Duelo de Escritores

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Feb
26

Consultório.

Simples, doutor, um dia a gente tem tudo, noutro dia a gente não tem nada. Eu mesmo sou exemplo disso, veja o senhor: já tive Deus. Mas tem um momento na vida da gente em que a gente se perde e que a vida perde a gente. Imagine o senhor como aconteceu: eu era jovem, eu era saudável, até bonito dava pra dizer que eu era: eu era alimentado e me vestia, não passava frio, não tinha uma saudade, não tinha muita ansiedade, por que manter isso de agradecer e pedir e agradecer, essa rotina tosca de quem vai à igreja? Eu me perguntava e não encontrava resposta; pra tanta coisa a gente não tem resposta, não é?, o senhor concorda?, acontece então que larguei Deus, doutor, o senhor veja: não havia mais o que eu pudesse esperar dele, nem mesmo que existisse. Simples, não é? Nem mesmo quando eu comecei a sentir falta dela, o senhor veja, quando eu pensava em me matar, aqueles dias difíceis, o senhor ainda não me conhecia, naqueles dias difíceis eu queria orar, pedir ajuda de Deus e essas coisas todas, mas Ele já não estava mais ali.

 

Eles também não estavam mais lá, eu disse pro senhor: eu tinha uma causa, e foi por eu ter traídos os meus — é assim que a gente se referia um ao outro, éramos os nossos, sabe?, a gente dizia: eu tenho os meus para nos referirmos a nós — que eles me abandonaram; a gente tinha uma causa pela qual todos, sem exceção, estavam dispostos a dar a vida, a pagar com sangue, mas principalmente cobrar em sangue e vidas. Aconteceu de eu me tornar vermelho muito tempo antes de eu saber das coisas, essas coisas, pode se crer numa sociedade, não é? E quando eles precisaram, doutor, quando eu tinha nas minhas costas mais do que dez vidas jovens e idealistas, eu os traí, eu tive medo, o senhor entende? E tanto que nos haviam treinado para que não sucumbíssemos à tortura, mas nem cheguei a tomar choque, não chegaram a esmagar os meus bagos, não fizeram nada comigo, porra! Eu comecei a chorar antes da hora, e a na hora que o policial me agarrou por trás — juro que pensei que ele fosse comer meu cu — eu comecei a chorar como criança e expliquei tudinho, disse quem mandava em quem, disse quem obedecia, dei endereços, dei com os burros n’água, o senhor acredita? E quando eu vou dormir, doutor, quando eu vou dormir eu escuto aquelas vozes que eu não cheguei a ouvir, as vozes dos meus companheiros de causa, dos meus companheiros, sabe? E eles me dizem que eu sou um filho da puta, que eu merecia mesmo era que minha mãe me arrombasse meu cuzinho, será que tem relação, doutor, o meu cu com a traição? E a minha mãe, aonde entra nessa história?

 

Não que eu a amasse, doutor, nem nada. Mas quando eu a vi beijando outro homem, sabe?, um ardume no peito, uma coisa ruim, eu vomitei verde ali mesmo, vomitei meus pés, eu não a amava nem nada, doutor, mas a dor que se sente, a dor que eu senti, entende?, o senhor consegue me entender? Porque eu não consigo, por mais que eu tente. E não é uma questão de ser traído, porque traição acontece com quem ama, não é? Mas eu não amava nem nada, por isso não consigo entender o porquê de tanta dor, de tanta angústia e de tanta saudade. Se eu a amasse, o senhor há concordar, se eu a amasse, poderia muito bem me sentir traído, mas não se tratava disso. O senhor consegue me dizer do que se trata, então?

Commnets

  1. Eu particulamente gosto muito desse estilo de narrativa que, ao meu ver, você está sacramentando. É despojado, ácido, meio visceral. É um estilo meio cru (no bom sentido da palavra). Nesse caso, gostei muito mais do modo como você conduziu o texto, das expressões que usou, da abordagem em primeira pessoa, do que o conteúdo em si, que está bem interessante, mas o que chama mais a atenção (pelo menos pra mim), é a forma como esse conteúdo foi traduzido.

  2. existencialista isso, não? A passagem de estado, do tinha tudo pro tinha nada, assim, do nada e sem explicação é que mais chamou a atenção. Não colocar uma cena ou motivo para que isso acontecesse, acho que foi a tônica eo personagem e, principalmente, a tese do texto. às vezes é difícil aguentar a tentação de precisar de um motivo. e que diferença faz esse colocar ou não colocar.

  3. Achei bacana, mas a mudança de um parágrafo pro outro foi meio às custas, eu acho. Gostei muito da temático do início, que meio q se perder com o decorrer. Uma pena.
    Em compensação, a frase: “será que tem relação, doutor, o meu cu com a traição?” foi uma daquelas boas frases que só tu sabe mandar no meio do texto.
    Sai com uma naturalidade incrível, mexe num tabu bacana, e demonstra o que se passa de verdade com o personagem, e eu gosto muito disso. Essas liberdades de escrever essas coisas que outros atores não escreveriam já virou tua marca registrada, na minha opinião. É o que eu mais admiro nos teus textos.

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