas opções que deixou de acatar.

Vivia e só pensava em morrer. E morria sem querer. Sem viver.

Apr
16
Sem dúvidas.
Tudo corria naturalmente entre Ana e Marcelo. Naturalmente, digo, daquele jeito: festa, padre, vestido, padrinhos, bolo, música, valsa. Ela achava retardada a idéia de uma despedida de solteiro, mas não dificultou as coisas. Pensou algo como logo-dou-jeito-nesses-amigos-babacas. Como manda a boa educação e a necessidade fisiológica de diversão, ela convidou algumas amigas e amigos para um brunch com vinho branco, blues e conversa fora.
Acho que era Billy Holiday que tocava quando Ana ouviu a coisa que mais detestava na vida. Alguém falou, em alto e bom tom: duvido. A voz única logo se transformou naqueles burburinhos insuportáveis que só um grupo de amigos reunidos é capaz de produzir. Ela soltou a taça na mesa e esticou a mão direita para Luiza.
Ao contrário de Ana, que, mesmo escorpiana, trazia um certo ar doce nas ações e no toque, Luiza pegou firme o pulso da sócia e colocou os dedos na curva da sua cintura. Os dedos da mão esquerda de Ana imediatamente subiram da nuca para o início das ondas dos cabelos de Luiza, que abraçou a amiga com as más intenções que não julgara ter nunca antes com uma mulher.
O burburinho silenciou de repente e Don’t Explain tocava alto quando Ana cerrou os dedos e puxou a cabeça de Luiza em sua direção. A língua dela agia como se concentrasse todo o tesão acumulado pela platéia. Devagar, Ana o rosto de Luiza e, sem tirar os olhos da boca da amiga, passeou os lábios e os dentes enquanto sentia as unhas dela arranharem suas costas embaixo da blusa quase infantil.
A melodia da música acompanhava o movimento das duas que, sem comando e numa ação quase involuntária, andavam devagar em direção a parede. Luiza, inesperadamente, inverteu a posição das duas e encurralou Ana contra o gesso branco. Todo o ritual erótico se transformou em completa dominação quando Luiza tomou controle.
Quando o celular de Ana tocou, as calças já tinham sido abertas, as mãos já não sentiam tecidos e as marcas de unhas estavam nas costas de ambas. Os amigos, que não conseguiam se pronunciar nem com os olhos mas diziam o que pensavam pelo silêncio voyer, se retiraram um a um. E quando receberam o aviso do cancelamento do casamento, prometeram nunca mais duvidar.

Tudo corria naturalmente entre Ana e Marcelo. Naturalmente, digo, daquele jeito: festa, padre, vestido, padrinhos, bolo, música, valsa. Ela achava retardada a idéia de uma despedida de solteiro, mas não dificultou as coisas. Pensou algo como logo-dou-jeito-nesses-amigos-babacas. Como manda a boa educação e a necessidade fisiológica de diversão, ela convidou algumas amigas e amigos para um brunch com vinho branco, blues e conversa fora.

Acho que era Billy Holiday que tocava quando Ana ouviu a coisa que mais detestava na vida. Alguém falou, em alto e bom tom: duvido. A voz única logo se transformou naqueles burburinhos insuportáveis que só um grupo de amigos reunidos é capaz de produzir. Ela soltou a taça na mesa e esticou a mão direita para Luiza.

Ao contrário de Ana, que, mesmo escorpiana, trazia um certo ar doce nas ações e no toque, Luiza pegou firme o pulso da sócia e colocou os dedos na curva da sua cintura. Os dedos da mão esquerda de Ana imediatamente subiram da nuca para o início das ondas dos cabelos de Luiza, que abraçou a amiga com as más intenções que não julgara ter nunca antes com uma mulher.

O burburinho silenciou de repente e Don’t Explain tocava alto quando Ana cerrou os dedos e puxou a cabeça de Luiza em sua direção. A língua dela agia como se concentrasse todo o tesão acumulado pela platéia. Devagar, Ana o rosto de Luiza e, sem tirar os olhos da boca da amiga, passeou os lábios e os dentes enquanto sentia as unhas dela arranharem suas costas embaixo da blusa quase infantil.

A melodia da música acompanhava o movimento das duas que, sem comando e numa ação quase involuntária, andavam devagar em direção a parede. Luiza, inesperadamente, inverteu a posição das duas e encurralou Ana contra o gesso branco. Todo o ritual erótico se transformou em completa dominação quando Luiza tomou controle.

Quando o celular de Ana tocou, as calças já tinham sido abertas, as mãos já não sentiam tecidos e as marcas de unhas estavam nas costas de ambas. Os amigos, que não conseguiam se pronunciar nem com os olhos mas diziam o que pensavam pelo silêncio voyer, se retiraram um a um. E quando receberam o aviso do cancelamento do casamento, prometeram nunca mais duvidar de ninguém.

Apr
7
Clichê
Eu poderia ter te conhecido no parque e ia ser lindo. Folhas de outono caindo pelo gramado úmido numa tarde de domingo e você de camiseta branca – algum dia disse que tenho verdadeira tara por camiseta branca?. E eu sentada no chão do parque e você chega e a gente se olha e sorri. E conversa. E andamos abraçados com os braços encaixados porque meu ombro deve encaixar no teu. E a gente ia sair e tomar um café. E seria lindo.
Ou a gente poderia ter se conhecido num show daquela banda que você adora e eu nem consegui te dizer que eu detesto. Mas eu iria porque essas coisas de destino são mesmo assim. Um dia a gente está num lugar que nem sabe por que chegou e acaba no mesmo lugar tendo certeza de porque chegou. E eu ia estar com cara de emburrada encostada numa parede e você ia curtir o show inteiro e a gente ia se olhar e eu ia pensar “idiota cantando essas músicas nojentas” e você ia me encostar na parede e me mostrar como não ouvir som algum.
Ou, quem sabe, podia ser num cinema. Você gosta de ir ao cinema sozinho e eu também, então podia ser um comédia romântica daquelas que a gente sabe que vai ser ruim e por isso é tão bom sentar na poltrona sem expectativa nenhuma. Podia ser assim: só tem um lugar, você senta ao meu lado e no meio do filme a gente olha pra frente e só tem casais se beijando e toca uma música bonitinha de filme clichê e a gente se olha e se beija. E sai dali direto para o cartório.
Pensando bem, a gente podia se conhecer num desses eventos bacanas, tipo formaturas. Você ia estar de terno e eu com aquele meu vestido. E, claro, sua gravata ia combinar comigo e seus olhos iam combinar com os meus. E você me tiraria pra dançar. E a gente dançaria, e riria, e beberia. E eu tiraria seu terno, você meu vestido.
Mas a gente não e conheceu. Quer dizer, eu sei tudo sobre você e te conheço como a palma da minha mão. Mas só nas minhas palmas e não no meu corpo inteiro. Porque as cartas que um dia, sem aviso, invadiram minha caixa de correspondência sem endereço de remetente me deixam sem resposta. E eu nem posso fazer perguntas.

Eu poderia ter te conhecido no parque e ia ser lindo. Folhas de outono caindo pelo gramado úmido numa tarde de domingo e você de camiseta branca – algum dia disse que tenho verdadeira tara por camiseta branca?. E eu sentada no chão do parque e você chega e a gente se olha e sorri. E conversa. E andamos abraçados com os braços encaixados porque meu ombro deve encaixar no teu. E a gente ia sair e tomar um café. E seria lindo.

Ou a gente poderia ter se conhecido num show daquela banda que você adora e eu nem consegui te dizer que eu detesto. Mas eu iria porque essas coisas de destino são mesmo assim. Um dia a gente está num lugar que nem sabe por que chegou e acaba no mesmo lugar tendo certeza de porque chegou. E eu ia estar com cara de emburrada encostada numa parede e você ia curtir o show inteiro e a gente ia se olhar e eu ia pensar “idiota cantando essas músicas nojentas” e você ia me encostar na parede e me mostrar como não ouvir som algum.

Ou, quem sabe, podia ser num cinema. Você gosta de ir ao cinema sozinho e eu também, então podia ser um comédia romântica daquelas que a gente sabe que vai ser ruim e por isso é tão bom sentar na poltrona sem expectativa nenhuma. Podia ser assim: só tem um lugar, você senta ao meu lado e no meio do filme a gente olha pra frente e só tem casais se beijando e toca uma música bonitinha de filme clichê e a gente se olha e se beija. E sai dali direto para o cartório.

Pensando bem, a gente podia se conhecer num desses eventos bacanas, tipo formaturas. Você ia estar de terno e eu com aquele meu vestido. E, claro, sua gravata ia combinar comigo e seus olhos iam combinar com os meus. E você me tiraria pra dançar. E a gente dançaria, e riria, e beberia. E eu tiraria seu terno, você meu vestido.

Mas a gente não e conheceu. Quer dizer, eu sei tudo sobre você e te conheço como a palma da minha mão. Mas só nas minhas palmas e não no meu corpo inteiro. Porque as cartas que um dia, sem aviso, invadiram minha caixa de correspondência sem endereço de remetente me deixam sem resposta. E eu nem posso fazer perguntas.

Mar
17
assassinato

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Tentou falar e emitiu um som quase inaudível. Tentou se mover e caiu, com suas patas que eram muitas, ao chão. Tentou ver, e sua visão só nublou. Cheirou a parede, encostou-se nela. Era quase um imã, quase uma necessidade. A mãe tranquilamente entrou no quarto, viu que o filho não estava por ali. Achou estranho o pijama jogado na cama, como se ele tivesse simplesmente saído de dentro dele. “Moleque, faz dessas só pra me desesperar”. Saiu, sorrindo. O filho nunca mais voltou. Voltou, chorando. A casa foi dedetizada.

Feb
27
traição.

Eu procuro a porta como quem precisa desvendar um segredo, e a cada sombra que vejo se aproximando do chão é quase um crime contra a minha idoneidade física. Eu queria levantar e parar ao lado da porta, esperando que ela viesse. Volta e meia meu coração dá pulos, sobressaltos, e eu penso que ela está chegando. Eu que não acredito nessas coisas acho que deve ser coisa do destino isso de sentir quando ela está chegando.

Tem gente falando comigo e eu quero escutar. É um cara bacana, que fala de coisas legais. Presa atenção, psiu. Ei, olha ele falando que pode precisar dos seus serviços. Dinheiro, rapaz. Ela não vai chegar, calma.

E aí ela vem. E meu peito que eu vivia mandando parar de bater forte pára completamente e o vazio faz com que eu só queira que ele volte a bater e nada funciona porque ela chegou, e ela está linda, e ela é cada vez mais linda, e ela está chegando, e ela vai fingir nem me ver. E quando ela se aproxima, na mesa ao lado, meus olhos fixam nela e eu quero olhar pro outro lado, fingir que não estou nem aí. Respiro fundo pra tentar fazer meu peito parar querer me matar e percebo que parece que cada vez que penso que ele pode se acalmar sinto como se a cadeira fizesse um quase inaudível e completamente ensurdecedor “toc-toc-toc”.

Ela está falando! Escuta, escuta: é aquela voz suave, meio rouca. Ela está feliz. Está falando sorrindo. É bonito quando ela fala sorrindo. Pára, pára. Ela está chegando, ela está chegando.

Quando as mãos delas encostam despretensiosamente nas minhas costas, com um gesto simples, um quase cumprimento, meu corpo simplesmente surta. Eu grito, clamo, quase suplico pra que o meu peito pare de bater tão forte e ele acelera. Minhas mãos suam, meu rosto ferve e eu penso que só queria reagir normalmente: não rir nervoso, não falar alto, não gaguejar.

Pára seu imbecil! Que piada ridícula. Fica quieto. Não, não, não, não arrepia! Ai, cacete. Calma, respira fundo. Não é nada. Um contato de trabalho. Só isso. Não, não! Não encosta nela dessa jeito! Não… não sorri assim bobo.

Quando chego perto dela, me traio. Meu corpo me trai, meu pensamento me trai. E não existe traição pior. E melhor.

Feb
16
Chuva ácida
Era como se o dia não tivesse acordado e na verdade quem não queria acordar era eu. Era o primeiro de muitos dias que estavam por vir e eu só queria que eles estivessem por voltar porque a volta é sempre mais segura, mesmo que mais infeliz. Chovia e eu não sabia que horas eram porque não importa que horas são se você não tem planos e as gotas que pareciam grossas no ar condicionado eram quase um mantra pra que o dia não acordasse.
Chovia e as crianças gritavam e tomavam banho na chuva e eu quis pensar que todas as crianças do mundo são insuportáveis, mas aí eu ouvi uma voz daquelas esganiçadas e desafinadas dizendo que parecia aquele filme que as pessoas cantam e dançam. E eu pensei que ia ser bonito se eu tivesse um filho pra fazer assistir Cantando na Chuva e que se ela tivesse os seus olhos ia ser lindo.
Meus olhos nem fechados ficavam, eu acordei e fui fazer meu café. Parecia que o Juan Valdez me olhava com pena, mas nem olhos ele tinha e era pena o que ele sentia, eu vi. Era café amargo, assim como era gosto de amargo na boca e nos olhos e chovia tanto, que não dava pra enxergar a rua. Eu não tinha mesmo caminhos pra seguir.
Tomei o café com raiva da sua mania de não dividir comigo a xícara e querer dividir comigo a vida inteira. Nunca entendi como é que alguém que não toma café pode ser tão apaixonante e como pode ser tão entrega a minha paixão quase abstinente.
Eu deitei no sofá e pensei como era bonito quando eu deitava em cima de você, com a cabeça no fortinho do seu peito, e parecia que as coisas simplesmente eram pra ser assim. Se você era um quebra-cabeça, eu tinha certeza que era a última peça que faltava. De repente eu era, de novo e sempre e até quando?, a peça única de uma paisagem que ninguém sabe qual é. O meu sofá é só mais um cenário pra minha solidão que tão rápido fica protagonista.
Chovia e fazia um sol delirante e eu queria acreditar tanto num arco-íris – mesmo com as tuas cores gris – mas foi só eu pensar no céu azul que se fez a tempestade e cada raio que caia partia em mil uma inteira que nunca tive certeza se fui.
Foi meu primeiro dia sem você depois de não ter te tido de verdade nem por um dia. E enquanto chovia lá fora, o vidro da janela teve seu dia de espelho. Eu chovi por dentro. E descobri que chuva ácida corrói todas as certezas. As nossas certezas de um nós que, no final, sempre fui eu.

Era como se o dia não tivesse acordado e na verdade quem não queria acordar era eu. Era o primeiro de muitos dias que estavam por vir e eu só queria que eles estivessem por voltar porque a volta é sempre mais segura, mesmo que mais infeliz. Chovia e eu não sabia que horas eram porque não importa que horas são se você não tem planos e as gotas que pareciam grossas no ar condicionado eram quase um mantra pra que o dia não acordasse.

Chovia e as crianças gritavam e tomavam banho na chuva e eu quis pensar que todas as crianças do mundo são insuportáveis, mas aí eu ouvi uma voz daquelas esganiçadas e desafinadas dizendo que parecia aquele filme que as pessoas cantam e dançam. E eu pensei que ia ser bonito se eu tivesse um filho pra fazer assistir Cantando na Chuva e que se ela tivesse os seus olhos ia ser lindo.

Meus olhos nem fechados ficavam, eu acordei e fui fazer meu café. Parecia que o Juan Valdez me olhava com pena, mas nem olhos ele tinha e era pena o que ele sentia, eu vi. Era café amargo, assim como era gosto de amargo na boca e nos olhos e chovia tanto, que não dava pra enxergar a rua. Eu não tinha mesmo caminhos pra seguir.

Tomei o café com raiva da sua mania de não dividir comigo a xícara e querer dividir comigo a vida inteira. Nunca entendi como é que alguém que não toma café pode ser tão apaixonante e como pode ser tão entrega a minha paixão quase abstinente.

Eu deitei no sofá e pensei como era bonito quando eu deitava em cima de você, com a cabeça no fortinho do seu peito, e parecia que as coisas simplesmente eram pra ser assim. Se você era um quebra-cabeça, eu tinha certeza que era a última peça que faltava. De repente eu era, de novo e sempre e até quando?, a peça única de uma paisagem que ninguém sabe qual é. O meu sofá é só mais um cenário pra minha solidão que tão rápido fica protagonista.

Chovia e fazia um sol delirante e eu queria acreditar tanto num arco-íris – mesmo com as tuas cores gris – mas foi só eu pensar no céu azul que se fez a tempestade e cada raio que caia partia em mil uma inteira que nunca tive certeza se fui.

Foi meu primeiro dia sem você depois de não ter te tido de verdade nem por um dia. E enquanto chovia lá fora, o vidro da janela teve seu dia de espelho. Eu chovi por dentro. E descobri que chuva ácida corrói todas as certezas. As nossas certezas de um nós que, no final, sempre fui eu.

Jan
26
O corvo
A bebida demais e a alegria de menos o deixavam com a aparência galante – e ele sempre achou curioso como todos os amigos escritores também eram assim. Estava feliz, ou pelo menos deveria estar. Ia casar-se, tinha amigos, os monstros de sua imaginação continuavam sendo exorcizados por folhas de papel rabiscadas. Eram quase quatro da manhã e decidira ir a Baltimore. De barco, como sempre fizera. Encontraria um velho amigo.
Há cerca de duas léguas da costa, talvez mais, ao término da última garrafa de conhaque, Poe começou a morrer. Completamente sozinho e bêbado, percebeu que a única companhia que realmente o fazia feliz era a sua – gargalhou alto e o riso se espalhou pelo mar, sem ter como voltar, ecoar – “coisa metido a gênio egocêntrico”. Para não admitir a necessidade que sentia da própria companhia, começou a conversar com Reynolds.
Ele era bonito, atlético até. Inteligente, de humor refinado, cultura quase insuperável. Teve um caso com a noiva de Reynolds e ele sequer se importara. Tinha cabelos penteados que não pendiam para lado nenhum e uma aparência delicadamente sóbria. Foram quatro dias de convivência. O suficiente para que Poe percebesse que jamais conseguiria viver sem Reynolds. Era o único que entendia. Era quem rimava seus versos.
Quando percebeu que Reynolds estava distante, disforme, opaco e quase invisível aos seus olhos, Poe se desesperou, por vezes quase caiu. Imundo, encharcado e com todo o pouco dinheiro do bolso fez com que Reynolds reaparecesse por mais dois dias. Até que o fundo do poço chegou.
Sóbrio e sem dinheiro, Poe sucumbiu a loucura. Reynolds tinha sido afogado no mesmo mar que nascera.
———–
Posfácio
No barco, Poe concluiu que seu epitáfio seria Reynolds. Morreu antes, morreu cedo, morreu louco. Na pedra, escrito: O Corvo.

A bebida demais e a alegria de menos o deixavam com a aparência galante – e ele sempre achou curioso como todos os amigos escritores também eram assim. Estava feliz, ou pelo menos deveria estar. Ia casar-se, tinha amigos, os monstros de sua imaginação continuavam sendo exorcizados por folhas de papel rabiscadas. Eram quase quatro da manhã e decidira ir a Baltimore. De barco, como sempre fizera. Encontraria um velho amigo.

Há cerca de duas léguas da costa, talvez mais, ao término da última garrafa de conhaque, Poe começou a morrer. Completamente sozinho e bêbado, percebeu que a única companhia que realmente o fazia feliz era a sua – gargalhou alto e o riso se espalhou pelo mar, sem ter como voltar, ecoar – “coisa metido a gênio egocêntrico”. Para não admitir a necessidade que sentia da própria companhia, começou a conversar com Reynolds.

Ele era bonito, atlético até. Inteligente, de humor refinado, cultura quase insuperável. Teve um caso com a noiva de Reynolds e ele sequer se importara. Tinha cabelos penteados que não pendiam para lado nenhum e uma aparência delicadamente sóbria. Foram quatro dias de convivência. O suficiente para que Poe percebesse que jamais conseguiria viver sem Reynolds. Era o único que entendia. Era quem rimava seus versos.

Quando percebeu que Reynolds estava distante, disforme, opaco e quase invisível aos seus olhos, Poe se desesperou, por vezes quase caiu. Imundo, encharcado e com todo o pouco dinheiro do bolso fez com que Reynolds reaparecesse por mais dois dias. Até que o fundo do poço chegou.

Sóbrio e sem dinheiro, Poe sucumbiu a loucura. Reynolds tinha sido afogado no mesmo mar que nascera.

———–

Posfácio

No barco, Poe concluiu que seu epitáfio seria Reynolds. Morreu antes, morreu cedo, morreu louco. Na pedra, escrito: O Corvo.

Jan
16
Meu amor,

Tem uma fresta da porta aberta e eu consigo te ver. Você dorme. Quando começamos você já me disse que tinha um sono pesado e simples, e eu achei tão bonito isso, sabe: és como o teu sono: intensa e delicadamente simples. E eu, que brinco que nunca te dei um boa noite completo porque no meio da palavra noite já tinhas desabado para esse seu mundo tão particular, estou há oito anos encantado com esse teu descanso do mundo, que deve ser descanso também de mim.

Eu sei que quando vires este pedaço de papel meio amassado terás certeza que parti. Faz tanto tempo que não te escrevo, não é. Desde aquele verso que foi escrito atrás da foto da praia, que está no criado-mudo (se não me engano, um trocadilho bobo, algo como “minha estação favorita é a verãonica” – como eu fui brega por você!). Então, vou ser sincero, Verônica: eu fui. E não volto mais.

Não me pergunte o motivo porque o motivo você sabe bem. Ah, eu te amo tanto. Amo mais por nunca teres me deixado apesar de ter parasitado a sua vida por todo esse tempo. Eu a amo pela covardia, por não teres deixado um pobre imbecil como eu solto por esse mundo, por saberes que se tivesses me deixado eu seria ainda mais influenciável e, sem você, me influenciariam pessoas sem cérebro e sem senso de ridículo. Eu não cresci, minha pequena. E você cresceu. Mas continua a mesma, sem coragem de me mandar embora por um amor que já é nostálgico.

Eu vou, Verônica. Vou e sei que vais sofrer. Nossos tambéns só eram tambéns porque éramos dois. E não vai ter también, ou anche io para nenhum de nós agora. Não encontraremos metades, ou tampas de panela. Mas, meu amor, acho que nasci para ser frigideira. Só deixo de lado a minha covardia – essa, sim, ruim – porque se não tiver coragem de ir embora continuarei a fazê-la infeliz.

Eu te amo, mas não posso mais. Eu te amo. E, se não estivesses dormindo, eu gritaria isso para acordar todo mundo. Eu choraria como uma criança imbecil que eu acho que nunca vou deixar de ser. Choraria porque sei que vou por pura incompetência em te fazer feliz. Mas eu te quero feliz, Verônica.

Você sempre vai saber como me encontrar. Eu tenho há anos o mesmo telefone e depois de tanto tempo, não irás esquecer. Eu sei. Temos os mesmos amigos, os mesmos gostos, as mesmas manias. Mas, quando me veres, Verônica, tenha a honestidade de ficar longe. Não mereces me ver depois que eu sair daquela porta. Você sabe como me encontrar e é a única que pode me manter distante.

Você ainda dorme, e eu sei que esta é a imagem mais bonita que eu vou ter na memória para sempre: o teu sono tão intenso e simples como tu és. E a minha insônia nunca vai me permitir ser.

Com amor,

Pedro

———————————————-

Depois que leu a carta de Pedro, Verônica tomou um banho e reorganizou a estante. Agora o espaço era só dela.

Dec
6
Clarice

A entrada do lugar tinha um cheiro bom e nem parecia que era mesmo aquilo. Clarice estava decidida e, mesmo que fedesse, ela entraria. Só pensava em vingança, afinal de contas. Cachorro filho de uma puta. Não sabia ao certo como se vingar, mas só o cheiro doce da sordidez já parecia antecipar que a vingança viria. Antes de sair de casa, deu uma última olhada para tudo, como se soubesse que depois que ela voltasse as coisas não seria mais vistas daquela forma. Em cima da mesa, ao lado do sofá, o copo de conhaque com restos derretidos de gelo tinha as bordas molhadas e parecia chorar. E agora ela entrava. A vingança estava chegando, e ela parecia saber, mas não sabia.

Sentou-se. Antes de qualquer coisa, queria ver. Ver para crer. Viver para crer. A aliança ali, no dedo esquerdo. Guardou por um puritanismo insensato. Naquele lugar de cheiro doce, as argolas que se tinha nas mãos eram mesmo só argolas sem valor algum. O show já tinha começado e uma mulher solitária chamava a atenção. Não só por ser mulher, mas sim por ser solitária. A mesa era num canto meio escuro e logo os locais vizinhos foram tomados por engravatados, lésbicas e provavelmente casados querendo esconder os rostos – quem deve, teme.

Uma peruca loira, com uma máscara pequena veio servir mais uma dose de conhaque barato e Clarice começou a passar realmente mal. Presságios sempre foram presentes na sua vida.

As luzes se apagaram e o show de repente começou. Era ela ali, dançando com a bunda de fora. Os xis na conta de conhaque de Clarice aumentaram numa velocidade quase insuportável. Era doído demais, severo demais, angustiante demais e ela queria mais, mesmo que demais. Discretamente, chamou moça da máscara que chamou a moça morena que ela sabia que se chamava Alice. Ela sentou com olhar provocante e Clarice pediu se elas podiam ir para o quarto.

Alice era realmente linda, e não importava se ela se chamava mesmo assim. Clarice começou a se sentir excitada só em olhar para as coxas perfeitas caminhando em direção ao quarto. Teve a estranha sensação de ter visto um alívio nos olhos de Alice quando viu que era só ela, uma mulher, que estava a seguindo. A vingança chegava quase como a sensação de que um orgasmo vem: um formigueiro que começa no centro do corpo.

Assim que fechou a porta, Alice tirou a roupa e Clarice a interrompeu. Assustada, pediu que Clarice fechasse seu sutiã e ela pode sentir que mesmo o suor que molhava a pele perto da nuca tinha um saboroso cheiro de prazer. Respirou fundo para que aquele cheiro preenchesse seu pulmão.

Colocou as duas mãos sobre os peitos vestidos de Alice e ela esfregou as costas sobre os peitos de Clarice. Desceu as mãos, sentiu as costelas magras, a barriga levemente saliente que dava a Alice um insuportável ar de mulher normal, mesmo que perfeita. Parou e pediu que ela deitasse. Sutilmente, claro. Como só duas mulheres conseguem ser.

A arma que estava na bolsa, ou o canivete escondido no sutiã podiam fazer seu efeito naquela hora. Alice estava sentada e, desgraçada, parecia mesmo estar sentindo prazer pelo prazer que viria. De repente, Clarice se pegou pensando se ela não estaria realmente gostando. Na dúvida do que fazer, tirou a roupa e acendeu um cigarro, enquanto acariciava a parte interna da coxa de Alice com a ponta dos dedos e sentia arrepiar a pele sedosa. O silêncio que poderia ser ameaçador era só mais um elemento a preencher o ar. A libido podia quase ser tocada com as palmas das mãos.

Como num impulso e olhando nos olhos de Alice, Clarice lhe tirou a fina calcinha que cobria os poucos pêlos. Alice se assustou, mas sua cara foi irremediavelmente de prazer e Clarice teve certeza do que faria.

Alice gozou sem nem que Clarice precisasse entrar nela. Clarice apenas viu, apenas gargalhou (e pensou na falta de habilidade dele que nem devia tê-la feito gozar), beijou Alice na boca e quando sentiu que o corpo de dela se dirigia ao dela como se pedisse para ser dominado, levantou e vestiu a roupa, jogou algum dinheiro na cama e teve certeza: o prazer é sempre a melhor vingança.

Nov
16
Prescrição

 

A doutora dizia aos velhos do asilo que a convivência com jovens fazia bem para o corpo e para a alma. O psicólogo receitou ao viúvo depressivo que convivesse mais com crianças. Eram namorados e um comia o filho adolescente do outro.