Duelo de Escritores

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Feb
27

traição.

Eu procuro a porta como quem precisa desvendar um segredo, e a cada sombra que vejo se aproximando do chão é quase um crime contra a minha idoneidade física. Eu queria levantar e parar ao lado da porta, esperando que ela viesse. Volta e meia meu coração dá pulos, sobressaltos, e eu penso que ela está chegando. Eu que não acredito nessas coisas acho que deve ser coisa do destino isso de sentir quando ela está chegando.

Tem gente falando comigo e eu quero escutar. É um cara bacana, que fala de coisas legais. Presa atenção, psiu. Ei, olha ele falando que pode precisar dos seus serviços. Dinheiro, rapaz. Ela não vai chegar, calma.

E aí ela vem. E meu peito que eu vivia mandando parar de bater forte pára completamente e o vazio faz com que eu só queira que ele volte a bater e nada funciona porque ela chegou, e ela está linda, e ela é cada vez mais linda, e ela está chegando, e ela vai fingir nem me ver. E quando ela se aproxima, na mesa ao lado, meus olhos fixam nela e eu quero olhar pro outro lado, fingir que não estou nem aí. Respiro fundo pra tentar fazer meu peito parar querer me matar e percebo que parece que cada vez que penso que ele pode se acalmar sinto como se a cadeira fizesse um quase inaudível e completamente ensurdecedor “toc-toc-toc”.

Ela está falando! Escuta, escuta: é aquela voz suave, meio rouca. Ela está feliz. Está falando sorrindo. É bonito quando ela fala sorrindo. Pára, pára. Ela está chegando, ela está chegando.

Quando as mãos delas encostam despretensiosamente nas minhas costas, com um gesto simples, um quase cumprimento, meu corpo simplesmente surta. Eu grito, clamo, quase suplico pra que o meu peito pare de bater tão forte e ele acelera. Minhas mãos suam, meu rosto ferve e eu penso que só queria reagir normalmente: não rir nervoso, não falar alto, não gaguejar.

Pára seu imbecil! Que piada ridícula. Fica quieto. Não, não, não, não arrepia! Ai, cacete. Calma, respira fundo. Não é nada. Um contato de trabalho. Só isso. Não, não! Não encosta nela dessa jeito! Não… não sorri assim bobo.

Quando chego perto dela, me traio. Meu corpo me trai, meu pensamento me trai. E não existe traição pior. E melhor.

Commnets

  1. Humm… eu não sei. Eu curti. Mas minha leitura se prendeu mesmo e teve o ponto alto no final, o último parágrafo. Um grande final. Antes disso, achei meio confuso. Não digo confuso, talvez meio forçado. Acho que isso ocorre por sermos jogados de paráquedas nessas sensações tão fortes, sem sabermos o que está por trás delas – quem é essa mulher capaz de fazer isso com o pobre coração do homem, o que fez ele chegar a tal ponto. Isso não é um defeito, é um recurso interessante, mas, nesse caso, acho que deixa o leitor meio sem chão, sem referência pra embarcar de vez na viagem do narrador e ter o coração batendo mais forte também.

  2. concordo com o waltrick, mas em contrapartida, acho que aí é que está a beleza do texto. O leitor fica sem chão, fica confuso, segue na mesma pira do personagem. Mas o final redentor, explicativo, faz todo o redemoinho de emoções do narrador (e do leitor) valer a pena. A confusão proposital cai como uma luva pra esse texto. Uma autotraição bem bacana.

  3. Achei muito bom justamente pelo fato de que no texto inteiro a gente fica pensando “onde diabos está a traição?”. E isso quebra um pouco a lógica do Duelo. A gente sempre se pergunta nos textos “e se esse texto nao fosse do Duelo, e se eu não soubesse qual o tema, será que ele funcionaria?”. E esse texto, de certa forma, destrói essa certeza. Ele seria um texto normal se a gente não soubesse o tema. Como a gente sabia, parecia que ele não fazia sentido, até o último parágrafo.
    E o último parágrafo parece que meio que explicou a piada. Sinceramente, ainda não consegui decidir se isso é bom ou ruim. Não gosto de finais que expliquem a piada. Mas, em compensação, se não tivesse explicado, a maioria não ia entender a ligação com o tema.
    Então fiquei confuso.

    Ah, e mais uma coisa que vale a pena comentar. Até o último parágrafo, eu tinha certeza que esse texto era do Labes. Só por isso, por quebrar um pouco o seu proprio estilo (no final é retomado com o clássico “a traição em mim”) já valeu a leitura.

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