Chega um momento da sua vida em que você acha que já viu de tudo. Eu achava. Traficantes, pedófilos, homicidas, estupradores, viciados, trombadinhas, neguinho matando a própria mãe, abusando da afilhada, cara cozinhando o cachorro do vizinho, esse tipo de coisa. Eu sempre tive um jeito peculiar de lidar com essa gente. Muitos não concordavam, mesmo tendo vontade de fazer a mesma coisa. Por isso fui parar naquele cu de mundo. Aderbal Ramos. E isso lá é nome de cidade?
Os primeiros dois meses foram os mais difíceis, não pelos caipiras e descerebrados que encontrava a rodo nas ruas e na delegacia, mas pela porra do frio. Já era setembro, e mesmo assim, toda a manhã os campos amanheciam cobertos de geada. Eu sequer tinha levado cobertores, cobertas, essas coisas. A casa de três cômodos que eu havia alugado não tinha um sistema decente de aquecimento e duvido que casa alguma naquele lugar tivesse. Eu havia vindo da Ilha direto pra Serra, achando que tudo aquilo que tinham me falado, sobre as baixas temperaturas, a chuva oito meses por ano, era balela. Com o tempo, não me acostumei, mas pelo menos passei a conseguir dormir, soterrado embaixo de uma penca de cobertas de lã de ovelha.
Raimundo havia dito que aquela temporada seria uma espécie de “férias”, um descanso pra mim até a poeira baixar e a imprensa largar do meu pé – e do dele. Eu ia dar um tempo dos traficantes, assaltantes, estupradores, toda essa corja, pra me incomodar somente com perda de documentos e umas brigas mais exaltadas todos os domingos nos bailes e muquifos onde aquela gente se enfiava.
Por um tempo, foi assim mesmo. E confesso que, apesar da absoluta falta do que fazer em alguns dias, eu até gostei. Sabia que ninguém naquela cidade ia com a minha cara, mas isso nunca foi novidade ou problema pra mim. Era eu, a escrivã, uma senhora viúva lá nos seus cinqüenta e cinco anos, e três policiais cabaços, que nunca sequer haviam disparado um tiro, apesar de desfilarem pela rua fazendo questão de mostrar o trabuco preso na cintura. Não tínhamos peritos, especialistas, nada. Tudo que exigia um pouco mais de investigação e análise forense era feito no município vizinho, a trinta quilômetros.
Então aconteceu aquela merda toda, num dia só.
Acho que sequer havia amanhecido ainda quando me ligaram no apartamento. Era o Estevão, um dos policiais, o mais novo, recém formado na Acadepol. Eu até gostava dele, apesar de achar que desmunhecaria quando tivesse que dar uma voz de prisão.
“Chefe?”
“Fala.”
“É o Estevão.”
“Sim, eu sei. Que merda é essa? Que horas são?”
“Desculpa ligar tão cedo. Mas o Seu Manoca tá aqui… meio nervoso.”
“E eu sei lá quem é a porra do Seu Manoca? Você não tá de plantão? Atende o cara.”
“Sim, mas é que… aconteceu um troço meio esquisito. Ele é o velho que cuida lá do cemitério. Diz que andaram mexendo lá essa noite. E…”
“E…?”
“Sumiu o corpo duma moça.”
“Como assim? Uma falecida?”
“É.”
“Que tava enterrada?”
“Isso.”
“Cassete. Diz pro velho sossegar. Vou tomar um banho e me mando.”
A verdade é que fiquei, até certo ponto, empolgado naquele primeiro momento. Finalmente acontecia algo diferente naquela cidade, que pudesse render mais do que um B.O. jogado dentro do arquivo. No íntimo, eu já sentia falta dos casos de verdade, homicídios, tráfico de drogas, latrocínios, por aí vai. Um túmulo violado não era nada disso, mas já era alguma coisa. E, apesar de ter escutado e lido muita história a respeito, nunca tinha me metido numa dessa.
Cheguei na delegacia e encontrei o tal do Manoca esperando sentado na minha sala, com o Estevão do lado, os dois pálidos como uma parede recém pintada de branco. Apesar da hora, eu estava disposto. Um banho com água fervendo faz milagre.
“Então, que cara de enterro são essas? Se me perdoem o trocadilho”, falei, não resistindo à piada pronta.
“Então, chefe, esse é o Manoca. Eu já conversei um pouco com ele…”
“E não chamou a Dona Estela por quê? É ela que tem que digitar o depoimento dele.”
“Ela nunca atende o telefone antes das nove. Deixa fora do gancho. Diz que o médico recomendou que ela dormisse pelo menos dez horas por dia.”
“Foda-se. Então, Seu Manoca, o que o senhor me diz? Andaram mexendo lá com os teus amigos?”
O velho, na falta de descrição melhor, era a porra de um velho mesmo. Era quase uma justiça poética que tivesse sido mandado pro cemitério pra andar por lá. A impressão que eu tive, à primeira vista, é que tinham esquecido de enterrar aquela múmia junto com os outros. Achei que ele não tivesse me ouvido, a cabeça baixa, olhando com desconfiança pros lados. Aumentei a voz, procurando não parecer muito ameaçador. Afinal, ainda era só um velho.
“Estou falando com o senhor. Quer me dizer o que aconteceu lá?”
“Seu delegado… o que eu posso dizê pro sinhor é que não vorto nunca mais praqueles lado… não mesmo…”
“E por que, Seu Manoca? Normalmente um cemitério é um lugar muito tranqüilo, o senhor não concorda comigo?”
“Pois então, eu trabalho por lá faz tempo já, apesar de já ter orvido muita história das braba. Quem é das antiga, como eu, sabe que essa cidade já passô por muita coisa. A minha mãe, que o bom Jesus a tenha, contava que nas noites de lua cheia…”
“Me poupe da sua mãe, por favor. O que aconteceu essa noite lá?”
“Então, seu delegado… eu normalmente, fico até altas horas da noite lá no cimitério… mas nessas época, tá frio demais, então eu vorto pra casa pra durmi e de manhã cedo já tô lá de vorta, porque eu também dou uma limpada lá naqueles túmulo todo né, e tem muita gente enterrada por lá e o senhor sabe que eu já não sou muito bom das perna e as minhas costas dói que é o diabo, mas eu dô conta do serviço sim, tenho setenta anos mas…”
“Seu Manoca, eu o policial Estevão aqui temos muito serviço pela frente hoje, e quem sabe seria melhor se o senhor fosse logo ao ponto. Por que não conta pra mim de uma vez o que contou pra ele?”
O velho olhou pra Estevão, que desviou o olhar. Lá vinha história.
“Então… eu vô conta pro sinhor… deus me livre, eu cheguei lá de manhã cedo, o sol tava nascendo ainda… fui dá uma vorta por ali, como sempre faço, pra ver se tá tudo em ordem, apesar de que aquele lugar sempre foi muito tranquilo né, como o sinhor memo falou agora… e dei de cara com aquela tampa de pedra tudo quebrada, jogada pros lado. Minha nossa, cheguei mais perto, vi que o buraco do túmulo tava aberto. Eu não sô medroso não, mas naquela hora uma coisa ruim me deu um arrepio daqueles nas costa. O sinhor tem que ver, olhei pra dentro e vi o caixão aberto, minha nossa! Mas não tinha corpo nenhum ali, seu delegado, deus abençoado! Nem sinal do corpo! Tava só o caixão, aberto, a tampa do lado.”
“E quando o senhor tinha saído pra ir pra casa, na noite anterior, tinha passado por esse mesmo túmulo?”
“Sim, sim, sim sinhor. E tava ajeitadinho, me lembro sim. Eu passo por tudo antes de sair de lá.”
“O senhor chegou a mexer em algo? Viu algum vestígio, alguma ferramenta que possa ter sido usada pra quebrar o mármore?”
“Mas deus me livre, seu delegado… não ia chegar perto daquilo mas nem que me pagasse! Me mandei direto pra casa, pra rezar um terço, e depois vim pra cá… vai que a falecida tivesse por perto ainda…”
“A falecida? Como assim?”
“Mas claro, seu delegado… com esse tipo de coisa não se brinca… se a moça teve força pra sair do caixão e quebrar aquele tampão de pedra, imagina o que podia fazer com um velho que nem eu…”
Eu teria rido se não tivesse meio puto já. Em depoimentos, interrogatórios e afins, por mais que digam que o principal é saber “ler” os trejeitos, as mentiras, as contradições, os medos, eu digo que o principal é paciência mesmo. E paciência nunca foi meu forte. Estevão permanecia quieto, sério como um bode encarnado. Achei que devia já estar tentando conter o riso há tempo, mas pelo visto a história do velho não era tão ridícula assim pra ele.
“Senhor Estevão, quem é essa moça que o seu Manoca está falando?”
Ele pareceu hesitar, mexia nas mãos, nervoso.
“É a filha do seu Pereira Alves…”
“Ninguém se chama ‘Seu Pereira Alves’. Qual o nome do homem?”
“Raimundo Pereira Alves. Ele é um dos grandes aqui da cidade, se o senhor me entende. Tem uns 500 hectares de terra no interior. Ele planta pinus pra mandar praquela fábrica de papel lá de Otacílio Costa. Já foi candidato a prefeito também.”
“E a filha? Morreu quando?”
“Terça-feira.”
“Há dois dias, então…”
“Isso.”
Menos mal. Pelo menos não ia ter que ir atrás de um monte de trapo e osso, que podiam ser escondidos dentro de uma caixa.
“Seu Manoca, o senhor pode ir pra casa e descansar um pouco. Eu vou com o policial Estevão dar uma olhada lá no seu local de trabalho. Vou pedir que o senhor volte aqui depois das dez pra escrivã coletar o seu depoimento. Ela vai fazer mais algumas perguntas pro senhor. O senhor chegou a comentar sobre isso com mais alguém?”
“Mas não é que eu nem tive tempo ainda? Mas o seu delegado pode contar comigo, vou falar pro pessoal ficar atento, principalmente as crianças. Com esses sugador de sangue não se pode brincá…”
“Do que o senhor está falando, seu Manoca? Com o perdão do palavreado chulo, mas que merda é essa que o senhor acabou de me falar agora?”
Sim. Eu estava a ponto de esganar o velho. Pra mim, pior do que gente analfabeta é gente que acredita em assombração, folclore, essas merdas. E não queria que o velho saísse por aí tacando o terror na população. Vai saber o que se passa na cabeça dessa gente do interior… já bastava um meio pirado.
“Mas o sinhor não sabe? A moça, nossa, era linda demais ela, foi atacada por um sanguessuga semana passada… um morcego atacou a coitada lá no sítio do pai dela e não teve jeito. Dizem que até internaram no hospital, mas tava tão fraca a coitadinha que não teve médico que desse jeito…”
Mais essa agora.
“Estevão, me traduza isso, por favor.”
“Como, chefe?”
“Que história é essa? Você conhece esse povo muito melhor do que eu.”
“É isso mesmo, chefe… a moça foi atacada por um morcego lá no fazendo do seu Pereira Alves. Pegou raiva, aquela doença que esses bichos transmitem. Que nem cachorro.”
“Raiva?”
“Isso.”
“Acho que desde o tempo da minha avó ninguém morre de raiva, Estevão. Ainda mais com mordida de morcego. Tem vacina pra isso. E que eu saiba, ninguém morre de raiva de um dia pro outro. Vocês sabem que merda estão falando?”
“Mas foi isso mesmo, chefe. Parece que os médicos tentaram tudo quanto é tipo de coisa, mas não teve jeito. Levaram ela pra Lages, na melhor clínica que tem lá. A família ficou arrasada. A moça tinha só dezessete anos.”
Respirei fundo. Precisava de um café. Quente, preto.
“Tá certo. Vamos pro cemitério agora. Depois, vamos falar com a família.”
“Mas… mas chefe…”
“Mas o quê, Estevão?”
“Não sei… se é seguro ir pra lá… como o seu Manoca disse, vai que…”
“É, seu delegado, eu to dizendo pro sinhor, talvez fosse melhor ir lá na paróquia e chamar o padre Anselmo…”, emendou o velho.
Eu sequer respondi pros dois. Peguei a chave da viatura na gaveta e joguei pra Estevão.
“Você dirige, Van Helsing.”
Ele fez cara de quem sequer sabia do que eu estava falando. Odeio quando as pessoas não entendem a piada.
O cemitério ficava distante do Centro da cidade, à beira de uma rodovia federal que cortava aquele fim de mundo. Na verdade, ficava fora mesmo de Aderbal. Era preciso dirigir uns cinco quilômetros até chegar no local, cercado por um muro velho e baixo, que qualquer um podia atravessar sem dificuldade – inclusive levando um corpo nos ombros. Não havia casas por perto, apesar do batalhão do Corpo de Bombeiros – na verdade um galpão com um caminhão e uma ambulância – ficar quase logo em frente. Enfim. Não seria difícil um carro parar por ali à noite, ficar um bom tempo e se mandar, sem ninguém sequer notar.
Fiz essas considerações assim que estacionamos em frente ao cemitério, num estacionamento improvisado de terra batida. Sorte nossa, não havia ninguém ali naquele momento pra importunar ou especular o que diabos uma viatura da polícia estava fazendo por aquelas bandas. Estevão me seguiu a contragosto para dentro dos portões, a mão presa na coronha do revólver amarrado na cintura. Tinha que ficar atento pro rapaz não se assustar com a porra de um gato e sair disparando por aí.
O túmulo – ou o que restou dele – foi fácil de achar.
O buraco ainda exalava um leve odor de decomposição, misturado a um perfume estranho no ar, desses frascos baratos que se compra em mercearias. Ou talvez fosse só impressão minha. Peguei meu bloco de papel que sempre levava em campo e risquei com a caneta algumas frases soltas, para que não esquecesse nada depois – eu não tinha mais vinte anos. Não havia qualquer ferramenta por perto, fora um balde que seu Manoca provavelmente usava pra coletar a água e irrigar as poucas flores ali presentes. Estevão olhava pra dentro do túmulo esticando o pescoço, com o corpo o mais longe possível. Não havia muito a se ver, fora um caixão aberto, a tampa jogada pro lado. Pelo forro do negócio, dava pra ver que a família tinha grana mesmo. Fui até o mármore usado pra tampar o túmulo, quebrado em três partes. Uma delas, menor, havia caído dentro do buraco.
“Está vendo, Estevão? Essas rachaduras em cima da tampa, o jeito que o negócio quebrou. Tá na cara que alguém deu uma puta paulada em cima disso, provavelmente com uma marreta ou coisa do tipo. Essas fissuras aqui na pedra indicam isso.”
“Fissuras? Não to vendo, chefe.”
“Essas lascas aqui onde a pedra se quebrou. Isso quer dizer que não foi a morta-viva que bateu com a cabeça e saiu, mas alguém de fora. E depois desceu até o caixão, abriu a tampa – com cuidado, não há sinal de que tenha quebrado ele também – pegou o corpo e saiu por aí. Deve ter vindo por esses descampados atrás do cemitério, porque não há sinal de rastro de carro lá na frente, fora o nosso. Tinhas visto isso, Estevão?”
“Confesso que não, chefe…”
“Nós temos que visualizar a cena do crime como um todo, rapaz, e não só o local onde ocorreu o fato em si. O criminoso sempre tem que chegar por algum lugar e sair por algum lugar. Se a gente souber delimitar que lugares são esses, conseguimos decifrar o modus operandi do meliante e até que tipo de pessoa ele é.”
“Humm…”
Eu estava falando pros mortos só, mas não interessa. Quando eu estava trabalhando, não conseguia fechar a boca. Mas ali, na frente daquele buraco, eu só iria mais adiante se fizesse uma puta perícia, procurando digitais, fios de cabelo, pedaços de tecidos, essas coisas. E contar com um perito estava fora de questão naquele lugar. Talvez, dali a duas semanas, aparecesse alguém. Foda-se. Pra mim algo já estava claro – a falecida não tinha sido escolhida aleatoriamente. Então, era só conhecer a moça que você conhecia o criminoso, vulgo violador de túmulos. Simples. Olhei no bloco o endereço da família da jovem, que tinha anotado enquanto vinha com Estevão até o cemitério.
“Estevão, eu vou dar uma conversada com os pais da moça. Eles precisam saber o que aconteceu. Enquanto isso, você fica plantado aqui. Precisamos isolar esse lugar depois e impedir que a caipirada transforme esse túmulo no mais novo ponto turístico da cidade.”
“Quê?! Mas… mas…”
“Mas o quê, caralho?”
“Eu não posso ficar aqui sozinho! E se… e se… sei lá, essa pessoa que libertou a moça aparece de novo ou… ou…”
“Você escutou alguma coisa do que eu disse? Se aparecer alguém suspeito, você interroga, e se a pessoa encrencar, dá voz de prisão. Já fez isso, né?”
“Mas a gente não sabe ainda o que… o que aconteceu…”
Eu virei as costas e deixei ele falando sozinho, antes que eu enterrasse aquele cagalhão numa daquelas covas.
O tal do Pereira Alves morava num apartamento gigante no último andar do único prédio da cidade. Quem me atendeu foi uma empregadinha, um tanto quanto jeitosa, diga-se de passagem, os cabelos de crente caindo até a cintura em duas tranças. Esbugalhou os olhos como se estivesse vendo uma assombração quando eu disse que era da polícia. Esperei na sala, um amontoado de sofás e quadros nas paredes com uma mesinha repleta de pequenos bichinhos de cristal em cima. Meia hora depois, o homem apareceu, a barriga proeminente escondida atrás de um roupão roxo e amarelo, super discreto. Me olhou como se eu fosse um verme, que interrompeu seu doce sono de homem de negócios ocupado. Sentou no outro sofá, ao lado do meu, se esparramando em meio às almofadas japonesas trazidas do Paraguai.
“Normalmente não atendo pessoas sem marcar horário, ainda mais na minha casa, mas a Janete falou que era urgente… e espero que seja mesmo.”
“Talvez ela não tenha se expressado bem. Meu nome é Vladimir Bonatto, e sou delegado de polícia aqui de Aderbal Ramos. Há pouco tempo. Acho que não tinha tido a oportunidade de me apresentar antes.”
“Ouvi falar do senhor. Mas pelo que eu sei, delegado mesmo só fica atrás da mesa, na delegacia, tentando fazer cara de mal pras escórias que aparecem por lá. Não sei o que o senhor pode querer comigo.”
“Meu pessoal é restrito aqui em Aderbal. Não me incomodo em fazer trabalho de campo. E não teria vindo até aqui se não fosse estritamente necessário. Houve uma ação criminosa no cemitério da cidade essa noite.”
“E o que eu tenho a ver com isso?”
“Não sei como dizer… mas a questão é que o corpo da sua filha foi levado de lá.”
O gordo pareceu afundar ainda mais no sofá. Bufou, esbranqueceu, depois avermelhou e quase ficou da cor do roupão. Praticamente um mosaico de cores.
“Se… se isso for uma brincadeira, saiba que estou prestes a enchutar o senhor fora daqui nesse instante…”
“Não é. Estamos investigando. E preciso da cooperação do senhor pra saber se alguém próximo da sua filha ou de você teria intenções para fazer isso.”
“Primeiro de tudo, fale baixo. A minha esposa está no quarto e já deve ter acordado. Não precisa saber dessa… dessa atrocidade.”
“Concordo, mas uma hora ela terá que saber, senhor. E sinto que terei que falar com ela também.”
“Não! Ela já sofreu demais. Todos nós sofremos demais… e agora… agora você vem aqui e me conta uma coisa dessas… como isso foi acontecer, pelo amor de Deus?”
Achei que o homem ia enfartar. Não tiraria a razão dele. As pessoas esperam que você chegue até a casa delas e fale que a filha, filho ou qualquer parente próximo foi morto, seqüestrado, estuprado ou coisa do tipo. E não que sumiu do caixão onde descansava belo e formoso.
“Leiriane… era esse o nome da sua filha, não? Pelo que eu soube, foi uma fatalidade o que aconteceu… raiva, certo?”
“Sim, sim, sim… horrível…uma doença horrível…”
“E posso ver o atestado de óbito?”
“Como?”
“O atestado de óbito. Acredito que tenham fornecido pro senhor.”
“E o que isso tem a ver?”
“Procedimento de praxe, senhor.”
O homem levantou do sofá e jogou o dedo gordo em direção a mim.
“Você devia é estar lá fora pegando o marginal que fez isso, e não aqui me incomodando, perturbando minha família com perguntas absurdas! Não tem mais o que fazer? Como você deixou que isso acontecesse?”
Respirei fundo. Ninguém apontava o dedo pra mim e levantava a voz.
“A polícia não tem um posto de fiscalização no cemitério, senhor. E para entendermos porque alguém fez isso, precisamos saber quem era a sua filha, com quem ela andava. É difícil que isso não tenha sido um ato pensado.”
“Pois saiba que a minha filha era uma santa! Uma santa! Não andava com ninguém, só com a mãe, que ela amava mais do que tudo, e com as colegas de escola. Estava estudando pro vestibular e ia ser médica! Isso é um disparate!”
“Algum namorado?”
“Não! Não! Não! Homem nenhum nessa cidade de bocós encostaria numa filha minha.”
A cara dele voltou à cor normal. Chamou pela empregada e me deu as costas.
“Janete vai mostrar a saído pro senhor. Me procure somente quando tiver a minha filha de volta e o marginal que fez isso preso. E espero que isso seja o quanto antes, senhor delegado.”
Não adiantava insistir. Não agora. Nessas horas, às vezes acabamos descobrindo mais pelo que os interrogados não falam do que pelo que dizem abertamente. Janete me levou até a porta, os olhos baixos, evitando me encarar. Antes de sair, escrevi meu telefone – o de casa – num pedaço de papel do bloco.
“Se quiser conversar ou se lembrar de algo que possa nos ajudar, moça, é só ligar. Acho que você ouviu a conversa que tive com o seu patrão, certo?”
“Eu… eu ouvi sim.”
“Então guarde esse número com carinho.”
Pisquei pra ela e desci as escadas. Empregados são sempre fontes estratégicas numa investigação. Ou talvez o que queria mesmo era flertar um pouco com uma mulher. Quanto tempo eu fiquei sem dar uma foda naqueles meses? Enfim.
Parei numa padaria vagabunda onde eu sempre tomava meu café de manhã, fiz um lanche, e voltei pra delegacia. Precisava fazer algumas ligações. Fiz sete, pra ser mais exato. E, ao fim de quarenta minutos, tinha à disposição as seguintes considerações:
1. A Vigilância Epidemiológica de Lages, cidade vizinha onde a moça tinha sido supostamente internada e tratada, não tinha nenhum registro de morte por raiva na última semana. Nem nos últimos dez anos. Claro que não.
2. Nenhum dos quatro hospitais da cidade também tinha registro de internação por raiva na última semana. Ah, e sequer haviam recebido uma jovem de dezessete anos chamada Leiriane Pereira Alves.
3. A Central Funerária, porém, tinha o registro da morte, dois dias atrás. Não sabiam dizer o motivo do falecimento. Me passaram o número da agência funerária que tinha agilizado o enterro e removido o corpo, mas ninguém atendia no tal telefone.
4. A Central de Polícia de Lages não tinha registro de ocorrências envolvendo o nome da moça. Samu, Bombeiros e Guarda de Trânsito também não.
5. Ou seja: a moça tinha mesmo morrido dois dias atrás, mas não por causa de uma doença qualquer ou acidente de trânsito, doméstico ou afins.
O que tudo isso tinha a ver com o sumiço do corpo? Eu ainda não sabia exatamente. Mas nessa profissão, você aprende a desconfiar. Sempre. Ainda mais quando as pessoas mais interessadas na resolução do caso mentem descaradamente.
Fui no depósito da delegacia, um almoxarifado imundo e cheio de teias de aranha, peguei umas fitas adesivas e improvisei uns bastões de madeira, pra isolar a área do túmulo. Pra desencargo de consciência, liguei pro IGP de Lages e pedi uma perícia no local. Ninguém disponível no momento. Como se pudesse ser diferente…
Já passava do meio-dia. Cheguei tarde demais ao cemitério.
Sequer tinha lugar pra estacionar a porra da viatura. O lugar estava virado na porra de um parque de diversões. Carros parados em tudo quanto é canto, até no acostamento da rodovia, bicicletas, crianças, casais, acho que metade de Aderbal Ramos estava lá. Como não era Finados nem nada do tipo, já imaginei o motivo.
Abri caminho entre a multidão, a um bom custo, até chegar perto do túmulo da moça. Estevão ainda estava lá, espremido no meio de um grupo de homens mais velhos, entre eles o seu Manoca, que fazia um círculo ao redor do buraco. Todos pareciam falar ao mesmo tempo, os ânimos exaltados, alguns com enxadas na mão. Tive que gritar pra me fazer ouvir.
“MAS QUE MERDA TÁ ACONTECENDO AQUI?”
Estevão correu até mim, os cabelos desregrados, como alguém que acaba de passar por um puta aperto. Os outros me ignoraram e continuaram falando e gritando coisas como “castigo de Deus”, “é chegada a hora”, “eu vi a moça à noite”, “demônio”, “sugadores de sangue”. Tudo muito light.
“Chefe, chefe, o pessoal chegou aqui do nada, tá todo mundo nervoso, falando tudo quanto é tipo de coisa. Tem um monte de gente que disse que viu uns vultos estranhos nessa madrugada, em tudo quanto é lugar da cidade… tão dizendo que vieram buscar a moça… eu tentei chamar o Adonis e o Baitaca, mas não podia sair daqui, como o senhor falou…”
Eu estava verdadeiramente puto, prestes a atirar em alguém. Se fosse preciso, perito nenhum ia achar alguma coisa depois daquela invasão. Na Acadepol, a gente aprende que preservar a cena do crime é uma das primeiras medidas a serem tomadas numa investigação. Foda-se. Tentei esquecer do meu Taurus 32 enfiado na calça. Todo mundo agora parecia ter notado a minha presença e olhavam pra mim como se eu fosse algo do outro mundo. Uma mulher agarrou no meu braço e começou a puxar.
“Delegado, delegado, o senhor precisa fazer alguma coisa! Isso é uma abominação! Quando anoitecer, não estaremos à salvo!”
Os outros fizeram coro com ela. Parecia que tinham ensaiado antes.
Eu subi em um dos túmulos. Precisava tentar acalmar aquela gente, antes que alguém se ferisse de verdade.
“Escutem! Escutem! Há um equívoco aqui! Alguém violou esse túmulo e levou o corpo embora pra fazer não sei o quê. Mas tenho certeza que não foi nenhum monstro, vampiro ou o que quer que vocês estejam pensando. Não há motivo pra pânico!”
“Todo mundo sabe que a moça foi vítima de um sanguessuga!”, gritou alguém, no meio do povaréu.
“Ninguém rouba o corpo de um defunto! Isso foi obra do diabo!”, emendou outro.
“Estamos investigando o que aconteceu. E preciso que todos vocês vão pra casa, agora mesmo! Não há nada pra se fazer aqui!”, gritei.
“E se mais algum deles resolver sair do caixão?”, rebateram.
Não adiantava discutir com aquela gente. Estavam fora de si. Eu desci do meu palanque improvisado e dei as costas praquela merda toda. Estevão me seguiu.
“E agora chefe, o que vamos fazer?”
“Achar a porra dessa defunta duma vez e acabar com essa merda. A moça não morreu por causa de morcego nenhum. Isso eu já sei.”
“Como assim?”
“A família está tentando acobertar algo. Me diga você. O que essa moça andava fazendo da vida?”
Entramos na viatura, deixando a multidão e os futuros mortos vivos pra trás.
“Humm… ela estudava em Lages… mas eu ouvi umas coisas ultimamente…”
“Que coisas?”
“Que ela andava metida com gente que não devia… um rapazote aí muito estranho, que vive numas bocadas suja…”
“Porra! E agora só você me fala isso?”
“Mas o que isso tem a ver com ela ter se mandado do caixão?”
Agora eu dirigia. Pisei fundo e voltei pro apartamento daquele gordo escroto, o Pereira Alves. Ela ia ter que me explicar tudo direitinho.
Janete, a empregadinha, atendeu a porta. Estava branca, coitada. Tinha o papel com o rascunho do meu telefone na mão.
“Menino Jesus abençoado seja! Estava tentando ligar pro senhor faz tempo!”
“Eu não voltei pra casa desde que saí daqui. O que aconteceu?”
“O patrão… depois que o senhor esteve aqui… ficou muito nervoso… muito mesmo… disse que ia matar o garoto de vez… e saiu daqui… acho que ele estava armado…”
“Que garoto? Me explica isso direito.”
“A Leiriane andava de rolo com um rapaz lá do São João, filho do seu Quinca e da dona Rosa… eles são boa gente, mas o filho parece que saiu virado do avesso… ele usava aquelas coisas…”
“Que coisas?”
“Aquelas coisas que a juventude da cidade grande usa. O pastor disse que é coisa que o demônio botou na Terra pra desvirtuar os jovens. Deus me livre.”
Pelo visto, o tal do demônio era figurinha fácil por aquelas bandas.
“Drogas. É isso que você está falando?”
“Ai, o patrão me mata se souber que contei uma coisa dessas… mas o senhor tem que entender, não estou fazendo por mal, não sou mexiqueira…”
“Você está fazendo bem. Agora me diga. Há quanto tempo a moça tava usando isso? Sabe?”
“Não sei. Mas uns dois meses atrás, o patrão encontrou um pacotinho desse negócio no quarto dela, escondido… eu vi depois no lixo, parecia uma farinha… nossa, achei que ele ia matar a pobrezinha…”
“Mas ela continuou usando, certo? Até que semana passada chegou ao ponto de ter que ser internada numa clínica de recuperação… mas não resistiu, provavelmente continuou usando, escondido, e morreu lá mesmo, não?”
O Estevão ouvia toda a conversa, espantado. Depois ia ter que explicar passo a passo pra ele, pra ver se caia a ficha.
“Isso… como o senhor sabia? Eu vi o patrão falando no telefone… era uma tal de ove… ove…”
“Overdose.”
“Isso!”
Eu sabia. Quer dizer, quase já sabia.
“A mulher do Pereira Alves está em casa?”
“Sim, tá trancada, lá no quarto. Ela toma muitos medicamentos e fica a maior parte do tempo… como eu posso dizer… meio fora… e depois da morte da filha, coitada, não presta mais pra nada…”
“Imagino. E pra onde o Pereira Alves pode ter ido?”
“Ele pegou a chave da caminhonete. Só sai com ela quando vai pro interior, pra pegar estrada de chão. O seu Quinca tem um sítio onde planta feijão, na margem do Rio Canoas…”
“Sabe onde é, Estevão?”
“Acho que sim, chefe… fui pescar uma vez lá, um tempo atrás…”
“Então vamos.”
Saímos da porta. Estávamos descendo o primeiro lance de escadas quando me lembrei de algo. Voltei.
“Janete?”
“Sim, seu delegado?”, respondeu, meio escondida já pela porta.
“Eu te amo.”
Voltei pra escada e desci, correndo, Estevão atrás de mim.
Eu estava com pressa, muita pressa, mas Estevão sabia dirigir muito melhor do que eu naqueles estradas de chão que pareciam ter sido bombardeadas por aviões. Mas estávamos no caminho certo. Dava pra enxergar claramente o rastro da caminhonete no chão.
A porteira, de madeira, estava jogada do lado da estrada, em pedaços. O gordo tinha passado por cima. Estava mesmo fora de si. Temi que fosse tarde. Encontramos o carro parado na frente de um galpão. Do lado, havia uma Rural velha, enferrujada.
Descemos da viatura.
O som do tiro ecoou pelo campo.
Puxei automaticamente o Taurus da cintura. Estevão congelou, plantado na grama. Eu o puxei pelo braço até a imensa porta do galpão, entreaberta. Entramos. O fedor me atingiu como um tapa na cara.
Leiriane estava deitada sobre uma bancada de madeira, o vestido de bolinhas puxado até para cima da barriga, deixando à mostra os loiros pelos pubianos que se destacavam entre a pele branca. A maquiagem pesada, provavelmente feita pra disfarçar o visual de cadáver recém-enterrado, lhe dava um ar bizarro. Deitado por cima dela, com a camisa xadrez ganhando tons vermelhos cada vez maiores, estava um rapaz com as calças arriadas, o pau ainda duro (desculpem pelos detalhes sórdidos, mas um policial não pode deixar passar qualquer impressão em branco).
Estevão jogou de uma tacada só no chão todo o café que havia ingerido na manhã – ou, pelo tamanho do vômito, o jantar e o almoço do dia anterior.
Pereira Alves não nos havia visto ainda. Ou não estava nem aí. Ainda apontava o revólver pro casal de enamorados.
“Polícia! Larga a arma, agora!”, gritei.
Nada.
“Você está preso, Pereira Alves. Larga a arma!”
Ele enfim se virou, a arma em punho, o braço esticado em nossa direção.
Disparei.
A minha estada em Aderbal Ramos acabou sendo mais curta do que pensava. Dois meses depois, voltei pra Capital. Recomendei Estevão pra SSP pra ficar no meu lugar. Permaneci por mais um ano na Central de Homicídios e larguei. Me aposentei.
Achei que bastava. Já tinha visto de tudo nessa vida.