Duelo de Escritores

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Archive for January, 2010

Jan
27
Votação

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Basta você dizer o nome do autor ou do conto escolhido, e nos dizer o motivo. O texto que receber o maior número de votos, vence a rodada.

A votação corre até o dia 30 de janeiro!

Este é Edgar Allan Poe. Nascido em 19 de janeiro de 1809, na cidade de Boston, nos Estados Unidos. Como muitos moradores de Boston, Edgar vem de uma família de origem escocesa e irlandesa, cujos antepassados emigraram de sua terra natal para tentar construir uma vida mais próspera junto ao sonho americano.

Este sonho de prosperidade foi conquistado, mas apenas nas aparências. Quando caminhavam pelas ruas da cidade que estava em uma fase de crescimento e expansão, o casal David e Elizabeth, pais de Edgar, era bem visto pela sociedade. David era um ator que já havia conquistado alguma fama local, e sua esposa, ainda grávida, era uma belíssima atriz iniciante. Mas as belezas vistas nas ruas não se repetiam dentro de casa. Vivendo um casamento frustrado, numa época em que o divórcio significava falta de nobreza, ainda mais com um rebento à caminho, as brigas entre o casal Poe se tornavam cada vez mais frequentes. Por sinal, o casal só conseguiu manter as aparências até pouco tempo após o nascimento do pequeno Edgar.

- Chega Dave. Não agüento mais.
-Fica quieta, Beth, tem gente na rua.
- Não quero saber de nada. Você tem que escolher de uma vez por todas se quer ou não ficar comigo! Não sou seu cachorrinho pra ter que ficar te acompanhando na rua e depois ser dispensada assim que a gente entra em casa.
- Chega de drama, Beth. Você sabe que a gente tem que manter as aparências. Você tem uma carreira toda pela frente. Não vá estragar com uma burrada.
- Burra, você me chama de burra? Pois saiba que se você não tomar uma atitude eu vou espalhar para a cidade inteira que você tem um caso com aquela sua sirigaitazinha. Ou você larga ela, ou você fica com ela. Se decida, homem!

Pouco antes do garoto completar um ano de idade, David juntou suas coisas e abandonou o seio da família Poe. Até hoje, não se sabe exatamente qual o motivo dele ter abandonado a esposa com um bebê no colo, mas os vizinhos comentavam bastante a respeito das brigas que aconteciam dentro da casa número 33 da rua Hollis. Com uma criança pequena para cuidar, sem um pai presente e com as posses bem mais singelas do que a vida que levava outrora, Elizabeth passou a sair pouco de casa, tornando-se uma reclusa da sociedade.

Todas as noites, contava histórias para o pequeno Edgar, enquanto o embalava junto ao seio. Eram histórias cheias de dor e sofrimento, onde a cor das fantasias que os livros traziam se perdia ao decorrer da leitura, onde a mãe, já castigada pelas mentiras do marido, modificava os finais, mostrando ao pequeno Edgar, desde o berço, que a humanidade podia ter duas caras, e que as belezas das histórias infantis podiam não ser exatamente da forma que eram descritas ali.

- E eles viveram felizes para sempre. Rá, grande piada. Felizes para sempre. Como se alguém pudesse viver feliz para sempre. Histórias imbecis para crianças imbecis…

Tanto sofrimento e tristeza acumulada acamaram Elizabeth, que já não tinha mais forças, depois de tantos meses sem sair de casa, e com as cortinas de casa fechadas na maior parte do dia. Logo, uma grave tuberculose a levou a ficar imóvel numa cama até o dia de sua morte, no ano seguinte.

O pequeno Edgar foi acolhido com muito amor por Francis e John,um casal abastado da região, que ficou comovido pela história de tragédias que marcaram o início da vida da pobre criança, abandonada no mundo. John era um grande mercador de tabaco, bastante respeitado pela sociedade, um homem bastante fechado e ganancioso. Talvez por isso, nunca chegou a aceitar completamente Edgar como seu filho, e nunca aceitou registrar a criança em seu próprio nome, apesar dos pedidos incessantes da esposa.

O que poderia acontecer com uma criança criada desta forma? Um lar inexistente, um pai que abandona a família, uma mãe amargurada que despeja todas as frustrações em sua criança por causa de uma desilusão amorosa? Trocar de família antes dos três anos de idade, para morar com novos pais que cuidavam muito bem dele, mas que nunca deram realmente o carinho que aquela pequena criatura mais precisava. Como seria o futuro de uma criança dessas? O futuro guardou para o pequeno Edgar mais terror do que podemos imaginar. Nada já visto por uma pessoa sã poderia explicar o reino de horror que esta simples mente infantil estava criando em seu íntimo. E sua morte seria tão horrenda quanto estas histórias macabras. No próximo bloco, conheça toda a mente doentia que pode ser criada através de uma infância triste.

Sobe BG. Fade out, isso, corta.

Muito bom, Sérgio! Vamos lá, 8 minutos pra tomar uma água e já voltamos. Bom trabalho, pessoal. Maquigem, preparados, luz, arrumem o poste do fundo, tem uma sombra lá atrás que tem que ser diminuída. Isso aí pessoal, um descanso rápido e já voltamos.

Isso, Sérgio, posição. Posição, pessoal, todo mundo pronto, luz, isso, assim está bom. Voltando ao vivo em oito, sete, seis, cinco…

Um rapaz formado por uma família invisível, uma infância de abandono, morte e amargura, onde a tristeza foi sua babá nos primeiros anos de vida. Podemos imaginar que se tornaria um marginal, um garoto sem futuro. Mas Edgar foi educado nas melhores escolas por sua nova e abastada família. Enviado à Inglaterra para estudar, ganhou uma educação exemplar e logo se tornou um pequeno gênio. Depois da educação fundamental, retornou aos Estados Unidos onde matriculou-se em uma escola na Virgínia.

Lá, Edgar fez novos amigos e logo se destacou no grupo de amizades como um rapaz inteligente, criativo e que não tinha medo de nada. Aos poucos, sua infância triste retornava a transparecer depois de bebedeiras constantes, e com apenas 17 anos, o jovem já vivia uma vida boêmia de drogas e bebidas junto às companhias erradas. Com apenas um ano de matrícula, Edgar foi expulso da escola onde estudava, pelas bebedeiras constantes, falta de respeito aos professores e por colocar não apenas sua própria vida, como também a vida de seus colegas em risco em brincadeiras nada maduras.

Voltando a passar mais tempo dentro de casa, logo teve início uma nova briga no seio familiar. Os desentendimentos com seu padrasto eram constantes, principalmente pelas dívidas de jogo que juntava nas noites de esbórnia pelos bares.

Como forma de protesto contra o padrasto controlador, foi a vez de Edgar seguir os passos de seu pai verdadeiro e abandonar o seio familiar. Alistou-se nas forças armadas sob o nome falso de Edgar Allan Perry quando completou 18 anos. Enquanto servia o exército, passava noites em claro escrevendo em pedaços de um caderno velho que havia encontrado em algum lugar da base militar. Inscrevia-se para participar de todas as vigilâncias noturnas, e escrevia durante toda a madrugada enquanto todos dormiam no alojamento.

Suas memórias amarguradas da infância se reuniam nas linhas doentias que traçava no papel manchado pelo tempo. Eram poemas de dor e angústia, mostrando uma mente doente e carente, que havia perdido a noção exata do que era realidade e do que acabara de ser inventado. A reunião destes poemas escritos nos dois anos em que serviu ao exército foram publicados no ano seguinte, em forma de livro. Com esta primeira obra, Edgar aceitava para si mesmo a condição de intelectual, e toda a criatividade despertou um lado melancólico nunca antes visto em sua geração.

Dois anos após o lançamento de sua obra, quando ainda não tinha conseguido conquistar qualquer tipo de visibilidade no meio literário, sua madrasta morreu. A morte fez com que Edgar se reconciliasse com seu padrasto, e lançasse um novo livro. Seu padrasto o incentivou a voltar para as forças armadas e convenceu-o a entrar na Academia Militar. Quando tudo parecia que voltaria a funcionar na vida do jovem escritor, ele encontrou-se com uma velha e inseparável amiga: a bebida. O comportamento arredio e alcoolizado logo lhe rendeu uma nova expulsão.

Edgar estava novamente vivendo uma vida de embriaguez, e se mudou para Baltimore, para viver na casa de sua tia. Como poderia viver uma mente tão traumatizada com as mudanças de família na infância, ao ser confrontada com uma nova família? Acompanhe a seguir como Edgar conseguiu construir uma carreira de sucesso, mas uma vida de horrores inimagináveis. Seria este pobre homem capaz de dar a volta por cima? Veja em instantes.

Isso, BG. Segura. Afasta a câmera, afasta, foca a luz do poste, isso. Corta.

Ótimo, pessoal, magnífico. Vamos para mais uma pausa. Maquiagem, arruma a franja do Sérgio, tá caindo em cima do olho.

Tudo pronto? Volta em oito, sete, seis, cinco…

Edgar Allan Poe. Filho do mundo, uma criança que cresceu perdida e sem amor, mas que tornou-se um excelente escritor. Após uma juventude de bebidas e brigas, mudou-se para a casa de uma tia, onde passou a viver de seus poemas e contos, histórias fictícias de uma vida que não existia além das páginas. Mas quando mal podia separar o que era ficção do que era realidade, conseguiu um emprego como editor de um jornal literário, que servia como ponto de ligação de Poe com o mundo lá fora.

O mundo doentio de Poe era nutrido enquanto ele passava os dias trancado dentro de casa. Não só pelas histórias de terror e ficção que escrevia, mas também pela secreta e incestuosa relação que mantinha com sua prima, longe dos olhos de sua tia. Os primos se reuniam na calada da noite, para noites de volúpia proibida. Sua tia mal podia imaginar, até o dia em que os primos colocaram em prática seu maior ato de confronto com a sociedade da época, e se casou em segredo.

- Shhhhh. Não faz barulho, a tia tá dormindo.
- Hihihihi. Ai, primo, ‘tamo indo aonde?
- Você já vai ver, prima, vem cá, isso. Dá a mão, sobe aqui. Isso, pronto.

Doença? Enfrentamento? Muito mais do que isso. A prima de Edgar, Virgínia, era apenas uma criança de 13 anos, que cedeu aos encantos do jovem e astuto escritor. Para fugir da pressão da sociedade local, o casal de primos embarcou para a terra das oportunidades: Nova York. Lá, longe dos conhecidos, poderiam viver normalmente e teriam uma vida feliz, se não fossem os pesadelos que insistiam em atrapalhar o sono leve de Edgar.

Sem conseguir dormir, vítima de pesadelos terríveis que só conseguia contar na forma de bizarras e distorcidas histórias de terror, não conseguia arrumar um emprego na cidade grande. Depois de dois anos atormentado pelos pesadelos que criaram nele uma insônia terrível, a noite virou o lar de Poe, que se perdia entre os bares de Nova York. Lá, fez contatos, que logo permitiram que ele voltasse a escrever para veículos da imprensa. Escrevia críticas literárias que eram obras mais detalhistas e com uma narrativa mais fantástica ainda do que as obras analisadas. Tornou-se um adulto ácido e arrogante, que bebia durante todo o dia e despejava sua fúria nas páginas dos cadernos que não cansava de encher. Lançou diversos livros, mas o fracasso financeiro mal conseguia sustentar a ele e a jovem esposa. A situação precária pela qual passaram a viver complicou a saúde já debilitada de Virgínia, que veio a falecer de tuberculose, mesma doença que havia vitimado a mãe de Edgar quando ele ainda era uma criança. Edgar se entrega novamente às bebidas e à literatura.

Você que está aí em casa está acompanhando todo o drama vivido por Edgar Allan Poe, desde sua infância triste até seu amadurecimento como escritor e as suas perversões tanto nos bares quanto dentro de casa. Mas ainda não entendeu o que pode ter acontecido com um homem destes. Um rapaz inteligente, criativo, um escritor de sucesso. O que aconteceu com Edgar Allan Poe?

Depois de perder duas famílias e perder também a jovem esposa, Edgar atingiu o fundo do poço. Suas obras de terror psicológico ganhavam o mundo com histórias que variavam entre a loucura e a lucidez. E foi justamente este fio tênue entre o que é realidade e o que é ficção que passou a guiar os passos do escritor. Amargurado, tentou o suicídio, se perdia entre ruas e garrafas de uísque, estava perdido na vida. E na manhã do dia 3 de outubro de 1849, aos 40 anos de idade, Edgar Allan Poe foi encontrado por um amigo perambulando pelas ruas, vestindo uma roupa que não era sua. Ele Balbuciava palavras desconexas, frases sem sentido, e veio a morrer quatro dias depois. No leito do hospital, repetia incessantemente o nome de Reynolds.

O que acontecera com Edgar Allan Poe? Qual seria a causa da morte? Quem era Reynolds? Desvende este mistérios em instantes, não saia daí.

Corta! Fantástico! Pessoal, tá ótimo! Vamos lá, uma última pausa pra tomar uma água e a gente volta com tudo para o bloco final. Vamos fazer isso ficar perfeito, hein, precisamos fechar com chave de ouro.

Pronto pessoal, luz. Isso, arruma a trilha, câmera a postos, todo mundo em suas posições. Entramos ao vivo em dez, nove, oito, silêncio no estúdio, é pra fechar bonito!, três, dois…

Edgar Allan Poe. Um homem aterrorizado por seu passado e por seus demônios. Um homem que dedicou a sua vida a causar horror através de suas obras. Uma mente atormentada, que teve um final violento. Vamos descobrir agora, neste instante, o que causou a inexplicada morte de um dos maiores autores de todos os tempos.

Na manhã de 27 de setembro, Edgar partiu, no meio da madrugada. Fugiu para encontrar-se com alguém, cuja identidade nunca fora revelada. Na realidade, o famoso escritor pegou uma barca até Baltimore, para encontrar-se com uma amante. Dentro de sua visão deturpada do mundo, Poe criou muitos contatos que fazia questão de manter em segredo, entre eles o da sua amante, Camille.

Camille era uma garçonete em Baltimore, e Edgar fora visitá-la naquela madrugada. O que se passou a seguir, no entanto, foi espantoso: Edgar nunca chegou a se encontrar com ela naquele dia. Ao desembarcar em Baltimore, Edgar encontrou-se com um homem que o esperava no cais. Senhor Arthur Reynolds, integrante da polícia local. De acordo com a informação repassada por testemunhas, naquela noite Reynolds e Poe foram vistos tomando café e discutindo avidamente em uma cafeteria próxima às docas. Contam, estas testemunhas, que após a discussão, Poe saíra da cafeteria, despejando palavrões sobre o Senhor Reynolds a quem quisesse ouvir.

- Cale a boca, Reynolds, você não sabe o que está dizendo?
- Não se faça de tolo, Poe. Você sabe os riscos que corre.
- Riscos? E o que diabos você entende de riscos? Eu quero ver, Reynolds, eu quero a verdade.
- Está maluco? Você vai morrer, Edgar. Não desperdice sua vida, homem. Lute contra isso!
- Morrer, você diz. Morri quando trouxe ele para cá! Esta vida já não me pretence, Reynolds. Eu vou encontrá-lo esta noite! E vou levá-lo até ela!

Reynolds seguiu-o, e encontrou-se com ele novamente em uma esquina de pouco movimento da cidade. Apenas um homem viu o que aconteceu a seguir. O vigia noturno Edward Blanche, que fazia sua ronda no exato momento em que a briga teve início. Mas Blanche nunca disse que foi Reynolds que matou Edgar. Muito pelo contrário. Blanche estava tentando alertá-lo.

Durante a conversa dos dois, uma visão inesquecível surgiu no final da rua. O vigia conta que nem o policial, nem os escritores perceberam a companhia até que fosse tarde demais. Enquanto os dois discutiam, no momento em que menos poderiam imaginar, foram surpreendidos por

PAM PAMPAM PAMPAM PAMPAMPAM PAM PAM PAMPAM PAMPAM PAMPAMPAM PAM

Interrompemos a nossa programação normal para uma notícia de última hora. Um forte terremoto atingiu o Haiti há poucas horas. A defesa civil informa que as instalações do exército brasileiro, que se encontrava em missão de paz no país, foram afetadas pelos abalos sísmicos e esvaziadas por precaução.  Durante os tremores, que vitimaram mais de 100 mil pessoas em todo o país, 14 soldados brasileiros morreram com o desabamento de parte do local onde as tropas estavam abrigadas.

Os tremores alcançaram o grau 7 na escala Richter, por volta das 19h50min desta terça-feira. Um alerta de tsunami também chegou a ser emitido, mas foi cancelado poucas horas depois. Ainda não há números oficiais de vítimas e prejuízos, mas acredita-se que o número de mortos pode ter chegado próximo dos 200 mil. Cerca de oito edifícios do Centro da cidade desabaram, soterrando todos que trabalhavam em suas dependências.

Vários feridos esperam por ajuda médica, que tem dificuldades de chegar até os pontos de maior gravidade. A própria comunicação foi interrompida por diversos minutos, e até o momento seguem com problemas na comunicação.

O Brasil mantém cerca de mil e duzentos soldados em missão de paz no Haiti, e os números não-oficiais comentam sobre a morte de 14 oficiais. Segundo testemunhas, o terremoto devastou o centro da capital, incluindo o Palácio Nacional, a Catedral e até mesmo a sede das Nações Unidas. São incalculáveis os danos causados por todo o país. Um cinegrafista ligado à Associated Press, diz ter presenciado a queda de um hospital, que soterrou todos os pacientes, e que era possível ouvir os gritos de socorro sob os escombros.

De acordo com a medição  do serviço geológico norte-americano, o terremoto ocorreu  a cerca de 10 quilômetros de profundidade, a 22 quilômetros da capital haitiana, que tem mais de um milhão de habitantes.

Em entrevista concedida à televisão americana, o embaixador do Haiti nos Estados Unidos, Raymond Joseph, disse que as conseqüências do terremoto são catastróficas.

- A única coisa que posso fazer agora, é rezar e confiar que o pior não aconteça.

O presidente norte-americano Barack Obama, manifestou-se e alertou que enviará ao país toda a ajuda necessária. O presidente Lula, deu há poucos uma coletiva em que manifestou pesar pelo povo haitiano e disse que o país fará o possível para ajudar o Haiti a se reerguer. As primeiras ações a serem tomadas será trazer de volta os soldados brasileiros feridos durante o terremoto.

De São Paulo, com notícias a todo instante, Fabiane Lemos.

…nunca mais Edgar poderia repetir aquele nome. Por vezes e mais vezes foi tentado montar a reconstrução da cena enquanto o escritor estava internado, em seu leito de morte. Mas até hoje não se sabe se a história é real ou apenas mais um devaneio da mente perturbada de Edgar Allan Poe.

Nos vemos na próxima quinta-feira, às dez da noite para mais um encontro marcado com a verdade. Só aqui, no Mortes Misteriosas através da História. Boa noite.

Jan
26
O corvo
A bebida demais e a alegria de menos o deixavam com a aparência galante – e ele sempre achou curioso como todos os amigos escritores também eram assim. Estava feliz, ou pelo menos deveria estar. Ia casar-se, tinha amigos, os monstros de sua imaginação continuavam sendo exorcizados por folhas de papel rabiscadas. Eram quase quatro da manhã e decidira ir a Baltimore. De barco, como sempre fizera. Encontraria um velho amigo.
Há cerca de duas léguas da costa, talvez mais, ao término da última garrafa de conhaque, Poe começou a morrer. Completamente sozinho e bêbado, percebeu que a única companhia que realmente o fazia feliz era a sua – gargalhou alto e o riso se espalhou pelo mar, sem ter como voltar, ecoar – “coisa metido a gênio egocêntrico”. Para não admitir a necessidade que sentia da própria companhia, começou a conversar com Reynolds.
Ele era bonito, atlético até. Inteligente, de humor refinado, cultura quase insuperável. Teve um caso com a noiva de Reynolds e ele sequer se importara. Tinha cabelos penteados que não pendiam para lado nenhum e uma aparência delicadamente sóbria. Foram quatro dias de convivência. O suficiente para que Poe percebesse que jamais conseguiria viver sem Reynolds. Era o único que entendia. Era quem rimava seus versos.
Quando percebeu que Reynolds estava distante, disforme, opaco e quase invisível aos seus olhos, Poe se desesperou, por vezes quase caiu. Imundo, encharcado e com todo o pouco dinheiro do bolso fez com que Reynolds reaparecesse por mais dois dias. Até que o fundo do poço chegou.
Sóbrio e sem dinheiro, Poe sucumbiu a loucura. Reynolds tinha sido afogado no mesmo mar que nascera.
———–
Posfácio
No barco, Poe concluiu que seu epitáfio seria Reynolds. Morreu antes, morreu cedo, morreu louco. Na pedra, escrito: O Corvo.

A bebida demais e a alegria de menos o deixavam com a aparência galante – e ele sempre achou curioso como todos os amigos escritores também eram assim. Estava feliz, ou pelo menos deveria estar. Ia casar-se, tinha amigos, os monstros de sua imaginação continuavam sendo exorcizados por folhas de papel rabiscadas. Eram quase quatro da manhã e decidira ir a Baltimore. De barco, como sempre fizera. Encontraria um velho amigo.

Há cerca de duas léguas da costa, talvez mais, ao término da última garrafa de conhaque, Poe começou a morrer. Completamente sozinho e bêbado, percebeu que a única companhia que realmente o fazia feliz era a sua – gargalhou alto e o riso se espalhou pelo mar, sem ter como voltar, ecoar – “coisa metido a gênio egocêntrico”. Para não admitir a necessidade que sentia da própria companhia, começou a conversar com Reynolds.

Ele era bonito, atlético até. Inteligente, de humor refinado, cultura quase insuperável. Teve um caso com a noiva de Reynolds e ele sequer se importara. Tinha cabelos penteados que não pendiam para lado nenhum e uma aparência delicadamente sóbria. Foram quatro dias de convivência. O suficiente para que Poe percebesse que jamais conseguiria viver sem Reynolds. Era o único que entendia. Era quem rimava seus versos.

Quando percebeu que Reynolds estava distante, disforme, opaco e quase invisível aos seus olhos, Poe se desesperou, por vezes quase caiu. Imundo, encharcado e com todo o pouco dinheiro do bolso fez com que Reynolds reaparecesse por mais dois dias. Até que o fundo do poço chegou.

Sóbrio e sem dinheiro, Poe sucumbiu a loucura. Reynolds tinha sido afogado no mesmo mar que nascera.

———–

Posfácio

No barco, Poe concluiu que seu epitáfio seria Reynolds. Morreu antes, morreu cedo, morreu louco. Na pedra, escrito: O Corvo.

Jan
26
Mr. Reynolds

“O senhor está longe de casa, não é, mon… monsi… humm, como vocês falam mesmo?”

Monsieur”.

“Isso, isso mesmo, monsieur Dupin. Na verdade não é todo dia que recebemos visitantes de terras tão distantes aqui na nossa pequena cidade.”

O fiscal levanta a armação de óculos e, por baixo dos aros gastos, observa Charles com curiosidade, enquanto folheia os papéis que trouxemos. Uma carta de recomendação redigida por um tal comissário da polícia parisiense, chamado Gustaves. Eu apenas fico calada e mantenho o sorriso no rosto, encarando o fiscal. Madame Tanessy ficaria orgulhosa.

“Ah, não tão pequena assim, amigo, se é que me permite chamá-lo assim. Há muitos anos já estive por aqui e, desde então, sustentava a vontade irremediável de retornar e rever velhos colegas da universidade. Muita coisa mudou desde então, acredito, mas creio também que a beleza e a simpatia característica da gente de Baltimore continuam sendo os principais atrativos dessa aconchegante cidade.”

Os trabalhadores e comerciantes passam em disparada entre nós no porto, enquanto Charles e o fiscal continuam trocando amenidades. O homem de uniforme azul e amarelo gasto desvia o olhar para mim a cada frase, observando-me dos pés à cabeça. Eu retribuo o olhar, até que ele, por fim, acaba por dirigir-se à minha pessoa.

“Espero que a nobre jovem esteja realmente em boas mãos. Não é recomendável uma… uma… humm…”

Mademoiselle é a palavra que busca, amigo”, interrompe Charles.

“Isso, uma mademoiselle trafegar sozinha ou muito à vontade por essas ruas. Ainda mais nessa época. O inverno e os becos escuros podem ser rigorosos, se você me entende.”

Eu me apresso pra responder, mas Charles é mais rápido.

“Ah, sim, ela está em boas mãos. Minha amada irmã Berenice cortaria-me a cabeça se eu ousasse meter sua filha única em alguma enrascada. Na verdade, eu olho para ela com olhos de pai, atentos e vigiantes.”

“Bom… me resta então desejar uma boa estadia. A saída é por ali. Cuidado com o piso liso. Se pagar algumas moedas a um desses garotos, eles podem lhe ajudar com as malas.”

Charles pede que um moleque maltrapilho nos acompanhe e, de braços dados, partimos até as carruagens, deixando pra trás o cheiro fétido que parece se impregnar em meu vestido. Nas escadas, eu levo o braço por suas costas, ajudando-o a subir os degraus, que Charles atravessa com dificuldade. Mesmo com o frio e a chuva que cai fraca, sinto o suor escorrer sobre seu casaco. Eu devia ter insistido mais para que ele não retornasse.

 

Charles que me perdoe, mas eu realmente odeio essa cidade. Desde que chegamos, apenas chove e chove. O cheiro é quase insuportável, mesmo longe do porto. Eu ainda estou em frangalhos após a viagem. Estou a brincar com a colher na xícara de porcelana à minha frente quando ele enfim resolve aparecer, os braços cheios de jornais molhados.

“Pronto, minha bela Anabelle, aqui estão os periódicos que eu procurava. Não foi fácil, mas consegui por um bom preço na livraria de um velho quase cego e ranzinza. Aqui, tome o jornal. Sei que você gosta de saber as últimas notícias, não importa onde esteja”.

Charles me passa o New York Daily Tribune, da edição de 9 de outubro de 1949. 

“Pois acho que cego é você, meu querido. Esse jornal é velho, de três semanas atrás. Não creio que vá encontrar alguma notícia nova aqui.”

“Não são as novidades que me interessam, Anabelle, mas sim o que já aconteceu. Veja, olhe esse artigo na terceira página.”

Eu aperto os olhos e leio em silêncio, para que Charles não me chateie com a minha leitura falha. Ele me ensinou a ler e me obriga, toda a semana, a ler artigos e historietas chatas em voz alta, chamando atenção para cada tropeço nas vírgulas e fonemas. Assim diz o artigo:

 Edgar Allan Poe está morto. Ele morreu em Baltimore anteontem. Este anúncio irá chocar muitos, mas poucos irão sofrer por isso. O poeta era conhecido, pessoalmente ou por reputação, em todo este país; ele possuía leitores na Inglaterra, e em vários estados da Europa Continental; mas ele tinha poucos ou nenhum amigo; e os pesares por sua morte serão indicados principalmente pela consideração de que nele a arte literária perdeu uma de suas mais brilhantes, porém erráticas, estrelas.

 “Humm… o escritor.”

“O redator foi um tanto quanto rude, certamente, mas não deixou de faltar com a verdade. Pelo menos assim nossa missão será mais fácil. Apenas algumas poucas visitas, algumas explicações, considerações e conclusões, e logo poderemos voltar para casa.”

“Nossa missão?. Vim aqui para tomar conta de você, titio, e somente isso. A essa hora, já devíamos estar longe daqui.”

“Ah, adoro quando você me chama de titio…”

Charles pega minha mão esquerda e leva aos lábios, beijando com delicadeza os nós de meus dedos. Eu suspiro, tentando parecer zangada.

“O que, enfim, você quer com esse tal poeta? Aqui não diz nada sobre assassinato ou coisa do tipo.”

“Você sabe que eu tenho uma reputação a zelar. E que só quero o nosso bem.”

“Ah, lá vem você de novo com essas histórias… me acorde quando pudermos voltar.”

“Sempre insolente. Deveria lhe dar umas palmadas de vez em quando.”

Eu rio e pisco para Charles.

“Podemos cuidar disso mais tarde… titio.”

 

O homem calvo nos olha com curiosidade sobre o vão da porta, espichando o nariz proeminente para ver Charles melhor, envolto em suas galochas. Ele parece ainda mais surpreso ao me enxergar por baixo da sombrinha, o vestido encharcado nas bordas. Charles vai até seu encontro e estende a mão enrugada.

“Deixe-me apresentar, doutor. Me chamo Antonnie Dupin, recém chegado de viagem. Esta ao meu lado é minha sobrinha Anabelle. Perdoe-nos por interromper seus afazeres no coração de seu lar.”

“Sim, eu recebi sua carta. Mas achei que era uma brincadeira de mau gosto. Por que alguém que se autodenomina Dupin iria querer conversar sobre Poe? Ainda mais um francês. Desculpe minha incredulidade, mas isso me parece absurdo.”

“Meu falecido pai, apesar de não ter estudo, costumava dizer que nada nessa vida é coincidência. Saiba que eu mesmo fiquei surpreso ao ler meu sobrenome nos maravilhosos contos de nosso nobre poeta, anos atrás.”

“Edgar nunca falou de você.”

“Há muitas coisas sobre esse homem que ambos desconhecemos, sem dúvida.”

“Sei. Enfim, saiam da chuva. Entrem, por favor.”

A casa é pequena, mas muito bem decorada e servida. Vamos até o que parece ser um escritório, com uma poltrona e um pequeno divã encostados em cada lado da parede. No meio, uma mesa de carvalho, coberta por grossos compêndios de medicina. Eu e Charles sentamos no divã, observados com atenção a cada movimento por nosso desconfiado anfitrião. O sotaque carregado de Charles me incomoda e não deixo de pensar que ele, realmente, já está velho demais pra isso.

“Muito obrigado por nos receber, doutor Snodgrass. Prometo ser breve.”

“Me chame de James. Desejam algo, um chá, talvez?”

“Não queremos incomodar. Tempo ruim, não? É preciso uma canoa para atravessar as poças nas ruas.”

“Vá logo ao ponto, monsieur Dupin. Em que posso lhe ajudar?”

“Percebo que o senhor é um homem direto. Como relatei na carta que precedeu minha visita, fui designado por um conhecido do senhor Edgar Allan Poe para esclarecer algumas circunstâncias sobre sua prematura partida, no último dia 7 de outubro. A morte de nosso poeta trouxe consternação a muitas pessoas.”

“Que conhecido?”

“Temo que não possa lhe dizer. Apenas adianto que é um conterrâneo meu e legítimo apreciador de Poe.”

“Edgar era conhecido na França por algumas de suas publicações, mas não creio que tenha despertado tamanha admiração. Poderia entender se fosse algum familiar em busca de notícias, mas não acredito que ele tivesse qualquer parente próximo em alguma parte da Europa. Não compreendo porque alguém mandaria um investigador aqui para esclarecer coisa alguma.”

“Não me considero um investigador, doutor, e tampouco o sou. Estou apenas fazendo um favor.”

“E essa carta de recomendação, assinada pela polícia parisiense?”

“Apenas para prever alguma eventualidade.”

O doutor se afunda em sua poltrona, apoiando a mão no queixo. Como Charles orientou, eu não falo nada, apenas desvio o olhar de um para o outro durante a conversa.

“Presumo então que Edgar tenho adotado o nome de seu famoso personagem em homenagem à sua pessoa, monsieur. Seu amigo deve ter falado muito de você para ele. É tão esperto e intrépido quanto seu irmão de ficção?”

“Creio que Poe adotou somente o sobrenome e investou o resto, sem qualquer fundamento em minha pessoa. Sou apenas um velho, que sempre viveu tranquilo e cansado.”

“Por ser um velho, aparentemente inofensivo, é que eu me permito recebê-lo em minha casa, Dupin. Também espero que essa jovem ao seu lado não faça parte de alguma tramóia perpretada por desafetos de Edgar. Meu amigo estava sempre envolvido em dívidas e jogos e não me surpreenderia se, mesmo após sua morte, alguém quisesse dar um último troco.”

“Garanto que minhas intenções e as de minha sobrinha são as melhores possíveis, doutor. Apenas recebi a missão de esclarecer o que aconteceu naqueles últimos dias e levar um pouco de conforto para alguém que nutre grande carinho pelo nosso poeta.”

O doutor Snodgrass se levanta e abre com uma pequena chave uma das gavetas da mesa. Impaciente, vasculha os papéis até que, aparentemente consternado, traz para junto de si o que parece ser uma carta. Senta novamente na poltrona, em silêncio, parecendo hesitar em mostrar ou não o conteúdo a Charles.

“O que você quer saber pode ser encontrado em qualquer jornal daqui, Dupin. Algum que seja sério, é claro. As especulações renderam muitas páginas ao longo daqueles dias. Muitas delas, infames.”

“E nenhuma que deixe claro as circunstâncias em que ocorreram a morte de Poe, não estou certo?”

“Não se deixe iludir. Não há mistério algum a ser solucionado. Desde a morte de Virginia, Edgar se entregou a uma vida errante, de excessos. A depressão e a consternação eram visíveis em seu rosto, cada vez que nos encontrávamos. No outono passado, ele chegou a ingerir uma grande quantidade de láudano, o que quase o levou a morte. Ficou dias com o rosto paralisado. Sim, eu me lembro e me entristeço cada vez que recordo o triste fim anunciado de meu amigo. Tentei várias vezes convencê-lo a largar a bebida e o ópio, mas Edgar era irredutível. Era óbvio que chegaria um ponto em que seu organismo não aguentaria tanta provação. Como médico, foi o que eu vi naquele dia em que o encontrei e nos seguintes. Já havia visto os olhos vidrados e compartilhado dos delírios de muitos homens condenados pela álcool, no hospital onde atuo, aqui em Baltimore. Não havia nada a fazer. A angústia havia vencido a luta contra meu amigo.”

“Como o senhor o encontrou, doutor?”

“Um homem me mandou uma carta. Um tal Walker, que não cheguei a ver ou conversar posteriormente. É essa carta que tenho em mãos. Imagine minha tristeza ao receber tal aviso.”

O doutor repassa a carta para Charles, que lê em voz alta, para que todos possamos ouvir.

“Vejamos. Há um cavalheiro, um tanto decomposto nas vestimentas, na Rua Ward Polls, dizendo atender pelo nome Edgar A. Poe, que parece estar muito atormentado e diz ter conhecimento com o senhor, e eu asseguro que ele precisa de assistência urgente. Assinado, Walker. Rua Ward Polls, onde é isso?”

“Ao sul da estação de trem, logo após o mercado público. É um antro de sujeira e promiscuidade. A taberna onde ele estava, desmaiado, era reduto dos mais vis homens. Não encontrei valor nenhum com ele, provavelmente, porque já haviam retirado dele qualquer objeto de valor que possuía. Chamei um policial amigo meu para me acompanhar. Não tive coragem de entrar sozinho naquele lugar.”

“Não encontrou lá o tal Walker?”

“Não, como já lhe disse. E, se posso prever o que se passa em sua cabeça, Dupin, adianto: fique longe daquele lugar. E não ouse levar sua jovem sobrinha junto.”

“Não se preocupe, doutor. Eu não cheguei a essa idade sem saber me cuidar. Poe não relatou o que havia acontecido com ele para chegar a tal ponto?”

Snodgrass abaixa a cabeça, tampando os olhos com uma das mãos.

“Ah, meu senhor, meu amigo sequer conseguia falar algo compreensível. Mesmo com a medicação, continuava delirando. Até hoje lembro da sua voz em meu ouvido, puxando as golas de minha camisa, fazendo com que eu me abaixasse para ouvir  aquele nome, balbuciado com dificuldade…”

“Que nome?”

Reynolds. Seria impossível eu esquecer. Perdi a conta de quantas vezes ele chamou por tal pessoa. Pensei em correr em busca de algum parente com tal nome, mas, dadas as circunstâncias, logo cheguei à conclusão que era somente mais um fruto de seu delírio, um nome sem lógica.”

Após essa última declaração, eu toco inconscientemente na mão de Charles, repousada sobre o divã, e sinto ela fria como gelo. Ele está branco e não sou a única a perceber. Snodgrass se lança em nossa direção, ajoelhando-se à frente de Charles.

“O que houve, Dupin? Você está pálido! Viu algum fantasma, homem?”

Charles balança a cabeça, como se retornasse de algum transe. Sorri, tocando no ombro do doutor e apóia-se em mim para se levantar.

“Ah, uma breve indisposição, doutor. Acontece com homens antigos como eu. Nada de mais. Um pouco de ar fresco irá me fazer bem.”

“Não recomendo que saia nesse estado. Aposto que sua sobrinha concorda comigo.”

“Agradeço a preocupação, mas já estou bem melhor. E não quero mais incomodá-lo. Sua atenção foi de grande valia, doutor.”

Charles avança em direção à saída, levando-me a tiracolo. Eu apenas dou de ombros para o doutor e o acompanho pela sala. Em silêncio, Snodgrass abre a porta, as sombrancelhas abaixadas, em sinal de dúvida. Antes que Charles comece a descer os degraus, o doutor interrompe, tocando em seu ombro.

“Quem é Reynolds, Dupin? Ou seja lá qual for o seu nome verdadeiro…”

“Ninguém, doutor, ninguém.”

Charles vira o rosto e avançamos pela calçada, abraçados embaixo da sombrinha. Eu o questiono, perguntando se está tudo bem, mas ele não responde. Permanece calado até chegarmos ao hotel.

 

“Venha tomar um banho comigo, meu querido. Irá lhe fazer bem.”

“Não tenho tempo, Anabelle. Preciso sair, agora mesmo.”

“Não seja rabugento, homem. Olhe esse tempo aí fora. Foi uma longa caminhada. Vamos descansar um pouco pelo menos.”

“Eu vou sozinho, meu anjo.”

“Nada disso, Charles.”

“Não me espere para o jantar, querida. E não fique aflita, estarei bem.”

“Não me diga que você vai até aquele lugar. Não pense em…”

Ouço apenas a porta batendo no quarto. Saio do banheiro e vejo que estou sozinha. Pobre Charles.

 

Acordo no meio da noite nos braços de um homem do qual não lembro o nome. Perco alguns segundos até lembrar-me onde estou. Deslizo para fora da cama, tentando não fazer barulho. Recolho minhas roupas no chão, me visto e saio do quarto. Não encontro viva alma nos corredores do hotel. Subo dois andares e entro no aposento de Charles. Vazio.

 

As batidas na porta me despertam. Os raios de sol – sol, até que enfim! – entram pelas frestas da cortina, iluminando o quarto. Um dos garotos do hotel engasga ao me ver em trajes íntimos, mas recompõe-se a tempo de avisar que Charles está à minha espera no restaurante. Só então percebo que ele ainda não havia retornado.

Encontro Charles sentado à mesa, devorando alguns pães. Ele me vê e faz uma mesura, indicando-me à cadeira à frente.

“Está radiante nesta manhã, bela Anabelle. Presumo que a noite, mais uma vez, foi ótima.”

“Como de praxe. Fiquei preocupada. E a sua noite, como foi?”

“Walker está morto. Ele chegou a me reconhecer, mas não teve chance de revidar.”

“Mais alguém?”

“Aqueles bêbados estúpidos não oferecem perigo. O doutor também não. Não mais.”

“Você disse que o veneno ia matar ele instantaneamente.”

“Deveria. Mas provavelmente o organismo daquele maldito escritor beberrão estava tão acostumado a substâncias degradantes que uma dose não foi o suficiente. Prepare as malas. Partiremos hoje ao meio-dia. Não podemos correr o risco de sermos descobertos.”

“Deus seja louvado. Assim, pelo menos você pode parar de usar esse nome ridículo, monsieur Dupin.”

“Eu não resisti. Vamos, tome o seu chá antes que esfrie, senhora Reynolds.”

Prezado Dr. Snodgrass,

Há um cavalheiro aqui no Ryan’s 4th, em muito lastimável estado, que responde pelo nome de Edgar Allan Poe e que diz conhecer o senhor. Asseguro-lhe de que ele necessita de cuidados imediatos. Aguardo-o com urgência,

Joseph W. Walker.
03 de outubro de 1849

Dentro do coche, Henry Herring relia a carta percorrendo a caligrafia apressada do Sr. Walker, imaginando o que agora estaria se passando com o sobrinho. Ao seu lado, o Dr. Snodgrass olhava-o com pesar, imaginando — ou tentando imaginar — o que se passava sob o cenho franzido do amigo. Os dois embalados pelos solavancos noturnos das ruas de Baltimore, iluminadas pelos candeeiros recém acesos. Do lado de fora, os prédios rentes às calçadas debruçavam toldos à sua passagem e um ar frio soprava da baía trazendo burburinhos arrulhados pelo vento. O Sr. Herring dobrou o bilhete com cuidado e, depois de um tempo, retornou-o ao seu destinatário.

— Fez bem em me chamar.

O Dr. Snodgrass tomou o papel e colocou-o no bolso da casaca, apenas acenando com a cabeça, em resposta. Seguiram o resto do caminho em silêncio. O coche começou a passar pelas bandeirolas vermelhas, brancas e azuis penduradas nos postes, das janelas e por sobre a rua. O barulho da baderna e bravatas já chegava e, longe, pode-se ouvir um estouro. Se de algum foguete de comemoração ou algo menos festivo, era difícil dizer. Logo as paredes dos comércios pelos quais passavam os viajantes começavam a revelar alguns cartazes de “vote” e palavras de ordem. Quanto mais se aproximavam do Ryan’s 4th, mais o clima de eleição se acentuava do lado de fora das janelas abertas.

A taverna estava movimentada. Um entra e sai de todos os tipos, na maioria em grandes grupos. Membros de partido comemorando ou vociferando contra os adversários. O coche parou do outro lado da rua. Os dois passageiros desceram pelo lado da calçada. Sapatos lustrados de pontas arredondadas, chapéus escuros de aba curta e casacas até pouco acima dos joelhos. O Dr. Snodgrass ajeitou os óculos de aro redondo sobre o nariz enquanto o Sr. Herring conferiu o bigode bem aparado. Do outro lado da rua ouviu-se alguma imprecação contra os Whigs que rendeu alguma confusão com prováveis membros do partido citado. Os dois companheiros se olharam de lado mas, antes que pudessem tomar uma decisão, foram interpelados por um homem jovem, rosto imberbe, colete e boina de couro castanho, já com algum uso:

— Dr. Snodgrass?

Conferindo o bilhete que tinha no bolso, o Dr. Snodgrass respondeu com certa dúvida:

— Sr… Walker…?

— O Sr. Walker pediu para que eu viesse ao seu encontro. Ele está com seu amigo e parece preocupado. Sigam-me, por favor. É a casa aqui ao lado. As ruas estão muito confusas esta noite para aguardar do lado de fora com alguém… que não esteja tão bem de saúde — completou com cuidado ao ver os olhos interrogativos do Sr. Herring.

Os homens não comentaram nada mas seguiram seu guia. A casa realmente era próxima e logo estavam aguardando em um hall de madeira de cor canela, já com os casacos pendurados num cabideiro. Henry Herring tomou nas mãos uma bengala de corpo negro e esbelto, com ponteira de couro e uma cabeça de prata bem polida, que estava recostada junto ao cabideiro. A lateral do objeto estava coberta por uma leve crosta de lama já começando a secar, mas ainda pegajosa.

— É de Edgar?

— Já a usa há algum tempo, pelo que sei.

— Dr. Snodgrass. — Foram interrompidos por um homem de bochechas rosadas, bigodes fartos e olhos claros. A cintura larga amparada por suspensórios marrons que corriam sobre uma camisa social com as mangas compridas arregaçadas. Estendendo a mão cumprimentou o Dr. Snodgrass:

— Sou Joseph Walker. Fui eu quem encontrei o Sr. Poe. Por aqui, por favor.

— Obrigado, Sr. Walker — respondeu seguindo o homem — este é Henry Herring, meu amigo e tio de Edgar. Viemos assim que recebemos sua mensagem.

— Obrigado pelos seus cuidados com Edgar, Sr. Walker. E por sua presteza em nos chamar. Como ele está?

— Sr. Herring, receio que seu sobrinho não esteja bem. Veja bem, não sou médico, o que quero dizer é que não está nas melhores das condições. Por isso pedi que viessem com urgência.

Os homens percorriam os aposentos seguindo Walker.

— Agora o Sr. Poe está descansando. Acho que dormiu, finalmente. Encontrei-o ao lado do Gunner’s Hall, digo, do Ryan’s 4th, como devem conhecê-lo. Estava caído nas sombras na rua lateral, se levantando, quando o vi. Fui ajudá-lo ao que ele tentou me agredir com a bengala. Me confundiu, ao que parece, com um tal de Reynolds. Estava tão desorientado que o golpe não passou nem perto de me atingir. O teria deixado caído ali mesmo se não o tivesse reconhecido. Acompanhei alguns números do Broadway Journal — é uma pena, por sinal, que aquele projeto não tenha dado certo — mas, enfim, graças a isso reconheci o Sr. Poe e o trouxe para cá. Como ele estava sem carteira ou documentos, não havia outra forma de saber a quem chamar.

Pararam em frente a uma porta fechada:

— Apenas adianto aos senhores que o estado do Sr. Poe, como disse, não é dos melhores. Mas considerando as circunstâncias e o dia de hoje, não está muito pior que alguns dos estimados cidadãos de nossa cidade lá fora.

O chiste não despertou comentários e o Sr. Walker abriu a porta para um quarto pequeno com uma cama de solteiro e uma janela com uma fresta aberta. O Sr. Poe estava deitado sobre os lençóis. Numa cadeira ao lado da cama, um chapéu roto e mal acabado estava pendurado no encosto e, dobrado sobre o acento, um paletó já velho, desbotado e bastante desgastado. A calça, bastante larga, estava em igual estado, somada uma mancha de lama seca no joelho esquerdo. Os pés tinham sapatos de um couro opaco e sem vida, de um número claramente maior do que o necessário. Era como se o corpo dentro daquelas vestimentas tivesse de repente encolhido, murchado, como que minguando e desaparecendo para dentro de si mesmo. Lá fora uma noite agreste batia levemente nos umbrais.

— Pode ser uma bebedeira, só isto, e nada mais.

Os recém chegados não pareceram se sentir aliviados pelas esperanças gentis do Sr. Walker, vendo aquelas olheiras profundas no rosto pálido, ressaltando ainda mais a testa larga de cabelos pretos emplastrados em suor.

Quando o coche partiu, levou também em seu interior o Sr. Poe e seus pertences. Sr. Walker não aceitou qualquer recompensa por parte do Sr. Herring ou do Dr. Snodgrass. Solicitou, apenas, que, se  não fosse muito incômodo, que o Sr. Poe lhe pudesse fazer uma visita após sua recuperação para que pudessem, os quatro cavalheiros, desfrutar de um chá ou café qualquer dia desses. Dr. Snodgrass sorriu afirmativamente enquanto o Sr. Poe era amparado pelo tio. O coche partia em direção ao Washington College Hospital, deixando para trás o Ryan’s 4th e sua algazarra de dia de eleição.

A inconsciência do Sr. Poe continuava, mas parecia respirar sem dificuldades, apesar do suor excessivo. A febre não era muito, mas mantinha-se. Apesar do ar frio do lado de fora, as janelas seguiram completamente abertas. Em parte para refrescar o Sr. Poe, em parte para minimizar o odor desagradável que exalava de suas roupas e pessoa.

Foram recebidos no hospital pelo Dr. Moran. Antes de qualquer exame mais aprofundado, antecipou, solicitaria uma permanência mínima de vinte e quatro horas para o paciente. Depois de vários minutos e poucos papéis preenchidos pelo Sr. Herring, o paciente Edgar Allan Poe já repousava em um leito próximo a uma janela basculante por onde se insinuava um luar azulado sobre as pálpebras fechadas que escondiam órbitas fundas e inquietas, de olhos acelerados, remexendo-se em sonhos inquietos de um sono profundo de águas escuras.

***

Longe podia ver as luzes de Baltimore se aproximarem devagar. Apoiado no parapeito recebia o ar no rosto pálido. Os cabelos despenteados alvoroçavam-se sobre a larga testa. Confiava aos bigodes negros pensamentos ainda mais sombrios. As águas escuras da baía Curtis recebiam o Pocahontas que avançava a fumegantes baforadas na noite. Richmond agora ficara para trás. Na empunhadura prateada da bengala lustrosa observava o seu reflexo deformado. Lembrou do julho anterior em que havia estado em companhia do Dr. Carter em Nova Iorque e que, por descuido, trocara de bengalas com ele. O grasnar fantasmagórico de um corvo fez com sobressaltasse-se, sentindo um frio gélido e mortal subir-lhe a espinha. Umas gaivotas, negras contra o céu noturno, sobrevoavam o navio de modo agourento, girando em círculos como que evocando um enorme redemoinho que engoliria nas águas escuras o barco com todos os seus tripulantes. Achou por bem deixar o convés e procurar um lugar mais seguro no interior da embarcação. Entrou em sua cabine, trancou a porta e atravessou a penteadeira logo atrás. No local onde estava a penteadeira havia ficado apenas, na parede um espelho de moldura oval, lembrando um retrato. A imagem evocou-lhe um quadro agourento de Virgínia morta. Afastou os pensamentos, pegou tremendo, de um frasco sobre o criado-mudo, dois comprimidos e engoliu-os a seco, mastigando o gosto amargo entre os molares, ouvindo o ranger dos dentes, o triturar das peças, imaginando a cor marfim de trinta e dois dentes roubados caindo chacoalhando ao assoalho. Cuspiu em horror os comprimidos esfarelados e sentou-se abraçando os joelhos, com as costas nas paredes e olhos fechados com força.

O descer a rampa do Pocahontas apresentou uma figura distinta, de trajes bem cortados, chapéu negro elegante e sapatos brilhantes. Uma gravata um pouco torta e bela bengala. Só destoavam da elegância os olhos insones vermelhos de olheiras profundas, um brilho de suor sobre a pele do rosto e os cabelos um tanto bagunçados para aquela hora do dia. Seguiu a rua portuária se afastando do píer. Vagou pela cidade, por muito tempo, aproveitando as horas belas do dia, deixando que a mente passeasse de novo por aquelas ruas largas, vendo as árvores, os comércios, o vai-e-vem da urbe. Deixou que o sol lhe aquecesse o corpo e o que carregava dentro dele, que lhe expurgasse as sombras das noites mal dormidas, dos dias, semanas — meses, talvez? — em que vinha vivendo naquele estado de nervos. Vagou por toda a manhã e decidiu que visitaria o bom Dr. Brooks à hora do almoço. Quem sabe lhe fizesse bem um pouco de companhia durante a refeição. Bateu à porta por repetidas vezes, sem resposta. Decepcionou-se e comeu sozinho uma refeição frugal e rápida em qualquer lugar.

Os cartazes das eleições decoravam os cafés, lojas e tavernas. Carros passavam pedindo votos a candidatos e as bandeirolas coloridas se espalhavam pela cidade. O barulho o desorientava e ficara feliz por saber que partiria em breve para a Filadélfia. Quem sabe depois continuasse mesmo até Nova Iorque. Poderia devolver finalmente a bengala do Dr. Carter. Vagou pela cidade, encontrou um par de conhecidos, uma aqui outro acolá, agradeceu educadamente as boas impressões recebidas de alguns de seus livros e logo procurou os arredores da cidade, evitando o incômodo contato com alguém que pudesse lhe reconhecer. Achou que tivesse sido novamente reconhecido por dois homens corpulentos que lhe olharam do outro lado da rua. Mas ao contato com os olhos fundos do escritor, disfarçaram e fingiram conversar entre si. Um receio começou a tomar conta do Sr. Poe. A mão esquerda já tateando dentro do bolso o frasco de comprimidos, a garganta lhe secando. Apressou o passo e tentou afastar-se dos homens enquanto lhes sentia os olhos quentes na nuca. Dobrou uma esquina, recostou-se contra a parede de tijolos e abriu nervosamente o frasco. Atirou dois comprimidos para dentro da garganta sem se preocupar em mastigar. Ouviu um miado longo e agudo e saltou para longe da parede, olhando-a com olhos arregalados e dentes expostos num esgar de pânico. Uma senhora próxima assustou-se com a cena e apertou o gato de estimação no colo, fazendo o bichano saltar para o chão. O sol baixo do fim do dia projetou sua sombra negra e felina na parede de tijolos. Quando um grito ia escalando pela garganta, o Sr. Poe foi alertado por um brado mais grave e mais alto, logo ao seu lado:

— Cuidado!

Por pouco não foi atropelado por um par de cavalos que puxava velozmente uma charrete de duas rodas. O chapéu lhe voou da cabeça revelando os cabelos em pé. “Maluco!” foi o que gritou alguém de dentro do veículo. Aos olhos acusadores dos que estavam em volta, saiu a passos largos cortando as ruas de Baltimore. O corpo quente em contraste com o vento que vinha frio da baía Curtis. Sentia arder os poros e pode imaginar pequenas chagas rubras, como uma peste a lhe cobrir os poros em sangue a verte-lhe o pouco da mal fadada vida que lhe restava, como que uma peste transmitida por um vulto sem rosto. Viu-se golpeando novamente a porta do Dr. Brook a ponto de chamar a atenção de um vizinho.

— O Dr. Brook não está na cidade.

O vizinho arrependeu-se de revelar o fato ao ver a aparência deplorável do visitante, parecendo intoxicado, diria mais tarde, num eufemismo para bêbado, louco ou drogado, como for do agrado do ouvinte.

— Mas a casa está muito bem guardada pelos vizinhos, não se preocupe. — Disse em complemento.

A noite caía e o Sr. Poe resolveu tomar o caminho mais curto para a primeira pousada que prestasse para passar uma noite de descanso, ao menos. Próximo ao local em que estava só encontrou uma velha pensão guardada por uma senhora quase tão velha quanto. Alugou um quarto mofado e com manchas de umidade nas paredes, por falta de um que não as tivesse. Lá fora o vento frio soprava enquanto o Sr. Poe imaginava se ele não entraria pela janela para lhe gelar e matar como num reino ao pé do mar. Assim, em sonos breves e entrecortados passou a noite, vendo nas paredes figuras bizarras que renderiam ainda algumas histórias, se imaginasse que ainda escreveria alguma. Mas da janela, um rufar de asas lúgubres parecia contestar: “nunca mais”.

Passou a maior parte do dia seguinte no quarto, a suportar os calafrios que lhe percorriam o corpo, assoando o bigode melecado com um lenço sempre que preciso. Quando saiu já era a tarde do outro dia. Caminhou pelas ruas e decidiu que compraria a passagem para a Filadélfia e deixaria Baltimore em breve. Passou por uma taverna. Como a maioria delas, era também o local de votação. Pensou na sensação do líquido quente lhe descendo pela garganta, mas numa réstia de força de vontade seguiu em frente. Comeu um sanduíche para aplacar o estômago que reclamava da acidez dos comprimidos da noite anterior, ainda vazio. Quando chegou na estação pediu uma passagem para Filadélfia para o dia seguinte. Separou, de um grande maço, as notas referentes ao valor e entregou ao vendedor. Trazia sua mala de mão e a bengala do Dr. Carter. Quando virou-se para sair esbarrou em dois homens que estavam atrás de si na fila. Desculpou-se e viu os olhos dos homens se deterem por alguns segundos no maço de notas que guardava no interior do casaco. Saiu desconfiado indo em direção aos trens. Esbarrou em um senhor de bigode engomado e quepe de condutor.

— Calma, senhor — disse o homem com um sorriso — Não atropele o condutor se não o trem não sai.

O Sr. Poe se desculpou e se afastou, derrubando um crachá que o homem trazia à lapela com as inscrições “Capt. G.W. Rollings”. O homem virou-se para seguir o seu caminho e esbarrou em dois homens apressados, que não pararam nem para se desculpar. Notou o primeiro homem olhar para trás enquanto se afastava. Por via das dúvidas, resolveu pedir ao responsável pela segurança da estação que desse uma atenção redobrada para os arredores e seguiu para o trem que lhe aguardava.

Vendo-se seguido, passando por uma ruela viu um dos cartazes das eleições falando do candidato dos Whigs e lembrou de seu primo Neilson. Estaria provavelmente envolvido com os preparativos das eleições e morava no outro lado da cidade, mas era a quem talvez pudesse recorrer. O cartaz foi, por uns momentos, coberto por uma sombra que surgiu e logo desapareceu furtiva na escuridão que caía e se adensava. Os candeeiros que se acendiam deitavam uma luz fantasmagórica ao lugar, como fogos-fátuos por entre tumbas. O Sr. Poe pensou ter ouvido passadas cuidadosas e achou por bem acelerar o passo. As passadas atrás de si pareceram também acelerar. Praticamente correndo dobrou uma esquina no que foi agarrado no pulo por um braço forte que saiu das sombras entre dois prédios. Logo, outro homem dobrou a esquina rapidamente e desapareceu também na sombra entre as construções.

A cabeça latejava e girava. O ar cheirava a álcool e láudano e a um passado que parecia querer retornar. O estômago reclamava ácido. Quando os olhos se acostumaram à escuridão percebeu-se deitado numa cama improvisada no chão. Sentou-se. Ao seu redor os dois homens estavam sentados sobre barris de madeira simples, iluminados pela luz de uma lanterna a óleo. Um deles estava com um broche dos Whigs.

— Não me importa se você já votou hoje — um deles começou — Você já está com outras roupas e ninguém vai perceber se você votar novamente. Você vai lá, vai votar pelos Whigs, retorna aqui, troca de roupa e vai votar uma outra vez ainda. Depois você pode pegar a sua maleta, com suas roupas e dar o fora daqui, entendeu? É só ir lá e votar pelos Whigs. E não pense em nos enganar, o mesário estará conferindo os votos.

Colocaram-lhe na lapela um broche igual ao do homem que falava. Repetiram as ordens mais duas vezes, ofereceram mais um trago de uma garrafa que tinham na mão, que o Sr. Poe recusou com a impressão de já sentir, mesmo assim, o gosto do conhaque à boca.

— Estas eleições são muito importantes. E nós não lhe queremos mal algum. Basta fazer como o combinado e o senhor poderá sair sem problemas, ok senhor…?

— O homem lhe perguntou seu nome senhor, seria sensato se respondesse. — completou o outro com uma cara de rufião.

— Poe, o nome é Poe — respondeu o assustado Sr. Poe.

Os dois homens se olharam com certa surpresa e dúvida no olhar.

— Espere aqui que já voltaremos, Sr. Poe — e saíram da sala de paredes úmidas de pedra e limo.

Ficaram alguns bons minutos longe, quase meia hora, provavelmente. As paredes pareciam escorrer uma salinidade maligna e úmida por entre as pedras. Os grandes blocos pareciam se curvar opressivamente sobre o abalado Sr. Poe. A cabeça girou com cabelos desgrenhados projetando sombras monstruosas nas paredes insalubres. Os barris de madeira à sua frente pareciam sentinelas. Imaginava que vinho lhe habitava as entranhas. Sons ecoavam das paredes lembrando murmúrios ébrios emparedados, guardados pelos barris. Pareceu ter ouvido o som de grilhões. Conferiu assustado os punhos: livres. O som parecia vir das paredes ou de algum lugar distante além delas — ou dentro delas. O horror foi tomando conta do espírito já abatido do Sr. Poe que, cambaleante, foi até a porta de madeira e deu-lhe duas batidas como que chamando alguém. A luz da lanterna pareceu ter sido bloqueada por um instante por uma forma humanóide de fronte larga e peluda, vista apenas nas sombras projetadas. Em horror, com o espírito em frangalhos, o Sr. Por se virou para uma sala opressora e escura, de paredes úmidas e sombras que poderiam esconder monstros inimagináveis. Virava a cabeça de um lado a outro, alerta. Conseguiu ver, por outro momento, a sombra de pelos eriçados movimentar-se numa das paredes do fundo. Começou a imaginar longos braços cobertos por pelos acastanhados, uma fronte larga com olhos bestiais, mãos poderosas lhe erguendo pelos cabelos. Virou-se num grito agudo e desesperado, golpeando a porta com mãos, pés e ombros, num desespero crescente. Ouviu os ferrolhos da porta se abrindo e se afastou por um momento. Assim que a porta se abriu o suficiente saiu com a velocidade que ainda conseguia imprimir às pernas bambas, mas foi parado sem muita dificuldade pelo homem com cara de rufião que havia estado com ele há pouco. Foi atirado de volta ao chão do catre e mais dois outros homens entraram. Um deles é o que havia falado com ele antes, que portava um broche. O terceiro homem ele desconhecia.

— Reynolds, seu imbecil! — Disse o terceiro homem.

Reynolds, aparentemente o rufião, se encolheu com desagrado e olhos irados para ele e para o Sr. Poe. O homem do broche se aproximou do Sr. Poe, tirou-lhe o broche da lapela e começou a ajudá-lo a se levantar, enquanto o terceiro homem continuava:

— Esse é o primo de Neilson Poe, seu imbecil! Não há a menor chance de ele votar mais de uma vez sem ser reconhecido. O homem é escritor, volta e meia está nos jornais, por Deus!

Dirigindo-se ao Sr. Poe, já de pé, os olhos afundados nos fundos das órbitas e os cabelos alvoroçados, braços e pernas tremendo, as mãos tateando em vão os bolsos em busca de algum alívio químico:

— Perdoe-nos, Sr. Poe. Houve uma grande confusão, o senhor já pode ir embora. Pensamos que fosse… outra pessoa.

O homem do broche já lhe entregava sua maleta e a bengala de empunhadura prata, agora já suja de lama. Mantinha agora os olhos baixos.

— Reynolds, acompanhe o Sr. Poe à saída — e completou em voz baixa, apenas para o homem — e leve-o direto à estação. Com sorte ele vai embora e evitamos problemas com Neilson.

Deixando o cárcere, o Sr. Poe olhou por sobre os ombros. Viu o terceiro homem e o homem do broche conversando à luz da lanterna. Não pôde rever o vulto peludo de braços longos mas ainda ouvia os murmúrios das paredes suando a salitre e imaginava que pobres almas estariam ali encarceradas. O corpo cambaleante recebeu o ar frio da noite de Baltimore como uma estocada violenta. Quando as pernas fraquejaram, foi amparado por Reynolds. Desvencilhou-se assustado, empurrando o homem com o cabo da bengala contra o peito, quase colocando-o contra a parede de tijolos à sombra da iluminação do noturna. Reynolds, com uma expressão de desaprovação e raiva, agarrou o cabo da bengala e o puxou para si dizendo:

— Eu deveria surrar-lhe com isso!

O Sr. Poe tentou ainda, como pode, manter a bengala em mãos e, com um puxão de cada lado, ouviu-se um clique metálico de uma trava oculta. O corpo lustroso de madeira escura da bengala do Dr. Carter deslizou suave e escorregou revelando, como uma bainha que desfralda a espada, uma brilhante e prateada lâmina delgada de corte único e ponta aguda. O metal intocado refletiu os olhares surpreendidos de Reynolds e do Sr. Poe. Os homens olharam a lâmina fria e olharam-se. Reynolds, num impulso, usou o cabo da bengala que tinha em mãos para afastar a lâmina e tentou agarrar o Sr. Poe. Mas, à visão da arma em punho, o braço recobrou a destreza e, com um movimento circular, desvencilhou-se do corpo da bengala empunhado por Reynolds e foi cravar a ponta aguda no torso do rufião que aterrissou de costas contra a parede. O braço ainda recuou e avançou mais duas vezes, tingindo a roupa de Reynolds de um escarlate que se espalhava pelo tecido. A ponta da lâmina permanecia dentro do peito de Reynolds enquanto na outra ponta a empunhadura prateada pousava na mão relutante do Sr. Poe. O silêncio naquelas sombras era completo. Os olhos arregalados do rufião abatido encontravam as órbitas já quase vazias do escritor. A lâmina parecia vibrar a cada batida vacilante e fraca do coração que suspirava seus últimos ais. O som das batidas, lentas, ritmadas, era tudo o que se ouvia e preenchia os ouvidos e o espírito do destroçado Sr. Poe. tum-tum. tum-tum. Um coração na noite, apenas. Aqueles batimentos que preenchiam a noite e pareciam gritar em acusação.

Olhou em volta para se certificar de que ninguém estava vendo, ou para pedir ajuda, ou com medo de longos braços acastanhados. Um rufar de asas negras e um distante miado apenas responderam ao coração delator. Mas maior horror conheceu o Sr. Poe quando tornou a olhar o corpo fisgado na ponta da espada e no lugar de Reynolds viu sua própria figura, quase como um espelho de si mesmo, de olhos fundos e perdidos, cabelos arrepiados, esgar de horror congelado no rosto. E uma lâmina espetada no peito.

Finalmente, como despertado de um pesadelo, o pobre Sr. Poe recobrou o que pode dos sentidos e tirou a lâmina da figura à sua frente. Tomou o corpo da bengala e reembainhou a lâmina. Partiu apressado e aos tropeços sem olhar para trás, sabendo que de agora em diante também estava morto… morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança. Abandonado de qualquer réstia de luz, sabia que havia assassinado absolutamente a si mesmo.

Dobrou uma esquina com as pernas trêmulas fraquejando, com muito esforço se apoiando à bengala. Deixou cair a maleta que espalhou nas ruas conturbadas roupas e alguns papéis. Contornou um prédio coberto por cartazes de eleição, seguiu pela rua já um pouco mais larga e o joelho acabou vacilando. Um senhor de ampla cintura e olhos claros se aproximou e tocou o ombro para ajudar-lhe a se levantar, mas foi repelido por uma bengalada cega e instintiva que passou ao largo, derrubando o já desequilibrado Sr. Poe. Os olhos vazios e o espírito alquebrado não suportaram mais as emoções e o corpo cedeu amparado pelo Sr. Walker ao lado do Ryan’s 4th.

***

No hospital o Sr. Poe intercalava estados de inconsciência com de consciência delirante. A febre não apenas não cedia como havia aumentado por algumas vezes. Debilitado ao extremo, quando consciente o paciente ainda se mostrava muito excitável e qualquer emoção lhe iniciava uma espécie de breve a intenso frenesi que acabava por culminar num desmaio de muitas horas. O próprio Sr. Neilson Poe veio visitar o primo mas foi impedido pelo Dr. Moran de ver o paciente que estava em estado muito frágil.

Era noite de sábado. A noite agreste novamente aguardava silenciosa do lado de fora da janela basculante. Um grasnar longínquo reverberou nos umbrais do hospital. No quarto vazio, ouviu-se baixo um tum-tum. O som se repetiu. O Sr. Poe abriu os olhos sonolentos devagar. tum-tum. Olhou para o teto branco e alto. tum-tum. Parou por um momento, prendendo a respiração e, em silêncio escutou a noite. tum-tum. Num pulo pôs-se sentado na cama com as costas contra a cabeceira de metal branco. Assustado olhou para o quarto vazio. tum-tum. Ouviu em espanto o som daqueles batimentos novamente. tum-tum.tum-tum. O som de um coração pulsante, vingativo, delator. tum-tum.tum-tum.tum-tum. Parecia vir do assoalho logo ao lado da cama. tum-tum.tum-tum.tum-tum.tum-tum.

O Dr. Moran ouviu um grito bestial de seu escritório. Quando chegou ao quarto do Sr. Poe viu o paciente sendo contido por um enfermeiro. O corpo magro e consumido pela convalescença evidenciando ainda mais o crânio pronunciado por baixo do rosto drenado de vida, os olhos arregalados em pavor insano e dos lábios um grito animalesco fazia vibrar o bigode desalinhado repetindo “Reynolds!” enquanto apontava para o chão como se visse um espectro a se levantar da tumba com garras verdugas. Reynolds! tum-tum. Reynolds! tum-tum-tum.

tum-tum.
tum-tum
.

O relógio começou a primeira de cinco badaladas seguidas na madrugada do dia sete de outubro de mil oitocentos e quarenta e nove. tum-tum. tum-tum. O Sr. Edgar Allan Poe suspirou pela última vez, muito baixo, a ponto de ninguém ouvir, “Reynolds” e, num esforço final, suplicou finalmente:

— Que o Senhor salve minha pobre alma.

Pode ainda, por um breve e último instante, com os olhos vítreos mirados ao teto, imaginar toda a construção do hospital desabando, as largas paredes ruindo sobre ele, como um último sepulcro de um fim em ruínas.

tum-tum.
tum.

tum.

Não escreveu nem citou mais sentença alguma.

Nunca mais.

Jan
26
Lama na alma.

Ainda não bem amanhecia. O vapor (teria sido um vapor) cortava tranquilamente as águas mansas de Chesapeake Bay. Edgar Alan Poe, esse pobre diabo bêbado que vemos diante de nossos olhos, escorando-se numa das colunas do vapor, sorve em goles tensos um uísque barato, que mantém guardado no bolso de seu paletó. Não vemos seu rosto, mas sabemos que está ali, à espera de.

Sem esperar que alguém lhe acompanhasse com os olhos, Edgar, esse traste, quase cai ao ouvir a voz gutural do homem que lhe observa:

“Boa noite, Senhor Poe. Ou devo lhe dizer bom dia?!”

O homem que se apresenta a Edgar é alto, corpulento e aproxima-se sem dificuldades. Sua presença, apesar de não ser aceita pelo Edgar reflexivo dessa manhã de setembro, não pode ser negada, tampouco. “Há que se acostumar a ele, já não há mais muito mar para chegar a Baltimore”. Assim, pelo menos, acreditamos que Edgar tenha se dito ao permitir-se permanecer perto do estranho.

— Permita-me, Senhor Poe, perguntar-lhe: o senhor não se envergonha do que escreve?

— Ora! E por que o faria?

— Vejo que há muita intuição no senhor. Vejo sua alma inquieta, senhor Poe. Mas vejo que falta-lhe…

— Senhor, é um prazer encontrar um raro leitor  que me venha entediar os bagos a essa hora da manhã, mas creio-lhe inoportuno.

— O senhor não entende, senhor Poe? Não quereria jamais importuná-lo. Mas sinto que a escuridão em que se encontra sua alma necessita da luz que talvez eu carregue.

Edgar ri calorosamente. Seu riso é bêbado; os olhos permanecem sérios.

— E como pensa o senhor… Senhor…

— Reynolds!

—…que conseguiria trazer alguma luz à escuridão em que me encontro?

— Ora, Senhor Poe. Vejo que o senhor tem muita imaginação, assim não seria jamais capaz de negar. Mas vejo que falta-lhe, digamos, experiências no obscuro das coisas.

Edgar, pela primeira vez, põe-se a ouvi-lo. Oferece ao interlocutor um gole do seu uísque de bolso, que Reynolds solenemente nega. A companhia inicia, portanto, intenso colóquio a respeito da obra de Edgar “oh, meu caro Senhor Poe”, enunciando os méritos da obra singular e austera de um homem que cheira a angústia.

Reynolds, tendo ouvido de Edgar que este teria “compromissos inadiáveis ao desembarcar em Baltimore”, insiste no convite para conhecer um dos lugares mais mórbidos de que já se tinha ouvido falar no mundo, naquele mundo de 1849.

— Permita-me as mais sinceras desculpas, meu caro Reynolds. Mas não haverá modo de.

— Perdoe-me, meu sensato Senhor Poe. Mas imagino que o senhor não tenha levado em conta a ausência de escolha em relação a o senhor me acompanhar. É necessário que o senhor veja, Senhor Poe. Que o senhor saiba do que eu falo.

Ao aportar em Baltimore, Edgar segue Reynolds pela manhã nebulosa de uma cidade marrom. Caminham em silêncio pela rua de pedras, pela lama das pedras, o orvalho que lambuza-lhes os sapatos, as meias, as narinas, a alma de Edgar. Embarcam numa modesta carruagem posta ali à espera dos dois e em pouco tempo chegam às curvas tensas e escuras que os levarão aos portos no norte, nada metafóricos, tristes portos, reduto de bêbados e prostitutas, órfãos e segregados, infames e canalhas. As ruas fedem a mijo e vômito. Edgar, o gótico, o necrófilo, o medroso:

— Vejo que não gosta do que vê, Senhor Poe.

A carruagem pára defronte a um prédio ainda mais antigo do que o ano de 1849. A construção não inspira em Edgar senão temor. Reynolds quase tem de pegar na mão do visitante. Parados na porta, dois homens gordos, porém fortes, pescadores de que lado do mundo. Não se movem perante a entrada de Reynolds, mas impedem que Edgar entre pela grande porta de madeira. “Idiotas”, grunhe Reynolds, “não vêem que eu o trouxe?”

As horas que ali passaria em pouco tempo se tornariam dias.

Não havia nomes entre os visitantes (dezenas deles) que ocupavam as diversas salas subterrâneas do casario. Sabia-se, no entanto, ao se reparar em suas mãos e seus cabelos — não em suas vestimentas, porque pouco ou nada dispunham delas — facilmente se percebia serem homens e mulheres de posse. Oh! Homens e mulheres e crianças e animais naquilo que Edgar, do alto de sua obscuridade literária, jamais pensou que fosse possível haver.

— Vê, meu honorável Senhor Poe? Vê estes homens e estas mulheres? Atravessam o mundo para poder passar pelas experiências mais imundas que a perversidade humana é capaz de abarcar.

Edgar, os olhos cheios de lágrimas, o uísque sorvido a goles fortes, intransigentes, é incapaz de — oh Deus! oh Deus! — segurar a onda bizarra que agora mesmo — oh Deus! — toma seu corpo magro e disforme e — oh Deus! — endurece-lhe o membro com toda força!

Nos dias que seguiriam, embora os visitantes se fossem, ou seja, não passassem ali mais que o tempo destinado a seus estranhos desejos, Edgar — já sem a presença de Reynolds, fique claro — passaria andando de um lado para o outro entre as salas mal iluminadas dos intermináveis porões da loucura.

Entre os gritos e gemidos que ouvia, o choro de crianças, os dentes crispados de dor, o guincho de porcas, de cabras, de mulheres e homens sodomizados, o obscuro Edgar orava baixinho uma oração que lhe tinha sido ensinada na infância e da qual não acreditava-se que fosse recordar.

Um acidente, certamente, terem se esquecido do visitante. Um acidente, certamente, terem permitido que Edgar saísse às ruas da cidade úmida. Acidente maior ainda ser dia e Edgar poder reconhecer facilmente o caminho, avisar as autoridades, fazer baixar ali a Igreja e o Exército.

No entanto, já nada verdadeiramente sabia esse Senhor Poe. Nem do mundo nem de si. Conseguiu, no entanto, balbuciar que tinha fome ao cafetão Walker, que impedido de tocar no Senhor Poe (“Edgar, meu nome é Edgar. Faça vir ajuda, senhor! Ó, Reynolds, quanta sujeira”) ainda assim pôs-se a alimentá-lo e a avisar um conhecido de Edgar que viria a encontrá-lo no estado mais tarde incansavelmente descrito.

Amarrado a uma cama fria do Washington College Hospital, Edgar não diria mais nada que se pudesse de fato entender. Entre o choro e o riso contínuos, os olhos arregalados, a boca trêmula de prazer ou insana dor, ainda disse que estava tudo acabado, que escrevessem que Eddy — o Eddy das amantes, o prezado Senhor Poe dos admiradores ou simplesmente o nosso Edgar, terceira pessoa — não mais havia.

Horas depois de ter adentrado na escuridão grotesca dos porões do casarão de Reynolds, enquanto este dispunha a Edgar mais uma garrafa de bebida forte, Edgar boquiaberto, os olhos incapazes de perder cada detalhe do que de mais bizarro podia haver no mundo, naquele 1849, disse ao anfitrião “que era impossível que houvesse algo de mais brilhante e demoníaco na história da humanidade do que aqueles porões”. Reynolds sorriu, orgulhoso, e fez que sim com um sinal de cabeça.

Jan
21
Novo tema

Olá, colegas duelistas e leitores!

Pensei algum tempo no novo tema e, após me lembrar de uma conversa que tive com a Marina na tarde desta quarta-feira, decidi tentar ousar um pouco mais e complicar a vida dos colegas, talvez. É um tema que vai exigir um pouco de pesquisa, mas acredito que pode render bons contos.

Enfim. O tema é “Os últimos dias de Poe.”

Contextualizando. Edgar Allan Poe (1809-1849) é considerado um dos maiores escritores americanos de terror e mistério, sendo lembrado tanto pelos contos recheados pelo sobrenatural e fantástico quanto pelas histórias policiais. Foi somente após a sua morte, no entanto, que ele acabou sendo consagrado pelo grande público e crítica. E é justamente sobre sua morte que proponho o tema.

Dia 27 de setembro de 1849, após jantar com alguns amigos em Richmond, Poe dirigiu-se ao cais da cidade e, por volta das quatro horas da madrugada, embarcou num navio para Baltimore. Ele estava de casamento marcado com a Sra. Shelton, um antigo amor de juventude. No entanto, desssa madrugada em diante os fatos são nebulosos. Dia 3 de outubro, um velho amigo de Poe em Baltimore recebeu uma carta, assinada por um tal Walker, que dizia: “Há um cavalheiro, um tanto decomposto nas vestimentas, na Rua Ward Polls, dizendo atender pelo nome Edgar A. Poe, que parece estar muito atormentado e diz ter conhecimento com o senhor. Asseguro que ele precisa de assistência urgente”. Poe foi encontrado então pelo amigo em estado de profundo desespero, largado numa taberna sórdida, de onde o transportaram imediatamente para um hospital. Estava inconsciente e moribundo. Ali permaneceu, delirando e chamando repetidamente por um misterioso “Reynolds”, até morrer, na manhã seguinte, no dia 7 de outubro de 1849.

Tudo isso é fato. O que aconteceu, porém, com Poe durante esses dias em que esteve sumido e o que levou à sua morte permanece um mistério. Há várias hípóteses a respeito, mas nenhuma comprovada (pelo menos que eu saiba). É só pesquisar. Ou soltar a imaginação.

Textos devem ser postados até o dia 26, próxima terça-feira.

Jan
17
Votação

A votação já está aberta!

Escolha o seu preferido e anuncie aqui nos comentários.

O texto mais votado será o vencedor da primeira rodada do ano, e poderá escolher o próximo tema.

Não retornarei. É melhor que deixe isto claro desde o princípio. Sim, esta é uma carta de despedida. Por algum tempo pensei no momento da partida, mas jamais pensei neste momento. Esta carta não estava nos meus planos, nem nos mais recentes. Mas se há coisas que não se consegue falar pessoalmente, algumas delas ainda precisam ser ditas. Para que quem fique não fique à deriva, sem saber. Esta carta, veja bem, não é mais que um mero ritual. Um encerramento. Uma extrema unção, por assim dizer. Não para garantir absolvição ou perdão, que é provável que jamais os tenha, tampouco os mereça. Esta, bem sei, pode muito bem piorar ainda mais a situação. Ainda assim escrevo sem saber muito bem porquê. O fato é que vou-me. Não. Fui-me. Se você está lendo esta carta, já não estou. Fui para longe. Para onde um reencontro ou aquela conversa inevitável com amigos em comum não possa causar mais danos. Não guardo, acho, nenhuma mágoa. Uma tristeza, talvez. Levo, com certeza, boas lembranças. Levo-as comigo e para longe. E para nunca mais. Um novo começo para nós dois. Você fica, não posso negar nem evitar, com a pior parte. Encarar os conhecidos, explicar aos amigos, parentes. Encarar os restos de um vida que não é mais. Meio como conviver com um cadáver, eu acho, por algum tempo. Mas quanto antes enterram-se os cadáveres, melhor. Não procure motivo. Se disser que não os há, seria falso. A questão é que os há em demasia. Muitos, todos tão pequenos, mas que unidos não permitem outra solução. Ou permitam e eu que não tenho mais vontades, forças ou paciência de procurar. É tempo de cada um viver a vida que desejamos. Juntos, um de nós precisaria abrir mão. Como vinha sendo, em silêncio. Não nos cruzaremos mais provavelmente. Dificilmente você vai voltar a ouvir algo sobre mim. Ou eu sobre você. Mas pouco importa, como não importa esta carta. Percebe como ela não diz nada? Como nada esclarece, justifica? Não há história para ser contada que já não tenha sido vivida. Assim como há histórias ainda por viver. Como a extrema unção, esta carta não faz diferença para quem a recebe. Talvez faça, sim, alguma ainda que pouca, para quem a dá. Não é o moribundo que expia pecados e recebe a salvação, é o sacerdote que se sente um pouco menos inútil. Assim, esta carta termina. Um sacramento inútil, como o é tentar explicar o que não tem explicação. Justificar o injustificável. Lamentar o morto. Saio, portanto, para sempre. Deixo na testa um beijo. E uma cruz em óleo.

Pedro

Jan
16
Adeus

Eu sei o que você está pensando agora, neste exato momento. “Covarde”, você pensa. Você passou oito anos da sua vida me chamando de covarde. Agora não haveria de ser diferente. Mas eu sou um covarde, como você mesma sempre disse. Tentei diversas vezes mudar o ritmo da minha vida. Tentei trocar de emprego, largar aquela droga onde eu passei todos os dias da minha vida nos últimos 15 anos, sendo taxado de incompetente, para fazer o que eu realmente sempre sonhei em fazer da minha vida.

Mas vem você e me diz sem medir palavras que essa é a coisa mais idiota que já ouviu na sua vida. Diz que não faria sentido largar um emprego digno na firma para me aventurar num sonho infantil. E você ri da minha cara, diz que tenho medo de aceitar o fato de ter chegado ao meu limite. Me chama de covarde por sonhar, diz que tudo que eu faço é por medo de admitir que eu não posso ser melhor.

Diz que eu não sou um bom pai, que não sei o que se passa na vida de nossa filha, mesmo sendo ela que não se abre comigo. Você ri quando eu digo “nossa filha”, dizendo que eu não chego a ser um pai. Você sabe que ela nunca se entregou a mim, sempre foi apegada demais ao pai verdadeiro. Eu tentei me aproximar, eu juro que tentei… mas daí eu já vejo você aí, lendo essa carta e balançando a cabeça, me achando um covarde por tentar me explicar até mesmo numa carta de despedida.

Eu já tentei me abrir com você, tentei dizer o quanto você me magoa com esse jeito rude, pela forma que você me trata na frente de minha família, pelo que pensa e diz de mim, enquanto tento esconder as lágrimas de nossas brigas. Eu, que nunca levantei a voz para você, tenho que aceitar calado os tapas da sua falta de paciência comigo. E você me chama de covarde por não revidar. Mas como poderia eu erguer a mão, erguer um dedo para a mulher que amo?

Liguei para minha mãe, para avisá-la que eu iria te deixar. Ela riu da minha cara no telefone, disse que “a Verônica tinha razão quando te chamava de covarde”, que eu estava novamente me mostrando incapaz, que eu iria desonrar o nome da família por covardia. Por não ter coragem de te enfrentar. Mas eu tentei. Eu juro que tentei.

Ensaiei por vezes e mais vezes em frente ao espelho como eu iria te contar isso. Mas eu nunca tive coragem. Eu não conseguiria dizer adeus à mulher que amo. Eu sou um covarde. Eu não tenho mais o que fazer dentro dessa casa, eu não tenho mais o que fazer dentro dessa vida. Nunca tive coragem de te contar, mas eu fui demitido. Já faz mais de uma semana que eu vou todos os dias para a praça e fico lá sentado tentando tomar coragem de te contar que eu perdi meu emprego. Mas não consigo, e no final do dia quando você me pergunta, eu digo que o trabalho foi normal como sempre.

Eu não tenho coragem de te dizer essas coisas na sua cara. Não tenho coragem de dizer para a nossa filha que mesmo que eu não seja seu pai verdadeiro, eu a amo como uma filha para mim. Eu não tenho coragem de dizer ao meu chefe que ele está cometendo um erro ao me mandar embora. Eu não tenho coragem de dizer para você que você me machuca.

Eu não tenho coragem de admitir minha falta de coragem. Eu não tenho coragem de lutar pelo nosso amor. Eu não tenho mais coragem de ver seu rosto me criticando ao final de cada dia. Mas eu também não tenho coragem de ter de arcar com tudo isso. Eu não aguentaria essa coisa toda de advogado, de divisão de bens. De ver seu rosto me julgando do outro lado da mesa, de ser julgado como culpado pelos meus pais, do olhar de desaprovação da minha mãe. Eu não aguentaria tanta pressão de todo mundo. Então eu prefiro ir embora de uma vez. Definitivamente. O que é gozado, justamente porque você sempre disse que a palavra “definitivo” não existia no meu dicionário, que fazia parte da minha covardia esse meu medo de qualquer coisa que não pudesse mudar.

Pois eu mudei. Posso ter sido um covarde nos últimos oito anos. Posso ter sido um covarde nos últimos 15 anos. Posso ter sido um covarde a minha vida inteira. Mas agora, o meu maior ato de covardia é justamente o que exige mais coragem. É o mais definitivo de todos. É o único que exige um pensamento único e bem delimitado, a certeza total das consequências do que eu estou fazendo.

Então adeus, Verônica. Deixo as chaves em cima da mesa e as senhas e números de contas dentro do cofre, junto com um envelope. Nesse envelope está uma apólice de seguro que garantirá que meu ato não prejudique vocês. Por isso, não mostre essa carta para ninguém, ou a seguradora se recusará a pagar. Seja feliz, Verônica.

Pois minha covardia nunca mais vai ficar no seu caminho.