O guri, às vezes, ficava de canto. E poderia aqui se fazer toda uma dissertação sobre os cuidados às crianças que os adultos e as pedagogas tanto insistem em repetir. À exaustão. E o guri ficava de canto, brincando. (Vale lembrar, para fins didáticos desse texto, que todos fomos deixados muitas vezes de canto assim como, exaustos de um dia cansativo de trabalho, deixaremos os nossos guris para não nos incomodarem ainda mais do que nós mesmos conseguimos nos incomodar). Se ficava em silêncio por muito tempo, vinha o pai à janela ver se aprontava ou se vivia — um salto do sofá, um espasmo!, cadê o guri?, a respiração tranqüila, tá ali brincando.
O guri se entretém com brinquedos variados e aos quais não temos acesso, nós, meros mortais. Este guri pertence a outra estirpe, por assim dizer. E vive sozinho com o pai e a mãe, não tem irmãos. Então é o tédio. Um dia entrou no escritório do pai e viu brinquedo novo, vários brinquedos novos. Não eram brinquedos, mas o guri não pensou nisso ao levar um deles pro porão.
Nunca mais aprontou, o guri. Não respondia ao pai e à mãe, arrumava o quarto, nunca mais se trancou no banheiro com revista de mulher pelada. O lugar do guri era no porão. Foi pra lá que levou o brinquedo (não é brinquedo, guri, tu não sabes?) que roubou do pai. E agora brinca de dia e de noite, de dia e de noite. Acorda na madrugada, pesadelo!, desce as escadas sem fazer barulho e com um toco de vela ilumina o brinquedo.
Ninguém desce mesmo ao porão. Ninguém se lembra de lá.
Mas veio a hora da mudança, empacotar as coisas, arrumar as malas, encontrar o que há muito não se lembrava que existia — quem já fez mudança, sabe — e visitar todos os cômodos da casa, todos os cômodos da casa, TODOS! Inclusive o porão.
Vem o pai furioso, agarra o guri pelas orelhas, suspende o moleque do chão, atira-o à grama, o guri chora. A mãe tenta acudir (como os adultos e as pedagogas agora intuem fazer), mas o pai levanta a mão e diz não chega perto! A mãe pergunta o que houve, o pai agarra o moleque pelo cabelo, pega a mãe pelo braço, desce as escadas correndo, os pés do guri não tocam o chão, o porão, chega perto do brinquedo e grita:
— Olha o que a merda do teu filho fez!
A mãe, horrorizada, cai em prantos. O pai, desamparado, rende-se à tristeza, maldito moleque, repete, maldito moleque. O guri chora. A mãe tenta ampará-lo, mas não consegue completar o abraço, sente raiva, a coitada, e tem medo do guri.
Nessa noite, ninguém mais falou. E ninguém jantou.
E ninguém dormiu. Só o guri.
Passada a raiva, a manhã seguinte era de empacotar lembranças, raridades e lixo que se acumula. Mas era também a hora da conversa, da calma, o pai a pedir desculpas ao guri — a mãe ainda não consegue abraçá-lo — e chega o momento da conversa. E quando o pai pergunta
— Por que, Javé?
o guri dá de ombros.
O pai se encarregou de destruir o que o filho havia feito. À mãe, coube o papel de limpar toda a sujeira. Na Terra, os momentos finais foram de desespero. Depois, o silêncio e a paz reinaram sobre o nada.
PÔrra! Mandou bem. Talvez uma outra hora volte pra comentar melhor se conseguir. Mas por hora, só consigo ressaltar a curiosidade e a revelação. Revelação… Taí uma palavra que não poderia se encaixar melhor. Revelation.
Eu não posso dizer que entendi 100% de primeira o ocorrido. Depois é que fui ligar o nome do guri ao seu significado no contexto da história. Acho que é um texto que merece uma segunda e terceira leitura e, principalmente, rende boas discussões. Por isso mesmo, tem o mérito de causar curiosidade, de fazer o leitor se esforçar pra captar o negócio (ou só eu que fui lento pra cair a ficha??). A narrativa é leve, foge um pouco dos padrões, com sucesso. Gostei muito do “diálogo” com o leitor, que é algo ousado e poucos contistas/romantistas fazem hoje em dia (pelo menos os que conheço).
Antes do Javé eu tinha sacado a lógica, mas em parte porque tinha visto antes o comentário do Rodrigo na votação (dizendo que tinha dois textos “religiosos”, e faltava um). Há alguns indícios sutis na narração da revelação do final. Fico curioso para saber se os pais do guri são apenas personagens de conveniência ou se tu já tinha alguma subestória imaginada (ou seja, tendo idéia de quem seria exatamente o pai e a mãe).
Tá, peraí, eu entendi direito?
HAHAHAHAHA
Sério, eu fiquei bem na dúvida se entendi mesmo e ate mesmo se só eu ri alto com a ideia de mundo sendo corrompido que o Labes criou. Mas adorei isso aqui, dei risada. Será que todas as vivências mais atuais do mundo não passam simplesmente de uma brincadeira de criança?
E mais, a escolha do porão tem um significado bem forte. Ou sou apenas eu que estou imaginando coisas?
então, Felix, dava pra ter alongado as personagens, mas aqui elas são apenas figurantes – embora a idéia desse tipo de grandiosidade infinita muito me atraia. Na verdade, pensava em mostrar Javé como fazendo parte de algo muito maior (não sendo, portanto, o Uno), pois que filho e criança, então eventualmente pai e avô e assim por diante. Talvez para tentar mostrar que nós mesmos, muitas vezes, destruímos alguns mundos… brincando.
While this subject can be very touchy for most people, my opinion is that there has to be a middle or common ground that we all can find. I do appreciate that youve added relevant and intelligent commentary here though. Thank you!