Duelo de Escritores

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Archive for February 3rd, 2010

Feb
3
O guri.

O guri, às vezes, ficava de canto. E poderia aqui se fazer toda uma dissertação sobre os cuidados às crianças que os adultos e as pedagogas tanto insistem em repetir. À exaustão. E o guri ficava de canto, brincando. (Vale lembrar, para fins didáticos desse texto, que todos fomos deixados muitas vezes de canto assim como, exaustos de um dia cansativo de trabalho, deixaremos os nossos guris para não nos incomodarem ainda mais do que nós mesmos conseguimos nos incomodar). Se ficava em silêncio por muito tempo, vinha o pai à janela ver se aprontava ou se vivia — um salto do sofá, um espasmo!, cadê o guri?, a respiração tranqüila, tá ali brincando.

O guri se entretém com brinquedos variados e aos quais não temos acesso, nós, meros mortais. Este guri pertence a outra estirpe, por assim dizer. E vive sozinho com o pai e a mãe,  não tem irmãos. Então é o tédio. Um dia entrou no escritório do pai e viu brinquedo novo, vários brinquedos novos. Não eram brinquedos, mas o guri não pensou nisso ao levar um deles pro porão.

Nunca mais aprontou, o guri. Não respondia ao pai e à mãe, arrumava o quarto, nunca mais se trancou no banheiro com revista de mulher pelada. O lugar do guri era no porão. Foi pra lá que levou o brinquedo (não é brinquedo, guri, tu não sabes?) que roubou do pai. E agora brinca de dia e de noite, de dia e de noite. Acorda na madrugada, pesadelo!, desce as escadas sem fazer barulho e com um toco de vela ilumina o brinquedo.

Ninguém desce mesmo ao porão. Ninguém se lembra de lá.

Mas veio a hora da mudança, empacotar as coisas, arrumar as malas, encontrar o que há muito não se lembrava que existia — quem já fez mudança, sabe — e visitar todos os cômodos da casa, todos os cômodos da casa, TODOS! Inclusive o porão.

Vem o pai furioso, agarra o guri pelas orelhas, suspende o moleque do chão, atira-o à grama, o guri chora. A mãe tenta acudir (como os adultos e as pedagogas agora intuem fazer), mas o pai levanta a mão e diz não chega perto! A mãe pergunta o que houve, o pai agarra o moleque pelo cabelo, pega a mãe pelo braço, desce as escadas correndo, os pés do guri não tocam o chão, o porão, chega perto do brinquedo e grita:

— Olha o que a merda do teu filho fez!

A mãe, horrorizada, cai em prantos. O pai, desamparado, rende-se à tristeza, maldito moleque, repete, maldito moleque. O guri chora. A mãe tenta ampará-lo, mas não consegue completar o abraço, sente raiva, a coitada, e tem medo do guri.

Nessa noite, ninguém mais falou. E ninguém jantou.

E ninguém dormiu. Só o guri.

Passada a raiva, a manhã seguinte era de empacotar lembranças, raridades e lixo que se acumula. Mas era também a hora da conversa, da calma, o pai a pedir desculpas ao guri — a mãe ainda não consegue abraçá-lo — e chega o momento da conversa. E quando o pai pergunta

— Por que, Javé?

o guri dá de ombros.

O pai se encarregou de destruir o que o filho havia feito. À mãe, coube o papel de limpar toda a sujeira. Na Terra, os momentos finais foram de desespero. Depois, o silêncio e a paz reinaram sobre o nada.