Ela me acorda com um sorriso, mas não faz perguntas. Me dá um beijo na testa e sai do quarto, deixando que eu me espreguice demoradamente e acorde com a velocidade de um bicho-preguiça. Entro embaixo da água quente do chuveiro e minutos depois ela me faz companhia, linda, magra, com aquele corpo pequeno e frágil, com a pele branca e suave de uma fada. Ela tem os olhos mais brilhantes que já vi. Os dentes brancos são emoldurados por um sorriso sem igual. Um sorriso que cativa, que encanta. As maçãs do rosto levemente rosadas, o queixo pequeno, as pequenas rugas que se formam ao lado dos olhos enquanto ela sorri.
Ela se enrola na toalha, escondendo somente o essencial. Ela não tem vergonha, mas é um reflexo natural. Caminha até o quarto nas pontas dos pés, descalça no piso gelado. Se eu vou para a sala com o intuito de ligar a tevê, ela antes liga o aparelho de som com um CD novo. “Ouve isso, descobri na net por acaso e achei a tua cara”, ela diz. Não interessa qual o estilo de som: um pop romântico, um rock inglês ou um indie com riffs repetidos até a eternidade. Foi procurando qualquer coisa no computador que ela o encontrou, e instantaneamente, pensou em mim.
Desligo a tevê e antes mesmo de me virar, sinto ela me abraçando, se pendurando em minhas costas. “E aí, gostou?”, pergunta com um sorriso bobo. Está linda: roupa de ficar em casa, uma calça de ginástica já meio velha, que ela nunca teria coragem de usar na rua, e a blusinha mais leve e confortável que encontrou no armário. O cabelo preto ainda está molhado, molhando junto a minha camiseta.
Eu busco um colchão para jogar no chão da sala, ela busca um cobertor e os travesseiros. Ela adora champanhe, mas aceita um bom vinho. Não que fosse negar uma caipirinha ou uma cerveja gelada, afinal a bebida é o de menos, o que interessa é a companhia e a situação em si. Sempre nos combinamos, um dia um bebe e o outro leva o carro. No outro dia, trocamos. As saídas são tão boas quanto os dias passados em casa, deitados na frente de um filme-cabeça. Shows de rock, exposições de arte, lançamentos de livros, rodas de discussão filosófica, tudo que alimente a mente. Passear no parque, andar de bicicleta, fotografar tudo que ver pela frente, tomar um café quente num dia frio, tudo que alimente a alma. Namorar a luz de velas, sair com os amigos, entrelaçar os dedos das mãos, fazer/receber cafuné, viajar, tudo que alimente o coração.
Ela tem um irmão mais novo, que virou meu também. Moleque gente boa, gosta de música, de filmes, e todo tipo de cultura inútil como eu era na idade dele. Costuma acompanhar a gente sempre que pedimos pizza, vive me mostrando joguinhos interessantes no computador e eu vejo que ele vai ser um cara e tanto. Ela incentiva a nossa proximidade, aproveita para brincar junto em frente ao computador e dar risadas até o estômago doer.
Ela me olha de um jeito que me encanta. Gosta das mesmas coisas que eu, sente orgulho de mim. Mas não é um orgulho maternal, uma coisa desmedida, é um orgulho cheio de significados, cheio de admiração e estudo. Ela é culta, é inteligente, trabalha com a lógica sem esquecer que tem sentimentos. Ela é pura alma, pura poesia.
Se nos amamos com nossos corpos colados, temos grandes discussões sobre os rumos da humanidade até mesmo quando estamos nos falando apenas pelo MSN. Ela não é ciumenta, não fuça meu e-mail, não tem medo das pessoas em meu Orkut. Ela pode me deixar ir sozinho ao futebol ou a um show que não possa ir, mas me acompanha com um sorriso no rosto sempre que possível. É incrível como ela gosta das mesmas coisas que eu, como ela é sincera, simples, apaixonada sem me sufocar. Me encanto com a forma como ela me entende, mesmo que muitas vezes eu mesmo não consiga me entender. Ela me põe pra cima quando eu ando muito down, sem cobranças e atitudes forçadas. É com um simples sorriso que tudo acontece, numa fração silenciosa de troca de olhares.
O restaurante japonês é nossa perdição, sempre que queremos algo além da pizza de calabresa em frente da tevê. Seu AllStar vive surrado, mesmo os recém-comprados. As blusinhas pretas, o cinto, o tênis, a calça jeans rasgada. A tatuagem na nuca e também as outras, escondidas das vistas dos outros. Aquelas são só minhas. São meu porto seguro, o pedaço de pele suada onde me perco quando fazemos amor. Seja na cama, no sofá, no chão da sala, no banco do carro, embaixo do chuveiro ou aonde for. Nos entendemos e não temos pudores. Ignoramos nossos medos, vivemos em carne viva. Temos plena consciência de que nada dura para sempre, e que um amor é feito por dias bons. Lutamos, por isso, por dias bons. Dia após dia. Nos amamos com a alma pura de adolescentes. Com a mão suada, os lábios trêmulos, os olhos brilhantes.
Escrito originalmente em 13 de agosto de 2008, sobre a personificação da mulher ideal.
Ahhh, eu ia justamente perguntar se existe mulher assim… hehehe… teu texto me deixou um pouco deprimido, ainda mais depois dum final de semana tumultuado.. o que eu queria era chegar em casa agora e encontrar uma mulher assim, na verdade, queria é encontrar minha namorada, que, com toda a modéstia, tem muito dessa mulher ideal aí (ou é a gente que quando se apaixona vê perfeições de mais e defeitos de menos?). Mas, apesar dessa vontade no momento inalcançavel, gostei sim do texto. Eu só acho que teria mais impacto se, em algum momento, você tivesse deixado claro que era uma personificação da mulher ideal. Senão, pode parecer um texto que vc escreveu para uma pessoa em especial, e daí o leitor pode ficar meio sem saco por achar que está lendo só os suspiros de um rapaz apaixonado (achei isso em alguns instantes). Mas as descrições estão bem bacanas, o texto flui bem, as cenas saltam na cabeça com facilidade.