Duelo de Escritores

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Posts Tagged ‘contos’

Olhava para o céu de agosto procurando algo entre a poluição e os vãos do viaduto sobre a cabeça. O pescoço levantado revelava uma barba mal feita e as roupas esfarrapadas tinham a cidade impregnada nas tramas. E a cidade, por sua vez, impregnava-se deles, entre os pés coloridos e pichados “veado” dos viadutos. Mas Seu Coelho não era veado. Só era pobre. Tinha o que lhe cabia na sacola de lona e as cores do viaduto.

— Olhando o quê, Seu Coelho?

Sempre lhe chamavam Seu Coelho. Nem era velho, mal passava dos quarenta. Mas a verdade é que aparentava mais, e ninguém nunca lhe perguntou sua idade.

— Lua cheia hoje. Não dá de ver por causa da fumaça, mas tá mais claro lá, ó.  Lua cheia.

— E daí?

— É bonito, só. Mais bonito que o viaduto ao menos.

— Sai daí, homem, que tá ficando frio.

E Seu Coelho saiu e foi se juntar aos outros esfarrapados aos pés coloridos dos viadutos, em volta de uma sopa rala, surrupiada do abrigo cuja funcionária fez vista grossa por pena.

O farol alto de um carro projetou na parede as sombras negras dos esfarrapados. Animais acuados, alguns fugiram assustados, outros paralisaram. Os faróis baixaram, deixando só as luzes de cidade acesas. O capô trazia um felino prateado à frente. Seu Coelho, de orelhas em pé, junto aos outros homens, aguardou. A porta do motorista se abriu. Um homem magro saiu, metido num terno preto. Conferiu nas mãos uma folha de papel, olhando para os homens por cima das lentes dos óculos apoiados sobre o proeminente nariz adunco. Mirando Seu Coelho com olhos de rapina citou em uma voz gentilmente treinada:

— Senhor Jeremias Antônio Coelho.

O motorista revelava, nas mãos, para os homens curiosos, uma fotocópia da ficha do abrigo, com os dados médicos, cadastrais e uma fotografia 3X4 recente de Seu Coelho.

O homem coçou os já prateados fios da barba, adiantou-se, conferiu a ficha. De fato, era a ficha do abrigo. Levantou os olhos ao magro motorista, com o ronronar do carro ao fundo.

— Não se preocupe — disse o homem abrindo a porta traseira do automóvel — Ah! — continuou — antes que me esqueça, o abrigo pediu para entregar isso. Disseram que era para o custeio da viagem. Acho que faz parte do intercâmbio.

Seu Coelho abriu o envelope que lhe foi entregue, dentro, poucas notas de cinquenta reais. No interior do carro, o calor e o aroma de alguma massa recém assada pareciam convidativos.

— Vamos? Perguntou o homem de óculos.

Seu Coelho olhou para o céu e, entre vias de concreto e lufadas de fumaça, viu por um momento a lua espiar por trás das nuvens. Deu um suspiro profundo, quase de entrega, colocou o envelope no bolso, deu de ombros e entrou no carro. O mundo lhe passava pela cabeça.

Dentro do carro de bancos de couro, uma embalagem de uma pizzaria próxima o aguardava no banco traseiro.

O motorista olhou para trás por sobre o banco:

— A viagem não deve demorar muito, mas achei que poderia estar com fome. Peguei agora mesmo. Espero que não se importe, mas peguei um pedaço.

Seu Coelho balançou a cabeça, mas, antes que pudesse dizer “não tem problema”, uma lâmina opaca subiu entre ele e a cabine do motorista. Só então percebeu que as janelas eram igualmente opacas. Uma música suave tocou enquanto o carro se pôs em movimento. Seu Coelho, lá dentro, abriu a embalagem de pizza, com uma fatia a menos, e tratou de aplacar o estômago ruidoso.

O carro rodava sem solavancos. Ao contrário da cabeça de Seu Coelho. Não sabia se deveria crer no motorista sobre o intercâmbio do abrigo. Já se imaginava atirado na entrada de outra cidade, jogado de novo no mundo para sair à procura de outro viaduto de pés pintados noutra urbe poluída para impregnar-lhe as roupas rotas. Imaginou-se, jogado na rua, já sem vida, um resto esfarrapado de gente. “Vazio de vida, mas ao menos de bucho cheio”, pensou. Deixou o pensamento pairar-lhe à mente sem medo e perguntou-se se já não estaria de todo esvaziado da vida. Já não ligava, apenas deixava-se levar, ao som da música, o embalar do couro, o sabor e o cheiro da pizza. Era o melhor momento que lhe havia aparecido há muito. Que viesse o que fosse, que ali lhe valiam os anos todos sob o concreto à caça de algo para comer. O felino prateado puxava o carro pela autoestrada guiado por uma lua cheia de agosto, que Seu Coelho não podia ver.

O som de cascalho sob as rodas e as curvas sinuosas revelaram que o motorista saíra da via principal. Seu Coelho imaginou um terreno ermo onde seu corpo descansaria coberto por ervas daninhas sem deixar saudade. Ignorou o pensamento e deixou-se invadir pela música. Recostou-se nos bancos macios e permitiu-se quase cochilar. A viagem de pouco de mais de uma hora fora o momento de maior conforto e prazer — e paz até — que havia tido nos últimos anos na rua. A mente estava calma, sublimando para um estado de sonolência, quando os freios suaves fizeram o carro parar.

Ouviu a porta do motorista se abrir. Passos do lado de fora. A porta traseira finalmente abriu para uma noite clara e iluminada por uma lua cheia brilhante num céu estrelado de poucas nuvens. O homem de óculos falou apenas “Chegamos, Senhor Jeremias”.

Seu Coelho saiu do carro. Os sapatos velhos deram num chão de terra batida, cercado de um gramado bem aparado e um lago brilhante distante. A estrada se perdia numa espécie de pasto. Ao longe era possível ver a silhueta de uma cerca de madeira e ouvir o relinchar de algum cavalo. Uma casa grande, à frente, o aguardava. As paredes eram de pedra até cerca de um metro de altura. Acima disso, eram chapas de madeira nobre que se erguiam até o telhado de telhas acinzentadas. Um perdigueiro grande de cara escorrida veio cheirar-lhe as vestes. Num movimento brusco, retirou o focinho aguçado, agredido pelos restos de cidade agarrados às fibras puídas, e retornou para algum lugar atrás da construção. O motorista abriu a porta principal e fez um gesto convidando o passageiro a entrar na casa.

O assoalho rangeu em boas-vindas, dócil. Das arandelas escorria pela parede uma luz amarelada e a um canto, uma lareira crepitava confortavelmente com uma velha espingarda de caça decorando a chaminé.

— A sua estada, tenho certeza, será bastante confortável. Venha, deve haver um banho aguardando o senhor.

O motorista de nariz adunco acompanhou Seu Coelho até uma porta, que se abria para um banheiro coberto com uma parede coberta de arabescos e pastilhas de vidro ao redor do box. Do outro lado, uma banheira cheia de uma espuma fumegante aguardava.

— Fique à vontade. Chamarei alguém para… — fez uma pausa proposital — deixá-lo mais à vontade.

O homem saiu, deixando Seu Coelho só no banheiro. Um cheiro de eucalipto cobria o fedor das suas roupas. Pela estreita janela basculante, o luar espiava curioso. Não havia tranca na porta. Mas poucos pudores restavam para quem já tão pouco tinha. Seu Coelho tirou as vestes sujas, jogou-as a um canto, empilhadas, e meteu as pernas cansadas na água quente, submergindo o corpo castigado pelos anos na rua sob a espuma branca e perfumada. Recostou-se na banheira e pensou que se o jogassem morto e indigente num barranco qualquer não se importaria. Relaxou lembrando com certo humor que a espuma lembrava àquela que boiava fedida nos rios sob as pontes em que ele, também fedido, morava. Nem mesmo quando a maçaneta da porta desceu, ele saiu do seu estado de conforto. Só quando viu a mulher de branco entrar é que algum espanto lhe chegou.

Ajeitou-se o melhor que pôde, cobrindo-se com a espuma abundante. A loira devia ter uns 30 anos, tinha o cabelo liso amarrado em um coque atravessado por uma vareta de plástico, também branca. Ela olhou com um sorriso benevolente, mostrando-lhe nas mãos um roupão longo e branco, semelhante ao que ela usava. Pendurou a peça num cabide próximo sob o olhar atento de Seu Coelho. Abaixou-se para pegar o monte de roupas sujas revelando, pela fenda de seu roupão, uma perna longa e bem cuidada e um sugerido contorno de seio aparentemente nu, espiando pelo decote. Ela saiu fechando a porta atrás de si. Seu Coelho mirou o roupão pendurado, tentou relaxar na água quente e mergulhou, lavando os cabelos pastosos.

Passaram-se mais uns cinco minutos, talvez um pouco mais, até que a mulher retornou. Seu Coelho ajeitou-se na banheira, ainda sob a espuma, agora com os cabelos bem menos sebosos e sem o cheiro da cidade na pele. Ela se aproximou com passos curtos, ajoelhou-se ao lado da banheira e pegou a bucha sobre o aparador. Ensaboou o objeto, molhou-o na água e fez menção de esfregar as costas do homem.

— Não precisa. Adiantou-se Seu Coelho, preservando os pudores da moça.

Ela parou por um momento, olhou para ele, e pressionou a esponja contra o seu dorso puído. A esponja quente percorreu os ombros maltratados com suavidade, em movimentos lentos. Subiu o pescoço tisnado do sol, volta e meia retornando às águas quentes e espumosas da banheira. Seu Coelho foi deixando-se relaxar ao toque sutil da esponja, ao eventual toque das pontas alvas dos dedos longos. Dividiu com a mulher um silêncio cúmplice. Ela arregaçou a manga do roupão revelando um braço esguio e bonito. Mergulhou-o na espuma, percorrendo com a esponja cada vértebra das costas de Seu Coelho, contornando-lhe a lombar. Sob a espuma, o corpo desacostumado com um toque gentil ameaçava relembrar a virilidade que há tempo não provava.

A moça empurrou-lhe o peito delicadamente com a ponta dos dedos, para que se recostasse, molhou a esponja na água e começou a ensaboar-lhe o tórax.

Ele sorriu, apenas. Sentiu a esponja descer-lhe pelo abdômen, percorrer-lhe a lateral do tronco, esfregar-lhe a coxa. Sob a água, as mãos dos dois se encontraram. Ao toque, ela mirou-lhe os olhos pardos com os azuis dela. Sorriu — ou riu — sem pudores, mas parou o movimento. Ele, devagar, puxou-lhe a mão até sentir o toque da esponja onde queria. Ela roçou-lhe suavemente com a esponja. Levantou-se, olhou, de pé, para o homem deitado na banheira, soltou o cordão que amarrava o roupão e deixou a peça correr pelos ombros até cair no chão. Meteu as pernas longas dentro da banheira, uma depois da outra, e mergulhou a nudez nas águas quentes, contornando, por baixo da espuma, as pernas dele com as dela. Olhou por um momento para o homem a sua frente, pegou novamente a esponja e começou a ensaboar o próprio corpo, ignorando o companheiro de banheira. Seu Coelho ficou poucos minutos observando a moça de cabelos presos e corpo mergulhado na mesma água que o cercava. Com as mãos tocou-lhe as pernas lisas. Ela apenas o olhou e continuou a banhar-se. Ele se desencostou da banheira, levando as mãos às coxas da moça. Tudo para receber apenas mais um olhar, com o canto do olho. Num movimento quase brusco, com a paciência de quem vive à míngua sob os viadutos sem receber sequer um olhar de uma mulher como aquela, Seu Coelho tomou-lhe a esponja, espirrando com a violência do braço, um pouco de água para fora da banheira. O suficiente para espalhar a espuma, revelando um seio delicado coroado por uma auréola rosada e decorado com uma pequena tatuagem de um arco rebuscado ao lado de uma flecha, ornamentados por motivos tribais. Cobriu o seio da moça com a esponja, fazendo-a percorrer devagar, para baixo, o corpo arrepiado. Viu-a deitar a cabeça para trás e arquear as costas enquanto a esponja se perdia entre a espuma e as pernas da mulher.

Com um pulo, Seu Coelho projetou-se sobre a loira, transbordando a água a cada investida, transbordando emoções represadas, anos suprimidos, rugas precoces. A moça, capturada, subjugava-se às investidas brutas, à barba áspera, ao sabor das ruas que persistia na pele agora limpa. A cidade fica impregnada fundo, onde a água não alcança. Mas agora ela vinha à tona. Transbordava-lhe pelos poros, desprendia-se pelos pêlos, emergia-lhe à pele. A moça agarrou-lhe o pescoço com os braços, envolveu-lhe o lombo com as pernas e sentiu-se transbordar como a banheira. Seu Coelho continuou as investidas até que toda a cidade, toda a rua, toda a vida represada transbordasse também de si. E naufragou exausto nas águas que se acalmavam. Depois de uns dois minutos a moça levantou, em silêncio, vestiu o roupão novamente e saiu pingando pela porta sem tranca do banheiro.

Seu Coelho aguardou uns cinco minutos. Levantou-se, secou o corpo murcho, já não sabia se pela água ou pela vida, e vestiu o roupão branco com um pequeno gamo bordado no lado esquerdo do peito. Abriu, sem muita certeza, a porta do banheiro. No chão, a sua frente, ruas roupas aguardavam empilhadas e dobradas. Pegou-as, retornou ao banheiro e um minuto depois tornou a sair, vestindo as próprias vestes, cobertas com alguma nova essência que desconhecia, mas de aroma bem mais agradável. O homem magro de terno preto o aguardava na sala, em frente à lareira.

— Ah, Senhor Jeremias. — Disse sem emoção na voz ou no rosto. — Seu jantar está servido.

Acompanhou o homem a uma sala lateral onde uma refeição simples mas farta o aguardava. Seu Coelho já não perguntava nada, não esperava nada, não se importava com nada. Comeu com a pressa que se aprende na rua. Ao terminar, o mesmo homem de terno re-apareceu.

— Senhor Jeremias, acompanhe-me.

Seu Coelho obedeceu. Seguiu o homem até a sala onde este abriu a porta da rua. Seu Coelho parou por um momento. O homem de olhar de rapina fez um movimento de confirmação com a cabeça. Seu Coelho saiu pela porta e encontrou o mesmo carro que o trouxe, com a porta traseira aberta. O homem fez sinal para que entrasse no veículo. A lua alta brilhava cheia, retornando com uma lufada de vento o suspiro de Seu Coelho.

O carro serpenteou as curvas levando no ventre Seu Coelho que, lá dentro, não sabia o que pensar. Apreendeu-se imaginando que fim lhe esperava. Não creu na história do abrigo, mas tentava se tranquilizar relembrando que o que quer que o aguardasse, não poderia ser pior que retornar à rua. E de todo modo, havia valido a pena. Viveu numa noite o que não vivera sobrevivendo nos últimos anos. Ouviu com certo espanto o ruído familiar da cidade. O carro parou. Uma sirene soou não muito longe dali. A cidade, à noite, expirava ressonante e insone. A porta se abriu. Seu Coelho saiu e deu com um bairro distante, na periferia. O homem de nariz adunco cerrou a porta traseira, retornou ao posto de motorista e partiu seguindo o felino prateado que puxava o carro.

Uma hora depois, Seu Coelho chegava, a pé, junto aos pés coloridos escrito “veado” do viaduto que lhe servia por teto. Ao mesmo tempo em que, num casarão distante com um Jaguar estacionado em frente, um homem de terno negro e olhos de águia batia à porta de um quarto. Dentro do quarto a mulher loira, sentada na cama sob as caras cobertas, ajustou o robe cobrindo o seio tatuado e pôs de lado um balancete financeiro de uma filial empresarial. Retirando os óculos e colocando-os ao lado do cálice de vinho no criado-mudo, disse:

— Pode entrar.

O homem de terno abriu uma fresta na porta do quarto e polidamente perguntou:

— Senhorita Diana, estou indo me recolher. A senhorita deseja algo mais?

— Não, Tulius. Está tudo bem, obrigada. Boa noite.

— Obrigado. Boa noite, madame.

Apr
15
A Despedida

Cinco segundos. Foi mais ou menos esse o tempo que levou para ele esboçar a primeira reação. E por esboçar, quero dizer arremessar uma garrafa na parede, subir aos tropeços no palco cercado de neon e ser agarrado pelo segurança e ser impedido de chegar na menina assustada e seminua em cima do palco. Um papelão, em suma. Desses que acontecem tanto mas a gente nem imagina que possam ser de verdade. Desses que só acontecem com um conhecido de um conhecido meu. Bom, dessa vez foi direto com um conhecido meu. Por sorte tinha mais um monte de gente junto e deu pra evitar de o segurança esmurrar o cidadão.

Mas como resultado, a despedida de solteiro terminou com nós todos expulsos da Casa da Judite, um noivo inconsolável e um casamento cancelado. Ao menos isso rende alguma história pra contar. Quem ia imaginar que o noivo, na despedida de solteiro, iria encontrar a noiva? Como se já não fosse o suficiente, logo ela é que seria a striper da noite. O caso era, isso eu só fui saber um tempo mais tarde, que a moça tinha largado a vida de Menina de Judite já fazia bastante tempo. Tinha tomado tento, como a gente dizia. Só que vez por outra, vez por mês, eu acho, ela voltava lá pra “matar a saudade”, brincava a rapaziada.

Não que ela tivesse voltado à vida antiga. Ao menos o que me disseram é que ela ia lá só pra fazer o strip. Tinha até nome, a personagem, mas agora eu não lembro. Usava uma mascarazinha e uma maquiagem pesada. O que importa é que ela ia lá. Fazia três shows na mesma noite e só voltava um mês depois ou mais. Era a atração lá na Judite. Para a moça era mais um hobby, imagino. E disse ela pro ex-noivo, que estava só juntando um dinheiro para recomeçar a vida com ele. Mas que era fiel a ele e até que depois de morarem juntos ia parar de se apresentar. Mas o fato é que isso não reatou o casamento, que acabou na despedida de solteiro com o encontro do noivo com a noiva.

O noivo agora só quer saber de casar com moça de igreja. A noiva, eu nem sei que fim levou. Só sei que ela não voltou mais lá na Judite. Isso eu sei. Quer dizer, ao menos foi o que me disseram.

Apr
1
Novo Tema

Sem tempo pra pensar mto. Próximo tema:

Locais improváveis para se encontrar o amor.

Marcador, pra facilitar: Amor local improvável.

Posts até dia 6, por gentileza.

Feliz páscoa, a propósito. Entupam-se de chocolate.

— Floquinhôoo! Floquinho! Aqui, rapaz!

À voz da criança seguiu-se uma série de assovios altos. A menina, alarmada, mal disfarçando o nervosismo na voz, subia a rua chamando pelo cão. Subia devagar. Um pouco para poder deter os olhos com atenção a cada moita, a cada beco, a cada jardim. Um pouco para evitar chegar lá no alto sem ter encontrado o cão no caminho.

— Floquinho! — A voz já saia mais nervosa. Quem olhasse de perto veria a umidade banhando a linha dos finos cílios inferiores.

Um menino novo, da idade dela, talvez nem tanto, veio correndo, os joelhos sujos de terra, por certo por brincar n’algum quintal. Ela passou o dorso da mão nos olhos, dissipando as lágrimas ainda não nascidas e correu em direção ao rapazote.

— Bruno, você viu o Floquinho?

— Não. Ele fugiu de novo?

— U-hum. Mas dessa vez não tô conseguindo achar ele em lugar nenhum.

— Você já procurou lá embaixo na rua?

Ela fez que sim com a cabeça.

— Vamos procurar de novo. Eu te ajudo. Quem sabe ele não tá escondido?

— Eu já procurei lá! — Ela respondeu meio nervosa, batendo as mãos contra as próprias coxas. — Só se ele estiver… mais pra cima — continuou, receosa.

O garoto seguiu o olhar dela rua a cima. Mais uns duzentos metros de casas de cada lado. Muros mais altos, mais baixos, casas de todos os tipos. E lá em cima, um pouco antes da rua chegar no topo da colina e voltar a descer do outro lado, a casa do Senhor Gerhardt. Ele engoliu seco e, recobrando, o entusiasmo na voz disse:

— Vem, vamos olhar por aqui. Quem sabe o Floquinho nem foi muito longe.

Puxando a garota pela manga da camisa continuaram na busca nas redondezas, olhando atrás de moitas, embaixo de carros estacionados, ao redor das casas de muros mais baixos. Perguntaram para um ou outro vizinho. Cada vez subindo mais devagar os duzentos metros, como se a subida os cansasse demasiado. Não havia muito mais crianças na vizinhança, de forma que foram apenas os dois. Subindo a rua e chamando pelo cão.

Nada. Chegaram em frente à casa do Senhor Gerhardt. Muros altos — altos para eles em todos os casos — um portão fechado de madeira com um telhadinho para proteger algum visitante em dias de chuva. Sob ele, um interfone. Os dois ficaram em silêncio. Já haviam passado por todas as outras casas da rua. A menina deu uma fungada funda, como quem se esforça para segurar o choro. O rapazinho pegou na sua mão e apertou. Ela respirou fundo e engoliu mais uma vez as lágrimas antes que elas aparecessem. O garoto olhou determinado o muro, o portão. Aproximou-se, deitou-se no chão espiando por baixo da madeira. Via apenas o começo de um calçamento de pedra e o início de um gramado. Levantou-se olhando a calçada e viu um hidrante vermelho não distante do muro. Correu saltitando até lá, seguido pela menina. Tentou ficar de pé sobre o hidrante, mas foi só com a ajuda dela que ele conseguiu se equilibrar lá em cima, enquanto ela, segurando suas pernas ali em baixo, ficava olhando pra cima há espera de qualquer notícia. O garotinho em cima do hidrante, com os braços abertos, agora podia ver todo o quintal e a fachada da casa do velho Senhor Gerhardt.

Logo depois do muro, um gramado verde bem aparado se estendia até a casa, ao lado de um caminho de pedra para o carro. No quintal se espalhava uma coleção de inúmeros anões de jardim. Cada um sobre um pequeno elevado de terra sem grama, decorando o jardim com seus barretes vermelhos, narizes grandes e roupas coloridas. A maior parte portava ferramentas de mineração: pás, picaretas, martelos. Alguns tinham sacos às costas e, à frente, longas barbas sisudas que pendiam até as barrigas. Os olhos eram grandes e foi como se fitassem o garoto assim que ele ousou pôr a cabeça por cima da linha do muro. Num gesto de impulso, o menino abaixou-se quase caindo. Em seguida recobrou-se e, olhando sobre a amurada, analisou melhor as pequenas estátuas. Engoliu em seco quando viu que, lá no meio do jardim, um dos anões não apresentava nenhuma marca de interpérie ou desgaste pelo tempo. Era como se tivesse saído da loja no dia anterior.

Olhou para baixo e viu os olhos da menina em expectativa. Tomou coragem e desceu de cima do hidrante. Fitou-a em silêncio por pouco tempo e vendo os olhos dela quase marejados disse:

— Tem um anão novo lá.

A garota não pôde mais represar o choro. As lágrimas saíam dos olhos e o peito cavalgava em soluços. O nome de Floquinho se misturava na voz embargada. O menino esperou até o choro dela diminuir e foi até o portão. Ela o segurou pelo braço, mas ele se desvencilhou olhando a garota com determinação. Foi até o portão, se esticou um pouco e apertou o interfone. A menina correu para perto dele e ficou agarrada no braço do garoto. Ela tremia um pouco mais que ele.

—“Pois não” — soou a voz com um sotaque alemão metalizado pelo aparelho.

— Seu Gerhardt? — o garoto perguntou com voz infantil.

— “Sim. Quem é?”

— É o Bruno, filho do seu João aqui da rua.

— “Ah, sim. Só um pouquinho, sim?”

Quando ouviram o outro lado desligando, os dois começaram a tremer com mais vigor. Não demorou puderam ouvir os passos se aproximando pelo caminho de pedra. Só não disparam em corrida porque as pernas bambas não permitiriam. Ao som da chave entrando no ferrolho o garoto firmou as pernas tomando coragem. A porta de madeira se abriu com um rangido. Apareceu no vão um imenso velho de bigode e cabelos brancos, vestido em uma jardineira jeans e camisa listrada de mangas arregaçadas. De rosto levemente rosado e terríveis e profundos olhos azuis.

— Siiiimmm? — A voz se estendia com o sotaque carregado.

— A… a gente só queria saber… se… o senhor não viu o Floquinho, o cachorro da Tati. Ele é branco com marrom.

— Não… Eu não vi cachorro aqui, não.

— Hum…

— Não, não. Não vi nenhum Floquinho, não.

— Ah, tá… ‘Brigado, então.

Os dois saíram descendo a rua, acelerando o passo a cada metro até que estavam correndo rua abaixo. Olhando por sobre o ombro, o garoto ainda pôde ver o velho coçando o bigode sem tirar os olhos dele. Bateu o portão e entrou para além da porta de madeira para junto dos anões de pedra.

O Senhor Gerhardt vivia no alto da rua desde sempre. Não era muito afeito a crianças e animais de estimação, pelo que diziam. Sempre xingava quando encontrava algum excremento pela calçada, pondo a culpa nas crianças que levavam ou deixavam que os animais passeassem por ali. Depois da morte da esposa, tomou gosto por colecionar anões de jardim. O primeiro da coleção era um terrível anão de olhos de pedra, barba volumosa e picareta aguçada. As crianças nunca gostaram muito do Senhor Gerhardt. Tinham medo e um certo respeito, mas nunca gostaram dele. O alemão rabugento, diziam. Falavam uns que ele era cruel e já tinha dado cabo a umas tantas bolas e brinquedos que lhe caíam no quintal. Mas a mais assustadora das histórias a respeito do alemão era a que Tati mais temia naquele momento.

Diziam as crianças das redondezas que, depois da morte da esposa, o Senhor Gerhardt tinha ficado ainda mais cruel. Não eram só os brinquedos que não retornavam depois de transpor seus muros de pedras. Diziam, algumas crianças, que mesmo os animaizinhos de estimação jamais retornavam depois de pôr as patinhas no gramado do Senhor Gerhardt. Vinícius, um menino do começo da rua, disse que a vizinha dele perdeu o coelhinho dela assim. E tinham mais histórias. Gatos, cães e até aves tinham sumido no quintal do alemão do alto da rua. E foi o Vinícius mesmo quem percebeu. Cada vez que sumia um bichinho no bairro, o jardim do Senhor Gerhardt ganhava mais um anão. Se aparecia um anão, desaparecia um animalzinho.

— Ele pegou o Floquinho!

A menina chorava copiosamente.

— Ele pegou o Floquinho e enterrou ele embaixo daquele anão!

O rapaz ao lado, abraçava as canelas e pousava o queixo pensativo sobre os joelhos. É claro que ninguém jamais tinha visto o Senhor Gerhardt fazer nada. Mas era muita coincidência que a cada vez que surgisse um novo anão, sumisse um animal de estimação. Estava lá. Era só espiar por cima do muro. Um anão a mais, um animal a menos. E o quintal do Senhor Gerhardt estava cheio de anões.

— A gente vai entrar lá.

A menina engoliu o choro e arregalou os olhos molhados. O garoto tinha falado sem tirar o queixo dos joelhos. Olhava fixo pra frente. Se virou para ela e continuou:

— Amanhã é domingo. Todo domingo o Senhor Gerhardt sai de manhã um pouquinho antes da missa e só volta lá pelo almoço. A gente entra escondido e descobre se ele pegou ou não o Floquinho.

A menina não conseguiu falar nada. Tentou balbuciar um “mas, mas, mas” mas ficou nisso. Olhou pro menino ao seu lado, abraçado nas canelas finas e seguiu o seu olhar. Estava cravado no muro de pedra no alto da rua. Tornou a olhar pra ele e se agarrou de repente no seu pescoço num abraço apertado e surpreendente. Deu um beijo estalado e rápido na bochecha do rapazinho, ao que ele se afastou com uma careta e passou a mão compulsivamente no rosto como se estivesse se limpando. A menina não ligou e concedeu-se até um pequeno sorriso.

Dia seguinte, os dois brincavam com uma bicicleta próximo à casa do alemão. O portão de madeira se abriu e a visão do pequeno exército de anões lá dentro fez os dois paralisarem. Um carro velho mas bem conservado apontou do portão. Os dois forçaram-se a continuar brincando. O carro deslizou para fora do portão. Ao volante, o motorista lançou um olhar azul e inquisidor para os dois, antes de confirmar o bigode no retrovisor e sair, deixando o portão fechar-se atrás do carro.

Assim que o carro desceu a rua, os dois partiram em sentido contrário. Encostaram a bicicleta na parte mais baixa do muro e, usando-a como escada, escalaram passando ao outro lado. Fizeram tudo muito rápido. Quando deram por si já estavam do lado de dentro, descendo pelo muro de pedras. Quando se viraram deram automaticamente um passo atrás, sentido as pedras do muro nas costas. À sua frente, no gramado, um exército de anões de jardim armados de sacos, pás e picaretas. Todos com os olhos cravados neles, com as tenebrosas barbas pendentes. Era como se estivessem em um paredão de fuzilamento. Como se a qualquer momento, a um comando, o pequeno batalhão partiria para o ataque. Mas não.

Passaram alguns minutos e os anões não foram além de vigiá-los. Como se seus olhares fossem suficientes para paralisar qualquer adversário. Para transformá-los em pedra. O pensamento provocou um arrepio no rapaz que despertou e, puxando a menininha, circundaram o jardim seguindo o caminho calçado por onde corria o carro. Na garagem aberta, ferramentas estavam atiradas em caixas de madeira e papelão. O garoto começou a revirar tudo sob o olhar curioso da menina. Finalmente achou. Não seria que possível que alguém que usasse uma jardineira não tivesse nenhum material de jardinagem. Ele sabia disso. Sua mãe tinha uma jardineira e, claro, material de jardinagem. Que volta e meia ele pegava para brincar na terra em busca de tesouros enterrados. Mas não eram tesouros que ele buscava agora em sua aventura. A menina, quando o viu com a pequena pazinha na mão esbugalhou ainda mais os olhos quase que em terror. Só não gritou porque ficou sem ação. Ele a puxou novamente pela mão e levou-a até o muro por onde tinham pulado. Virou-se, encarou os adversários de pedra, respirou fundo e deu um passo a frente. Estava agora sobre o gramado. Invadira o território inimigo. Foi até o anão mais próximo. O encarou de perto. Fez cara feia, pá em punho. Só faltou rosnar para o homenzinho de barrete vermelho. Circundou o inimigo, bufando. Forçava seu medo a se dissipar. Avançou, caminhou entre mais alguns dos outros anões. A garota apenas o olhava em surpresa, medo, expectativa e suspense. Ele foi caminhando até o anão que parecia ser o mais novo da coleção. Repetiu o ritual, desafiando o mais novo recruta do pelotão de pedra. Passou a pazinha em frente ao anão. O sol continuava a brilhar. O que para ele havia começado como uma aventura de terror tinha se transformado numa aventura épica. E ele era o herói. E venceria os anões alemães. Colocou a pazinha no bolso e agarrou o anão. A menina, perto do muro, prendeu a respiração. Tentou erguê-lo, mas não teve força. Ele saiu só um pouquinho do chão. Começou a arrastar o enfeite de jardim que vinha com dificuldade. Parou um pouco e chamou a menina para ajudá-lo. Ela apenas fez que não com a cabeça, de longe. Ele insistiu até que ela veio, receosa. Passando por entre os outros anões, evitando esbarrar em algum. Com a ajuda dela conseguiu arrastar o novo anão para longe e separá-lo do grupo. Colocou-o contra o muro e agora os dois o encaravam de frente. Ela tentando imitar a cara de mau dele. Os dois intimidando o anão. Agora eram eles que iriam fuzilar o inimigo. O garoto começou a procurar alguma coisa no anão, quase que revistando a estátua. A busca infrutífera foi interrompida pela menina lhe puxando pela manga da camisa. Seguiu o dedinho dela que apontava para o jardim e viu o monte de terra sem grama sobre o qual se erguia o anão removido. Eles se olharam. Ele sacou novamente a pazinha e foi em direção ao monte de terra. Ela ficou no meio do caminho, mais perto do muro do que do jardim. O garoto se ajoelhou na terra, olhou novamente para ela e deu o primeiro golpe com a pá sobre o solo. Não estava muito compactado. O buraco foi se abrindo sem muita dificuldade. E a expectativa crescendo. A pá atingiu algo com um barulho baixo. O garoto levantou-se num pulo. A menina, perto do muro, quase deixou escapar um grito. Ele olhou para ela. Quatro olhos esbugalhados se encontravam. Abaixou-se de novo tomando ar, meteu a pá na terra ao lado do que quer que tivesse atingido e fazendo uma alavanca com a ferramenta forçou o objeto a revelar-se, tirando-o da terra.  Mal pode ver a coleirinha vermelha. O pelo branco e marrom sujo de terra saiu das profundezas do jardim fazendo o garoto dar um salto com os pelos dos bracinhos eriçados e o cabelo em pé. Deu um grito agudo e saiu correndo em direção ao muro. A menina, sem mal ver o que tinha acontecido, deu o grito de terror que estava segurando desde de que pulara o muro. O menino veio feito um raio. Meteu um pé na cabeça do anão recostado ao muro e com a ajuda das mãos conseguiu escalar o muro. A menina veio atrás, auxiliada por ele. Os dois pularam o muro, ele ralando o joelho. Montaram na bicicleta dela e desceram a rua aos berros. No bolso da calça dele, a pá vinha manchada de terra e de uma nódoa marrom escura, puxando para o vermelho.

O carro do Senhor Gerhardt veio subindo a rua depois do meio-dia. Uma pequena multidão de vizinhos tinha se formado ao redor da casa. Umas poucas crianças agarradas às saias das mães. Dois carros de polícia parados em frente. O portão arrombado. O velho estacionou o carro e, ao percebê-lo, a multidão começou a se alvoroçar. As mães puxando as crianças para si. Os pais indo na direção do veículo. Foi preciso que os policiais chegassem para que o homem pudesse sair do carro. A polícia fez uma batida pela casa e não encontrou ninguém nem nada suspeito dentro da moradia. O Senhor Gerhardt vivia sozinho. Mas sob a estátua do anão removido estava o corpo de um cão de pequeno porte, de pelos brancos e marrons, com uma coleira com o nome Floquinho gravado. Antes das duas horas da tarde o Senhor Gerhardt seguia para a delegacia no banco de trás de uma viatura. Algemado. Para trás ficou uma vizinhança horrorizada, um portão lacrado com uma faixa amarela e um quintal cheio de anões de jardim deitados ao lado de buracos escavados de onde foram retirados treze cadáveres de pequenos animais. Na manhã seguinte a polícia retornaria para continuar o trabalho.

Naquela noite, finalmente, a vizinhança pode despedir-se com propriedade de seus animais de estimação. Mães, pais e crianças passaram a noite em vigília em frente a casa no alto da rua, com velas, fazendo pedidos e orações por seus animaizinhos. Na frente do portão fechado foram depositados desenhos de cãezinhos, gatinhos, peixes, roedores e aves. A vizinhança passou a noite em frente aos muros do Senhor Gerhardt. O Senhor Gerhardt passou a noite entre as paredes de pedra da delegacia.

A vigília durou até a manhã seguinte, com as famílias se revezando em orações em frente à casa. Alguns dos pais mais afoitos estavam apenas esperando a polícia chegar para quem sabe entrar no terreno do velho Gerhardt e vingar-se sobre sua casa.  Mas quando os portões foram novamente abertos pela equipe policial, ninguém do bairro se dispôs a pisar o gramado. Lá estavam, novamente de pé, todos os anões sobre os seus respectivos lugares. À frente dos pés de alguns deles, pequenas covas abertas pela polícia no dia anterior. Todos de pé, ferramentas à mão, olhos fixos à frente. Naquela noite, ninguém quis retomar a vigília.

Mar
21
Tema Novo

Rodada fechada, outra começa.

Postagens até o dia 26/3, sob o tema: Anão de Jardim.

“Antes que o primeiro galo cante, um dentre vós me trairá.” A sentença caiu sobre a mesa como um malho sobre uma bigorna. As centelhas se espalharam nos olhos faiscando bravios de um lado a outro. Como o choque de metal contra metal, o alarido ressoou nas vozes nervosas. A movimentação inquieta foi como o rufar de asas de mil pombos. E se imprecações fossem ali permitidas, teria havido uma chuva delas. Um misto de revolta, surpresa e negação tomou a mesa. Indignados, os presentes trocaram rápidos olhares inflamados e perscrutadores. Todos, exceto um.

Cujos olhos baixos não revelavam brilho algum, mas cujo peito ardia como se tentasse abrasar uma fogueira de chamas ágeis enquanto se esforçava para suportar o calor. Absorto em ideias inflamadas, não deu pela mão que se ergueu espalmada da cabeceira. Só voltou a si quando o silêncio retornou à mesa, como um convidado que chega atrasado. Todos tinham os olhos cravados na cabeceirada mesa. Da cadeira de espaldar alto, o mestre reforçou: “Esta é a última ceia em que estaremos todos reunidos. Em verdade vos digo: antes que cante o primeiro galo, um dentre vós me trairá”. Não olhava diretamente para ele, apenas corria os olhos por todos, de maneira igual. “Um dentre vós me trairá e assim há de ser, antes que brilhe a luz sobre a Terra”.

“Mas, mestre, tem de haver um engano. Quem dentre nós seria capaz?”

“Acaso antes enganei-me? Um dentre vós me trairá e assim será, para que o mundo seja mundo”.

Podia sentir no peito o ardor crescer, como se um tição revolvesse-lhe as brasas fazendo subir-lhe chamas.

“Não temais. A aurora trará um novo tempo, de separação, mas glórias maiores. Para agora e todo o sempre, enquanto o mundo for mundo”.

O pescoço já lhe ardia com o erguer das chamas, o ar ficava abafado à sua volta, o sangue lhe fervia. A cabeça lhe doía e o peito ameaçava explodir.

“Um dentre vós me trairá e com a traição virá a aurora. É chegada a hora”.

Ergueu os olhos injetados e deu com os do mestre lhe olhando da ponta da mesa. Ardendo, levantou-se assombrando a todos. Sentia-se como se a pele fosse o barro do ventre de uma fornalha. Foi até a ponta da mesa — coxeava já um pouco da perna esquerda — inclinou-se sobre o homem na cadeira de espaldar alto e lhe beijou a face, fria ao contado de seus lábios quentes. Com os olhos chamejantes, imaginou um sorriso invisível e nos olhos dele, pensou ter visto compreensão.

Deu as costas à mesa e foi-se, coxeando rápido. O peito já se incendiando. As labaredas começavam a subir-lhe a pele em línguas de fogo a lamber-lhe os braços, as costas, as asas. Alguns dos outros que estavam à mesa se apiedaram. Levantaram-se e o seguiram. Alguns ainda capazes de lançar um olhar frustrado e rancoroso à mesa que ficava para trás. Miguel fez menção de levantar-se, a mão já à bainha, mas a mão que veio da cabeceira da mesa lhe tocou o ombro, conciliadora.

Coxeou com o corpo a queimar, seguido de longe pelos outros. As penas chamuscadas caindo ao chão, a testa latejando. Da beira da existência olhou para baixo e viu a Terra pequena, distante, perdida no escuro. Mal suportando o último passo, atirou-se no espaço enegrecido. Um lume na escuridão. Rebentou-se em chamas, ardeu e luziu como o fogo que se ergue do ferro quente golpeado. E na escuridão se fez luz. A Terra então, pela primeira vez, iluminou-se. Os outros, atrás dele, já se precipitavam também tomados pelo fogo dos caídos, mas próximos dele, que ardia em fulgor, eram ofuscados e pareciam apagados; brilhando apenas quando ele se distanciava, do outro lado do orbe. Assim, passou ele a ser. Uma luz na escuridão, a escuridão para a luz. E com a luz da primeira aurora, cantou o primeiro galo, a antífona do traidor.

Quis a fortuna que optasse eu por passar meus últimos dias à beiramar. Não deve demorar agora, mas não há do que se arrepender e contento-me com a ideia de ter podido acompanhar estes últimos eventos. Se fosse de outra forma, creio, não faria muita diferença. Muito menos para mim. E aquilo foi a coisa mais assombrosa que vi. Você certamente não verá. Porque você provavelmente nunca vai existir para ler esta carta, seja lá que for você. Eu sou a última geração.

Acordei cedo naquele dia, como de costume. Tomei o desjejum e saí para caminhar na areia. Naquele dia vi o primeiro sinal. A areia ainda tinha a marca molhada da maré, que agora estava lá embaixo. Bem lá embaixo. Contei cinco barcos pesqueiros pequenos na areia, deitados de lado, quilhas à mostra. Mais alguns encalhados na maré baixa, mastros inclinados balançando quando as marolas estouravam sob os cascos quase completamente aparentes. Os pescadores reunidos em grupos tentando retornar os barcos à água ou imaginar o que havia acontecido. Aproximei-me aos barcos, as âncoras expostas atiradas na areia, e fiquei vendo o mar com os pescadores. A maré nunca esteve tão baixa. Caminhei até a espuma branca e deixei que lambesse fraca meus pés. Virando-me pude ver a sacada do meu apartamento de frente para o mar. A faixa de areia que nos separava estava com o dobro do comprimento habitual.

Lembrei da única história que já ouvira em que a maré havia recuado tanto do dia para a noite. Nesse caso, da noite para o dia. Olhei fixo no mar, além da rebentação, em busca de algum sinal, mas as vagas pareciam querer se retirar escondendo um segredo. Lembrei das polinésias, do Pacífico, daquelas cenas que abalaram o mundo em telejornais aproveitadores. Devo ter deixado escapar a palavra por entre os lábios numa expiração: “tsunami”. Olhei em volta. Dois pescadores me olharam com dúvida. Já havia juntado bastante gente para ver o mar. Aposentados, patricinhas, atletas, velhos de pulmões condenados que tossiam sangue antes de ir caminhar na areia. Por um momento, juro, pensei em não avisar. Deixar que viesse, aguardar a chegada no meio de toda aquela gente. Mas logo vi um casal de uns trinta e tantos, quarenta anos, discutindo a possibilidade. Eles perceberam que eu os olhava. A vantagem de ter poucos mas alvos cabelos à cabeça e muitas e profundas rugas à cara é que, se você consegue evitar uma aparência senil-babona, as pessoas acreditam que o você tem a dizer tem realmente alguma valia. Fiz cara de sábio pra justificar as expectativas deles e confirmei as suspeitas que levantavam. Acrescentei: “Para a maré já ter recuado tanto, já deve estar a caminho”. Depois de alguns segundos de choque, os gritos de tsunami correram a praia. Um pequeno grupo se organizou para evacuar o local e avisar os moradores próximos enquanto o restante correu em pânico para longe do mar. Mas se você tossisse sangue pela manhã e sua melhor perspectiva fosse uma cama de hospital, você também não teria tanta pressa.

Logo estava praticamente só na praia, a marola me tocando os dedos dos pés prenunciando o que estava por vir. Além de mim, apenas dois teimosos e ignorantes pescadores ainda mexendo nos barcos e um outro terceiro, tão teimoso quanto eles, tão velho quanto eu. Olhou-me com o que pensei ser cumplicidade — mas já não tenho tanta certeza — e ficamos, distantes um do outro, olhando o mar. Passou muito tempo. As ondinhas débeis já perdiam força a alguns centímetros de meus pés, nem os tocando. Depois de um tempo o velho acendeu um cigarro e saiu caminhando ao longo da faixa de areia, sem pressa. Quando deu dez horas mais ou menos os homens já tinham conseguido fazer os barcos ao mar. As vagas pareciam as mesmas de sempre, apenas mais distantes. Retornei ao apartamento perdido em pensamentos.

Preparei um almoço rápido e fui à sacada olhar as ondas ao longe, de cima. Apenas uma infinita planície verde espumante. Um ou outro barco percorrendo-lhe as trilhas atrás dos cardumes. Ao chegar da noite, os barcos que tinham os cascos levemente banhos por águas rasas já estavam completamente deitados na areia praticamente seca. As âncoras paradas no mesmo lugar. A dúvida dormiu comigo aquela noite.

Acordei mais cedo do que de costume. Mal percebi-me desperto, corri à sacada. Do meu apartamento se estendia uma enorme faixa de areia. Quatro ou cinco vezes maior do que havia na véspera. Quase duas dezenas de barcos estavam pousados na areia, distantes da água, qual uma carçassa ressequida. Na extensa praia, uma pequena multidão de pescadores e curiosos tentava decifrar o fenômeno. Desci à praia e fui ao mar afastado. Devo ter levado uns dez minutos até sentir a água fria nos pés. Com as mãos em concha capturei um pouco do líquido. Passei provei o gosto, lavei o rosto. Olhei para o apartamento, já pequeno. Olhei de volta para o mar, infinito como sempre. Agora mais do que nunca, um mar de dúvidas. A praia, cheia de indagações, com nenhuma solução ou conclusão. Na areia algumas poucas estrelas do mar, ouriços em pequeno número, aqui e ali. Uma rede de pesca estendida no seco com uns poucos peixes apanhados. Não demorou uma hora para que começassem a aparecer as câmeras, os microfones, as autoridades. Especulações.

Tomei o meu café na sacada, olhando o mar lá longe e a praia cheia. A tevê ligada na sala trazia especialistas e charlatões tentando analisar ou aparecer. Todos com o mesmo sucesso nulo em descobrir uma explicação. Fui buscar mais uma xícara quando vi na TV a imagem de uma enorme vala sobre a qual passava uma ponte cheia de gente. No fundo da vala um lodo lamacento e um fio de apenas dois palmos de largura, de água. Era a ponte que cruzava o rio que dividia a cidade do município vizinho. As estações de tratamento já não estavam sendo abastecidas. Poucos córregos e rios ainda tinha água suficiente para encher os tanques. O mar havia se recolhido em toda a costa. A água estava desaparecendo. E não como uma força de expressão ou papo de ambientalista. Ela estava, de fato e simplesmente, desaparecendo.

Fui ao mercado para descobrir que não fui o único que teve a ideia. Consegui levar apenas algumas garrafas entre uma turba em busca de água para estocagem. Na fila e na confusão ouvi que os outros afluentes do rio também estavam secando. Nas cidades vizinhas o mesmo acontecia em rios diferentes. Voltando para casa vi um grupo de cinco homens enchendo garrafões na fonte em frente à prefeitura. Voltei para casa, abri as torneiras e enchi baldes e panelas. Na TV, praias do mundo inteiro recuando. Rios desaparecendo. Lagos virando crateras. Não demorou muito e o mundo todo estava secando como seu um ralo tivessesido destapado.

Agora já faz bastante tempo. Mais de duas semanas. Do lado de fora do meu apartamento um grande deserto de areia se estende até o horizonte. Dezenas de barcos no meio da areia seca. Fora de vista, centenas, milhares. Alguns dos pescadores resolveram seguir o mar onde o mar fosse. Fizeram os barcos à água e ficaram sempre em águas rasas, próximas da costa. A medida que o mar recuava, eles avançavam. Hoje não sei onde estão. Na TV vi o Everest coberto de pedra. O gelo havia sumido. Os alpes andinos com estações de esqui sobre montanhas castanhas. As plantas, claro, começaram a morrer. Toda a cadeia alimentar logo começou a desmoronar. Fernando de Noronha tornou-se uma montanha. Gibraltar já podia ser cruzado a pé, como vários outros pontos. Imigrantes ilegais começaram a simplesmente andar a outros países. Em busca de água ou de um sonho inútil. O Mar Vermelho foi novamente atravessado. As religiões, não é preciso dizer, foram todas à loucura. O Mar Morto virou uma enorme cratera de sal. Os pólos praticamente sumiram e toda a confusão que os cientistas previram quando isso acontecesse, na maior parte aconteceu. Frio, calor, era glacial. Tudo está começando. Hoje, parece, poucos são os lugares que ainda tem alguma água, mesmo que salgada e não potável. Equipamentos para tornar o líquido potável trabalham sem parar. Pela manhã uma reportagem acompanhava um homem de jipe a caminho da África. Foi barrado por uma cadeira de montanhas, mas ao que tudo indica, se não fosse por isso até poderia ter conseguido. O maior reservatório de água que resta são as Fossas Marianas, guardadas pelo governo americano sob supervisão da ONU. Mostraram uma foto de satélite. A Terra vista do espaço está marrom. Entre os continentes, enormes desfiladeiros. Os rios quase todos se foram. O Brasil ainda guarda o que resta do amazonas, agora só um fiorde inexpressivo. O Nilo parece que foi assumido pela União Européia. O Yang-Tzé está cercado, da forma possível, por tropas chinesas, mas oferece ainda menos esperanças, mesmo para a China. Agora não há nada mais o que fazer. A água que me resta cabe em uma garrafa. Deixo essa carta apenas para mim. Ninguém mais vai lê-la. Não haverá mais ninguém. Eu vou, pela última vez, em busca do mar. Parto a pé, pelas areias que se estendem do lado de fora do meu apartamento. Uma última marcha de um planeta que se vai. A última geração.

Azul e vermelho. Azul e vermelho. Azul e vermelho. As cores se intercalavam na paisagem vista através do vidro fechado. O barulho, já nem ouvia mais. Lembrava a última vez que vira a paisagem naquelas cores, através daquele vidro. Já não sentia ódio — há algum tempo não sentia — estava como que adormecido. Havia algo no peito, no entanto, que pesava. Não identificou em princípio. Há muito não o sentia. Há anos. E lembrou da última vez. Também estava lá, apertando o peito, apesar de tudo. E lembrou-se. E sentiu, como não poderia deixar de ser, inevitável e fatídica, saudade.

O carro alugado em um quase desmanche do subúrbio não era o mais discreto. Não importava muito. Era um carro velho, barato e desconhecido. Provavelmente nem se importariam muito com alguma avaria. Até com a falta, vai saber. Olhou no retrovisor sem reflexo. Só um borrão manchado no espelho velho. Um espectro que dava apenas para imaginar onde ficariam os olhos bem mais enrugados do que há anos, uma barba não muito bem feita. Ao menos a roupa não estava tão mal. Era, na verdade, a melhor roupa que usava desde muito tempo. Desde vários anos. A sensação de usar uma roupa que não fosse igual a de todos os outros lhe causava um certo prazer desfrutado em silêncio, numa íntima satisfação de um agradável segredo. Olhou o relógio que já lhe incomodava o pulso — tanto tempo sem usá-lo! — conferiu as horas sem se importar muito, não tinha muito mais que o fazer. Ficari ali pelo tempo que fosse necessário, como havia feito nos últimos dias. A casinha azulada do lado de fora do carro era simples, mas bonitinha. Ou ela teria adquirido algum bom gosto, afinal, ou o marido que escolhera. A segunda opção, provavelmente. Ela deveria ter simplesmente ido morar com o coitado. Demorou algum tempo, mas eventualmente teriam de terminar. O rapaz havia entrado há já quase uma hora. Finalmente, a porta da frente se abriu e fechou-se em seguida, rapidamente, tempo apenas suficiente para deixar sair apressado um rapaz — surpreendentemente novo, por certo apenas alguns anos mais velho que ela — que logo se pôs em marcha apressada e distraída rua abaixo, ainda acertando a camisa por dentro do cós da calça. Saiu feliz, leve, como das outras vezes. Irritantemente leve.

O motor fez o capô trepidar, assustando apenas uns poucos pássaros na árvore ao lado que projetava uma sombra vasta na rua vazia de subúrbio. Colocou o carro em marcha e acelerou suavemente, medindo a distância. O carro foi ganhando velocidade devagar, sem despertar muito a atenção. Chegando aos setenta quilômetros por hora estabilizou o ponteiro tremulante do velocímetro. O pneu deu um solavanco quando acertou o meio fio, arremessando o carro alguns centímetros para o alto. O som assustou o rapaz, mas ele nem teve tempo de se virar. Antes que pudesse terminar o movimento, um farol arredondado lhe entrava pelas costelas enquanto um para-choque de metal lhe separava o joelho. Rolou por sobre o capô até atingir a coluna do para-brisas, no instante em que o carro fazia a curva para retornar à rua, deixando a calçada. Foi arremessado por sobre a cerca baixa de uma das casas próximas, indo aterrissar atrás das plantas do quintal. Só seria descoberto, provavelmente no outro dia, coberto de sereno e sujo de grama, um pé pra cá outro pra lá, numa posição de boneco de pano estropiado. O carro seguiu a rua e dobrou à direita na primeira quadra. Parou no outro lado em frente a uma entrada de garagem abandonada, sem um farol e com o para-brisas trincado. A chave, na ignição; a porta apenas encostada.

Azul e vermelho. Azul e vermelho. Azul e vermelho. A praça, trocando de cor, fez com que lembrasse do pobre do marido. Provavelmente pela estátua careca e de óculos entre as hortências. Careca tingida pela luz vermelha.

Nem lembrava muito bem como, mas ela estava de roupão — ou era um hobby não tão fino — azul. Os cabelos estavam molhados e cheirosos. Já não cheiravam ao rapaz, àquelas horas atirado num quintal vizinho. Nem ao marido, certamente. Nem a ele. A infeliz e irremediável certeza: há muito tempo não cheiravam a ele. Ela tinha a boca vermelha. Não era batom; não, não era. Era um corte no lábio inferior. Não no nariz, dessa vez, mas no carnudo, vermelho, lábio inferior, que ela deixava meio pendente da boca entreaberta de dentes pequenos. Ah, como ele lembrava daquele sorriso de dentes pequenos e boca vermelha! O sangue o fez lembrar da última vez em que beijou aqueles lábios. Ainda tinham sangue quando treparam no chão da cozinha da casa que já não era dele, naquela vida que já não era dele. Ela não sorria, agora, mas tinha nos olhos aquela mesma doçura quente, encolhida próxima à cabeceira da cama. O roupão deixava escapar uma perna bonita e bem depilada. Devia ter se preparado à espera do rapaz. Subiu os olhos pelas pernas imaginando o que mais aquele roupão escondia que ela havia preparado para o rapaz jogado num quintal próximo, casas abaixo. Semiaberta, a vestimenta revelava o arredondar dos seios já mais crescidos. O pescoço já não mantinha toda a vida da juventude, nem o rosto, ainda bonito, mas já aparentando uma mulher. Não era mais uma adolescente. Mas quando ela esboçou um pequeno sorriso, foi como se a mesma menina ressurgisse daquele ar jovial, fresco, pronto para ser colhido doce, úmido e suculento, sumo que escorria na boca e derretia por dentro, com todo o sabor de uma safra de apenas catorze anos. Ah, como ele se lembrava! Aproximava-se da cama devagar, a chave de rodas que trouxera do carro já pendia na mão ao lado do corpo, sem tensão, baixa, praticamente inerte. Perdia aos poucos a força. A determinação. Estava inebriado pelas lembranças e pelo reencontro com aquele corpo jovem e fresco que ele ainda via naquela, jovem, mas já, mulher. Despertou do transe apenas quando a porta se escancarou brusca. O homem careca de camisa polo e óculos abriu a porta. Chegou já raivoso. Com certa surpresa, viu a mulher seminua, coberta apenas pelo roupão, encolhida contra a cabeceira da cama enquanto o homem com a chave de rodas, de pé, ia em sua direção. Não sentia ódio pelo marido. Pena, no máximo. Era um pobre coitado, tinha certeza. Como ele havia sido. Mas não pôde fazer nada. O homem investiu contra ele. Atirou-o contra a parede, nem ligou para a chave de rodas que trouxera. Esta ensandecido. Qualquer um que passasse na rua veria pela janela a cena. Não teve muita opção. Se não fizesse nada o marido o atiraria janela a fora. Ergueu e depois baixou veloz a chave de rodas. Depois de dois golpes o homem estava caído aos seus pés, a careca vertendo sangue, tingindo de vermelho os poucos cabelos que lhe rodeavam. Não era tão velho, deveria ter sua idade, mais ou menos. A careca prematura sujando o chão de vermelho, dando tempo apenas de pronunciar, baixo, contra o chão um nome ou apelido de apenas duas sílabas idênticas. Não pôde suportar ouvir aquele nome saindo dos lábios de outro homem. Baixou mais uma vez a chave de rodas que ficou de pé, presa na careca vermelha. Olhou para a moça na cama sem saber o que dizer. Nos olhos dela, também não conseguia ler nada além de dúvida e curiosidade. E um corpo ofegante sob o roupão azul.

Era manhã, a rua movimentada apenas pelos carros saindo das garagens levando os donos aos trabalhos no centro. Ele já estava parado lá há algum tempo, como das outras vezes. O carro velho sob a árvore, não longe da casa. Não foi tão difícil assim achar a casa. Bastou uma busca na internet para descobrir, em um site de relacionamentos, Sara, a amiga que sempre visitava e ia tomar banho de piscina enquanto ele observava, ouvindo o gelo estalar ao uísque, as adolescentes se divertirem. Na lista de amigos da moça, lá estava ela. O sobrenome era outro, mas era ela, com certeza. Ao lado da foto, alguns dados. E o nome da loja onde trabalhava. Tinha até currículo. Ela não havia estudado muito, mas até que não se deu tão mal. Tinha casado, estava no perfil. Por isso o sobrenome estranho. No mínimo com alguém mais velho, podia apostar. Por volta da sua idade, provavelmente. Ou da idade que tinha quando se despediu dela pela última vez. De todo modo, não era nele que estava interessado. Precisava vê-la de novo. Aproximar-se dela de novo. Acertar as contas com aquele demônio curvilíneo que o mandou ao inferno. Foi à loja e ficou observando a fachada de longe. Viu quando ela saiu. Um pouco mais velha do que lembrava. Bom. Sabia que não poderia com ela se ainda tivesse todo o viço da juventude, esfregando-lhe na cara aquela doçura que o deixava desarmado e de pernas bambas. As roupas, no entanto, eram coloridas e conferiam-lhe algo daquele ar infantil-sensual maldito. Afastou os pensamentos. Pensou em correr até ela naquele mesmo instante e apertar-lhe o pescoço já não tão delicado. Ver-lhe os olhinhos arregalarem-se e aquele sorriso macabro que não lhe saía da memória desaparecer. Mas não poderia. Não suportaria retornar àquele lugar. Nem mesmo por causa dela. Estava agora se acostumando a usar roupas comuns. A ver-se vestido diferente das outras pessoas ao redor. Estava se acostumando a ver o lado externo dos muros, os sons da cidade. Não retornaria jamais. Nem por ela. Seguiu-a, então, a distância, até que ela entrou na casinha azul. Sorriu para si mesmo. Bastava entrar ali e enterrar-lhe a mão no nariz delicado e perfeito, ouvir o rebentar da boca deliciosa e o suspiro cortado pelo estalar de uma traqueia partida. Mas havia o sobrenome. Ele estaria ali, ou para chegar. Teria de esperar. Não hoje. E saiu com o número e a fachada da casa gravados na memória, sabendo que retornaria ali algumas vezes ainda, antes de tomar qualquer porvidência. Era um prato que se comia frio, diziam.

Vermelho e azul. Vermelho e azul. A paisagem ia mudando do lado de fora do carro. Os dois homens no banco da frente em silêncio. Haviam insultado-o o suficiente. Viajavam agora calados. Anoitecia enquanto o carro se destinava para a área mais afastada da cidade, onde se escondia àqueles dos quais se queriam esquecer. Azul e vermelha a estrada passava. Como ele e ela.

Ela, sobre a cama, de azul-roupão sobre o corpo mal coberto. Ele, salpicado de vermelho. Ao chão um homem com uma chave de rodas na cabeça. Nos olhos dela, curiosidade macabra e excitada. Nos dele, dúvida e uma mistura de tesão, ódio, saudade e — sim, por que não? — amor. O corpo dele sobrepujando-se devagar ao dela. Ela, se afastando inutilmente contra a cabeceira da cama, mas com os olhos sempre nos dele. Ele agarrou a gola do roupão e a puxou para si. Ela ficou ali, meio pendurada pelo colarinho. Assustada, ofegante, olhos brilhando, um seio arquejante se denunciando pela abertura do roupão. Maior, mais arredondado, mas ainda firme, tenaz, o mamilo eriçado em rosa. Subindo e descendo, subindo e descendo com a respiração acelerada de hálito doce. Agarrou-lhe com a outra mão o pescoço. Ainda lhe cabia fácil na mão. Pressionou até que ela vertesse aquele hálito que há anos não sentia. Sentiu-o próximo ao rosto. O cheiro atingiu o cérebro como um dardo. Chegou a cambalear e apertou a mão contra o pescoço da moça como para se segurar e não cair. Ela emitiu um leve gemido que o trouxe de volta. E trouxe de volta as lembranças dos gemidos de outrora. Lembrou-se das tardes de antanho quando não estavam a mãe nem a empregada. Puxou-a, pelo pescoço mesmo, para mais perto de si. Hipnotizado. Azul e vermelho. Ele vermelho. Ela azul. A parede azul e vermelha, azul e vermelha, azul e vermelha pela janela aberta ao fim da tarde. Despertou quando percebeu que ela também admirava as cores projetadas nas paredes. Largou-lhe o pescoço, espiou pela janela. As luzes no teto do carro lá embaixo brilhavam azuis e vermelhas. Dois homens saindo do carro, armas nas mãos. Falando com alguém fora da sua visão e se dirigindo à casa. Lembrou dos uniformes. E dos uniformes. E dos dias e meses e anos. Lembrou da última vez. Do gosto do beijo e do sangue. Do olhar quente, do sorriso macabro. E dessa vez nem havia trepado. Há quanto tempo não trepava? Não voltaria. Não assim. Não sem ao menos dar o troco. Arrancou o abajur da tomada e, com um puxão arrancou-lhe o fio. Enrolou uma ponta em cada mão, deixando-o estendido firme. Levantou os olhos e viu os delas, já mais assustados. Foi rápido em sua direção, deu uma volta com o fio no seu pescoço e puxou-lhe para cima, tirando-a praticamente toda da cama, só as pernas penduradas. O roupão já quase todo aberto, os seios roçando-lhe o peito, os lábios em frente aos seus. Seu corpo de homem envelhecido se dividindo entre ódio e prazer. Uma perna depilada levantou-se e tocou-lhe, leve e sem querer, a virilha. A vontade fraquejou-lhe. Afrouxou o fio. Deixou a moça retornar à cama. Voltou à janela, olhou para baixo. Os dois homens uniformizados já junto à porta, forçando a entrada. Olhou para ela, olhou para os homens, para o vermelho e azul brilhando nas paredes. Suspirou abatido. Não podia mais fazer aquilo. Mas não podia, também, voltar. Não suportaria. Amarrou o cordão no parapeito da janela, sentou na beirada e enrolou o fio ao redor do pescoço. Não voltaria por nada. Nem por ela. Ela o olhava com um sorriso macabro. Aquele sorriso macabro de olhos quentes e doces. Passou os dedos de leve no pescoço meio machucado, desceu o dedo seguindo o decote do roupão já aberto, com um ar provocante. Ela levantou o dedo, apontou para corda no pescoço e fez sinal que não. Apontou para o chão para que ele descesse. Ele o fez, tirou o cordão do redor do pescoço, segurando-o nas mãos sem saber o que fazer. Quando a porta se abriu sob o peso da botina, a moça encolheu-se contra a cabeceira da cama, deixando escapar um assustado “Jorge, não!” dos lábios maliciosos. Os dois homens apontaram as armas. Acabaria, afinal, retornando para lá.

Azul e vermelho, azul e vermelho, azul e vermelho. A paisagem já noturna se iluminava colorida enquanto ele, no banco traseiro, as mãos às costas, relembrava. Saindo pela porta do quarto, a moça fechando o roupão, sendo auxiliada pelo outro policial de cacetete rijo pendurado à cintura. Por baixo do roupão imaginava o corpo arrepiado, os bicos dos seios em pé, as lembranças de anos atrás antes que tudo aquilo tivesse acontecido pela primeira vez. Nos olhos, aquele mesmo olhar excitante. Através do vidro do carro em movimento, olhava a paisagem com um só sentimento. Saudade.

Cinco escritores. Uma batalha. E apenas um vencedor por rodada. (leia imaginando uma voz de trailler de cinema)

Fábio Ricardo, Félix Rosumek, Rodrigo Oliveira, Marina Melz e Thiago Floriano em:

DUELO DE ESCRITORES!

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