Duelo de Escritores

www.duelodeescritores.com

» Font Size «
Jan
26

O corvo

A bebida demais e a alegria de menos o deixavam com a aparência galante – e ele sempre achou curioso como todos os amigos escritores também eram assim. Estava feliz, ou pelo menos deveria estar. Ia casar-se, tinha amigos, os monstros de sua imaginação continuavam sendo exorcizados por folhas de papel rabiscadas. Eram quase quatro da manhã e decidira ir a Baltimore. De barco, como sempre fizera. Encontraria um velho amigo.
Há cerca de duas léguas da costa, talvez mais, ao término da última garrafa de conhaque, Poe começou a morrer. Completamente sozinho e bêbado, percebeu que a única companhia que realmente o fazia feliz era a sua – gargalhou alto e o riso se espalhou pelo mar, sem ter como voltar, ecoar – “coisa metido a gênio egocêntrico”. Para não admitir a necessidade que sentia da própria companhia, começou a conversar com Reynolds.
Ele era bonito, atlético até. Inteligente, de humor refinado, cultura quase insuperável. Teve um caso com a noiva de Reynolds e ele sequer se importara. Tinha cabelos penteados que não pendiam para lado nenhum e uma aparência delicadamente sóbria. Foram quatro dias de convivência. O suficiente para que Poe percebesse que jamais conseguiria viver sem Reynolds. Era o único que entendia. Era quem rimava seus versos.
Quando percebeu que Reynolds estava distante, disforme, opaco e quase invisível aos seus olhos, Poe se desesperou, por vezes quase caiu. Imundo, encharcado e com todo o pouco dinheiro do bolso fez com que Reynolds reaparecesse por mais dois dias. Até que o fundo do poço chegou.
Sóbrio e sem dinheiro, Poe sucumbiu a loucura. Reynolds tinha sido afogado no mesmo mar que nascera.
———–
Posfácio
No barco, Poe concluiu que seu epitáfio seria Reynolds. Morreu antes, morreu cedo, morreu louco. Na pedra, escrito: O Corvo.

A bebida demais e a alegria de menos o deixavam com a aparência galante – e ele sempre achou curioso como todos os amigos escritores também eram assim. Estava feliz, ou pelo menos deveria estar. Ia casar-se, tinha amigos, os monstros de sua imaginação continuavam sendo exorcizados por folhas de papel rabiscadas. Eram quase quatro da manhã e decidira ir a Baltimore. De barco, como sempre fizera. Encontraria um velho amigo.

Há cerca de duas léguas da costa, talvez mais, ao término da última garrafa de conhaque, Poe começou a morrer. Completamente sozinho e bêbado, percebeu que a única companhia que realmente o fazia feliz era a sua – gargalhou alto e o riso se espalhou pelo mar, sem ter como voltar, ecoar – “coisa metido a gênio egocêntrico”. Para não admitir a necessidade que sentia da própria companhia, começou a conversar com Reynolds.

Ele era bonito, atlético até. Inteligente, de humor refinado, cultura quase insuperável. Teve um caso com a noiva de Reynolds e ele sequer se importara. Tinha cabelos penteados que não pendiam para lado nenhum e uma aparência delicadamente sóbria. Foram quatro dias de convivência. O suficiente para que Poe percebesse que jamais conseguiria viver sem Reynolds. Era o único que entendia. Era quem rimava seus versos.

Quando percebeu que Reynolds estava distante, disforme, opaco e quase invisível aos seus olhos, Poe se desesperou, por vezes quase caiu. Imundo, encharcado e com todo o pouco dinheiro do bolso fez com que Reynolds reaparecesse por mais dois dias. Até que o fundo do poço chegou.

Sóbrio e sem dinheiro, Poe sucumbiu a loucura. Reynolds tinha sido afogado no mesmo mar que nascera.

———–

Posfácio

No barco, Poe concluiu que seu epitáfio seria Reynolds. Morreu antes, morreu cedo, morreu louco. Na pedra, escrito: O Corvo.

Commnets

  1. de todos, pra mim, foi o melhor Reynolds que apareceu. todo mundo saiu a procura de reynolds, mas nada mais justo e adequado a quem criou tantos grandes personagens misteriosos, que o seu último fosse o seu maior misterio. O texto, foi interessante. Mas não chegou a me arrebatar. mas a ideia da última grande obra inacabada atormentar o artista, achei bacana. e foi uma saída verrossimil levando em conta a historia do Poe e suas maluquices.

  2. Não chegou a me cativar, nem sei bem oa certo porque. Talvez nao tenha sido a história em si, e sim a forma como ela foi contada. Faltou um pouco daquela poesia que normalmente teus textos carregam.
    Mas achei bem lega a ideia da história toda ter se passado dentro de sua cabeça, pois é realmente ali que a morte começa.

  3. Apesar de parecer claro que o texto foi feito meio às pressas, e sem muita pesquisa biográfica, eu achei bem interessante. O clima psicológico caiu como uma luva em se tratando de Poe, e acredito que essa loucura final, tema central do conto, foi bem retratada, apesar de não estar explícita pro leitor (o que poderia estragar o texto, na minha opinião). Curto e grosso. Valeu.

Leave a Comment