Duelo de Escritores

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Os cães pararam do nada. Se não saltassem para o lado, teria atingido os últimos da fila com o trenó. Amontoaram-se ao redor de uma montanha baixa de neve. Começaram as cavocar o local com ganidos de que tinham encontrado algo. A neve já estava dura. Precisei das ferramentas para agilizar o serviço. Levei meia hora para conseguir desenterrar o corpo. Estava mumificado pelo gelo. Praticamente intacto. Uma das pernas estava em uma posição estranha, imagino que não natural. Deve estar provavelmente quebrada. Os cães demonstraram alguma curiosidade a princípio, mas logo perderam o interesse. Coloquei o corpo sobre o trenó e retornei com ele para o acampamento. Com o volume tive que parar algumas vezes para evitar que caísse ou desequilibrasse o trenó. Assim que cheguei alimentei os cães e entrei em contato.

Onde ele está agora?

Do lado de fora da barraca. Cobri-o com neve fresca novamente. Está protegido.

Mais alguém o viu?

Estou sozinho. Os outros estão no continente.

Alguma ideia de como ele foi parar lá?

Nenhuma. Se havia alguma trilha, foi coberta pela neve. Não havia sinal de qualquer meio de transporte. Cheguei a procurar na área próxima, mas se houvesse algum, teria de ser grande e não seria difícil localizar. Creio que ele chegou ali a pé. Por assim dizer. E ferido.

Conseguiu identificar o teria causado o ferimento?

Negativo. Mas não há sinais de corte ou laceração da carne. A pele está descolorida pelo tempo sob o gelo, mas parece forte. Não apresenta nenhum hematoma visível. Talvez a fratura tenha sido causada por alguma queda anterior.

Anterior? Você não crê que o local que o encontrou tenha sido o do acidente.

Pouco provável. Não há lugar de onde ele poderia ter caído para causar uma fratura ali. Um escorregão no gelo provavelmente não teria aquele efeito. As pernas parecem bastante robustas. Creio que veio caminhando. Ou ao menos se arrastando.

Estou enviando os homens para a remoção. Mantenha-se no acampamento até a chegada. Mantenha o corpo em segurança.

Afirmativo. No aguardo.

***
Click
***

Você acha que ele é confiável?

Não há como não ser sozinho no meio do gelo.

Mas e após a remoção?

Não se preocupe com isso.

Espero não ser mesmo necessário. Em quatro horas quero o corpo aqui, pronto para exame.

***
Click
***

Pronto. Qual o status?

Acampamento sob controle. Tudo calmo. Sem resistência ou sinal de contato externo.

Ótimo. Iniciem a remoção e retornem com o corpo o quanto antes.

E o outro?

Não há necessidade. Podem deixar. Apenas mantenham a discrição.

Afirmativo.

***
Click
***

Se houvesse alguém para ver veria dois trenós leves sendo seguidos por um maior e mais pesado, que carregava um grande volume coberto por lonas laranjas. Seguindos os rastros que deixavam para trás, que logo seriam emcobertos pela nevasca que se aproximava, se chegaria um acampamento vazio. Ao lado de uma barraca desmontada, um grande buraco estava aberto, com o tamanho de dois ou três homens.  Do outro lado do acampamento um pequeno monte de neve passaria facilmente despercebido, mesmo por um observador atento, não fosse o círculo de cães em volta, cutucando a neve dura com ganidos doloridos.

May
11
Novo tema

Depois de uma rodada super competitiva e cheia de dúvidas sobre quem seria o vencedor, eu decido que eu ganhei e ponto final! Tá, quase isso.

Então vamos à nova rodada, com um novo tema, cujos textos devem ser publicados até o dia 16 de maio.

O tema da rodada é: escrever uma história em que alguém tem que morrer congelado.

O marcador fica como morrer congelado.

É isso! Bom inverno a todos!

Lembrava de quando ainda tinham o viço — e os vícios — da juventude. Daquela época enevoada em que não se enfadavam da companhia um do outro. Pensava se isso teria acontecido apenas porque eram tudo o que tinham então. Um ao outro. Olhou pela janela, ouvindo o barulho dos pingos que o passado atirava contra o vidro embaçado feito memória. Por trás das lentes, nada. Nem ódio, que esse já se arrefeceu e ele nem culpa ao menos tinha, o desgraçado. Insistia apenas em manter a situação como estava. Era forte, ficaria tudo bem, tudo voltaria a ser como antes. Mas também já não cria que fosse amor, depois de tanto tempo. Carinho talvez, uma certa dose de preocupação mais provavelmente. Talvez já nem isso. Há meses que tentou reaproximar-se sem perceber que nunca tinham fisicamente se afastado. Nos últimos meses passaram ainda mais tempo junto. Insistia em manter-se ao lado dele, apesar de tudo. E cada vez mais junto, sentia-se cada vez mais só. Passava a olhar cada vez menos para ele e mais para aquele passado que lacrimejava ruidoso contra a janela turva. E ele sequer parecia perceber sua presença. Despertou dos pensamentos quando a enfermeira entrou no quarto. Disfarçou fingindo que lia alguma coisa. A mulher de branco conferiu o soro e as sondas, checou os aparelhos, lhe dirigiu um sorriso bem treinado. Sentiu-se desprotegida ou invadida. Sentiu uma fisgada incômoda com a presença de outra pessoa ali, mas quando percebeu que a mulher estava no fim dos seus afazeres desejou que ela pudesse ficar mais tempo ali. Que se demorasse em algum botão ou no arranjo das flores no vaso, que fizesse algo qualquer, mas que não a deixasse novamente ali sozinha com ele. Como vinha estando há tantos anos, todos os dias. Na companhia de um passado que bate à janela sem poder entrar. De um presente que insiste em não sair sem nem sequer permanecer. Um estar sem existir. Mas a enfermeira se foi deixando o mesmo sorriso bem treinado. Ela, deixada para trás, sem poder ir para frente, ajeitou uma mecha grisalha atrás da orelha grande e olhou através do vidro. Embaçado.

Olhava para o céu de agosto procurando algo entre a poluição e os vãos do viaduto sobre a cabeça. O pescoço levantado revelava uma barba mal feita e as roupas esfarrapadas tinham a cidade impregnada nas tramas. E a cidade, por sua vez, impregnava-se deles, entre os pés coloridos e pichados “veado” dos viadutos. Mas Seu Coelho não era veado. Só era pobre. Tinha o que lhe cabia na sacola de lona e as cores do viaduto.

— Olhando o quê, Seu Coelho?

Sempre lhe chamavam Seu Coelho. Nem era velho, mal passava dos quarenta. Mas a verdade é que aparentava mais, e ninguém nunca lhe perguntou sua idade.

— Lua cheia hoje. Não dá de ver por causa da fumaça, mas tá mais claro lá, ó.  Lua cheia.

— E daí?

— É bonito, só. Mais bonito que o viaduto ao menos.

— Sai daí, homem, que tá ficando frio.

E Seu Coelho saiu e foi se juntar aos outros esfarrapados aos pés coloridos dos viadutos, em volta de uma sopa rala, surrupiada do abrigo cuja funcionária fez vista grossa por pena.

O farol alto de um carro projetou na parede as sombras negras dos esfarrapados. Animais acuados, alguns fugiram assustados, outros paralisaram. Os faróis baixaram, deixando só as luzes de cidade acesas. O capô trazia um felino prateado à frente. Seu Coelho, de orelhas em pé, junto aos outros homens, aguardou. A porta do motorista se abriu. Um homem magro saiu, metido num terno preto. Conferiu nas mãos uma folha de papel, olhando para os homens por cima das lentes dos óculos apoiados sobre o proeminente nariz adunco. Mirando Seu Coelho com olhos de rapina citou em uma voz gentilmente treinada:

— Senhor Jeremias Antônio Coelho.

O motorista revelava, nas mãos, para os homens curiosos, uma fotocópia da ficha do abrigo, com os dados médicos, cadastrais e uma fotografia 3X4 recente de Seu Coelho.

O homem coçou os já prateados fios da barba, adiantou-se, conferiu a ficha. De fato, era a ficha do abrigo. Levantou os olhos ao magro motorista, com o ronronar do carro ao fundo.

— Não se preocupe — disse o homem abrindo a porta traseira do automóvel — Ah! — continuou — antes que me esqueça, o abrigo pediu para entregar isso. Disseram que era para o custeio da viagem. Acho que faz parte do intercâmbio.

Seu Coelho abriu o envelope que lhe foi entregue, dentro, poucas notas de cinquenta reais. No interior do carro, o calor e o aroma de alguma massa recém assada pareciam convidativos.

— Vamos? Perguntou o homem de óculos.

Seu Coelho olhou para o céu e, entre vias de concreto e lufadas de fumaça, viu por um momento a lua espiar por trás das nuvens. Deu um suspiro profundo, quase de entrega, colocou o envelope no bolso, deu de ombros e entrou no carro. O mundo lhe passava pela cabeça.

Dentro do carro de bancos de couro, uma embalagem de uma pizzaria próxima o aguardava no banco traseiro.

O motorista olhou para trás por sobre o banco:

— A viagem não deve demorar muito, mas achei que poderia estar com fome. Peguei agora mesmo. Espero que não se importe, mas peguei um pedaço.

Seu Coelho balançou a cabeça, mas, antes que pudesse dizer “não tem problema”, uma lâmina opaca subiu entre ele e a cabine do motorista. Só então percebeu que as janelas eram igualmente opacas. Uma música suave tocou enquanto o carro se pôs em movimento. Seu Coelho, lá dentro, abriu a embalagem de pizza, com uma fatia a menos, e tratou de aplacar o estômago ruidoso.

O carro rodava sem solavancos. Ao contrário da cabeça de Seu Coelho. Não sabia se deveria crer no motorista sobre o intercâmbio do abrigo. Já se imaginava atirado na entrada de outra cidade, jogado de novo no mundo para sair à procura de outro viaduto de pés pintados noutra urbe poluída para impregnar-lhe as roupas rotas. Imaginou-se, jogado na rua, já sem vida, um resto esfarrapado de gente. “Vazio de vida, mas ao menos de bucho cheio”, pensou. Deixou o pensamento pairar-lhe à mente sem medo e perguntou-se se já não estaria de todo esvaziado da vida. Já não ligava, apenas deixava-se levar, ao som da música, o embalar do couro, o sabor e o cheiro da pizza. Era o melhor momento que lhe havia aparecido há muito. Que viesse o que fosse, que ali lhe valiam os anos todos sob o concreto à caça de algo para comer. O felino prateado puxava o carro pela autoestrada guiado por uma lua cheia de agosto, que Seu Coelho não podia ver.

O som de cascalho sob as rodas e as curvas sinuosas revelaram que o motorista saíra da via principal. Seu Coelho imaginou um terreno ermo onde seu corpo descansaria coberto por ervas daninhas sem deixar saudade. Ignorou o pensamento e deixou-se invadir pela música. Recostou-se nos bancos macios e permitiu-se quase cochilar. A viagem de pouco de mais de uma hora fora o momento de maior conforto e prazer — e paz até — que havia tido nos últimos anos na rua. A mente estava calma, sublimando para um estado de sonolência, quando os freios suaves fizeram o carro parar.

Ouviu a porta do motorista se abrir. Passos do lado de fora. A porta traseira finalmente abriu para uma noite clara e iluminada por uma lua cheia brilhante num céu estrelado de poucas nuvens. O homem de óculos falou apenas “Chegamos, Senhor Jeremias”.

Seu Coelho saiu do carro. Os sapatos velhos deram num chão de terra batida, cercado de um gramado bem aparado e um lago brilhante distante. A estrada se perdia numa espécie de pasto. Ao longe era possível ver a silhueta de uma cerca de madeira e ouvir o relinchar de algum cavalo. Uma casa grande, à frente, o aguardava. As paredes eram de pedra até cerca de um metro de altura. Acima disso, eram chapas de madeira nobre que se erguiam até o telhado de telhas acinzentadas. Um perdigueiro grande de cara escorrida veio cheirar-lhe as vestes. Num movimento brusco, retirou o focinho aguçado, agredido pelos restos de cidade agarrados às fibras puídas, e retornou para algum lugar atrás da construção. O motorista abriu a porta principal e fez um gesto convidando o passageiro a entrar na casa.

O assoalho rangeu em boas-vindas, dócil. Das arandelas escorria pela parede uma luz amarelada e a um canto, uma lareira crepitava confortavelmente com uma velha espingarda de caça decorando a chaminé.

— A sua estada, tenho certeza, será bastante confortável. Venha, deve haver um banho aguardando o senhor.

O motorista de nariz adunco acompanhou Seu Coelho até uma porta, que se abria para um banheiro coberto com uma parede coberta de arabescos e pastilhas de vidro ao redor do box. Do outro lado, uma banheira cheia de uma espuma fumegante aguardava.

— Fique à vontade. Chamarei alguém para… — fez uma pausa proposital — deixá-lo mais à vontade.

O homem saiu, deixando Seu Coelho só no banheiro. Um cheiro de eucalipto cobria o fedor das suas roupas. Pela estreita janela basculante, o luar espiava curioso. Não havia tranca na porta. Mas poucos pudores restavam para quem já tão pouco tinha. Seu Coelho tirou as vestes sujas, jogou-as a um canto, empilhadas, e meteu as pernas cansadas na água quente, submergindo o corpo castigado pelos anos na rua sob a espuma branca e perfumada. Recostou-se na banheira e pensou que se o jogassem morto e indigente num barranco qualquer não se importaria. Relaxou lembrando com certo humor que a espuma lembrava àquela que boiava fedida nos rios sob as pontes em que ele, também fedido, morava. Nem mesmo quando a maçaneta da porta desceu, ele saiu do seu estado de conforto. Só quando viu a mulher de branco entrar é que algum espanto lhe chegou.

Ajeitou-se o melhor que pôde, cobrindo-se com a espuma abundante. A loira devia ter uns 30 anos, tinha o cabelo liso amarrado em um coque atravessado por uma vareta de plástico, também branca. Ela olhou com um sorriso benevolente, mostrando-lhe nas mãos um roupão longo e branco, semelhante ao que ela usava. Pendurou a peça num cabide próximo sob o olhar atento de Seu Coelho. Abaixou-se para pegar o monte de roupas sujas revelando, pela fenda de seu roupão, uma perna longa e bem cuidada e um sugerido contorno de seio aparentemente nu, espiando pelo decote. Ela saiu fechando a porta atrás de si. Seu Coelho mirou o roupão pendurado, tentou relaxar na água quente e mergulhou, lavando os cabelos pastosos.

Passaram-se mais uns cinco minutos, talvez um pouco mais, até que a mulher retornou. Seu Coelho ajeitou-se na banheira, ainda sob a espuma, agora com os cabelos bem menos sebosos e sem o cheiro da cidade na pele. Ela se aproximou com passos curtos, ajoelhou-se ao lado da banheira e pegou a bucha sobre o aparador. Ensaboou o objeto, molhou-o na água e fez menção de esfregar as costas do homem.

— Não precisa. Adiantou-se Seu Coelho, preservando os pudores da moça.

Ela parou por um momento, olhou para ele, e pressionou a esponja contra o seu dorso puído. A esponja quente percorreu os ombros maltratados com suavidade, em movimentos lentos. Subiu o pescoço tisnado do sol, volta e meia retornando às águas quentes e espumosas da banheira. Seu Coelho foi deixando-se relaxar ao toque sutil da esponja, ao eventual toque das pontas alvas dos dedos longos. Dividiu com a mulher um silêncio cúmplice. Ela arregaçou a manga do roupão revelando um braço esguio e bonito. Mergulhou-o na espuma, percorrendo com a esponja cada vértebra das costas de Seu Coelho, contornando-lhe a lombar. Sob a espuma, o corpo desacostumado com um toque gentil ameaçava relembrar a virilidade que há tempo não provava.

A moça empurrou-lhe o peito delicadamente com a ponta dos dedos, para que se recostasse, molhou a esponja na água e começou a ensaboar-lhe o tórax.

Ele sorriu, apenas. Sentiu a esponja descer-lhe pelo abdômen, percorrer-lhe a lateral do tronco, esfregar-lhe a coxa. Sob a água, as mãos dos dois se encontraram. Ao toque, ela mirou-lhe os olhos pardos com os azuis dela. Sorriu — ou riu — sem pudores, mas parou o movimento. Ele, devagar, puxou-lhe a mão até sentir o toque da esponja onde queria. Ela roçou-lhe suavemente com a esponja. Levantou-se, olhou, de pé, para o homem deitado na banheira, soltou o cordão que amarrava o roupão e deixou a peça correr pelos ombros até cair no chão. Meteu as pernas longas dentro da banheira, uma depois da outra, e mergulhou a nudez nas águas quentes, contornando, por baixo da espuma, as pernas dele com as dela. Olhou por um momento para o homem a sua frente, pegou novamente a esponja e começou a ensaboar o próprio corpo, ignorando o companheiro de banheira. Seu Coelho ficou poucos minutos observando a moça de cabelos presos e corpo mergulhado na mesma água que o cercava. Com as mãos tocou-lhe as pernas lisas. Ela apenas o olhou e continuou a banhar-se. Ele se desencostou da banheira, levando as mãos às coxas da moça. Tudo para receber apenas mais um olhar, com o canto do olho. Num movimento quase brusco, com a paciência de quem vive à míngua sob os viadutos sem receber sequer um olhar de uma mulher como aquela, Seu Coelho tomou-lhe a esponja, espirrando com a violência do braço, um pouco de água para fora da banheira. O suficiente para espalhar a espuma, revelando um seio delicado coroado por uma auréola rosada e decorado com uma pequena tatuagem de um arco rebuscado ao lado de uma flecha, ornamentados por motivos tribais. Cobriu o seio da moça com a esponja, fazendo-a percorrer devagar, para baixo, o corpo arrepiado. Viu-a deitar a cabeça para trás e arquear as costas enquanto a esponja se perdia entre a espuma e as pernas da mulher.

Com um pulo, Seu Coelho projetou-se sobre a loira, transbordando a água a cada investida, transbordando emoções represadas, anos suprimidos, rugas precoces. A moça, capturada, subjugava-se às investidas brutas, à barba áspera, ao sabor das ruas que persistia na pele agora limpa. A cidade fica impregnada fundo, onde a água não alcança. Mas agora ela vinha à tona. Transbordava-lhe pelos poros, desprendia-se pelos pêlos, emergia-lhe à pele. A moça agarrou-lhe o pescoço com os braços, envolveu-lhe o lombo com as pernas e sentiu-se transbordar como a banheira. Seu Coelho continuou as investidas até que toda a cidade, toda a rua, toda a vida represada transbordasse também de si. E naufragou exausto nas águas que se acalmavam. Depois de uns dois minutos a moça levantou, em silêncio, vestiu o roupão novamente e saiu pingando pela porta sem tranca do banheiro.

Seu Coelho aguardou uns cinco minutos. Levantou-se, secou o corpo murcho, já não sabia se pela água ou pela vida, e vestiu o roupão branco com um pequeno gamo bordado no lado esquerdo do peito. Abriu, sem muita certeza, a porta do banheiro. No chão, a sua frente, ruas roupas aguardavam empilhadas e dobradas. Pegou-as, retornou ao banheiro e um minuto depois tornou a sair, vestindo as próprias vestes, cobertas com alguma nova essência que desconhecia, mas de aroma bem mais agradável. O homem magro de terno preto o aguardava na sala, em frente à lareira.

— Ah, Senhor Jeremias. — Disse sem emoção na voz ou no rosto. — Seu jantar está servido.

Acompanhou o homem a uma sala lateral onde uma refeição simples mas farta o aguardava. Seu Coelho já não perguntava nada, não esperava nada, não se importava com nada. Comeu com a pressa que se aprende na rua. Ao terminar, o mesmo homem de terno re-apareceu.

— Senhor Jeremias, acompanhe-me.

Seu Coelho obedeceu. Seguiu o homem até a sala onde este abriu a porta da rua. Seu Coelho parou por um momento. O homem de olhar de rapina fez um movimento de confirmação com a cabeça. Seu Coelho saiu pela porta e encontrou o mesmo carro que o trouxe, com a porta traseira aberta. O homem fez sinal para que entrasse no veículo. A lua alta brilhava cheia, retornando com uma lufada de vento o suspiro de Seu Coelho.

O carro serpenteou as curvas levando no ventre Seu Coelho que, lá dentro, não sabia o que pensar. Apreendeu-se imaginando que fim lhe esperava. Não creu na história do abrigo, mas tentava se tranquilizar relembrando que o que quer que o aguardasse, não poderia ser pior que retornar à rua. E de todo modo, havia valido a pena. Viveu numa noite o que não vivera sobrevivendo nos últimos anos. Ouviu com certo espanto o ruído familiar da cidade. O carro parou. Uma sirene soou não muito longe dali. A cidade, à noite, expirava ressonante e insone. A porta se abriu. Seu Coelho saiu e deu com um bairro distante, na periferia. O homem de nariz adunco cerrou a porta traseira, retornou ao posto de motorista e partiu seguindo o felino prateado que puxava o carro.

Uma hora depois, Seu Coelho chegava, a pé, junto aos pés coloridos escrito “veado” do viaduto que lhe servia por teto. Ao mesmo tempo em que, num casarão distante com um Jaguar estacionado em frente, um homem de terno negro e olhos de águia batia à porta de um quarto. Dentro do quarto a mulher loira, sentada na cama sob as caras cobertas, ajustou o robe cobrindo o seio tatuado e pôs de lado um balancete financeiro de uma filial empresarial. Retirando os óculos e colocando-os ao lado do cálice de vinho no criado-mudo, disse:

— Pode entrar.

O homem de terno abriu uma fresta na porta do quarto e polidamente perguntou:

— Senhorita Diana, estou indo me recolher. A senhorita deseja algo mais?

— Não, Tulius. Está tudo bem, obrigada. Boa noite.

— Obrigado. Boa noite, madame.

Oi. Já alerto de ante-mão: isso não é um conto. Nem uma crônica, nem nada do tipo… é um aviso sobre mudanças no Duelo de Escritores. Mas agora, pensando bem, seria muito legal escrever um conto ou crônica começando justamente por “Oi. Já alerto de ante-mão: isso não é um conto.”.

Ok, já estou divagando. Então vamos às novidades. A partir da próxima rodada da competição literária que ocorre nesse blog, iniciando no dia 1 de maio, teremos um novo participante. Jefferson Luiz Maleski, ou mais conhecido como JLM passa a fazer parte do quadro de duelistas, no lugar de Marcelo Labes.

JLM é o primeiro duelista de fora de Santa Catarina, o que dá novos ares ao projeto. Ele acompanha o Duelo há muito tempo e sempre colaborou com comentários que nos ajudaram a rever nossos escritos. Paralelamente ao Duelo, ele escrevia em seu blog a sua própria visão de cada tema. Nada melhor para o Duelo de Escritores do que chamar alguém que tem esse tipo de atenção com o projeto. Então para as apresentações, deixo a palavra para ele mesmo:

JLM, ou Jefferson Luiz Maleski

Paranaense de Cascavel, mas radicado em Anápolis/GO há anos, é formado em Direito, mas trabalha como administrador de ONG, webhoster e concurseiro. Apaixonado pela Filosofia, dependente da Literatura e escravo da Escrita, trabalha e diverte-se na internet 24 horas por dia. Prefere um livro que seja bem escrito à um que traga uma boa história e sonha encontrar uma mulher que não imponha “ou esse livro ou eu!”. É o centro de referência para os amigos quando o assunto é filme, seriado ou livro, lançamento ou clássico, mais-vendido ou trash. Os amigos costumam defini-lo como chato, inteligente e sarcástico. Os inimigos também. Desde janeiro de 2007, escreve no blog Libru Lumen (www.jefferson.blog.br), publicando contos, resenhas e pensamentos cada vez mais disseminados pela internet.

Apr
15
A Despedida

Cinco segundos. Foi mais ou menos esse o tempo que levou para ele esboçar a primeira reação. E por esboçar, quero dizer arremessar uma garrafa na parede, subir aos tropeços no palco cercado de neon e ser agarrado pelo segurança e ser impedido de chegar na menina assustada e seminua em cima do palco. Um papelão, em suma. Desses que acontecem tanto mas a gente nem imagina que possam ser de verdade. Desses que só acontecem com um conhecido de um conhecido meu. Bom, dessa vez foi direto com um conhecido meu. Por sorte tinha mais um monte de gente junto e deu pra evitar de o segurança esmurrar o cidadão.

Mas como resultado, a despedida de solteiro terminou com nós todos expulsos da Casa da Judite, um noivo inconsolável e um casamento cancelado. Ao menos isso rende alguma história pra contar. Quem ia imaginar que o noivo, na despedida de solteiro, iria encontrar a noiva? Como se já não fosse o suficiente, logo ela é que seria a striper da noite. O caso era, isso eu só fui saber um tempo mais tarde, que a moça tinha largado a vida de Menina de Judite já fazia bastante tempo. Tinha tomado tento, como a gente dizia. Só que vez por outra, vez por mês, eu acho, ela voltava lá pra “matar a saudade”, brincava a rapaziada.

Não que ela tivesse voltado à vida antiga. Ao menos o que me disseram é que ela ia lá só pra fazer o strip. Tinha até nome, a personagem, mas agora eu não lembro. Usava uma mascarazinha e uma maquiagem pesada. O que importa é que ela ia lá. Fazia três shows na mesma noite e só voltava um mês depois ou mais. Era a atração lá na Judite. Para a moça era mais um hobby, imagino. E disse ela pro ex-noivo, que estava só juntando um dinheiro para recomeçar a vida com ele. Mas que era fiel a ele e até que depois de morarem juntos ia parar de se apresentar. Mas o fato é que isso não reatou o casamento, que acabou na despedida de solteiro com o encontro do noivo com a noiva.

O noivo agora só quer saber de casar com moça de igreja. A noiva, eu nem sei que fim levou. Só sei que ela não voltou mais lá na Judite. Isso eu sei. Quer dizer, ao menos foi o que me disseram.

Apr
1
Novo Tema

Sem tempo pra pensar mto. Próximo tema:

Locais improváveis para se encontrar o amor.

Marcador, pra facilitar: Amor local improvável.

Posts até dia 6, por gentileza.

Feliz páscoa, a propósito. Entupam-se de chocolate.

Mar
21
Tema Novo

Rodada fechada, outra começa.

Postagens até o dia 26/3, sob o tema: Anão de Jardim.

Mar
15
Purgão

Outro dia, di manhã, dispois de acordá duns pesadelo, o Gregório tinha se virado num purgão.

Purgão?

Purgão dos feio.

Mas num é possível, uma coisa dessa!

Se é possível num sei. Mas que foi assim, foi. Eu mêmo falei cum compadi pai dele.

Vixi! E que fizero pra curar o desgramado.

Deu de curá, não. Gregório se empurgo bem empurgado, e não tinha quem desempurgasse.

Valha-me Nossa Senhora!

E foi abri a porta que o infeliz desembestou casa a fora. Foram encontrá lá na plantação roendo as maça. Um purgão gigante; quase cabô co pomar.

E que fizero?

Fizero nada. Cumpadi pai de Gregório tinha passado veneno nas árvre tudo, dia anterior. Pobrezinho logo tava espumando cas seis perninhas se debatendo pro ar.

Morreu?

Ali não. O pai queria atirar pros cachorro, mas a mãe num dexô. Enfiarum num quarto do galpão.

Daí morreu.

Sei não. Pai dele nunca mais falou nada. Deve de ter esquecido.

Purgão?

Purgão dos feio.

O ciano
[oceano
dos teus olhos

De vagas de madeixas
cor café

Enreda-me em tua renda
Rende-me teu enredo

Risco a senda dos teus lábios
tão pequenos
madrigais

Olhos de aquarela
[água e cor
Aroma de café
e flores
e pétalas
rosadas dos teus seios em botão

se verte dos teus olhos
água
vejo verter-te em cor
a escorrer
que cato
com a palma em concha
as gotas de tua íris
arco
com teu manchar escorrido
por minha paredes
em cor
borra
e borrão