Manhã veranil, o calor atrai os mosquitos, que atacam a pele de Giacomo. O suor se acumula na nuca do jovem, que pesca sentado às margens da baía. O sol castiga sua pele morena, fazendo arder ombros e as costas das mãos. A temperatura ultrapassa o aceitável, e Giacomo enrola um pano ao redor do caniço de haste metálica. Leva a garrafa junto aos lábios, já duvidando de que tenha sido uma boa ideia sair para pescar num dia tão quente.
O pescador troca as iscas e lança novamente a linha ao mar. Poucos minutos se passam até que algo apareça na superfície a alguns metros de distância. Um peixe de porte mediano bóia de barriga para cima. Giacomo enxuga o suor da testa e solta um palavrão, ao perceber que nem mesmo os peixes estão aguentando o calor exagerado. Quando levanta-se para arrumar o material de pesca, se detém por um instante com os olhos fixos na água em movimento.
Giacomo solta a vara de pesca no chão e leva as mãos à cabeça. Ao seu redor, centenas de milhares de peixes surgem na superfície.
***
- Mamãe, mamãe!
- O que foi, Ariel?
- A lagoa mamãe, a lagoa.
- O que tem a lagoa, filha?
- Tá vermelha, mamãe!
- Vermelha? Tá bom, filha, tá bom. Vai se lavar que logo a mamãe vai ver isso.
- Mas mamãe…
A pequena Ariel nem mesmo teve tempo para conquistar novamente a atenção de sua mãe, que lavava os lençóis no pequeno galpão nos fundos da casa no subúrbio. Antes mesmo que ela pudesse terminar a frase, foi interrompida pelo grito de pavor que sua mãe soltou ao virar-se novamente para o tanque. Os lençóis brancos estavam submerso em sangue rubro e espesso, que já impregnava as mãos da dona de casa e corria com velocidade da torneira.
Nos segundos seguintes, os gritos ecoaram por cada uma das casa da vila.
***
“Doutora Roberta, favor comparecer à enfermaria. Doutora Roberta, favor comparecer à enfermaria”. Os passos de Roberta ecoavam por causa do sapato fechado, de salto baixo, nos corredores do hospital. “Eu já devia estar em casa a essa hora”, repetia para si mesma, já vestida nas suas roupas do dia-a-dia. Um chamado no final da noite de sábado era o que ela menos precisava para encerrar o seu já prolongado turno de trabalho.
- Doutora, acho melhor você se preparar, temos três ambulâncias a caminho.
- Não há quem possa atender essas pessoas? Eu já me troquei, estou aqui há 14h.
- Doutora, você não entendeu. As ambulâncias estão cheias.
- Cheias, como…?
As portas do Hospital se abrem com o grito dos socorristas, que trazem os pacientes apoiados nos ombros, em macas, cadeiras de rodas, e até no colo. São mais de 40 pessoas com chagas terríveis espalhadas pelo rosto e braços. A maioria grita e arranha os olhos com força.
- Meu Deus, o que é isso?
- Chuva ácida, veio do nada. Temos mais cinco ambulâncias a caminho.
***
Wong Lii acorda como usual, desliga o despertador ainda sonolento e caminha em direção ao banheiro. Abre o chuveiro e escova os dentes enquanto o vapor enche o recinto. O suor escorre das paredes e espelho, e ele para por alguns segundos sem ação, embaixo da água quente. O dia de Wong Lii é tomado pela rotina. Exatamente à 6h50min seu relógio desperta, e ele logo está embaixo do chuveiro. São cerca de 20 minutos para banhar-se e preparar o café com ovos que toma todas as manhãs. Veste-se, separa o material das aulas e coloca dentro da pasta, junto com o notebook. Alonga-se todas as manhãs por pouco mais de dois minutos na sacada do prédio, recebendo no rosto a luz do sol que recém nasceu, beija o retrato da falecida esposa e vai para a faculdade.
Nesta manhã, porém, algo fugiu da rotina de Wong Lii. Parado em pé, na varanda, o professor da Universidade de Tóquio olha fixamente para o sol nascente. Ou melhor, para onde deveria estar o sol nascente. Atordoado, bate com o dedo indicador no vidro do relógio de pulso. O sol deveria estar ali há vários e vários minutos. Pelas ruas e janelas de Tóquio, olhares atônitos fitam a escuridão.
***
Nós destruímos o mundo, você sabe. Foram milhares de avisos, incansáveis pesquisas, alertas atrás de alertas. Mas simplesmente nada mudou. O aquecimento da Terra foi citado como piada por muitos, e mesmo os que acreditavam, não queriam largar o conforto de seus carros e indústrias. O mundo não poderia suportar a doença que o atingia diretamente no coração: os seres humanos. A raça humana é uma praga que atinge o sangue deste planeta de geração em geração. Por muitas vezes tentamos alertar o mundo, por muitas vezes fomos ignorados. Ele veio pessoalmente conversar com sua cria, e foi ignorado. Não houve nada que pudesse ser feito para que a raça humana parasse por ao menos um minuto para pensar no que estava fazendo. Por isso, Ele não teve muita escolha. E é por isso que estamos aqui.
- E os carros, e as pessoas? E as nossas roupas?
- Nada disso nos pertence mais, Eva. Agora somos só eu e você. Recomeçando o mundo da nossa maneira.
Seria mesmo da maneira deles?
Um pouco às pressas, mas poderia render esse lance de reconstrução igual outra vez. sei lá, não sei mto o q comentar.
Acho que a ligação com a questão climática foi pertinente e deixou o texto com uma cara de atual. Eu só achei que o “monólogo” final ficou meio altoexplicativo demais, como se quisesse justificar todos os acontecimentos anteriores, e pode soar meio forçado… o final, porém, com Adão e Eva, foi uma boa sacada, a melhor, acredito, do texto.
Em relação à mensagem do texto, eu pensava assim há vários anos (não na parte d’Ele, mas gostei desse toque fantasioso). Agora, muitas reflexões e discussões me fizeram mudar de ideologia. Mas o texto em si é legal, embora não sei se foi postado em cima da risca por ter sido feito na última hora. Achei a cena da chuva ácida bem forte, ficaria demais na tela. Nas outras um pouco mais de desenvolvimento ajudaria no impacto.
Putz! Veio aqui um Caim invertido, pra falar do Saramago. Sim: aqui existe opção. Não curti muito o desenvolvimento – apesar de pertinente – baseado no aquecimento global e tal. Soou, para mim, um tanto doce a história do “nós avisamos”. Enfim: nem o final otimista deu conta de tirar o brilho de Adão e Eva surgindo grandemente no final do texto.
Em tempo: a questão cíclica, apesar de uma crença pessoal, veio no decorrer do texto. Eu tinha apenas as cenas e a ideia basica da historia, mas ainda nao havia escrito. Passar pro papel, em si, foi feito na pressa. Por isso a linguagem pobre e pouco ilustrativa.