Duelo de Escritores

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Archive for the ‘rafael waltrick’ Category

Sentou entre os arbustos na beira do rio e ficou ali, o rosto atento, numa mão a peixeira, na outra, a espingarda do Totonho. De onde estava, tinha uma visão privilegiada do imenso corredor de água doce à sua frente, iluminado àquela hora pelo globo branco resplandecente flutuando no negrume em cima de sua cabeça. Mesmo dali, podia ouvir a algazarra na vila, a fogueira seria acesa dentro de instantes.

Ele podia estar lá, se divertindo também, tomando cachaça e enchendo a pança de pé-de-moleque, mas não era homem de levar desaforo pra casa. Quer dizer, o desaforo já tinha levado pra dentro de casa faz tempo, inclusive já tinha parado de chorar à noite o garoto. Mas, um ano depois, podia finalmente botar um ponto final naquele negócio e andar pela vila de cabeça erguida.

“Ainda com isso, Zé? Não acredito que vai perder a festança pra ficar de tocaia lá, home de Deus”, tinha dito o Totonho.

“Me arranja a tua carabina. De hoje, aquele maldito bicho não escapa”.

Não tinha falado nada pra Rosália. Já ouvira ela contar todo o negócio inúmeras vezes, logo no começo, quando tentava explicar o bucho que não parava de crescer, mesmo antes do casório. E a Dona Firmina, que já morava por aquelas bandas antes mesmo de ele nascer, tinha sido bem clara: terno branco, roupa branca, o chapéu também branco com a aba descida pra frente, pra esconder o narigão.

Além de limpar a honra, também seria conhecido como o primeiro homem que deu fim àquele bicho do capeta desvirtuador de moças. E, se o danado não demorasse muito pra aparecer, ainda ia poder aproveitar um pouco da festa, quem sabe até ver a fogueira cair. Bom demais da conta.

A fogueira foi acesa, queimou, caiu e nada.

O globo branco andou um quantos passos lá em cima, e nada.

Apoiou o corpo num dos arbustos e cochilou.

Acordou, sei lá quanto tempo depois, com o barulho dos passos na terra, ali pertinho. Puxou a espingarda e a peixeira e viu, na beirinha do rio, o rapaz de costas pra ele, mijando na água, todo vestido de branco, parecendo brilhar no meio daquela escuridão toda. Então o danado ainda por cima sujava o próprio rio onde morava! Levantou de um pulo só, mirou e pá! bem no meio das costas. O bicho cambaleou e caiu, metade do corpo dentro do rio, metade pra fora. Correu até lá e terminou de fazer o serviço, descendo a peixeira três vezes nas costas do danado. Ah, nunca mais o maldito ia fazer filho em mulher nenhuma!

O terno branco, tão limpinho que tava, se inundou de sangue e terra. Até que nem era tão narigudo assim. E o chapéu, cadê o chapéu?

O grupo desceu correndo e gritando até o rio.

“Zé, minha nossa, home, minha nossa, o que você fez?”

“Peguei o maldito do boto, peguei! Olha só, tá aqui ó!”

“Mas que boto, home, que boto? Minha nossa, é o Juan, filho do Seu Zacarias!”

Lá longe, quase do outro lado do rio, um bicho grande mergulhou e sumiu.

Aug
25
Beatriz

Bastava fechar os olhos num breve cochilo para que ela surgisse incólume à sua frente, vestida em diáfano traje imortal, babados e tiras, Beatriz, a Fada dos Sonhos.

seus sonhos

No começo, apenas divisava o vulto, entre esquinas e paredes, tapetes e cortinas, mas, com o passar das noites – ou dias – o corpo começou a ganhar forma, preenchendo o vestido que flutuava embalado por uma triste sinfonia particular. Logo, o rosto começou também a ganhar rosto, cílio, olhos, bocas, dentes e gengivas, enfim, rosto.  

A Fada não vinha agora mais sozinha, tímida, solitária. Bastava fechar os olhos para que todo um universo mítico, mitológico, misturado em pequenas porções, surgisse em volta de Beatriz, seja a galope ou a voo, entre nuvens de concreto.

Ah, como eram belos

e intrigantes

aqueles sonhos!

Quando acordava, porém – sempre há um porém, no entanto, apesar disso – a fútil realidade o esmagava entre os travesseiros e lençóis. Estendia o braço na cama procurando por ela, a doce Beatriz, mas, é claro, não havia ninguém ali, nem sequer um botão que porventura tivesse caído de seu traje transparente, transformista.

Assim, vestia-se, escovava os dentes, tomava uma caneca de café e partia para a garagem, onde embarcaria em sua própria máquina transportadora até o trabalho, aquele Gigantesco Exercício de Futilidade (GEF).  

No intervalo do almoço, corria engolir algumas poucas colheres de um prato qualquer, apressado, para que pudesse, no estacionamento, cochilar ainda alguns minutos, embalado pelos braços dela. Juntos, então, passeavam por bosques e montanhas, montados em cavalos que não eram cavalos, de mãos dadas, sorrindo, o coração guardado em uma bolsa de couro, para que não se agitasse demais no trote profundo daqueles animais.

Ah, como eram reais

e magníficos

aqueles sonhos!

Uma noite, porém – sempre há – acordou assustado, em pânico! Sim, não havia sonhado! Mas como! Lembrava-se de coisa alguma e podia jurar que aquela escuridão ao fechar os olhos era tudo que havia. Beatriz, a Fada dos Sonhos,

seus sonhos,

vestida em diáfano traje imortal, o teria abandonado?

Não havia mais tempo para lamentar. Atrasado para o GEF, vestiu-se, desajeito, às pressas, tomando apenas um gole de água, e desceu para o estacionamento do prédio. Foi até o fundo do pavilhão e só não chegou até lá porque um outro veículo chamou sua atenção. O motorista terminava de estacionar, as quatro patas procurando o caminho traçado no chão em tinta amarela. Desembarcou e deixou-o ali.

“O que é isso?”, perguntou, deixando um pouco de lado a pressa incontida.

“Um unicórnio”, respondeu o outro homem, pouco interessado.

“Nunca vi um assim tão de perto”.

Ficou a sós com o cavalo – cavalo, era um cavalo, é isso que era? – e não resistiu a tentação de tocar a tez branca e misteriosa, macia e quente.

“Que beleza!”, exclamou, para si mesmo.

Tão logo falou, o dito unicórnio – que modelo era aquele? quem fabricaria? – levou o corpo para trás e, num impulso selvagem, levantou as duas rodas dianteiras.

“Vá embora! Vá embora!”, ressoou o alarme, ecoando no pavilhão.

“Desculpe”, limitou-se a responder, assustado.

Ficou ali ainda mais alguns segundos, a uma distância segura, apenas contemplando aquela figura mágica e veloz. Por um momento, esqueceu Beatriz, o vestido, os babados e tiras. Esqueceu o próprio carro, o trabalho (GEF), a caneca de café.

Deitou no frio chão de cimento do estacionamento e voltou a sonhar.

 

Tinha a irrecuperável mania de apaixonar-se tão logo as via nas ruas, montadas em salto alto, trajadas em vestidos curtos, calças jeans ou sandálias, cabelos amarrados, lisos ou encaracolados. Poderia ser no dobrar de uma esquina, na fila da padaria, próximo à banca de jornais ou mesmo sobre os ladrilhos de uma calçada qualquer.

A garganta apressava-se em declamar odes de amor e compromisso, subtraindo versos de antigos poetas, exaltando a perfeição no contorno de cada rosto, o reflexo brilhante dos raios de sol nos olhos castanhos, azuis, verdes, mesmo cinzas.

O ardor do coração queimante, quase em brasa, porém, nem sempre era correspondido. E, quando o era, o era somente por um breve instante no calendário, momento em que entre beijos e abraços, sussurros e gemidos, rimas e versos, julgava-se imerso entre as nuvens de seu paraíso particular.

Mas era somente uma questão de tempo – e ocasião – para ver-se mergulhado no mar escuro e profundo do desengano, abastecido pelas lágrimas sinceras que caíam das duas fontes do rosto. Pobre de ti, amante exasperado!

Eis que, em certa ocasião, tomou uma decisão definitiva: se não podia controlar sua paixão, esse animal insaciável que lhe fugia da coleira ao passear entre os transeuntes, iria matar o mal em sua origem. Com a ponta da caneta tinteiro que usava para escrever as frases tortas e ardentes para elas, sempre para elas, furou os dois olhos.

 

Aliviou-se e pôde, enfim, passear pela rua sem amar ou sofrer. Desacostumado com a escuridão que se desenhava à sua frente, porém, não tardou até que, num passo desajeitado, trombou-se com um passeante qualquer. Levou as mãos para o corpo à sua frente, como para se desculpar, e tocou a pele macia e resplandecente, aromática, singela perfeição exalada em cada poro.

Tarde demais, descobriu, enfim, que o amor era mesmo cego.

Jul
24
Iniciação

Faz meia hora que eu estou sentado aqui nessa porra de sofá.

Cristo não costuma me deixar esperando. Ele sabe que eu cobro por hora. É assim que eu trabalho. E não tem nada nessa sala além de revista velha e um bebedouro com a mesma água de semanas atrás. A secretária é uma múmia que já deveria ter sido enterrada há vinte anos, mas sempre que venho ela está aqui, sentada atrás da bancada, com o sorriso amarelo e a mesma blusa de lã manchada de sempre. Não fala merda nenhuma. Sequer parece respirar, às vezes.

Me disseram uma vez que era a mãe do Cristo. Deviam estar brincando. Eu nunca perguntei.

A porta do escritório finalmente se abre e o Alemão aparece, faz um sinal com a cabeça e me manda entrar. Cristo tá sentado na poltrona de couro atrás da mesa, o óculos fundo de garrafa solto com um cordão no pescoço, o cinzeiro levantando uma nuvem de fumaça dos cigarros inacabados. A mesma cena, todas as vezes. A diferença é que ele tá magro como a merda de um esqueleto. Me falaram também que ele tá com câncer. É por isso. Mas eu nunca perguntei. Você nunca pergunta coisa nenhuma para o Cristo. Apenas concorda com a cabeça. Você faz o serviço, ele dá a grana. Sem perguntas. É assim que funciona.

“Senta aí, Totó.”

Sento.

“Você tem família, Totó?”

“Não senhor. Uma irmã só.”

“E onde ela mora?”

“No Rio Grande. Não vejo ela.”

“Essa é uma questão de família, Totó. Não importa se você não vê a vadia desde que nasceu, mas ela é tua irmã. Entende? Não ia querer que fudessem ela pelas tuas costas, ia?”

“Não senhor.”

“Então. O meu primo, que é um filho da puta, mas é meu primo, me ligou hoje de manhã. Ele tem uma filha de dezesseis anos. Tá na escola ainda. Mal saiu das fraudas. Mas acontece que um merda dum namoradinho dela decidiu dar uma de gavião. Comeu a guria, a putinha engravidou e depois levou ela num açougue desses aí pra tirar o bastardo. E o otário do meu primo só ficou sabendo dessa merda toda quando a guria amanheceu desmaiada na cama toda ensangüentada. Tá no hospital.”

Ele para e tosse. Na segunda tossida, algo sai da sua boca e aterrissa em cima de umas folhas da mesa. Algo viscoso e escuro. Eu viro o rosto e faço de conta que não vi.

“MERDA! PORRA! Eu tenho que parar de fumar, mas o médico que se foda, entende? Ninguém me manda fazer porra nenhuma! Ninguém! Tá me escutando, seu merda?”

Eu apenas concordo com a cabeça.

“Então, o que eu tava falando mesmo…”

“Da guria, chefe. No hospital.”, completa o Alemão. Até tinha me esquecido que ele tava ali, encostado na parede, quieto como uma cobra venenosa. Eu odeio esse cara.

“É. Isso. Então. Eu taria pouco me fudendo, mas é meu primo, entende? Coisa de família! Ele veio pedir pra eu fazer alguma coisa, e vou fazer. Vou gastar a merda do meu dinheiro contigo, Totó, porque ele é meu primo. E é isso que esperam de mim. A gente tem que proteger quem é da família. O exemplo tem que partir de dentro de casa. Eu cuido dos meus. E eu vou dar uma lição no filha da puta do namoradinho da filha do meu primo. Tá certo?”

“Sim senhor.”

“Pega esse papel aqui. É o lugar onde o merdinha trabalha. Numa oficina mecânica. NUMA PORRA DE UMA OFICINA MECÂNICA! Você acha que algum dia eu ia deixar a minha filha sair com um filha da puta de um mecânico? Eu devia é fuder com o meu primo. Tem que ser até amanhã à noite.”

Eu pego o papel riscado e coloco no bolso.

Cristo coloca o óculos e fica me encarando.

Eu olho pros lados.

“Tá esperando o quê?”, diz ele.

“Bem, você não falou…”

“Não falei o quê? Você é surdo por acaso? Só tem tamanho? Que merda você tem nessa cabeça?”

“É… humm… o que eu faço com o cara?”

 Silêncio. O cigarro na mão de Cristo se decompõe em cinzas. Ele só fica ali me olhando, os olhos escondidos atrás dos vidros de fundo de garrafa. Parece que se passam dez minutos. Minha camisa já tá empapada de suor. Talvez seja o calor. Não quero reconhecer que é nervosismo mesmo. 

“O que… você… faz… com ele?”, pergunta o Cristo, com uma cara de bobo.

Não falo nada. Cristo olha pro Alemão. Olha pra mim. Olha pro Alemão. Olha pra mim.

“Eu vou dizer o que você vai fazer. Você vai comer o cu desse moleque. Desse merdinha. Sem cuspe.”

“Tá.”

“Entendeu?”

Eu olho pro Alemão e ele dá de ombros.

“Figurativamente, você diz…”, falo, desajeitado.

“Como?”

“Você quer que eu foda com ele no sentido de dar uma surra no cara, aleijar, dar um sumiço… certo?”

Cristo abaixa o óculos. Respira fundo. Põe a mão no peito. Segura um acesso de tosse. Esmaga o cigarro junto com os outros no cinzeiro. Antes que pisque, o Alemão o oferece mais um. Não sei de onde ele tirou a merda do cigarro. Esse cara é rápido. Cristo acende o cigarro, se joga pra trás na cadeira e fala comigo com calma, como se estivesse falando com uma criança.

“Não, seu asno. Eu não estou falando figutaramente. É pra você comer o cu desse merda. Ele foi lá e comeu a filha do meu primo. E agora é isso que você vai fazer com ele. Simples.”

Eu penso em dizer que daí é demais, que não faço esse tipo de coisa, não sou veado, não como cu de homem nenhum. Mas fico quieto, levanto e saio. Não adianta. Com o Cristo, você não pergunta. Não discute. Só concorda com a cabeça. É mais seguro. É assim que funciona.

 

Só o Cristo tem culhão pra falar comigo assim desse jeito. As pessoas normalmente sequer conversam comigo ou me olham na cara. Não é respeito, é medo. Mas tá valendo mesmo assim. Uma vez um professor meu me disse, na escola, que é melhor ser temido que respeitado. O cara era um filha da puta escroto e levava o negócio a sério. Dava certo.

Se alguém me chama de burro, ri de mim ou do meu nome, eu mato. Na hora. Antigamente eu só dava um pau no cara, mas depois você se incomoda. Ele reúne os amiguinhos e vem atrás de ti em bando. Então, é melhor dar cabo do cara do que dar vaza pra ele armar pra ti depois. Aprendi isso com o tempo. Assim você não arruma inimigo. E assim ninguém se mete a bobo. Todo mundo sabe como eu lido com as coisas. Todo mundo sabe pra quem eu trabalho. De vez em quando só, mas trabalho.

O Cristo tem esse apelido porque uma vez uns caras, que trabalhavam com ele, barbarizaram total. Deram cinco tiros e jogaram num barranco lá numa rua dum morro. Acharam que ele tava morto. E dizem que tava mesmo. Três dias depois, o cara apareceu, vivo da Silva, e deu o troco. Meteu fogo na casa dos filhos da puta que aprontaram com ele. Com mulher, com criança, tudo dentro.

Eu conheço o Cristo faz tempo. Não duvido que seja verdade. Não duvido que ele tenha morrido mesmo. Já tentaram matar o cara umas dez vezes, pelo menos. Nunca conseguiram. E agora o tal do câncer tá fudendo com ele, de vez.

É a vida.

O que importa é que ele me paga bem e confia em mim. Quando não quer sujar as mãos ou precisa que alguém receba uma lição de verdade, é eu que ele chama. Quando quer que alguém sofra mesmo, é eu, e não aquele Alemão paga pau, que resolve o negócio.

 

Eu fico dentro do carro só observando. A mecânica é uma espelunca. Eu nunca tinha vindo a essa parte da cidade antes. Apesar das ruas sem asfalto e da molecada correndo pra lá e pra cá o dia inteiro, sem nada pra fazer, é muito melhor do que o lugar de onde eu vim. Lá, só se tinha uma coisa pra fazer nas ruas.

Tem gente demais na porra da oficina. Já vi o cara. Confere com a descrição que o Alemão me passou. O nome dele é Guilherme. Isso é nome de biba, só pode. Eu queria fazer isso de uma vez e me mandar daqui. A pior coisa nesse trabalho é ficar de tocaia. Eu odeio esperar. Mas não tem jeito.

Um moleque vem e bate na janela do carro.

“Tio, você tem um trocado?”

Eu abaixo o vidro.

“Que merda você tá falando?”

“Um trocado pra comprar um pão, tio…”

“Pão o caralho. Se eu te dar dinheiro, você vai é sair correndo daqui pra comprar pedra, escrotinho. Se manda.”

“Um trocado, tio…”

“FILHA DA PUTA!”

O tabefe na orelha do moleque faz estalo até. Ele sai correndo e gritando, chorando que nem um neném. Merda. Não queria chamar atenção. Já basta um carro parado há três horas com um armário que nem eu dentro.

A gurizada toda olha pra mim, junta umas pedras do chão e vem.

Antes que eles possam chegar mais perto, o merdinha da oficina sai à toda de moto, levantando poeira. Caralho. Dou a partida e vou atrás. Uma das pedras atinge a lataria do carro. A minha vontade é parar e dar uma lição nos moleques. Mas o merdinha já tá longe. Acelero. Eu não conheço essas ruas. Tenho certeza que não me viu, mas tá correndo como o diabo fugindo da cruz. A porra de um caminhão me corta a frente, saindo dum galpão. PORRA DE CAMINHÃO!

Eu buzino, coloco a cabeça pra fora e xingo mesmo. Dou a volta na tranqueira e quando vejo, não acho mais o merdinha. Cassete.

Eu não sou muito bom pra perseguição de carro, essas coisas. Sou meio desajeitado pra dirigir. Minhas mãos e meus pés são grandes demais. Não importa o carro, sempre fico meio espremido.

Não tem jeito. Volto pra oficina. Os moleques, pra sorte deles e não a minha, se mandaram. Estaciono. Agora não tem mais porque ficar escondido. Entro no lugar, uma garagem atopetada de ferramentas pela parede e pelo chão, com um Chevette parado no meio. Quando eu era piá, meu sonho era ter um Chevette.

Um magrelo surge dos fundos. Mal enxergo o rosto dele, que tá preto de graxa. Por que mecânico tem que ser tão porco assim?

“Tá precisando de algo, amigo?”

“O cara.”

“Que cara?”

“O que trabalha contigo. Onde ele mora?”

“De quem cê tá falando?”

“O Guilherme.”

“Que tem ele?”

“Preciso falar com ele. Onde ele mora?”

“Ele tava aqui até dez minutos atrás. Volta amanhã.”

“Me fala.”

“O quê?”

“Onde ele mora duma vez.”

O carniça me olha dum jeito estranho. Acho que tá sacando qual é a minha. Dá um passo pra trás. Olha pros lados, procurando alguma coisa pra me furar ou me tacar na cabeça. Antes que tente algo, eu chego junto e empurro ele pros fundos, onde ninguém vai enxergar.

“Fala duma vez ou te dou um pau agora mesmo.”

“Que isso, cara, que isso? Relaxa, não sei onde o cara mora…”

O soco na boca do estômago faz o cara ajoelhar e deitar no chão. Fica fazendo um barulho esquisito, tentando respirar. Eu coloco meu botinão em cima da cara dele e puxo um alicate que tava ali por cima. Me abaixo pra ele ouvir bem.

“Eu vou arrancar os teus dentes um por um com essa porra aqui, seu boqueteiro… daí você não vai mais é falar porra nenhuma.”

Ele geme e resmunga alguma coisa. Eu fecho o alicate na orelha dele e puxo pra cima. O viado grita.

“Vai me falar?”

Ele fala. Sempre falam. Ninguém me deixa sem resposta.

 

Encontro a moto parada no pátio da casa, em cima da grama. Já tá anoitecendo e, fora um desocupado sentado na calçada umas três casas à frente, não tem ninguém na rua. Paro o carro, desço, levo algumas coisas no bolso do casaco, pro caso do cara querer encrencar. Nessas horas, não dá pra dar moleza. Já vi muito neguinho matador de longa data marcar bobeira e levar bala nas costas de graça.

É claro que eu preferia chegar e dar cabo desse cara de vez. Não sou estuprador, nem de mulher, muito menos de homem. Mas foda-se. Se o Cristo mandou, não tem jeito. Ou eu faço o serviço, ou é o meu cu que vai ficar na reta.

A porta da casa tá aberta. Não perco tempo apertando a campainha. Eu sou grande, mas sei ser quieto quando preciso. Escuto o som de uma tevê ligada. A casa tá limpa, cheia de móveis antigos. O puto não deve morar sozinho. Da sala, passo pro corredor. O som da tevê vem de uma outra sala. Eu olho pelo cantinho da porta aberta. Tem uma velha sentada numa poltrona na frente da tevê, de costas pra mim. Pelo visto, tá dormindo. Deixo quieto.

Sigo pelo corredor. Tem se alguém se mexendo no quarto. É o cara. Eu entro e fecho a porta atrás de mim, na manha só. Ele tá abaixado procurando alguma coisa embaixo da cama, com a bunda pra cima. É a hora.

Eu tropeço em alguma merda no chão. O filha da puta dá um pulo. Cassete. Ele não pula, voa pra cima.

“CARALHO! QUE PORRA É ESSA?”

“Cala a boca.”

O merdinha não sabe o que fazer. É sempre assim. Além de serem pegos de surpresa, se assustam com o meu tamanho. Eu fico entre ele e a porta.

“QUEM É VOCÊ, PORRA?!”

“Fala baixo, moleque. Não vai querer acordar a velhota ali do lado. Se não, ela vai junto também.”

O otário se joga pro lado e tenta escapar pela janela, mas eu não sou tão bobo assim. Pego ele pelo colarinho e jogo de cara no guarda-roupa. Dou uma joelhada do lado, bem no rim. Ali é pra deixar o cara fudido mesmo. Ele fica no chão. Eu dou com o botina no saco.

Comigo é assim. Não tem porque inventar história. Nunca aprendi caratê, judô, boxe, nenhuma dessas boiolices aí. Nas ruas, é assim que se briga, se você quiser sair inteiro.

O fiho da putinha não desmaiou, pelo menos. Melhor assim. Tenho um recado pra dar. Deixo ele de costas e falo no ouvido dele.

“Isso é pra você aprender a não sair por aí comendo as filhas dos outros, seu merda.”

Eu puxo a calça do bichinha com cueca, tudo junto. Dou de cara com a bunda branca e seca. Fico por cima dele e abro o meu zíper. Ele continua com a cara pregada no chão, gemendo de dor.

Caralho.

Não vai dar.

É pedir demais que eu fique de pau duro com uma merda dessa. Eu bato uma ali, mas não tem jeito. Escuto alguém se mexendo na casa. Cassete. Olho pra bunda branca e o cu peludo. Merda, merda, merda. Tento pensar na Keity, aquela gostosa, bucetuda, aquilo sim é uma bunda gostosa, humm, toda molhada, geme gostoso, Keity, o meu caralho enfiado na boca dela, isso, humm, acho que agora vai…

A porta se abre e um filho da puta chega gritando. É o magrelo da oficina. Quando eu viro o rosto pra trás, ele me acerta com a porra de uma tábua na cara. Fico zonzo. Não escuto nada do que o cara grita. Ele me dá um chute nas costas e eu caio pro lado. Na outra mão, vem com uma porra dum facão na minha direção. Mesmo no chão, eu seguro o braço dele. Pego ele pelos bagos e pelo braço e jogo na parede, por cima da cama. O merdinha aproveita e tenta sair correndo. Nada disso.

O som de rojão do meu 38 me põe nos eixos e faz eu escutar de novo.

Não vi a velha na porta.

Ela cai morta no chão, um puta buraco em cima do olho, onde a bala entrou. O merdinha fica ali parado, empapado de sangue na cara, olhando pra velha.

Agora fudeu.

O magrelo salta pra cima de mim e me agarra pelas costas. Eu tento me livrar do filha da puta, mas o desgraçado é mais empenhado do que eu imaginava e fica ali pendurado. Rodamos no quarto batendo em tudo que é porra de coisa. Eu dou uma cotovelada certeira nas costelas e ele afrouxa um pouco, o suficiente pra eu me livrar do maldito. Pego o facão, jogado no chão, e grudo no pescoço do desgraçado.

O sangue espirra na minha cara, na minha boca, na minha camisa, que merda. Cuspo na cara dele, que me olha branco já, o bago dos olhos parece que vão saltar pra fora.

Me lembro do merdinha. Corro atrás dele, que já tá na rua, fugindo pela calçada. Acerto ele nas costas e o veado cai como um boneco de pano, todo desajeitado, tropeçando nas próprias pernas.

Dou uma olhada na rua pra ver se mais alguém tava de olho. Limpo a minha cara, suja de sangue, com a manga do casaco. Entro no carro.

Putaquipariu, que lambança.

 

O Alemão aparece na minha casa no dia seguinte.

“Que merda toda foi aquela?”

“O filha da puta tinha alguém protegendo ele.”

“Merda nenhuma. Era a porra do mecânico que trabalhava com o cara. E a velha? Que a velha tinha a ver com isso?”

“Velha do caralho. Apareceu do nada.”

Ele me passa um envelope.

“Por mim, não te entregava merda nenhuma. Mas o Cristo, sei lá porque, vai com a tua cara. Pega isso e fica muquiado por um tempo. Tão dizendo que um moleque de lá viu a tua cara.”

O Alemão se manda. Sabia que o Cristo não ia me deixar na mão.

Conto a grana. Ligo pra Keity. No final das contas, vai dar pra comer alguém.

Chega um momento da sua vida em que você acha que já viu de tudo. Eu achava. Traficantes, pedófilos, homicidas, estupradores, viciados, trombadinhas, neguinho matando a própria mãe, abusando da afilhada, cara cozinhando o cachorro do vizinho, esse tipo de coisa. Eu sempre tive um jeito peculiar de lidar com essa gente. Muitos não concordavam, mesmo tendo vontade de fazer a mesma coisa. Por isso fui parar naquele cu de mundo. Aderbal Ramos. E isso lá é nome de cidade?

Os primeiros dois meses foram os mais difíceis, não pelos caipiras e descerebrados que encontrava a rodo nas ruas e na delegacia, mas pela porra do frio. Já era setembro, e mesmo assim, toda a manhã os campos amanheciam cobertos de geada. Eu sequer tinha levado cobertores, cobertas, essas coisas. A casa de três cômodos que eu havia alugado não tinha um sistema decente de aquecimento e duvido que casa alguma naquele lugar tivesse. Eu havia vindo da Ilha direto pra Serra, achando que tudo aquilo que tinham me falado, sobre as baixas temperaturas, a chuva oito meses por ano, era balela. Com o tempo, não me acostumei, mas pelo menos passei a conseguir dormir, soterrado embaixo de uma penca de cobertas de lã de ovelha.

Raimundo havia dito que aquela temporada seria uma espécie de “férias”, um descanso pra mim até a poeira baixar e a imprensa largar do meu pé – e do dele. Eu ia dar um tempo dos traficantes, assaltantes, estupradores, toda essa corja, pra me incomodar somente com perda de documentos e umas brigas mais exaltadas todos os domingos nos bailes e muquifos onde aquela gente se enfiava.

Por um tempo, foi assim mesmo. E confesso que, apesar da absoluta falta do que fazer em alguns dias, eu até gostei. Sabia que ninguém naquela cidade ia com a minha cara, mas isso nunca foi novidade ou problema pra mim. Era eu, a escrivã, uma senhora viúva lá nos seus cinqüenta e cinco anos, e três policiais cabaços, que nunca sequer haviam disparado um tiro, apesar de desfilarem pela rua fazendo questão de mostrar o trabuco preso na cintura. Não tínhamos peritos, especialistas, nada. Tudo que exigia um pouco mais de investigação e análise forense era feito no município vizinho, a trinta quilômetros.

Então aconteceu aquela merda toda, num dia só.

Acho que sequer havia amanhecido ainda quando me ligaram no apartamento. Era o Estevão, um dos policiais, o mais novo, recém formado na Acadepol. Eu até gostava dele, apesar de achar que desmunhecaria quando tivesse que dar uma voz de prisão.

“Chefe?”

“Fala.”

“É o Estevão.”

“Sim, eu sei. Que merda é essa? Que horas são?”

“Desculpa ligar tão cedo. Mas o Seu Manoca tá aqui… meio nervoso.”

“E eu sei lá quem é a porra do Seu Manoca? Você não tá de plantão? Atende o cara.”

“Sim, mas é que… aconteceu um troço meio esquisito. Ele é o velho que cuida lá do cemitério. Diz que andaram mexendo lá essa noite. E…”

“E…?”

“Sumiu o corpo duma moça.”

“Como assim? Uma falecida?”

“É.”

“Que tava enterrada?”

“Isso.”

“Cassete. Diz pro velho sossegar. Vou tomar um banho e me mando.”

A verdade é que fiquei, até certo ponto, empolgado naquele primeiro momento. Finalmente acontecia algo diferente naquela cidade, que pudesse render mais do que um B.O. jogado dentro do arquivo. No íntimo, eu já sentia falta dos casos de verdade, homicídios, tráfico de drogas, latrocínios, por aí vai. Um túmulo violado não era nada disso, mas já era alguma coisa. E, apesar de ter escutado e lido muita história a respeito, nunca tinha me metido numa dessa.

Cheguei na delegacia e encontrei o tal do Manoca esperando sentado na minha sala, com o Estevão do lado, os dois pálidos como uma parede recém pintada de branco. Apesar da hora, eu estava disposto. Um banho com água fervendo faz milagre.

“Então, que cara de enterro são essas? Se me perdoem o trocadilho”, falei, não resistindo à piada pronta.

“Então, chefe, esse é o Manoca. Eu já conversei um pouco com ele…”

“E não chamou a Dona Estela por quê? É ela que tem que digitar o depoimento dele.”

“Ela nunca atende o telefone antes das nove. Deixa fora do gancho. Diz que o médico recomendou que ela dormisse pelo menos dez horas por dia.”

“Foda-se. Então, Seu Manoca, o que o senhor me diz? Andaram mexendo lá com os teus amigos?”

O velho, na falta de descrição melhor, era a porra de um velho mesmo. Era quase uma justiça poética que tivesse sido mandado pro cemitério pra andar por lá. A impressão que eu tive, à primeira vista, é que tinham esquecido de enterrar aquela múmia junto com os outros. Achei que ele não tivesse me ouvido, a cabeça baixa, olhando com desconfiança pros lados. Aumentei a voz, procurando não parecer muito ameaçador. Afinal, ainda era só um velho.

“Estou falando com o senhor. Quer me dizer o que aconteceu lá?”

“Seu delegado… o que eu posso dizê pro sinhor é que não vorto nunca mais praqueles lado… não mesmo…”

“E por que, Seu Manoca? Normalmente um cemitério é um lugar muito tranqüilo, o senhor não concorda comigo?”

“Pois então, eu trabalho por lá faz tempo já, apesar de já ter orvido muita história das braba. Quem é das antiga, como eu, sabe que essa cidade já passô por muita coisa. A minha mãe, que o bom Jesus a tenha, contava que nas noites de lua cheia…”

“Me poupe da sua mãe, por favor. O que aconteceu essa noite lá?”

“Então, seu delegado… eu normalmente, fico até altas horas da noite lá no cimitério… mas nessas época, tá frio demais, então eu vorto pra casa pra durmi e de manhã cedo já tô lá de vorta, porque eu também dou uma limpada lá naqueles túmulo todo né, e tem muita gente enterrada por lá e o senhor sabe que eu já não sou muito bom das perna e as minhas costas dói que é o diabo, mas eu dô conta do serviço sim, tenho setenta anos mas…”

“Seu Manoca, eu o policial Estevão aqui temos muito serviço pela frente hoje, e quem sabe seria melhor se o senhor fosse logo ao ponto. Por que não conta pra mim de uma vez o que contou pra ele?”

O velho olhou pra Estevão, que desviou o olhar. Lá vinha história.

“Então… eu vô conta pro sinhor… deus me livre, eu cheguei lá de manhã cedo, o sol tava nascendo ainda… fui dá uma vorta por ali, como sempre faço, pra ver se tá tudo em ordem, apesar de que aquele lugar sempre foi muito tranquilo né, como o sinhor memo falou agora… e dei de cara com aquela tampa de pedra tudo quebrada, jogada pros lado. Minha nossa, cheguei mais perto, vi que o buraco do túmulo tava aberto. Eu não sô medroso não, mas naquela hora uma coisa ruim me deu um arrepio daqueles nas costa. O sinhor tem que ver, olhei pra dentro e vi o caixão aberto, minha nossa! Mas não tinha corpo nenhum ali, seu delegado, deus abençoado! Nem sinal do corpo! Tava só o caixão, aberto, a tampa do lado.”

“E quando o senhor tinha saído pra ir pra casa, na noite anterior, tinha passado por esse mesmo túmulo?”

“Sim, sim, sim sinhor. E tava ajeitadinho, me lembro sim. Eu passo por tudo antes de sair de lá.”

“O senhor chegou a mexer em algo? Viu algum vestígio, alguma ferramenta que possa ter sido usada pra quebrar o mármore?”

“Mas deus me livre, seu delegado… não ia chegar perto daquilo mas nem que me pagasse! Me mandei direto pra casa, pra rezar um terço, e depois vim pra cá… vai que a falecida tivesse por perto ainda…”

“A falecida? Como assim?”

“Mas claro, seu delegado… com esse tipo de coisa não se brinca… se a moça teve força pra sair do caixão e quebrar aquele tampão de pedra, imagina o que podia fazer com um velho que nem eu…”

Eu teria rido se não tivesse meio puto já. Em depoimentos, interrogatórios e afins, por mais que digam que o principal é saber “ler” os trejeitos, as mentiras, as contradições, os medos, eu digo que o principal é paciência mesmo. E paciência nunca foi meu forte. Estevão permanecia quieto, sério como um bode encarnado. Achei que devia já estar tentando conter o riso há tempo, mas pelo visto a história do velho não era tão ridícula assim pra ele.

“Senhor Estevão, quem é essa moça que o seu Manoca está falando?”

Ele pareceu hesitar, mexia nas mãos, nervoso.

“É a filha do seu Pereira Alves…”

“Ninguém se chama ‘Seu Pereira Alves’. Qual o nome do homem?”

“Raimundo Pereira Alves. Ele é um dos grandes aqui da cidade, se o senhor me entende. Tem uns 500 hectares de terra no interior. Ele planta pinus pra mandar praquela fábrica de papel lá de Otacílio Costa. Já foi candidato a prefeito também.”

“E a filha? Morreu quando?”

“Terça-feira.”

“Há dois dias, então…”

“Isso.”

Menos mal. Pelo menos não ia ter que ir atrás de um monte de trapo e osso, que podiam ser escondidos dentro de uma caixa.

“Seu Manoca, o senhor pode ir pra casa e descansar um pouco. Eu vou com o policial Estevão dar uma olhada lá no seu local de trabalho. Vou pedir que o senhor volte aqui depois das dez pra escrivã coletar o seu depoimento. Ela vai fazer mais algumas perguntas pro senhor. O senhor chegou a comentar sobre isso com mais alguém?”

“Mas não é que eu nem tive tempo ainda? Mas o seu delegado pode contar comigo, vou falar pro pessoal ficar atento, principalmente as crianças. Com esses sugador de sangue não se pode brincá…”

“Do que o senhor está falando, seu Manoca? Com o perdão do palavreado chulo, mas que merda é essa que o senhor acabou de me falar agora?”

Sim. Eu estava a ponto de esganar o velho. Pra mim, pior do que gente analfabeta é gente que acredita em assombração, folclore, essas merdas. E não queria que o velho saísse por aí tacando o terror na população. Vai saber o que se passa na cabeça dessa gente do interior… já bastava um meio pirado.

“Mas o sinhor não sabe? A moça, nossa, era linda demais ela, foi atacada por um sanguessuga semana passada… um morcego atacou a coitada lá no sítio do pai dela e não teve jeito. Dizem que até internaram no hospital, mas tava tão fraca a coitadinha que não teve médico que desse jeito…”

Mais essa agora.

“Estevão, me traduza isso, por favor.”

“Como, chefe?”

“Que história é essa? Você conhece esse povo muito melhor do que eu.”

“É isso mesmo, chefe… a moça foi atacada por um morcego lá no fazendo do seu Pereira Alves. Pegou raiva, aquela doença que esses bichos transmitem. Que nem cachorro.”

“Raiva?”

“Isso.”

“Acho que desde o tempo da minha avó ninguém morre de raiva, Estevão. Ainda mais com mordida de morcego. Tem vacina pra isso. E que eu saiba, ninguém morre de raiva de um dia pro outro. Vocês sabem que merda estão falando?”

“Mas foi isso mesmo, chefe. Parece que os médicos tentaram tudo quanto é tipo de coisa, mas não teve jeito. Levaram ela pra Lages, na melhor clínica que tem lá. A família ficou arrasada. A moça tinha só dezessete anos.”

Respirei fundo. Precisava de um café. Quente, preto.

“Tá certo. Vamos pro cemitério agora. Depois, vamos falar com a família.”

“Mas… mas chefe…”

“Mas o quê, Estevão?”

“Não sei… se é seguro ir pra lá… como o seu Manoca disse, vai que…”

“É, seu delegado, eu to dizendo pro sinhor, talvez fosse melhor ir lá na paróquia e chamar o padre Anselmo…”, emendou o velho.

Eu sequer respondi pros dois. Peguei a chave da viatura na gaveta e joguei pra Estevão.

“Você dirige, Van Helsing.”

Ele fez cara de quem sequer sabia do que eu estava falando. Odeio quando as pessoas não entendem a piada.

O cemitério ficava distante do Centro da cidade, à beira de uma rodovia federal que cortava aquele fim de mundo. Na verdade, ficava fora mesmo de Aderbal. Era preciso dirigir uns cinco quilômetros até chegar no local, cercado por um muro velho e baixo, que qualquer um podia atravessar sem dificuldade – inclusive levando um corpo nos ombros. Não havia casas por perto, apesar do batalhão do Corpo de Bombeiros – na verdade um galpão com um caminhão e uma ambulância – ficar quase logo em frente. Enfim. Não seria difícil um carro parar por ali à noite, ficar um bom tempo e se mandar, sem ninguém sequer notar.

Fiz essas considerações assim que estacionamos em frente ao cemitério, num estacionamento improvisado de terra batida. Sorte nossa, não havia ninguém ali naquele momento pra importunar ou especular o que diabos uma viatura da polícia estava fazendo por aquelas bandas. Estevão me seguiu a contragosto para dentro dos portões, a mão presa na coronha do revólver amarrado na cintura. Tinha que ficar atento pro rapaz não se assustar com a porra de um gato e sair disparando por aí.

O túmulo – ou o que restou dele – foi fácil de achar.

O buraco ainda exalava um leve odor de decomposição, misturado a um perfume estranho no ar, desses frascos baratos que se compra em mercearias. Ou talvez fosse só impressão minha. Peguei meu bloco de papel que sempre levava em campo e risquei com a caneta algumas frases soltas, para que não esquecesse nada depois – eu não tinha mais vinte anos. Não havia qualquer ferramenta por perto, fora um balde que seu Manoca provavelmente usava pra coletar a água e irrigar as poucas flores ali presentes. Estevão olhava pra dentro do túmulo esticando o pescoço, com o corpo o mais longe possível. Não havia muito a se ver, fora um caixão aberto, a tampa jogada pro lado. Pelo forro do negócio, dava pra ver que a família tinha grana mesmo. Fui até o mármore usado pra tampar o túmulo, quebrado em três partes. Uma delas, menor, havia caído dentro do buraco.

“Está vendo, Estevão? Essas rachaduras em cima da tampa, o jeito que o negócio quebrou. Tá na cara que alguém deu uma puta paulada em cima disso, provavelmente com uma marreta ou coisa do tipo. Essas fissuras aqui na pedra indicam isso.”

“Fissuras? Não to vendo, chefe.”

“Essas lascas aqui onde a pedra se quebrou. Isso quer dizer que não foi a morta-viva que bateu com a cabeça e saiu, mas alguém de fora. E depois desceu até o caixão, abriu a tampa – com cuidado, não há sinal de que tenha quebrado ele também – pegou o corpo e saiu por aí. Deve ter vindo por esses descampados atrás do cemitério, porque não há sinal de rastro de carro lá na frente, fora o nosso. Tinhas visto isso, Estevão?”

“Confesso que não, chefe…”

“Nós temos que visualizar a cena do crime como um todo, rapaz, e não só o local onde ocorreu o fato em si. O criminoso sempre tem que chegar por algum lugar e sair por algum lugar. Se a gente souber delimitar que lugares são esses, conseguimos decifrar o modus operandi do meliante e até que tipo de pessoa ele é.”

“Humm…”

Eu estava falando pros mortos só, mas não interessa. Quando eu estava trabalhando, não conseguia fechar a boca. Mas ali, na frente daquele buraco, eu só iria mais adiante se fizesse uma puta perícia, procurando digitais, fios de cabelo, pedaços de tecidos, essas coisas. E contar com um perito estava fora de questão naquele lugar. Talvez, dali a duas semanas, aparecesse alguém. Foda-se. Pra mim algo já estava claro – a falecida não tinha sido escolhida aleatoriamente. Então, era só conhecer a moça que você conhecia o criminoso, vulgo violador de túmulos. Simples. Olhei no bloco o endereço da família da jovem, que tinha anotado enquanto vinha com Estevão até o cemitério.

“Estevão, eu vou dar uma conversada com os pais da moça. Eles precisam saber o que aconteceu. Enquanto isso, você fica plantado aqui. Precisamos isolar esse lugar depois e impedir que a caipirada transforme esse túmulo no mais novo ponto turístico da cidade.”

“Quê?! Mas… mas…”

“Mas o quê, caralho?”

“Eu não posso ficar aqui sozinho! E se… e se… sei lá, essa pessoa que libertou a moça aparece de novo ou… ou…”

“Você escutou alguma coisa do que eu disse? Se aparecer alguém suspeito, você interroga, e se a pessoa encrencar, dá voz de prisão. Já fez isso, né?”

“Mas a gente não sabe ainda o que… o que aconteceu…”

Eu virei as costas e deixei ele falando sozinho, antes que eu enterrasse aquele cagalhão numa daquelas covas.

O tal do Pereira Alves morava num apartamento gigante no último andar do único prédio da cidade. Quem me atendeu foi uma empregadinha, um tanto quanto jeitosa, diga-se de passagem, os cabelos de crente caindo até a cintura em duas tranças. Esbugalhou os olhos como se estivesse vendo uma assombração quando eu disse que era da polícia. Esperei na sala, um amontoado de sofás e quadros nas paredes com uma mesinha repleta de pequenos bichinhos de cristal em cima. Meia hora depois, o homem apareceu, a barriga proeminente escondida atrás de um roupão roxo e amarelo, super discreto. Me olhou como se eu fosse um verme, que interrompeu seu doce sono de homem de negócios ocupado. Sentou no outro sofá, ao lado do meu, se esparramando em meio às almofadas japonesas trazidas do Paraguai.

“Normalmente não atendo pessoas sem marcar horário, ainda mais na minha casa, mas a Janete falou que era urgente… e espero que seja mesmo.”

“Talvez ela não tenha se expressado bem. Meu nome é Vladimir Bonatto, e sou delegado de polícia aqui de Aderbal Ramos. Há pouco tempo. Acho que não tinha tido a oportunidade de me apresentar antes.”

“Ouvi falar do senhor. Mas pelo que eu sei, delegado mesmo só fica atrás da mesa, na delegacia, tentando fazer cara de mal pras escórias que aparecem por lá. Não sei o que o senhor pode querer comigo.”

“Meu pessoal é restrito aqui em Aderbal. Não me incomodo em fazer trabalho de campo. E não teria vindo até aqui se não fosse estritamente necessário. Houve uma ação criminosa no cemitério da cidade essa noite.”

“E o que eu tenho a ver com isso?”

“Não sei como dizer… mas a questão é que o corpo da sua filha foi levado de lá.”

O gordo pareceu afundar ainda mais no sofá. Bufou, esbranqueceu, depois avermelhou e quase ficou da cor do roupão. Praticamente um mosaico de cores.

“Se… se isso for uma brincadeira, saiba que estou prestes a enchutar o senhor fora daqui nesse instante…”

“Não é. Estamos investigando. E preciso da cooperação do senhor pra saber se alguém próximo da sua filha ou de você teria intenções para fazer isso.”

“Primeiro de tudo, fale baixo. A minha esposa está no quarto e já deve ter acordado. Não precisa saber dessa… dessa atrocidade.”

“Concordo, mas uma hora ela terá que saber, senhor. E sinto que terei que falar com ela também.”

“Não! Ela já sofreu demais. Todos nós sofremos demais… e agora… agora você vem aqui e me conta uma coisa dessas… como isso foi acontecer, pelo amor de Deus?”

Achei que o homem ia enfartar. Não tiraria a razão dele. As pessoas esperam que você chegue até a casa delas e fale que a filha, filho ou qualquer parente próximo foi morto, seqüestrado, estuprado ou coisa do tipo. E não que sumiu do caixão onde descansava belo e formoso.

“Leiriane… era esse o nome da sua filha, não? Pelo que eu soube, foi uma fatalidade o que aconteceu… raiva, certo?”

“Sim, sim, sim… horrível…uma doença horrível…”

“E posso ver o atestado de óbito?”

“Como?”

“O atestado de óbito. Acredito que tenham fornecido pro senhor.”

“E o que isso tem a ver?”

“Procedimento de praxe, senhor.”

O homem levantou do sofá e jogou o dedo gordo em direção a mim.

“Você devia é estar lá fora pegando o marginal que fez isso, e não aqui me incomodando, perturbando minha família com perguntas absurdas! Não tem mais o que fazer? Como você deixou que isso acontecesse?”

Respirei fundo. Ninguém apontava o dedo pra mim e levantava a voz.

“A polícia não tem um posto de fiscalização no cemitério, senhor. E para entendermos porque alguém fez isso, precisamos saber quem era a sua filha, com quem ela andava. É difícil que isso não tenha sido um ato pensado.”

“Pois saiba que a minha filha era uma santa! Uma santa! Não andava com ninguém, só com a mãe, que ela amava mais do que tudo, e com as colegas de escola. Estava estudando pro vestibular e ia ser médica! Isso é um disparate!”

“Algum namorado?”

“Não! Não! Não! Homem nenhum nessa cidade de bocós encostaria numa filha minha.”

A cara dele voltou à cor normal. Chamou pela empregada e me deu as costas.

“Janete vai mostrar a saído pro senhor. Me procure somente quando tiver a minha filha de volta e o marginal que fez isso preso. E espero que isso seja o quanto antes, senhor delegado.”

Não adiantava insistir. Não agora. Nessas horas, às vezes acabamos descobrindo mais pelo que os interrogados não falam do que pelo que dizem abertamente. Janete me levou até a porta, os olhos baixos, evitando me encarar. Antes de sair, escrevi meu telefone – o de casa – num pedaço de papel do bloco.

“Se quiser conversar ou se lembrar de algo que possa nos ajudar, moça, é só ligar. Acho que você ouviu a conversa que tive com o seu patrão, certo?”

“Eu… eu ouvi sim.”

“Então guarde esse número com carinho.”

Pisquei pra ela e desci as escadas. Empregados são sempre fontes estratégicas numa investigação. Ou talvez o que queria mesmo era flertar um pouco com uma mulher. Quanto tempo eu fiquei sem dar uma foda naqueles meses? Enfim.

Parei numa padaria vagabunda onde eu sempre tomava meu café de manhã, fiz um lanche, e voltei pra delegacia. Precisava fazer algumas ligações. Fiz sete, pra ser mais exato. E, ao fim de quarenta minutos, tinha à disposição as seguintes considerações:

 1. A Vigilância Epidemiológica de Lages, cidade vizinha onde a moça tinha sido supostamente internada e tratada, não tinha nenhum registro de morte por raiva na última semana. Nem nos últimos dez anos. Claro que não.

2. Nenhum dos quatro hospitais da cidade também tinha registro de internação por raiva na última semana. Ah, e sequer haviam recebido uma jovem de dezessete anos chamada Leiriane Pereira Alves.

3. A Central Funerária, porém, tinha o registro da morte, dois dias atrás. Não sabiam dizer o motivo do falecimento. Me passaram o número da agência funerária que tinha agilizado o enterro e removido o corpo, mas ninguém atendia no tal telefone.

4. A Central de Polícia de Lages não tinha registro de ocorrências envolvendo o nome da moça. Samu, Bombeiros e Guarda de Trânsito também não.

5. Ou seja: a moça tinha mesmo morrido dois dias atrás, mas não por causa de uma doença qualquer ou acidente de trânsito, doméstico ou afins.

 O que tudo isso tinha a ver com o sumiço do corpo? Eu ainda não sabia exatamente. Mas nessa profissão, você aprende a desconfiar. Sempre. Ainda mais quando as pessoas mais interessadas na resolução do caso mentem descaradamente.

Fui no depósito da delegacia, um almoxarifado imundo e cheio de teias de aranha, peguei umas fitas adesivas e improvisei uns bastões de madeira, pra isolar a área do túmulo. Pra desencargo de consciência, liguei pro IGP de Lages e pedi uma perícia no local. Ninguém disponível no momento. Como se pudesse ser diferente…

Já passava do meio-dia. Cheguei tarde demais ao cemitério.

Sequer tinha lugar pra estacionar a porra da viatura. O lugar estava virado na porra de um parque de diversões. Carros parados em tudo quanto é canto, até no acostamento da rodovia, bicicletas, crianças, casais, acho que metade de Aderbal Ramos estava lá. Como não era Finados nem nada do tipo, já imaginei o motivo.

Abri caminho entre a multidão, a um bom custo, até chegar perto do túmulo da moça. Estevão ainda estava lá, espremido no meio de um grupo de homens mais velhos, entre eles o seu Manoca, que fazia um círculo ao redor do buraco. Todos pareciam falar ao mesmo tempo, os ânimos exaltados, alguns com enxadas na mão. Tive que gritar pra me fazer ouvir.

“MAS QUE MERDA TÁ ACONTECENDO AQUI?”

Estevão correu até mim, os cabelos desregrados, como alguém que acaba de passar por um puta aperto. Os outros me ignoraram e continuaram falando e gritando coisas como “castigo de Deus”, “é chegada a hora”, “eu vi a moça à noite”, “demônio”, “sugadores de sangue”. Tudo muito light.

“Chefe, chefe, o pessoal chegou aqui do nada, tá todo mundo nervoso, falando tudo quanto é tipo de coisa. Tem um monte de gente que disse que viu uns vultos estranhos nessa madrugada, em tudo quanto é lugar da cidade… tão dizendo que vieram buscar a moça… eu tentei chamar o Adonis e o Baitaca, mas não podia sair daqui, como o senhor falou…”

Eu estava verdadeiramente puto, prestes a atirar em alguém. Se fosse preciso, perito nenhum ia achar alguma coisa depois daquela invasão. Na Acadepol, a gente aprende que preservar a cena do crime é uma das primeiras medidas a serem tomadas numa investigação. Foda-se. Tentei esquecer do meu Taurus 32 enfiado na calça. Todo mundo agora parecia ter notado a minha presença e olhavam pra mim como se eu fosse algo do outro mundo. Uma mulher agarrou no meu braço e começou a puxar.

“Delegado, delegado, o senhor precisa fazer alguma coisa! Isso é uma abominação! Quando anoitecer, não estaremos à salvo!”

Os outros fizeram coro com ela. Parecia que tinham ensaiado antes.

Eu subi em um dos túmulos. Precisava tentar acalmar aquela gente, antes que alguém se ferisse de verdade.

“Escutem! Escutem! Há um equívoco aqui! Alguém violou esse túmulo e levou o corpo embora pra fazer não sei o quê. Mas tenho certeza que não foi nenhum monstro, vampiro ou o que quer que vocês estejam pensando. Não há motivo pra pânico!”

“Todo mundo sabe que a moça foi vítima de um sanguessuga!”, gritou alguém, no meio do povaréu.

“Ninguém rouba o corpo de um defunto! Isso foi obra do diabo!”, emendou outro.

“Estamos investigando o que aconteceu. E preciso que todos vocês vão pra casa, agora mesmo! Não há nada pra se fazer aqui!”, gritei.

“E se mais algum deles resolver sair do caixão?”, rebateram.

Não adiantava discutir com aquela gente. Estavam fora de si. Eu desci do meu palanque improvisado e dei as costas praquela merda toda. Estevão me seguiu.

“E agora chefe, o que vamos fazer?”

“Achar a porra dessa defunta duma vez e acabar com essa merda. A moça não morreu por causa de morcego nenhum. Isso eu já sei.”

“Como assim?”

“A família está tentando acobertar algo. Me diga você. O que essa moça andava fazendo da vida?”

Entramos na viatura, deixando a multidão e os futuros mortos vivos pra trás.

“Humm… ela estudava em Lages… mas eu ouvi umas coisas ultimamente…”

“Que coisas?”

“Que ela andava metida com gente que não devia… um rapazote aí muito estranho, que vive numas bocadas suja…”

“Porra! E agora só você me fala isso?”

“Mas o que isso tem a ver com ela ter se mandado do caixão?”

Agora eu dirigia. Pisei fundo e voltei pro apartamento daquele gordo escroto, o Pereira Alves. Ela ia ter que me explicar tudo direitinho.

Janete, a empregadinha, atendeu a porta. Estava branca, coitada. Tinha o papel com o rascunho do meu telefone na mão.

“Menino Jesus abençoado seja! Estava tentando ligar pro senhor faz tempo!”

“Eu não voltei pra casa desde que saí daqui. O que aconteceu?”

“O patrão… depois que o senhor esteve aqui… ficou muito nervoso… muito mesmo… disse que ia matar o garoto de vez… e saiu daqui… acho que ele estava armado…”

“Que garoto? Me explica isso direito.”

“A Leiriane andava de rolo com um rapaz lá do São João, filho do seu Quinca e da dona Rosa… eles são boa gente, mas o filho parece que saiu virado do avesso… ele usava aquelas coisas…”

“Que coisas?”

“Aquelas coisas que a juventude da cidade grande usa. O pastor disse que é coisa que o demônio botou na Terra pra desvirtuar os jovens. Deus me livre.”

Pelo visto, o tal do demônio era figurinha fácil por aquelas bandas.

“Drogas. É isso que você está falando?”

“Ai, o patrão me mata se souber que contei uma coisa dessas… mas o senhor tem que entender, não estou fazendo por mal, não sou mexiqueira…”

“Você está fazendo bem. Agora me diga. Há quanto tempo a moça tava usando isso? Sabe?”

“Não sei. Mas uns dois meses atrás, o patrão encontrou um pacotinho desse negócio no quarto dela, escondido… eu vi depois no lixo, parecia uma farinha… nossa, achei que ele ia matar a pobrezinha…”

“Mas ela continuou usando, certo? Até que semana passada chegou ao ponto de ter que ser internada numa clínica de recuperação… mas não resistiu, provavelmente continuou usando, escondido, e morreu lá mesmo, não?”

O Estevão ouvia toda a conversa, espantado. Depois ia ter que explicar passo a passo pra ele, pra ver se caia a ficha.

“Isso… como o senhor sabia? Eu vi o patrão falando no telefone… era uma tal de ove… ove…”

“Overdose.”

“Isso!”

Eu sabia. Quer dizer, quase já sabia.

“A mulher do Pereira Alves está em casa?”

“Sim, tá trancada, lá no quarto. Ela toma muitos medicamentos e fica a maior parte do tempo… como eu posso dizer… meio fora… e depois da morte da filha, coitada, não presta mais pra nada…”

“Imagino. E pra onde o Pereira Alves pode ter ido?”

“Ele pegou a chave da caminhonete. Só sai com ela quando vai pro interior, pra pegar estrada de chão. O seu Quinca tem um sítio onde planta feijão, na margem do Rio Canoas…”

“Sabe onde é, Estevão?”

“Acho que sim, chefe… fui pescar uma vez lá, um tempo atrás…”

“Então vamos.”

Saímos da porta. Estávamos descendo o primeiro lance de escadas quando me lembrei de algo. Voltei.

“Janete?”

“Sim, seu delegado?”, respondeu, meio escondida já pela porta.

“Eu te amo.”

Voltei pra escada e desci, correndo, Estevão atrás de mim.

Eu estava com pressa, muita pressa, mas Estevão sabia dirigir muito melhor do que eu naqueles estradas de chão que pareciam ter sido bombardeadas por aviões. Mas estávamos no caminho certo. Dava pra enxergar claramente o rastro da caminhonete no chão.

A porteira, de madeira, estava jogada do lado da estrada, em pedaços. O gordo tinha passado por cima. Estava mesmo fora de si. Temi que fosse tarde. Encontramos o carro parado na frente de um galpão. Do lado, havia uma Rural velha, enferrujada.

Descemos da viatura.

O som do tiro ecoou pelo campo.

Puxei automaticamente o Taurus da cintura. Estevão congelou, plantado na grama. Eu o puxei pelo braço até a imensa porta do galpão, entreaberta. Entramos. O fedor me atingiu como um tapa na cara.

Leiriane estava deitada sobre uma bancada de madeira, o vestido de bolinhas puxado até para cima da barriga, deixando à mostra os loiros pelos pubianos que se destacavam entre a pele branca. A maquiagem pesada, provavelmente feita pra disfarçar o visual de cadáver recém-enterrado, lhe dava um ar bizarro. Deitado por cima dela, com a camisa xadrez ganhando tons vermelhos cada vez maiores, estava um rapaz com as calças arriadas, o pau ainda duro (desculpem pelos detalhes sórdidos, mas um policial não pode deixar passar qualquer impressão em branco).

Estevão jogou de uma tacada só no chão todo o café que havia ingerido na manhã – ou, pelo tamanho do vômito, o jantar e o almoço do dia anterior.

Pereira Alves não nos havia visto ainda. Ou não estava nem aí. Ainda apontava o revólver pro casal de enamorados.

“Polícia! Larga a arma, agora!”, gritei.

Nada.

“Você está preso, Pereira Alves. Larga a arma!”

Ele enfim se virou, a arma em punho, o braço esticado em nossa direção.

Disparei.

 

A minha estada em Aderbal Ramos acabou sendo mais curta do que pensava. Dois meses depois, voltei pra Capital. Recomendei Estevão pra SSP pra ficar no meu lugar. Permaneci por mais um ano na Central de Homicídios e larguei. Me aposentei.

Achei que bastava. Já tinha visto de tudo nessa vida.

Jul
6
A Ilha

Sou náufrago

Cercado por cristalina indiferença

À espera de socorro

Absorto vendo as ondas baterem

Sempre iguais

 

Busco minhas próprias pegadas

No caminho da areia fofa

Que prende meus passos

E deixa um rastro

De indisfarçável desesperança

Rumo a lugar algum

Nessa ilha deserta

Que bate descompassada no peito

À procura de socorro

 

No escuro da caverna

O vulto de meu rosto se desvenda

Iluminado pela fogueira improvisada

Desenhando palavras toscas na parede de pedra

Fria, indiferente

Palavras e letras que lembram um nome

Mas não o meu

O seu

Em um lugar distante

Além-mar

 

Aqui

Nessa ilha deserta

Que bate em desespero no peito

Há tempo de sobra

E os dias passam em riscos na parede de pedra

Rocha que não mente

 

Recuso-me a acreditar

Que não estou aqui de passagem

O mar profundo da incerteza que segue até lá longe

No horizonte

Mantém-me alheio ao socorro

 

Até que em uma manhã qualquer

Sou eu que recebo a mensagem

Com frases quase apagadas

Dentro da garrafa que quebra ao chegar

Com as mãos nuas

E a força que resta

Construo a jangada que jogo ao mar

Levada pelas ondas que batem

Ao ritmo apaixonado do peito

 

Antes do horizonte

As madeiras se partem

O vento para de soprar

O corpo despenca na água fria

E a incerteza é deixada para trás

Somente para que eu

Finalmente

Possa me afogar no oceano de seu amor

Jun
26
O jogo do ano

Fico a manhã inteira de olho no velho.

Ele fica ali horas, sentado na cadeira, de olho no telão, enquanto a puta mais cara do lugar esfrega a mão no pau dele e paga um boquete ligeiro de vez em quando. Os amigos, tão gagás quanto o velho, não querem nem saber dos jogos. Enchem a cara e ficam passando a mão nas vagabundas, volta e meia saem pra dar umazinha nos quartos dos fundos. Onze da manhã. Bando de punheteiros.

No meio das risadas, gemidos e gritos para o garçom, os alto falantes improvisados largam o som estridente do hino nacional. Vai começar. Enfim o velho se levanta e vai em direção ao banheiro, desacompanhado. Os capangas pensam em ir junto, olham para ele, para o telão, permanecem onde estão, foda-se, todo mundo quer ver a merda do jogo.

Eu acho um saco essa tal de copa. Prefiro os jogos do Brasileirão.

Desgrudo da parede e sigo pro banheiro. Mesmo com o meu tamanho, ninguém tá nem aí pra mim. Escrotos.

 

O Alemão me fez cruzar toda a cidade pra passar a fita, nos fundos de uma merda de mercearia. Eu odeio andar de ônibus. Os ônibus daqui são sempre lotados, tem aqueles negos do caralho que ficam te empurrando e uns filhas da puta não param de se encostar em ti, suando e fedendo. Merda de ônibus. Quase duas horas depois, chego no muquifo. O dono da bagaça diz pra eu passar os corredores e ir até o depósito.

O Alemão tá lá, encostado nuns sacos, fumando. Não dá pra enxergar quase porra nenhuma e o filho da puta tá de óculos escuros. Eu não gosto dele. Ele sabe disso. Cobra venenosa, é como eu chamo o filho da mãe. O Cristo não devia confiar nele.

“Demorou, hein, Totó. Já achei que tinha arregado.”

“Vim de ônibus.”

“Compra uma bicicleta, então. Foda-se. O Cristo precisa que você assuma uma parada pra ele.”

“E porque não me chamou lá no escritório?”

“Digamos que ele… humm… não anda em condições de receber ninguém.”

“Sei.”

“Todo mundo sabe. Essa que é a merda. Tão contando os dias pro cara vazar. Por isso ele precisa mostrar que ainda tá na ativa e não leva desaforo. É aí que você entra.”

 Um merdinha entra no depósito pra pegar umas caixas. Faz de conta que nem vê a gente.

“Já tem um bom tempo que um filho da puta fudeu com ele. Isso é coisa das antigas, Totó. Na época que o Cristo ainda tocava aquela fábrica de panela, prato, qualquer merda assim. O cara era um dos braços direitos dele, mas teve a coragem de enxugar a grana do negócio e sumir. E o pior não é isso. Passou a fita dos esquemas do pó pro Delgado, que na época ainda tava vivo e atuante, aquele monte de merda. O Delgado rebolou em cima e ainda entregou o Cristo pros meganha. E o cara que fudeu tudo, enriqueceu e virou magnata. Tá entendendo?”

O Alemão tira os óculos e olha pra mim, esperando que eu concorde. Ele acha que só porque eu sou grande e falo pouco, sou retardado. Muita gente acha. Pau no cu deles.

“Enfim… o cara sabia com quem tava lidando. Depois que furaram o Delgado e ele perdeu a proteção, o Cristo botou a cabeça dele a prêmio. Por isso sumiu da vista de todo mundo. Não sai da toca em que se meteu nem pra casar a filha. Mas tem um porém. O filho da mãe é alucinado por futebol. Não essas peladas que passam por aí na tevê, no Maraca, essas merdas. O negócio dele é seleção brasileira, Copa do Mundo, essa porra toda de patriotismo. E de quatro em quatro anos, ele se reúne com uns amigos das antigas pra ver pelo menos um jogo na tevê. Disso o cagoeta não abre mão. Um contato nosso passou a fita. Não tem erro. O escroto vai fechar uma zona lá no morro do Machado de Assis. Como é um cagalhão, vai rodeado de segurança. Mas pediu pro dono da zona, que deve uma pro Cristo, arranjar uns capangas extras pro lugar. Sexta-feira de manhã. Tá ligado onde é?”

“Sei.”

“Vai ser a tua chance de brincar de James Bond, Totó. Arranja um terno por aí, se tiver algum do teu número, é claro, o que é difícil, e tenta ficar mais apresentável. Só não fode tudo porque o lugar vai tá cheio de segurança armado. O cara mesmo já tá velho. Não vai dar trabalho. Só não deixa ele sair de lá. Senão, só daqui a quatro anos. E você sabe como o Cristo é.”

“Sei.”

O Alemão me dá um tapinho nas costas e se manda. Filho da puta. Podia pelo menos me dar uma carona. Eu odeio ônibus.

 

O banheiro tem um puta espelho em toda a parede. Escuto o velho se espremendo atrás da última porta, o cagalhão caindo na água e fazendo tchibum. Empurro as outras portas de leve pra ver se não tem mais ninguém por ali. Coloco a mão no bolso do casaco pra puxar a faca. Não é uma faca. É uma máquina de degolar, isso é o que ela é.

Um engravatado entra no banheiro.

“Ah, você tá por aí.”

Tiro a mão do bolso. Não falo nada. Só olho pro palhaço. É um dos capangas. Ele se aproxima e fala pertinho do meu ouvido.

“Quebra esse galho e fica de olho no velho. Sempre que tá pra começar um jogo, dá uma caganeira dessa. Qualquer coisa tô ali fora. Ficar bancando a babá bem na hora do jogo da seleção, é pra se acabar. Ainda mais com essas gostosas aí dando mole.”

Ele se vira e sai. Antes de deixar o banheiro, olha de novo pra mim.

‘Ei… eu te conheço?”

“O Medeiro me chamou.”

“Ah tá.”

Caralho. Escuto o velho desenrolando o papel higiênico. Eu dou só um encontrão na porta e quebro o fecho. Fácil assim. O filho da puta olha pra mim com o papel cheio de merda na mão, como se não tivesse entendendo porra nenhuma.

Taco a faca do lado do pescoço e ela vai inteira, a ponta quase sai do outro lado. Assim é melhor do que cortar o pescoço, que dá uma sujeira danada se cortar fundo demais. Eu tiro a faca e o sangue esguiça, pintando a parede de madeira do lado do vaso.

O Cristo ficaria com orgulho.

Fecho a porta e deixo o velho sentado na privada, sujo de merda e de sangue. Puxo o papel do bagulho na parede pra limpar a lâmina.

Um dos amigos do falecido entra no banheiro.

Cassete.

Lá vamos nós.

 

Quando eu passo pela frente do bar, o Medeiro me olha assim de canto do olho. Faz um sinal com a cabeça pra eu me mandar de vez. Quando vê a camisa branca manchada de vermelho na barriga, fica branco.

Dez minutos do primeiro tempo no telão.

Um time faz um gol e, pela gritaria, deve ser o Brasil.

Foda-se. Eu odeio essa merda de copa.

Sentado em frente ao grande espelho rodeado por lâmpadas coloridas, na cômoda de seu backstage particular, se perguntava qual seria a máscara que desenharia sobre o rosto no próximo ato.

Com o lápis preto na mão, riscou duas grandes curvas ao lado dos lábios, já pintados de preto. O sorriso formoso e proeminente se destacou no reflexo de vidro. Esticou o braço até o pedestal de madeira ao lado, puxou a peruca e a alinhou na cabeça, dando um último retoque nos cabelos castanhos minuciosamente penteados. Por último, a gravata.

Já não estivesse a satisfação escrita no rosto, teria sorrido diante da personificação de bom moço e funcionário feliz em frente de si.

Atravessou as cortinas do backstage e atuou.

Voltou para casa antes que o suor borrasse a maquiagem e lhe desenhasse riscos de mau humor.

Com o término do primeiro ato do dia, pôde, enfim, preparar a face preferida. Espalhou o pó de arroz nas bochechas rosadas e pela testa. Ao redor dos olhos, desenhou dois grandes círculos vermelhos. De dentro do copo com água, retirou a dentadura fabricada com a qual deixaria suas marcas. E em cima de tudo, encaixou com perfeição e um pouco de fita adesiva a máscara de pai de família e esposo dedicado.

Para completar a transformação, depositou com cuidado no bolso de dentro do casaco, embalada em uma flanela escura, a lâmina afiada.

Fecham-se as cortinas.

Jun
5
Ruptura

“Se você me deixar, eu me mato”.

Rogério sequer virou o rosto para encará-la. Sentado na beira da cama, vestiu com paciência as meias e procurou pela calça entre as peças jogadas no chão. Quantas vezes já tinha ouvido aquilo? Imaginava que a colega de trabalho teria o mínimo de decoro quando chegasse a hora, o momento inevitável, ao ver dele, da separação. Nunca haviam desenvolvido mais do que um relacionamento meramente físico e descompromissado, é verdade, mas pressentia agora que tal constatação não era compartilhada pela mulher nua vestida em trapos de lágrimas e ressentimento atrás dele. Talvez tivesse sido ingênuo ao pensar que uma última sessão de sexo, travestido de fazer amor, amenizaria o anúncio do rompimento.

“É outra, não é? Quem é a vagabunda?”, continuou ela.

“Você não tem mais 15 anos, Vanessa. Pare com isso.”

“Você é um filho da puta. Não vou deixar você fazer isso.”

“Não é uma decisão sua.”

“E o que eu fiz pra merecer isso?”

Com as calças já vestidas e abotoando a camisa, virou-se para a mulher com quem tinha dormido os últimos seis meses. Ensaiou uma expressão de gratidão no rosto e tocando-lhe a face de leve com a mão direita, deixou que os olhos ficassem rentes para o momento de disfarçada sinceridade.

“Você é uma mulher muito especial, Vanessa. Adorei conviver contigo. Mas você merece um homem que lhe dê mais atenção do que eu posso dar. Você sabe… estamos passando por um momento muito difícil na firma e tenho que me dedicar inteiramente ao trabalho. Não quero te magoar. Não mesmo”, declamou Rogério, o discurso saindo de sua boca naturalmente, visto a quantidade de vezes que já o tinha pronunciando em ocasiões anteriores.

Vanessa o abraçou, deixando a cabeça cair pesada no ombro dele, as unhas cravadas nas costas do amante. Soluçava, as lágrimas misturando-se ao suor que emanava do corpo quente após o sexo. Rogério ainda passou os dedos pelos cabelos longos e escuros dela, permitindo-se um último momento de afeto treinado. Ela parecia frágil como uma menina órfã, deixada sozinha à beira de uma casa estranha.

Antes que o remorso pudesse atingí-lo, tentou afastar o corpo dela, só para sentir o aperto ainda mais forte sobre seu corpo, o bico dos seios pressionados contra a camisa entreaberta. Entre os soluços, escutou o sussurro de Vanessa no ouvido, quase imperceptível, voltado, não soube na hora, para ele ou ela mesma.

“Você e essa puta, seja quem for. Os dois. Eu mato os dois.”

 

“E foi isso?”

“Sim.”

“E não falou mais nada?”

“Não. Terminei de me vestir e saí. Ela continuou parada lá na cama.”

“Visse ela depois disso?”

“Não. Não apareceu mais no escritório. A Jane me disse que pediu a conta.”

“Que merda.”

“Melhor assim. Ia ser um saco ter que esbarrar com ela por lá.”

O garçom trouxe mais uma garrafa de vinho e inclinou-se para mostrar o rótulo para Rogério, que, com um sinal de cabeça protocolar, aceitou a bebida. Com as taças novamente cheias, os dois amigos de longa data continuaram a conversa, entre garfadas do salmão grelhado.

“Toma cuidado.”

“Por que?”

“Como assim? Vai saber o que se passa na cabeça dessa mulher. Ela não falou que ia se matar, te matar, sei lá?”

“É sempre assim. É pedir demais que elas simplesmente sejam adultas e encarem tudo isso com sobriedade. Já passei por isso muitas vezes, Hermes. Você sabe.”

“Sei. Como também sei que não há nada mais perigoso no mundo que uma mulher ressentida.”

“Vai tomar partido dela agora? Nem conhecia ela.”

“Não é isso que eu estou falando. Você talvez tenha dado sorte até agora. Nunca se incomodou com esse tipo de coisa. Mas… sei lá. Nunca se sabe. Tem mulher que é louca.”

Rogério apenas sorriu, levando o nariz até a borda da taça para sentir os suaves aromas do Merlot.

“Todas são, meu amigo. Todas são”, disse.

 

Uma semana depois, a figura do corpo nu de Vanessa, das noites tórridas e brincadeiras nada inocentes entre as paredes e móveis do apartamento não passavam de uma fugaz lembrança. Vez por outra alguém ainda tocava no nome dela na firma de advocacia, seja para fazer algum comentário impertinente ou simplesmente perguntar se havia notícias a respeito daquela bela moça que sumiu do nada.

Rogério, como gostara de deixar claro naqueles últimos dias, tinha coisas muito mais importantes para se preocupar. Fazia questão de deixar a mesa sempre atopetada de documentos, processos, petições em produção, agravos. Aprendera, desde jovem, que as aparências importam, sim, e muito. A imagem de homem atarefado e sempre compenetrado, disseminada entre os colegas e patrões da firma, não condizia com sua irrequieta vida particular, da qual pouquíssimos ali dentro sabiam algo. Advogado bem-sucedido que era, tinha certa facilidade em interpretar papéis e convencer terceiros a respeito de qualquer intenção que fosse. Talento que botava em prática não só na frente de juízes ou clientes, mas sim dos próprios amigos de trabalho e, principalmente, das mulheres.

Era aí que repousava, diga-se de passagem, o cerne da antes citada “irrequieta vida particular”.

Aos 36 anos, após um casamento e uma separação precoce, havia chegado à conclusão, antes tardia do que ausente, de que era obrigação sua usufruir ao máximo os prazeres que a vida lhe concedia. E, amante profissional que era, sabia que não havia prazer maior do que deitar-se aos braços de uma bela mulher sem a preocupação em ter de oferecer os próprios braços no dia seguinte. Lembrava-se de um trecho de um livro daquele colombiano, Marquez, lido na adolescência, em que o personagem principal, após renascer das agruras de um amor não correspondido, formula – e aplica com igual vigor – a teoria que todos nascemos com as trepadas contadas, e as que não se concretizam por qualquer motivo, próprio ou alheio, se perdem para sempre.

Assim, uma semana após ter rescindido seu último “contrato” com a mulher que agora se perdia em memórias quaisquer, parecia mais do que lógico e justo que estivesse prestes a lançar-se em suspiros e gemidos com uma outra, dessa vez, distante do pequeno universo profissional do qual fazia parte. Havia passado impune anteriormente, mas não era bom misturar as coisas.

 

O porteiro a reconheceu e virou-se indiscreto após ela passar pelo saguão, não disfarçando o olhar focado no quadril emoldurado pela saia justa. Estava acostumada com olhares voltados aos seus atributos físicos que despertavam certa lascívia desde a adolescência. É um pecado uma mulher não deixar à mostra o que possui de mais bonito, costumava dizer, para horror dos pais puritanos que ainda a viam como a menina inocente do interior.

Entrou no elevador, levando na bolsa a tiracolo os objetos que tinha escolhido com rigor nos últimos dias. No corredor, sentiu pela primeira vez medo e pena de si mesma. Buscou a chave. Se ele tivesse trocado a fechadura, sua desforra encerraria ali mesmo e voltaria para casa a tempo de refletir e, com sorte, tentar esquecer o absurdo a que se tinha quase submetido.

A chave, porém, encaixou com perfeição e girou para a direita sem qualquer entrave no pequeno mecanismo.

À primeira vista, o apartamento parecia intocado, visto que nada mudara desde a sua última estada ali. Foi até a suíte, o ninho de amor, como se divertia ao chamar o quarto, despiu-se e deixou a água fria correr pelo seu corpo. Ainda era cedo.

 

O dia no escritório foi de relativa tranqüilidade.

Rogério olhou para o relógio de pulso, tomou um último gole de café e abandonou a mesa que, mesmo após horas de trabalho ininterrupto, ainda estava abarrotada.

Mandou a mensagem via celular, confirmando o horário, local e ocasião. Dois minutos depois, a resposta soou o bip no aparelho. Às vezes – só às vezes – se espantava como as coisas eram fáceis naqueles tempos.

Uma ida ao supermercado, para comprar o vinho, a massa e os temperos, junto dos demais itens rabiscados à pressa no verso do folheto, antes de sair de casa. Conforme encontrava o que queria, riscava com a caneta. Rotina de homem solteiro que adotara desde a separação e mantivera todas as quintas-feiras, metodicamente.

Vinho

Macarrão

Alho

Tomate

Saco de lixo

Azeitonas

Jontex

Shampoo

Guardanapo

Agrião

Queijo ralado

Após, o estranho cumprimento de confidência do porteiro do prédio.

No elevador, trocou algumas palavras sobre o tempo frio com a senhora do apartamento 401. Educado e prestativo, como sempre.

Abriu a porta, foi até a cozinha, compartilhada com a sala de jantar, deixou as sacolas em cima da bancada de mármore. Conferiu o horário. Pegou o controle no sofá da sala e ligou o moderno aparelho de som, deixando o saxofone de Stan Getz ecoar pelo amplo apartamento vazio.

Ali mesmo, parado no meio da sala, sentiu a leve fragrância do perfume cruzando o ar, em direção ao corredor. Se tivesse tido mais tempo, certamente identificaria o odor familiar.

Não teve.

 

“Rogério?”

“Humm…?”

“Acordou, meu bem?”

“O que… que merda é essa…”

Abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi o ventilador do teto parado, em confusa simetria com as sombras que se lançavam pela cortina entreaberta da janela. Virou a cabeça para lado, dando-se conta do braço lançado para trás, o pulso preso com uma algema na cabeceira. Do outro lado, o mesmo.

Pés presos por cordas improvisadas com pedaços do lençol, esticados até os outros pés, esses, da cama. Em cima da cômoda, as roupas com que tinha chegado no apartamento. Espalhadas por todos os móveis e no chão, pétalas de rosas.

Estava nu. A mulher que o olhava em frente à cama, também. Ficaria empolgado com o jogo sexual que já praticara outras vezes, ali mesmo, naquele quarto, não fosse a dor da pancada que ainda sentia na nuca e a tesoura empunhada em ameaçadora prontidão na mão da mulher. Não uma mulher qualquer. Vanessa.

“Eu sei que você está esperando alguém. Vi no seu celular. Vamos esperar um pouquinho pra ela participar também”, disse ela, sentando na beira da cama.

“Vanessa, meu Deus, o que você está fazendo?”

“Vai dizer que você não está gostando? Eu te conheço, safadinho.”

“Me solta. Agora. Você não pode estar falando sério.”

“Nunca falei tão sério, meu bem. Eu senti falta desse teu caralho. Quero ele dentro de mim. Já.”

Com as pernas dobradas, subiu em cima do homem que jazia em visível desespero, os olhos marejados. Levou uma das mãos até o sexo dele e começou a acariciá-lo, os dedos envoltos em movimentos ritmados.

“Por favor, Vanessa, não faz isso… eu ainda te amo, vamos voltar, não queria que…”

“Psss, quietinho, garanhão”, respondeu, deixando a tesoura um segundo em cima da cama, ao lado dos dois, enquanto buscou com a mão, próximo ao pé, a própria calcinha.

“Eu sempre adorei essa sua boca deliciosa.”

Deitou-se sobre Rogério, os dentes mordendo o lábio inferior dele em lascívia entrega, para então resgatar, como uma pequena lembrança, um pedaço da carne molhada em sangue. Ao grito, interrompido pela veste íntima enfiada na boca, seguiu-se o barulho estridente da campainha do apartamento, pontual.

Com a ocasião propícia, as lâminas enfim se fecharam sobre o membro ereto, o líquido quente e rubro jorrando em derradeiro gozo sobre o sorriso de prazer da amante.

May
26
Identid de

Ouvindo o som de tlec dos velhos botões cobertos de ferrugem de su  m quin de escrever, pressentiu que lgo lhe f lt v .

Inspir ç o, t lvez.

Mesmo com os olhos prudentes no p pel br nco que desfil v a em su  frente em contorcionismo, n o consegui  compreender, porém, que um problem  m is pr tico er  o motivo de su  frustr ç o.

Termos e sentimentos comuns, sempre presentes e frequentes, lhe er m neg dos.

 mor. P ix o. Tristez .  ngústi .

Por isso, depois de doloroso esforço, sem sucesso, optou, insistente, por outros conceitos e motes.

Sexo. Ódio. Ciúme. Morte.

Foi um escritor best seller.