Duelo de Escritores

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Os cães pararam do nada. Se não saltassem para o lado, teria atingido os últimos da fila com o trenó. Amontoaram-se ao redor de uma montanha baixa de neve. Começaram as cavocar o local com ganidos de que tinham encontrado algo. A neve já estava dura. Precisei das ferramentas para agilizar o serviço. Levei meia hora para conseguir desenterrar o corpo. Estava mumificado pelo gelo. Praticamente intacto. Uma das pernas estava em uma posição estranha, imagino que não natural. Deve estar provavelmente quebrada. Os cães demonstraram alguma curiosidade a princípio, mas logo perderam o interesse. Coloquei o corpo sobre o trenó e retornei com ele para o acampamento. Com o volume tive que parar algumas vezes para evitar que caísse ou desequilibrasse o trenó. Assim que cheguei alimentei os cães e entrei em contato.

Onde ele está agora?

Do lado de fora da barraca. Cobri-o com neve fresca novamente. Está protegido.

Mais alguém o viu?

Estou sozinho. Os outros estão no continente.

Alguma ideia de como ele foi parar lá?

Nenhuma. Se havia alguma trilha, foi coberta pela neve. Não havia sinal de qualquer meio de transporte. Cheguei a procurar na área próxima, mas se houvesse algum, teria de ser grande e não seria difícil localizar. Creio que ele chegou ali a pé. Por assim dizer. E ferido.

Conseguiu identificar o teria causado o ferimento?

Negativo. Mas não há sinais de corte ou laceração da carne. A pele está descolorida pelo tempo sob o gelo, mas parece forte. Não apresenta nenhum hematoma visível. Talvez a fratura tenha sido causada por alguma queda anterior.

Anterior? Você não crê que o local que o encontrou tenha sido o do acidente.

Pouco provável. Não há lugar de onde ele poderia ter caído para causar uma fratura ali. Um escorregão no gelo provavelmente não teria aquele efeito. As pernas parecem bastante robustas. Creio que veio caminhando. Ou ao menos se arrastando.

Estou enviando os homens para a remoção. Mantenha-se no acampamento até a chegada. Mantenha o corpo em segurança.

Afirmativo. No aguardo.

***
Click
***

Você acha que ele é confiável?

Não há como não ser sozinho no meio do gelo.

Mas e após a remoção?

Não se preocupe com isso.

Espero não ser mesmo necessário. Em quatro horas quero o corpo aqui, pronto para exame.

***
Click
***

Pronto. Qual o status?

Acampamento sob controle. Tudo calmo. Sem resistência ou sinal de contato externo.

Ótimo. Iniciem a remoção e retornem com o corpo o quanto antes.

E o outro?

Não há necessidade. Podem deixar. Apenas mantenham a discrição.

Afirmativo.

***
Click
***

Se houvesse alguém para ver veria dois trenós leves sendo seguidos por um maior e mais pesado, que carregava um grande volume coberto por lonas laranjas. Seguindos os rastros que deixavam para trás, que logo seriam emcobertos pela nevasca que se aproximava, se chegaria um acampamento vazio. Ao lado de uma barraca desmontada, um grande buraco estava aberto, com o tamanho de dois ou três homens.  Do outro lado do acampamento um pequeno monte de neve passaria facilmente despercebido, mesmo por um observador atento, não fosse o círculo de cães em volta, cutucando a neve dura com ganidos doloridos.

Olhava para o céu de agosto procurando algo entre a poluição e os vãos do viaduto sobre a cabeça. O pescoço levantado revelava uma barba mal feita e as roupas esfarrapadas tinham a cidade impregnada nas tramas. E a cidade, por sua vez, impregnava-se deles, entre os pés coloridos e pichados “veado” dos viadutos. Mas Seu Coelho não era veado. Só era pobre. Tinha o que lhe cabia na sacola de lona e as cores do viaduto.

— Olhando o quê, Seu Coelho?

Sempre lhe chamavam Seu Coelho. Nem era velho, mal passava dos quarenta. Mas a verdade é que aparentava mais, e ninguém nunca lhe perguntou sua idade.

— Lua cheia hoje. Não dá de ver por causa da fumaça, mas tá mais claro lá, ó.  Lua cheia.

— E daí?

— É bonito, só. Mais bonito que o viaduto ao menos.

— Sai daí, homem, que tá ficando frio.

E Seu Coelho saiu e foi se juntar aos outros esfarrapados aos pés coloridos dos viadutos, em volta de uma sopa rala, surrupiada do abrigo cuja funcionária fez vista grossa por pena.

O farol alto de um carro projetou na parede as sombras negras dos esfarrapados. Animais acuados, alguns fugiram assustados, outros paralisaram. Os faróis baixaram, deixando só as luzes de cidade acesas. O capô trazia um felino prateado à frente. Seu Coelho, de orelhas em pé, junto aos outros homens, aguardou. A porta do motorista se abriu. Um homem magro saiu, metido num terno preto. Conferiu nas mãos uma folha de papel, olhando para os homens por cima das lentes dos óculos apoiados sobre o proeminente nariz adunco. Mirando Seu Coelho com olhos de rapina citou em uma voz gentilmente treinada:

— Senhor Jeremias Antônio Coelho.

O motorista revelava, nas mãos, para os homens curiosos, uma fotocópia da ficha do abrigo, com os dados médicos, cadastrais e uma fotografia 3X4 recente de Seu Coelho.

O homem coçou os já prateados fios da barba, adiantou-se, conferiu a ficha. De fato, era a ficha do abrigo. Levantou os olhos ao magro motorista, com o ronronar do carro ao fundo.

— Não se preocupe — disse o homem abrindo a porta traseira do automóvel — Ah! — continuou — antes que me esqueça, o abrigo pediu para entregar isso. Disseram que era para o custeio da viagem. Acho que faz parte do intercâmbio.

Seu Coelho abriu o envelope que lhe foi entregue, dentro, poucas notas de cinquenta reais. No interior do carro, o calor e o aroma de alguma massa recém assada pareciam convidativos.

— Vamos? Perguntou o homem de óculos.

Seu Coelho olhou para o céu e, entre vias de concreto e lufadas de fumaça, viu por um momento a lua espiar por trás das nuvens. Deu um suspiro profundo, quase de entrega, colocou o envelope no bolso, deu de ombros e entrou no carro. O mundo lhe passava pela cabeça.

Dentro do carro de bancos de couro, uma embalagem de uma pizzaria próxima o aguardava no banco traseiro.

O motorista olhou para trás por sobre o banco:

— A viagem não deve demorar muito, mas achei que poderia estar com fome. Peguei agora mesmo. Espero que não se importe, mas peguei um pedaço.

Seu Coelho balançou a cabeça, mas, antes que pudesse dizer “não tem problema”, uma lâmina opaca subiu entre ele e a cabine do motorista. Só então percebeu que as janelas eram igualmente opacas. Uma música suave tocou enquanto o carro se pôs em movimento. Seu Coelho, lá dentro, abriu a embalagem de pizza, com uma fatia a menos, e tratou de aplacar o estômago ruidoso.

O carro rodava sem solavancos. Ao contrário da cabeça de Seu Coelho. Não sabia se deveria crer no motorista sobre o intercâmbio do abrigo. Já se imaginava atirado na entrada de outra cidade, jogado de novo no mundo para sair à procura de outro viaduto de pés pintados noutra urbe poluída para impregnar-lhe as roupas rotas. Imaginou-se, jogado na rua, já sem vida, um resto esfarrapado de gente. “Vazio de vida, mas ao menos de bucho cheio”, pensou. Deixou o pensamento pairar-lhe à mente sem medo e perguntou-se se já não estaria de todo esvaziado da vida. Já não ligava, apenas deixava-se levar, ao som da música, o embalar do couro, o sabor e o cheiro da pizza. Era o melhor momento que lhe havia aparecido há muito. Que viesse o que fosse, que ali lhe valiam os anos todos sob o concreto à caça de algo para comer. O felino prateado puxava o carro pela autoestrada guiado por uma lua cheia de agosto, que Seu Coelho não podia ver.

O som de cascalho sob as rodas e as curvas sinuosas revelaram que o motorista saíra da via principal. Seu Coelho imaginou um terreno ermo onde seu corpo descansaria coberto por ervas daninhas sem deixar saudade. Ignorou o pensamento e deixou-se invadir pela música. Recostou-se nos bancos macios e permitiu-se quase cochilar. A viagem de pouco de mais de uma hora fora o momento de maior conforto e prazer — e paz até — que havia tido nos últimos anos na rua. A mente estava calma, sublimando para um estado de sonolência, quando os freios suaves fizeram o carro parar.

Ouviu a porta do motorista se abrir. Passos do lado de fora. A porta traseira finalmente abriu para uma noite clara e iluminada por uma lua cheia brilhante num céu estrelado de poucas nuvens. O homem de óculos falou apenas “Chegamos, Senhor Jeremias”.

Seu Coelho saiu do carro. Os sapatos velhos deram num chão de terra batida, cercado de um gramado bem aparado e um lago brilhante distante. A estrada se perdia numa espécie de pasto. Ao longe era possível ver a silhueta de uma cerca de madeira e ouvir o relinchar de algum cavalo. Uma casa grande, à frente, o aguardava. As paredes eram de pedra até cerca de um metro de altura. Acima disso, eram chapas de madeira nobre que se erguiam até o telhado de telhas acinzentadas. Um perdigueiro grande de cara escorrida veio cheirar-lhe as vestes. Num movimento brusco, retirou o focinho aguçado, agredido pelos restos de cidade agarrados às fibras puídas, e retornou para algum lugar atrás da construção. O motorista abriu a porta principal e fez um gesto convidando o passageiro a entrar na casa.

O assoalho rangeu em boas-vindas, dócil. Das arandelas escorria pela parede uma luz amarelada e a um canto, uma lareira crepitava confortavelmente com uma velha espingarda de caça decorando a chaminé.

— A sua estada, tenho certeza, será bastante confortável. Venha, deve haver um banho aguardando o senhor.

O motorista de nariz adunco acompanhou Seu Coelho até uma porta, que se abria para um banheiro coberto com uma parede coberta de arabescos e pastilhas de vidro ao redor do box. Do outro lado, uma banheira cheia de uma espuma fumegante aguardava.

— Fique à vontade. Chamarei alguém para… — fez uma pausa proposital — deixá-lo mais à vontade.

O homem saiu, deixando Seu Coelho só no banheiro. Um cheiro de eucalipto cobria o fedor das suas roupas. Pela estreita janela basculante, o luar espiava curioso. Não havia tranca na porta. Mas poucos pudores restavam para quem já tão pouco tinha. Seu Coelho tirou as vestes sujas, jogou-as a um canto, empilhadas, e meteu as pernas cansadas na água quente, submergindo o corpo castigado pelos anos na rua sob a espuma branca e perfumada. Recostou-se na banheira e pensou que se o jogassem morto e indigente num barranco qualquer não se importaria. Relaxou lembrando com certo humor que a espuma lembrava àquela que boiava fedida nos rios sob as pontes em que ele, também fedido, morava. Nem mesmo quando a maçaneta da porta desceu, ele saiu do seu estado de conforto. Só quando viu a mulher de branco entrar é que algum espanto lhe chegou.

Ajeitou-se o melhor que pôde, cobrindo-se com a espuma abundante. A loira devia ter uns 30 anos, tinha o cabelo liso amarrado em um coque atravessado por uma vareta de plástico, também branca. Ela olhou com um sorriso benevolente, mostrando-lhe nas mãos um roupão longo e branco, semelhante ao que ela usava. Pendurou a peça num cabide próximo sob o olhar atento de Seu Coelho. Abaixou-se para pegar o monte de roupas sujas revelando, pela fenda de seu roupão, uma perna longa e bem cuidada e um sugerido contorno de seio aparentemente nu, espiando pelo decote. Ela saiu fechando a porta atrás de si. Seu Coelho mirou o roupão pendurado, tentou relaxar na água quente e mergulhou, lavando os cabelos pastosos.

Passaram-se mais uns cinco minutos, talvez um pouco mais, até que a mulher retornou. Seu Coelho ajeitou-se na banheira, ainda sob a espuma, agora com os cabelos bem menos sebosos e sem o cheiro da cidade na pele. Ela se aproximou com passos curtos, ajoelhou-se ao lado da banheira e pegou a bucha sobre o aparador. Ensaboou o objeto, molhou-o na água e fez menção de esfregar as costas do homem.

— Não precisa. Adiantou-se Seu Coelho, preservando os pudores da moça.

Ela parou por um momento, olhou para ele, e pressionou a esponja contra o seu dorso puído. A esponja quente percorreu os ombros maltratados com suavidade, em movimentos lentos. Subiu o pescoço tisnado do sol, volta e meia retornando às águas quentes e espumosas da banheira. Seu Coelho foi deixando-se relaxar ao toque sutil da esponja, ao eventual toque das pontas alvas dos dedos longos. Dividiu com a mulher um silêncio cúmplice. Ela arregaçou a manga do roupão revelando um braço esguio e bonito. Mergulhou-o na espuma, percorrendo com a esponja cada vértebra das costas de Seu Coelho, contornando-lhe a lombar. Sob a espuma, o corpo desacostumado com um toque gentil ameaçava relembrar a virilidade que há tempo não provava.

A moça empurrou-lhe o peito delicadamente com a ponta dos dedos, para que se recostasse, molhou a esponja na água e começou a ensaboar-lhe o tórax.

Ele sorriu, apenas. Sentiu a esponja descer-lhe pelo abdômen, percorrer-lhe a lateral do tronco, esfregar-lhe a coxa. Sob a água, as mãos dos dois se encontraram. Ao toque, ela mirou-lhe os olhos pardos com os azuis dela. Sorriu — ou riu — sem pudores, mas parou o movimento. Ele, devagar, puxou-lhe a mão até sentir o toque da esponja onde queria. Ela roçou-lhe suavemente com a esponja. Levantou-se, olhou, de pé, para o homem deitado na banheira, soltou o cordão que amarrava o roupão e deixou a peça correr pelos ombros até cair no chão. Meteu as pernas longas dentro da banheira, uma depois da outra, e mergulhou a nudez nas águas quentes, contornando, por baixo da espuma, as pernas dele com as dela. Olhou por um momento para o homem a sua frente, pegou novamente a esponja e começou a ensaboar o próprio corpo, ignorando o companheiro de banheira. Seu Coelho ficou poucos minutos observando a moça de cabelos presos e corpo mergulhado na mesma água que o cercava. Com as mãos tocou-lhe as pernas lisas. Ela apenas o olhou e continuou a banhar-se. Ele se desencostou da banheira, levando as mãos às coxas da moça. Tudo para receber apenas mais um olhar, com o canto do olho. Num movimento quase brusco, com a paciência de quem vive à míngua sob os viadutos sem receber sequer um olhar de uma mulher como aquela, Seu Coelho tomou-lhe a esponja, espirrando com a violência do braço, um pouco de água para fora da banheira. O suficiente para espalhar a espuma, revelando um seio delicado coroado por uma auréola rosada e decorado com uma pequena tatuagem de um arco rebuscado ao lado de uma flecha, ornamentados por motivos tribais. Cobriu o seio da moça com a esponja, fazendo-a percorrer devagar, para baixo, o corpo arrepiado. Viu-a deitar a cabeça para trás e arquear as costas enquanto a esponja se perdia entre a espuma e as pernas da mulher.

Com um pulo, Seu Coelho projetou-se sobre a loira, transbordando a água a cada investida, transbordando emoções represadas, anos suprimidos, rugas precoces. A moça, capturada, subjugava-se às investidas brutas, à barba áspera, ao sabor das ruas que persistia na pele agora limpa. A cidade fica impregnada fundo, onde a água não alcança. Mas agora ela vinha à tona. Transbordava-lhe pelos poros, desprendia-se pelos pêlos, emergia-lhe à pele. A moça agarrou-lhe o pescoço com os braços, envolveu-lhe o lombo com as pernas e sentiu-se transbordar como a banheira. Seu Coelho continuou as investidas até que toda a cidade, toda a rua, toda a vida represada transbordasse também de si. E naufragou exausto nas águas que se acalmavam. Depois de uns dois minutos a moça levantou, em silêncio, vestiu o roupão novamente e saiu pingando pela porta sem tranca do banheiro.

Seu Coelho aguardou uns cinco minutos. Levantou-se, secou o corpo murcho, já não sabia se pela água ou pela vida, e vestiu o roupão branco com um pequeno gamo bordado no lado esquerdo do peito. Abriu, sem muita certeza, a porta do banheiro. No chão, a sua frente, ruas roupas aguardavam empilhadas e dobradas. Pegou-as, retornou ao banheiro e um minuto depois tornou a sair, vestindo as próprias vestes, cobertas com alguma nova essência que desconhecia, mas de aroma bem mais agradável. O homem magro de terno preto o aguardava na sala, em frente à lareira.

— Ah, Senhor Jeremias. — Disse sem emoção na voz ou no rosto. — Seu jantar está servido.

Acompanhou o homem a uma sala lateral onde uma refeição simples mas farta o aguardava. Seu Coelho já não perguntava nada, não esperava nada, não se importava com nada. Comeu com a pressa que se aprende na rua. Ao terminar, o mesmo homem de terno re-apareceu.

— Senhor Jeremias, acompanhe-me.

Seu Coelho obedeceu. Seguiu o homem até a sala onde este abriu a porta da rua. Seu Coelho parou por um momento. O homem de olhar de rapina fez um movimento de confirmação com a cabeça. Seu Coelho saiu pela porta e encontrou o mesmo carro que o trouxe, com a porta traseira aberta. O homem fez sinal para que entrasse no veículo. A lua alta brilhava cheia, retornando com uma lufada de vento o suspiro de Seu Coelho.

O carro serpenteou as curvas levando no ventre Seu Coelho que, lá dentro, não sabia o que pensar. Apreendeu-se imaginando que fim lhe esperava. Não creu na história do abrigo, mas tentava se tranquilizar relembrando que o que quer que o aguardasse, não poderia ser pior que retornar à rua. E de todo modo, havia valido a pena. Viveu numa noite o que não vivera sobrevivendo nos últimos anos. Ouviu com certo espanto o ruído familiar da cidade. O carro parou. Uma sirene soou não muito longe dali. A cidade, à noite, expirava ressonante e insone. A porta se abriu. Seu Coelho saiu e deu com um bairro distante, na periferia. O homem de nariz adunco cerrou a porta traseira, retornou ao posto de motorista e partiu seguindo o felino prateado que puxava o carro.

Uma hora depois, Seu Coelho chegava, a pé, junto aos pés coloridos escrito “veado” do viaduto que lhe servia por teto. Ao mesmo tempo em que, num casarão distante com um Jaguar estacionado em frente, um homem de terno negro e olhos de águia batia à porta de um quarto. Dentro do quarto a mulher loira, sentada na cama sob as caras cobertas, ajustou o robe cobrindo o seio tatuado e pôs de lado um balancete financeiro de uma filial empresarial. Retirando os óculos e colocando-os ao lado do cálice de vinho no criado-mudo, disse:

— Pode entrar.

O homem de terno abriu uma fresta na porta do quarto e polidamente perguntou:

— Senhorita Diana, estou indo me recolher. A senhorita deseja algo mais?

— Não, Tulius. Está tudo bem, obrigada. Boa noite.

— Obrigado. Boa noite, madame.

Apr
15
A Despedida

Cinco segundos. Foi mais ou menos esse o tempo que levou para ele esboçar a primeira reação. E por esboçar, quero dizer arremessar uma garrafa na parede, subir aos tropeços no palco cercado de neon e ser agarrado pelo segurança e ser impedido de chegar na menina assustada e seminua em cima do palco. Um papelão, em suma. Desses que acontecem tanto mas a gente nem imagina que possam ser de verdade. Desses que só acontecem com um conhecido de um conhecido meu. Bom, dessa vez foi direto com um conhecido meu. Por sorte tinha mais um monte de gente junto e deu pra evitar de o segurança esmurrar o cidadão.

Mas como resultado, a despedida de solteiro terminou com nós todos expulsos da Casa da Judite, um noivo inconsolável e um casamento cancelado. Ao menos isso rende alguma história pra contar. Quem ia imaginar que o noivo, na despedida de solteiro, iria encontrar a noiva? Como se já não fosse o suficiente, logo ela é que seria a striper da noite. O caso era, isso eu só fui saber um tempo mais tarde, que a moça tinha largado a vida de Menina de Judite já fazia bastante tempo. Tinha tomado tento, como a gente dizia. Só que vez por outra, vez por mês, eu acho, ela voltava lá pra “matar a saudade”, brincava a rapaziada.

Não que ela tivesse voltado à vida antiga. Ao menos o que me disseram é que ela ia lá só pra fazer o strip. Tinha até nome, a personagem, mas agora eu não lembro. Usava uma mascarazinha e uma maquiagem pesada. O que importa é que ela ia lá. Fazia três shows na mesma noite e só voltava um mês depois ou mais. Era a atração lá na Judite. Para a moça era mais um hobby, imagino. E disse ela pro ex-noivo, que estava só juntando um dinheiro para recomeçar a vida com ele. Mas que era fiel a ele e até que depois de morarem juntos ia parar de se apresentar. Mas o fato é que isso não reatou o casamento, que acabou na despedida de solteiro com o encontro do noivo com a noiva.

O noivo agora só quer saber de casar com moça de igreja. A noiva, eu nem sei que fim levou. Só sei que ela não voltou mais lá na Judite. Isso eu sei. Quer dizer, ao menos foi o que me disseram.

— Floquinhôoo! Floquinho! Aqui, rapaz!

À voz da criança seguiu-se uma série de assovios altos. A menina, alarmada, mal disfarçando o nervosismo na voz, subia a rua chamando pelo cão. Subia devagar. Um pouco para poder deter os olhos com atenção a cada moita, a cada beco, a cada jardim. Um pouco para evitar chegar lá no alto sem ter encontrado o cão no caminho.

— Floquinho! — A voz já saia mais nervosa. Quem olhasse de perto veria a umidade banhando a linha dos finos cílios inferiores.

Um menino novo, da idade dela, talvez nem tanto, veio correndo, os joelhos sujos de terra, por certo por brincar n’algum quintal. Ela passou o dorso da mão nos olhos, dissipando as lágrimas ainda não nascidas e correu em direção ao rapazote.

— Bruno, você viu o Floquinho?

— Não. Ele fugiu de novo?

— U-hum. Mas dessa vez não tô conseguindo achar ele em lugar nenhum.

— Você já procurou lá embaixo na rua?

Ela fez que sim com a cabeça.

— Vamos procurar de novo. Eu te ajudo. Quem sabe ele não tá escondido?

— Eu já procurei lá! — Ela respondeu meio nervosa, batendo as mãos contra as próprias coxas. — Só se ele estiver… mais pra cima — continuou, receosa.

O garoto seguiu o olhar dela rua a cima. Mais uns duzentos metros de casas de cada lado. Muros mais altos, mais baixos, casas de todos os tipos. E lá em cima, um pouco antes da rua chegar no topo da colina e voltar a descer do outro lado, a casa do Senhor Gerhardt. Ele engoliu seco e, recobrando, o entusiasmo na voz disse:

— Vem, vamos olhar por aqui. Quem sabe o Floquinho nem foi muito longe.

Puxando a garota pela manga da camisa continuaram na busca nas redondezas, olhando atrás de moitas, embaixo de carros estacionados, ao redor das casas de muros mais baixos. Perguntaram para um ou outro vizinho. Cada vez subindo mais devagar os duzentos metros, como se a subida os cansasse demasiado. Não havia muito mais crianças na vizinhança, de forma que foram apenas os dois. Subindo a rua e chamando pelo cão.

Nada. Chegaram em frente à casa do Senhor Gerhardt. Muros altos — altos para eles em todos os casos — um portão fechado de madeira com um telhadinho para proteger algum visitante em dias de chuva. Sob ele, um interfone. Os dois ficaram em silêncio. Já haviam passado por todas as outras casas da rua. A menina deu uma fungada funda, como quem se esforça para segurar o choro. O rapazinho pegou na sua mão e apertou. Ela respirou fundo e engoliu mais uma vez as lágrimas antes que elas aparecessem. O garoto olhou determinado o muro, o portão. Aproximou-se, deitou-se no chão espiando por baixo da madeira. Via apenas o começo de um calçamento de pedra e o início de um gramado. Levantou-se olhando a calçada e viu um hidrante vermelho não distante do muro. Correu saltitando até lá, seguido pela menina. Tentou ficar de pé sobre o hidrante, mas foi só com a ajuda dela que ele conseguiu se equilibrar lá em cima, enquanto ela, segurando suas pernas ali em baixo, ficava olhando pra cima há espera de qualquer notícia. O garotinho em cima do hidrante, com os braços abertos, agora podia ver todo o quintal e a fachada da casa do velho Senhor Gerhardt.

Logo depois do muro, um gramado verde bem aparado se estendia até a casa, ao lado de um caminho de pedra para o carro. No quintal se espalhava uma coleção de inúmeros anões de jardim. Cada um sobre um pequeno elevado de terra sem grama, decorando o jardim com seus barretes vermelhos, narizes grandes e roupas coloridas. A maior parte portava ferramentas de mineração: pás, picaretas, martelos. Alguns tinham sacos às costas e, à frente, longas barbas sisudas que pendiam até as barrigas. Os olhos eram grandes e foi como se fitassem o garoto assim que ele ousou pôr a cabeça por cima da linha do muro. Num gesto de impulso, o menino abaixou-se quase caindo. Em seguida recobrou-se e, olhando sobre a amurada, analisou melhor as pequenas estátuas. Engoliu em seco quando viu que, lá no meio do jardim, um dos anões não apresentava nenhuma marca de interpérie ou desgaste pelo tempo. Era como se tivesse saído da loja no dia anterior.

Olhou para baixo e viu os olhos da menina em expectativa. Tomou coragem e desceu de cima do hidrante. Fitou-a em silêncio por pouco tempo e vendo os olhos dela quase marejados disse:

— Tem um anão novo lá.

A garota não pôde mais represar o choro. As lágrimas saíam dos olhos e o peito cavalgava em soluços. O nome de Floquinho se misturava na voz embargada. O menino esperou até o choro dela diminuir e foi até o portão. Ela o segurou pelo braço, mas ele se desvencilhou olhando a garota com determinação. Foi até o portão, se esticou um pouco e apertou o interfone. A menina correu para perto dele e ficou agarrada no braço do garoto. Ela tremia um pouco mais que ele.

—“Pois não” — soou a voz com um sotaque alemão metalizado pelo aparelho.

— Seu Gerhardt? — o garoto perguntou com voz infantil.

— “Sim. Quem é?”

— É o Bruno, filho do seu João aqui da rua.

— “Ah, sim. Só um pouquinho, sim?”

Quando ouviram o outro lado desligando, os dois começaram a tremer com mais vigor. Não demorou puderam ouvir os passos se aproximando pelo caminho de pedra. Só não disparam em corrida porque as pernas bambas não permitiriam. Ao som da chave entrando no ferrolho o garoto firmou as pernas tomando coragem. A porta de madeira se abriu com um rangido. Apareceu no vão um imenso velho de bigode e cabelos brancos, vestido em uma jardineira jeans e camisa listrada de mangas arregaçadas. De rosto levemente rosado e terríveis e profundos olhos azuis.

— Siiiimmm? — A voz se estendia com o sotaque carregado.

— A… a gente só queria saber… se… o senhor não viu o Floquinho, o cachorro da Tati. Ele é branco com marrom.

— Não… Eu não vi cachorro aqui, não.

— Hum…

— Não, não. Não vi nenhum Floquinho, não.

— Ah, tá… ‘Brigado, então.

Os dois saíram descendo a rua, acelerando o passo a cada metro até que estavam correndo rua abaixo. Olhando por sobre o ombro, o garoto ainda pôde ver o velho coçando o bigode sem tirar os olhos dele. Bateu o portão e entrou para além da porta de madeira para junto dos anões de pedra.

O Senhor Gerhardt vivia no alto da rua desde sempre. Não era muito afeito a crianças e animais de estimação, pelo que diziam. Sempre xingava quando encontrava algum excremento pela calçada, pondo a culpa nas crianças que levavam ou deixavam que os animais passeassem por ali. Depois da morte da esposa, tomou gosto por colecionar anões de jardim. O primeiro da coleção era um terrível anão de olhos de pedra, barba volumosa e picareta aguçada. As crianças nunca gostaram muito do Senhor Gerhardt. Tinham medo e um certo respeito, mas nunca gostaram dele. O alemão rabugento, diziam. Falavam uns que ele era cruel e já tinha dado cabo a umas tantas bolas e brinquedos que lhe caíam no quintal. Mas a mais assustadora das histórias a respeito do alemão era a que Tati mais temia naquele momento.

Diziam as crianças das redondezas que, depois da morte da esposa, o Senhor Gerhardt tinha ficado ainda mais cruel. Não eram só os brinquedos que não retornavam depois de transpor seus muros de pedras. Diziam, algumas crianças, que mesmo os animaizinhos de estimação jamais retornavam depois de pôr as patinhas no gramado do Senhor Gerhardt. Vinícius, um menino do começo da rua, disse que a vizinha dele perdeu o coelhinho dela assim. E tinham mais histórias. Gatos, cães e até aves tinham sumido no quintal do alemão do alto da rua. E foi o Vinícius mesmo quem percebeu. Cada vez que sumia um bichinho no bairro, o jardim do Senhor Gerhardt ganhava mais um anão. Se aparecia um anão, desaparecia um animalzinho.

— Ele pegou o Floquinho!

A menina chorava copiosamente.

— Ele pegou o Floquinho e enterrou ele embaixo daquele anão!

O rapaz ao lado, abraçava as canelas e pousava o queixo pensativo sobre os joelhos. É claro que ninguém jamais tinha visto o Senhor Gerhardt fazer nada. Mas era muita coincidência que a cada vez que surgisse um novo anão, sumisse um animal de estimação. Estava lá. Era só espiar por cima do muro. Um anão a mais, um animal a menos. E o quintal do Senhor Gerhardt estava cheio de anões.

— A gente vai entrar lá.

A menina engoliu o choro e arregalou os olhos molhados. O garoto tinha falado sem tirar o queixo dos joelhos. Olhava fixo pra frente. Se virou para ela e continuou:

— Amanhã é domingo. Todo domingo o Senhor Gerhardt sai de manhã um pouquinho antes da missa e só volta lá pelo almoço. A gente entra escondido e descobre se ele pegou ou não o Floquinho.

A menina não conseguiu falar nada. Tentou balbuciar um “mas, mas, mas” mas ficou nisso. Olhou pro menino ao seu lado, abraçado nas canelas finas e seguiu o seu olhar. Estava cravado no muro de pedra no alto da rua. Tornou a olhar pra ele e se agarrou de repente no seu pescoço num abraço apertado e surpreendente. Deu um beijo estalado e rápido na bochecha do rapazinho, ao que ele se afastou com uma careta e passou a mão compulsivamente no rosto como se estivesse se limpando. A menina não ligou e concedeu-se até um pequeno sorriso.

Dia seguinte, os dois brincavam com uma bicicleta próximo à casa do alemão. O portão de madeira se abriu e a visão do pequeno exército de anões lá dentro fez os dois paralisarem. Um carro velho mas bem conservado apontou do portão. Os dois forçaram-se a continuar brincando. O carro deslizou para fora do portão. Ao volante, o motorista lançou um olhar azul e inquisidor para os dois, antes de confirmar o bigode no retrovisor e sair, deixando o portão fechar-se atrás do carro.

Assim que o carro desceu a rua, os dois partiram em sentido contrário. Encostaram a bicicleta na parte mais baixa do muro e, usando-a como escada, escalaram passando ao outro lado. Fizeram tudo muito rápido. Quando deram por si já estavam do lado de dentro, descendo pelo muro de pedras. Quando se viraram deram automaticamente um passo atrás, sentido as pedras do muro nas costas. À sua frente, no gramado, um exército de anões de jardim armados de sacos, pás e picaretas. Todos com os olhos cravados neles, com as tenebrosas barbas pendentes. Era como se estivessem em um paredão de fuzilamento. Como se a qualquer momento, a um comando, o pequeno batalhão partiria para o ataque. Mas não.

Passaram alguns minutos e os anões não foram além de vigiá-los. Como se seus olhares fossem suficientes para paralisar qualquer adversário. Para transformá-los em pedra. O pensamento provocou um arrepio no rapaz que despertou e, puxando a menininha, circundaram o jardim seguindo o caminho calçado por onde corria o carro. Na garagem aberta, ferramentas estavam atiradas em caixas de madeira e papelão. O garoto começou a revirar tudo sob o olhar curioso da menina. Finalmente achou. Não seria que possível que alguém que usasse uma jardineira não tivesse nenhum material de jardinagem. Ele sabia disso. Sua mãe tinha uma jardineira e, claro, material de jardinagem. Que volta e meia ele pegava para brincar na terra em busca de tesouros enterrados. Mas não eram tesouros que ele buscava agora em sua aventura. A menina, quando o viu com a pequena pazinha na mão esbugalhou ainda mais os olhos quase que em terror. Só não gritou porque ficou sem ação. Ele a puxou novamente pela mão e levou-a até o muro por onde tinham pulado. Virou-se, encarou os adversários de pedra, respirou fundo e deu um passo a frente. Estava agora sobre o gramado. Invadira o território inimigo. Foi até o anão mais próximo. O encarou de perto. Fez cara feia, pá em punho. Só faltou rosnar para o homenzinho de barrete vermelho. Circundou o inimigo, bufando. Forçava seu medo a se dissipar. Avançou, caminhou entre mais alguns dos outros anões. A garota apenas o olhava em surpresa, medo, expectativa e suspense. Ele foi caminhando até o anão que parecia ser o mais novo da coleção. Repetiu o ritual, desafiando o mais novo recruta do pelotão de pedra. Passou a pazinha em frente ao anão. O sol continuava a brilhar. O que para ele havia começado como uma aventura de terror tinha se transformado numa aventura épica. E ele era o herói. E venceria os anões alemães. Colocou a pazinha no bolso e agarrou o anão. A menina, perto do muro, prendeu a respiração. Tentou erguê-lo, mas não teve força. Ele saiu só um pouquinho do chão. Começou a arrastar o enfeite de jardim que vinha com dificuldade. Parou um pouco e chamou a menina para ajudá-lo. Ela apenas fez que não com a cabeça, de longe. Ele insistiu até que ela veio, receosa. Passando por entre os outros anões, evitando esbarrar em algum. Com a ajuda dela conseguiu arrastar o novo anão para longe e separá-lo do grupo. Colocou-o contra o muro e agora os dois o encaravam de frente. Ela tentando imitar a cara de mau dele. Os dois intimidando o anão. Agora eram eles que iriam fuzilar o inimigo. O garoto começou a procurar alguma coisa no anão, quase que revistando a estátua. A busca infrutífera foi interrompida pela menina lhe puxando pela manga da camisa. Seguiu o dedinho dela que apontava para o jardim e viu o monte de terra sem grama sobre o qual se erguia o anão removido. Eles se olharam. Ele sacou novamente a pazinha e foi em direção ao monte de terra. Ela ficou no meio do caminho, mais perto do muro do que do jardim. O garoto se ajoelhou na terra, olhou novamente para ela e deu o primeiro golpe com a pá sobre o solo. Não estava muito compactado. O buraco foi se abrindo sem muita dificuldade. E a expectativa crescendo. A pá atingiu algo com um barulho baixo. O garoto levantou-se num pulo. A menina, perto do muro, quase deixou escapar um grito. Ele olhou para ela. Quatro olhos esbugalhados se encontravam. Abaixou-se de novo tomando ar, meteu a pá na terra ao lado do que quer que tivesse atingido e fazendo uma alavanca com a ferramenta forçou o objeto a revelar-se, tirando-o da terra.  Mal pode ver a coleirinha vermelha. O pelo branco e marrom sujo de terra saiu das profundezas do jardim fazendo o garoto dar um salto com os pelos dos bracinhos eriçados e o cabelo em pé. Deu um grito agudo e saiu correndo em direção ao muro. A menina, sem mal ver o que tinha acontecido, deu o grito de terror que estava segurando desde de que pulara o muro. O menino veio feito um raio. Meteu um pé na cabeça do anão recostado ao muro e com a ajuda das mãos conseguiu escalar o muro. A menina veio atrás, auxiliada por ele. Os dois pularam o muro, ele ralando o joelho. Montaram na bicicleta dela e desceram a rua aos berros. No bolso da calça dele, a pá vinha manchada de terra e de uma nódoa marrom escura, puxando para o vermelho.

O carro do Senhor Gerhardt veio subindo a rua depois do meio-dia. Uma pequena multidão de vizinhos tinha se formado ao redor da casa. Umas poucas crianças agarradas às saias das mães. Dois carros de polícia parados em frente. O portão arrombado. O velho estacionou o carro e, ao percebê-lo, a multidão começou a se alvoroçar. As mães puxando as crianças para si. Os pais indo na direção do veículo. Foi preciso que os policiais chegassem para que o homem pudesse sair do carro. A polícia fez uma batida pela casa e não encontrou ninguém nem nada suspeito dentro da moradia. O Senhor Gerhardt vivia sozinho. Mas sob a estátua do anão removido estava o corpo de um cão de pequeno porte, de pelos brancos e marrons, com uma coleira com o nome Floquinho gravado. Antes das duas horas da tarde o Senhor Gerhardt seguia para a delegacia no banco de trás de uma viatura. Algemado. Para trás ficou uma vizinhança horrorizada, um portão lacrado com uma faixa amarela e um quintal cheio de anões de jardim deitados ao lado de buracos escavados de onde foram retirados treze cadáveres de pequenos animais. Na manhã seguinte a polícia retornaria para continuar o trabalho.

Naquela noite, finalmente, a vizinhança pode despedir-se com propriedade de seus animais de estimação. Mães, pais e crianças passaram a noite em vigília em frente a casa no alto da rua, com velas, fazendo pedidos e orações por seus animaizinhos. Na frente do portão fechado foram depositados desenhos de cãezinhos, gatinhos, peixes, roedores e aves. A vizinhança passou a noite em frente aos muros do Senhor Gerhardt. O Senhor Gerhardt passou a noite entre as paredes de pedra da delegacia.

A vigília durou até a manhã seguinte, com as famílias se revezando em orações em frente à casa. Alguns dos pais mais afoitos estavam apenas esperando a polícia chegar para quem sabe entrar no terreno do velho Gerhardt e vingar-se sobre sua casa.  Mas quando os portões foram novamente abertos pela equipe policial, ninguém do bairro se dispôs a pisar o gramado. Lá estavam, novamente de pé, todos os anões sobre os seus respectivos lugares. À frente dos pés de alguns deles, pequenas covas abertas pela polícia no dia anterior. Todos de pé, ferramentas à mão, olhos fixos à frente. Naquela noite, ninguém quis retomar a vigília.

Mar
15
Purgão

Outro dia, di manhã, dispois de acordá duns pesadelo, o Gregório tinha se virado num purgão.

Purgão?

Purgão dos feio.

Mas num é possível, uma coisa dessa!

Se é possível num sei. Mas que foi assim, foi. Eu mêmo falei cum compadi pai dele.

Vixi! E que fizero pra curar o desgramado.

Deu de curá, não. Gregório se empurgo bem empurgado, e não tinha quem desempurgasse.

Valha-me Nossa Senhora!

E foi abri a porta que o infeliz desembestou casa a fora. Foram encontrá lá na plantação roendo as maça. Um purgão gigante; quase cabô co pomar.

E que fizero?

Fizero nada. Cumpadi pai de Gregório tinha passado veneno nas árvre tudo, dia anterior. Pobrezinho logo tava espumando cas seis perninhas se debatendo pro ar.

Morreu?

Ali não. O pai queria atirar pros cachorro, mas a mãe num dexô. Enfiarum num quarto do galpão.

Daí morreu.

Sei não. Pai dele nunca mais falou nada. Deve de ter esquecido.

Purgão?

Purgão dos feio.

O ciano
[oceano
dos teus olhos

De vagas de madeixas
cor café

Enreda-me em tua renda
Rende-me teu enredo

Risco a senda dos teus lábios
tão pequenos
madrigais

Olhos de aquarela
[água e cor
Aroma de café
e flores
e pétalas
rosadas dos teus seios em botão

se verte dos teus olhos
água
vejo verter-te em cor
a escorrer
que cato
com a palma em concha
as gotas de tua íris
arco
com teu manchar escorrido
por minha paredes
em cor
borra
e borrão

“Antes que o primeiro galo cante, um dentre vós me trairá.” A sentença caiu sobre a mesa como um malho sobre uma bigorna. As centelhas se espalharam nos olhos faiscando bravios de um lado a outro. Como o choque de metal contra metal, o alarido ressoou nas vozes nervosas. A movimentação inquieta foi como o rufar de asas de mil pombos. E se imprecações fossem ali permitidas, teria havido uma chuva delas. Um misto de revolta, surpresa e negação tomou a mesa. Indignados, os presentes trocaram rápidos olhares inflamados e perscrutadores. Todos, exceto um.

Cujos olhos baixos não revelavam brilho algum, mas cujo peito ardia como se tentasse abrasar uma fogueira de chamas ágeis enquanto se esforçava para suportar o calor. Absorto em ideias inflamadas, não deu pela mão que se ergueu espalmada da cabeceira. Só voltou a si quando o silêncio retornou à mesa, como um convidado que chega atrasado. Todos tinham os olhos cravados na cabeceirada mesa. Da cadeira de espaldar alto, o mestre reforçou: “Esta é a última ceia em que estaremos todos reunidos. Em verdade vos digo: antes que cante o primeiro galo, um dentre vós me trairá”. Não olhava diretamente para ele, apenas corria os olhos por todos, de maneira igual. “Um dentre vós me trairá e assim há de ser, antes que brilhe a luz sobre a Terra”.

“Mas, mestre, tem de haver um engano. Quem dentre nós seria capaz?”

“Acaso antes enganei-me? Um dentre vós me trairá e assim será, para que o mundo seja mundo”.

Podia sentir no peito o ardor crescer, como se um tição revolvesse-lhe as brasas fazendo subir-lhe chamas.

“Não temais. A aurora trará um novo tempo, de separação, mas glórias maiores. Para agora e todo o sempre, enquanto o mundo for mundo”.

O pescoço já lhe ardia com o erguer das chamas, o ar ficava abafado à sua volta, o sangue lhe fervia. A cabeça lhe doía e o peito ameaçava explodir.

“Um dentre vós me trairá e com a traição virá a aurora. É chegada a hora”.

Ergueu os olhos injetados e deu com os do mestre lhe olhando da ponta da mesa. Ardendo, levantou-se assombrando a todos. Sentia-se como se a pele fosse o barro do ventre de uma fornalha. Foi até a ponta da mesa — coxeava já um pouco da perna esquerda — inclinou-se sobre o homem na cadeira de espaldar alto e lhe beijou a face, fria ao contado de seus lábios quentes. Com os olhos chamejantes, imaginou um sorriso invisível e nos olhos dele, pensou ter visto compreensão.

Deu as costas à mesa e foi-se, coxeando rápido. O peito já se incendiando. As labaredas começavam a subir-lhe a pele em línguas de fogo a lamber-lhe os braços, as costas, as asas. Alguns dos outros que estavam à mesa se apiedaram. Levantaram-se e o seguiram. Alguns ainda capazes de lançar um olhar frustrado e rancoroso à mesa que ficava para trás. Miguel fez menção de levantar-se, a mão já à bainha, mas a mão que veio da cabeceira da mesa lhe tocou o ombro, conciliadora.

Coxeou com o corpo a queimar, seguido de longe pelos outros. As penas chamuscadas caindo ao chão, a testa latejando. Da beira da existência olhou para baixo e viu a Terra pequena, distante, perdida no escuro. Mal suportando o último passo, atirou-se no espaço enegrecido. Um lume na escuridão. Rebentou-se em chamas, ardeu e luziu como o fogo que se ergue do ferro quente golpeado. E na escuridão se fez luz. A Terra então, pela primeira vez, iluminou-se. Os outros, atrás dele, já se precipitavam também tomados pelo fogo dos caídos, mas próximos dele, que ardia em fulgor, eram ofuscados e pareciam apagados; brilhando apenas quando ele se distanciava, do outro lado do orbe. Assim, passou ele a ser. Uma luz na escuridão, a escuridão para a luz. E com a luz da primeira aurora, cantou o primeiro galo, a antífona do traidor.

Escrevo porque chove. Apenas por isso. Um apartamento vazio, cercado por caixas de papelão, uma cadeira velha recostada na pia. E um texto nascido num envelope de banco. E lá fora uma chuva interminável que não me deixa ir
a lugar algum. Então escrevo.

Não escrevo para expurgar demônios ou para chorar minhas lamúrias adolescentes. Não escrevo para transbordar angústias desinteressantes banhadas a Linspector demais. Não é pra compartilhar um nariz carcomido onde enfio uma
nota de dois reais ou uma noite etílica por demais repetida, que escrevo.

Escrevo porque chove. E a chuva permanece lá fora, não em mim. Escrevo porque espero a chuva passar. Se meu texto pouco valhe, menos ainda os motivos pelo que nasce. Escrevo, apenas.

“Largou a caneta, olhou a janela da sacada aberta. Partiu correndo e atirou-se do nono andar, imitando a escritora por demais copiada na internet”.

Mentira, não fiz não. Só achei que seria uma maneira dramática de terminar um texto. Mas isso já não tem muita graça. Tampouco motivo. Agora vou embora. A chuva passou e faz sol outra vez.

Quis a fortuna que optasse eu por passar meus últimos dias à beiramar. Não deve demorar agora, mas não há do que se arrepender e contento-me com a ideia de ter podido acompanhar estes últimos eventos. Se fosse de outra forma, creio, não faria muita diferença. Muito menos para mim. E aquilo foi a coisa mais assombrosa que vi. Você certamente não verá. Porque você provavelmente nunca vai existir para ler esta carta, seja lá que for você. Eu sou a última geração.

Acordei cedo naquele dia, como de costume. Tomei o desjejum e saí para caminhar na areia. Naquele dia vi o primeiro sinal. A areia ainda tinha a marca molhada da maré, que agora estava lá embaixo. Bem lá embaixo. Contei cinco barcos pesqueiros pequenos na areia, deitados de lado, quilhas à mostra. Mais alguns encalhados na maré baixa, mastros inclinados balançando quando as marolas estouravam sob os cascos quase completamente aparentes. Os pescadores reunidos em grupos tentando retornar os barcos à água ou imaginar o que havia acontecido. Aproximei-me aos barcos, as âncoras expostas atiradas na areia, e fiquei vendo o mar com os pescadores. A maré nunca esteve tão baixa. Caminhei até a espuma branca e deixei que lambesse fraca meus pés. Virando-me pude ver a sacada do meu apartamento de frente para o mar. A faixa de areia que nos separava estava com o dobro do comprimento habitual.

Lembrei da única história que já ouvira em que a maré havia recuado tanto do dia para a noite. Nesse caso, da noite para o dia. Olhei fixo no mar, além da rebentação, em busca de algum sinal, mas as vagas pareciam querer se retirar escondendo um segredo. Lembrei das polinésias, do Pacífico, daquelas cenas que abalaram o mundo em telejornais aproveitadores. Devo ter deixado escapar a palavra por entre os lábios numa expiração: “tsunami”. Olhei em volta. Dois pescadores me olharam com dúvida. Já havia juntado bastante gente para ver o mar. Aposentados, patricinhas, atletas, velhos de pulmões condenados que tossiam sangue antes de ir caminhar na areia. Por um momento, juro, pensei em não avisar. Deixar que viesse, aguardar a chegada no meio de toda aquela gente. Mas logo vi um casal de uns trinta e tantos, quarenta anos, discutindo a possibilidade. Eles perceberam que eu os olhava. A vantagem de ter poucos mas alvos cabelos à cabeça e muitas e profundas rugas à cara é que, se você consegue evitar uma aparência senil-babona, as pessoas acreditam que o você tem a dizer tem realmente alguma valia. Fiz cara de sábio pra justificar as expectativas deles e confirmei as suspeitas que levantavam. Acrescentei: “Para a maré já ter recuado tanto, já deve estar a caminho”. Depois de alguns segundos de choque, os gritos de tsunami correram a praia. Um pequeno grupo se organizou para evacuar o local e avisar os moradores próximos enquanto o restante correu em pânico para longe do mar. Mas se você tossisse sangue pela manhã e sua melhor perspectiva fosse uma cama de hospital, você também não teria tanta pressa.

Logo estava praticamente só na praia, a marola me tocando os dedos dos pés prenunciando o que estava por vir. Além de mim, apenas dois teimosos e ignorantes pescadores ainda mexendo nos barcos e um outro terceiro, tão teimoso quanto eles, tão velho quanto eu. Olhou-me com o que pensei ser cumplicidade — mas já não tenho tanta certeza — e ficamos, distantes um do outro, olhando o mar. Passou muito tempo. As ondinhas débeis já perdiam força a alguns centímetros de meus pés, nem os tocando. Depois de um tempo o velho acendeu um cigarro e saiu caminhando ao longo da faixa de areia, sem pressa. Quando deu dez horas mais ou menos os homens já tinham conseguido fazer os barcos ao mar. As vagas pareciam as mesmas de sempre, apenas mais distantes. Retornei ao apartamento perdido em pensamentos.

Preparei um almoço rápido e fui à sacada olhar as ondas ao longe, de cima. Apenas uma infinita planície verde espumante. Um ou outro barco percorrendo-lhe as trilhas atrás dos cardumes. Ao chegar da noite, os barcos que tinham os cascos levemente banhos por águas rasas já estavam completamente deitados na areia praticamente seca. As âncoras paradas no mesmo lugar. A dúvida dormiu comigo aquela noite.

Acordei mais cedo do que de costume. Mal percebi-me desperto, corri à sacada. Do meu apartamento se estendia uma enorme faixa de areia. Quatro ou cinco vezes maior do que havia na véspera. Quase duas dezenas de barcos estavam pousados na areia, distantes da água, qual uma carçassa ressequida. Na extensa praia, uma pequena multidão de pescadores e curiosos tentava decifrar o fenômeno. Desci à praia e fui ao mar afastado. Devo ter levado uns dez minutos até sentir a água fria nos pés. Com as mãos em concha capturei um pouco do líquido. Passei provei o gosto, lavei o rosto. Olhei para o apartamento, já pequeno. Olhei de volta para o mar, infinito como sempre. Agora mais do que nunca, um mar de dúvidas. A praia, cheia de indagações, com nenhuma solução ou conclusão. Na areia algumas poucas estrelas do mar, ouriços em pequeno número, aqui e ali. Uma rede de pesca estendida no seco com uns poucos peixes apanhados. Não demorou uma hora para que começassem a aparecer as câmeras, os microfones, as autoridades. Especulações.

Tomei o meu café na sacada, olhando o mar lá longe e a praia cheia. A tevê ligada na sala trazia especialistas e charlatões tentando analisar ou aparecer. Todos com o mesmo sucesso nulo em descobrir uma explicação. Fui buscar mais uma xícara quando vi na TV a imagem de uma enorme vala sobre a qual passava uma ponte cheia de gente. No fundo da vala um lodo lamacento e um fio de apenas dois palmos de largura, de água. Era a ponte que cruzava o rio que dividia a cidade do município vizinho. As estações de tratamento já não estavam sendo abastecidas. Poucos córregos e rios ainda tinha água suficiente para encher os tanques. O mar havia se recolhido em toda a costa. A água estava desaparecendo. E não como uma força de expressão ou papo de ambientalista. Ela estava, de fato e simplesmente, desaparecendo.

Fui ao mercado para descobrir que não fui o único que teve a ideia. Consegui levar apenas algumas garrafas entre uma turba em busca de água para estocagem. Na fila e na confusão ouvi que os outros afluentes do rio também estavam secando. Nas cidades vizinhas o mesmo acontecia em rios diferentes. Voltando para casa vi um grupo de cinco homens enchendo garrafões na fonte em frente à prefeitura. Voltei para casa, abri as torneiras e enchi baldes e panelas. Na TV, praias do mundo inteiro recuando. Rios desaparecendo. Lagos virando crateras. Não demorou muito e o mundo todo estava secando como seu um ralo tivessesido destapado.

Agora já faz bastante tempo. Mais de duas semanas. Do lado de fora do meu apartamento um grande deserto de areia se estende até o horizonte. Dezenas de barcos no meio da areia seca. Fora de vista, centenas, milhares. Alguns dos pescadores resolveram seguir o mar onde o mar fosse. Fizeram os barcos à água e ficaram sempre em águas rasas, próximas da costa. A medida que o mar recuava, eles avançavam. Hoje não sei onde estão. Na TV vi o Everest coberto de pedra. O gelo havia sumido. Os alpes andinos com estações de esqui sobre montanhas castanhas. As plantas, claro, começaram a morrer. Toda a cadeia alimentar logo começou a desmoronar. Fernando de Noronha tornou-se uma montanha. Gibraltar já podia ser cruzado a pé, como vários outros pontos. Imigrantes ilegais começaram a simplesmente andar a outros países. Em busca de água ou de um sonho inútil. O Mar Vermelho foi novamente atravessado. As religiões, não é preciso dizer, foram todas à loucura. O Mar Morto virou uma enorme cratera de sal. Os pólos praticamente sumiram e toda a confusão que os cientistas previram quando isso acontecesse, na maior parte aconteceu. Frio, calor, era glacial. Tudo está começando. Hoje, parece, poucos são os lugares que ainda tem alguma água, mesmo que salgada e não potável. Equipamentos para tornar o líquido potável trabalham sem parar. Pela manhã uma reportagem acompanhava um homem de jipe a caminho da África. Foi barrado por uma cadeira de montanhas, mas ao que tudo indica, se não fosse por isso até poderia ter conseguido. O maior reservatório de água que resta são as Fossas Marianas, guardadas pelo governo americano sob supervisão da ONU. Mostraram uma foto de satélite. A Terra vista do espaço está marrom. Entre os continentes, enormes desfiladeiros. Os rios quase todos se foram. O Brasil ainda guarda o que resta do amazonas, agora só um fiorde inexpressivo. O Nilo parece que foi assumido pela União Européia. O Yang-Tzé está cercado, da forma possível, por tropas chinesas, mas oferece ainda menos esperanças, mesmo para a China. Agora não há nada mais o que fazer. A água que me resta cabe em uma garrafa. Deixo essa carta apenas para mim. Ninguém mais vai lê-la. Não haverá mais ninguém. Eu vou, pela última vez, em busca do mar. Parto a pé, pelas areias que se estendem do lado de fora do meu apartamento. Uma última marcha de um planeta que se vai. A última geração.

Prezado Dr. Snodgrass,

Há um cavalheiro aqui no Ryan’s 4th, em muito lastimável estado, que responde pelo nome de Edgar Allan Poe e que diz conhecer o senhor. Asseguro-lhe de que ele necessita de cuidados imediatos. Aguardo-o com urgência,

Joseph W. Walker.
03 de outubro de 1849

Dentro do coche, Henry Herring relia a carta percorrendo a caligrafia apressada do Sr. Walker, imaginando o que agora estaria se passando com o sobrinho. Ao seu lado, o Dr. Snodgrass olhava-o com pesar, imaginando — ou tentando imaginar — o que se passava sob o cenho franzido do amigo. Os dois embalados pelos solavancos noturnos das ruas de Baltimore, iluminadas pelos candeeiros recém acesos. Do lado de fora, os prédios rentes às calçadas debruçavam toldos à sua passagem e um ar frio soprava da baía trazendo burburinhos arrulhados pelo vento. O Sr. Herring dobrou o bilhete com cuidado e, depois de um tempo, retornou-o ao seu destinatário.

— Fez bem em me chamar.

O Dr. Snodgrass tomou o papel e colocou-o no bolso da casaca, apenas acenando com a cabeça, em resposta. Seguiram o resto do caminho em silêncio. O coche começou a passar pelas bandeirolas vermelhas, brancas e azuis penduradas nos postes, das janelas e por sobre a rua. O barulho da baderna e bravatas já chegava e, longe, pode-se ouvir um estouro. Se de algum foguete de comemoração ou algo menos festivo, era difícil dizer. Logo as paredes dos comércios pelos quais passavam os viajantes começavam a revelar alguns cartazes de “vote” e palavras de ordem. Quanto mais se aproximavam do Ryan’s 4th, mais o clima de eleição se acentuava do lado de fora das janelas abertas.

A taverna estava movimentada. Um entra e sai de todos os tipos, na maioria em grandes grupos. Membros de partido comemorando ou vociferando contra os adversários. O coche parou do outro lado da rua. Os dois passageiros desceram pelo lado da calçada. Sapatos lustrados de pontas arredondadas, chapéus escuros de aba curta e casacas até pouco acima dos joelhos. O Dr. Snodgrass ajeitou os óculos de aro redondo sobre o nariz enquanto o Sr. Herring conferiu o bigode bem aparado. Do outro lado da rua ouviu-se alguma imprecação contra os Whigs que rendeu alguma confusão com prováveis membros do partido citado. Os dois companheiros se olharam de lado mas, antes que pudessem tomar uma decisão, foram interpelados por um homem jovem, rosto imberbe, colete e boina de couro castanho, já com algum uso:

— Dr. Snodgrass?

Conferindo o bilhete que tinha no bolso, o Dr. Snodgrass respondeu com certa dúvida:

— Sr… Walker…?

— O Sr. Walker pediu para que eu viesse ao seu encontro. Ele está com seu amigo e parece preocupado. Sigam-me, por favor. É a casa aqui ao lado. As ruas estão muito confusas esta noite para aguardar do lado de fora com alguém… que não esteja tão bem de saúde — completou com cuidado ao ver os olhos interrogativos do Sr. Herring.

Os homens não comentaram nada mas seguiram seu guia. A casa realmente era próxima e logo estavam aguardando em um hall de madeira de cor canela, já com os casacos pendurados num cabideiro. Henry Herring tomou nas mãos uma bengala de corpo negro e esbelto, com ponteira de couro e uma cabeça de prata bem polida, que estava recostada junto ao cabideiro. A lateral do objeto estava coberta por uma leve crosta de lama já começando a secar, mas ainda pegajosa.

— É de Edgar?

— Já a usa há algum tempo, pelo que sei.

— Dr. Snodgrass. — Foram interrompidos por um homem de bochechas rosadas, bigodes fartos e olhos claros. A cintura larga amparada por suspensórios marrons que corriam sobre uma camisa social com as mangas compridas arregaçadas. Estendendo a mão cumprimentou o Dr. Snodgrass:

— Sou Joseph Walker. Fui eu quem encontrei o Sr. Poe. Por aqui, por favor.

— Obrigado, Sr. Walker — respondeu seguindo o homem — este é Henry Herring, meu amigo e tio de Edgar. Viemos assim que recebemos sua mensagem.

— Obrigado pelos seus cuidados com Edgar, Sr. Walker. E por sua presteza em nos chamar. Como ele está?

— Sr. Herring, receio que seu sobrinho não esteja bem. Veja bem, não sou médico, o que quero dizer é que não está nas melhores das condições. Por isso pedi que viessem com urgência.

Os homens percorriam os aposentos seguindo Walker.

— Agora o Sr. Poe está descansando. Acho que dormiu, finalmente. Encontrei-o ao lado do Gunner’s Hall, digo, do Ryan’s 4th, como devem conhecê-lo. Estava caído nas sombras na rua lateral, se levantando, quando o vi. Fui ajudá-lo ao que ele tentou me agredir com a bengala. Me confundiu, ao que parece, com um tal de Reynolds. Estava tão desorientado que o golpe não passou nem perto de me atingir. O teria deixado caído ali mesmo se não o tivesse reconhecido. Acompanhei alguns números do Broadway Journal — é uma pena, por sinal, que aquele projeto não tenha dado certo — mas, enfim, graças a isso reconheci o Sr. Poe e o trouxe para cá. Como ele estava sem carteira ou documentos, não havia outra forma de saber a quem chamar.

Pararam em frente a uma porta fechada:

— Apenas adianto aos senhores que o estado do Sr. Poe, como disse, não é dos melhores. Mas considerando as circunstâncias e o dia de hoje, não está muito pior que alguns dos estimados cidadãos de nossa cidade lá fora.

O chiste não despertou comentários e o Sr. Walker abriu a porta para um quarto pequeno com uma cama de solteiro e uma janela com uma fresta aberta. O Sr. Poe estava deitado sobre os lençóis. Numa cadeira ao lado da cama, um chapéu roto e mal acabado estava pendurado no encosto e, dobrado sobre o acento, um paletó já velho, desbotado e bastante desgastado. A calça, bastante larga, estava em igual estado, somada uma mancha de lama seca no joelho esquerdo. Os pés tinham sapatos de um couro opaco e sem vida, de um número claramente maior do que o necessário. Era como se o corpo dentro daquelas vestimentas tivesse de repente encolhido, murchado, como que minguando e desaparecendo para dentro de si mesmo. Lá fora uma noite agreste batia levemente nos umbrais.

— Pode ser uma bebedeira, só isto, e nada mais.

Os recém chegados não pareceram se sentir aliviados pelas esperanças gentis do Sr. Walker, vendo aquelas olheiras profundas no rosto pálido, ressaltando ainda mais a testa larga de cabelos pretos emplastrados em suor.

Quando o coche partiu, levou também em seu interior o Sr. Poe e seus pertences. Sr. Walker não aceitou qualquer recompensa por parte do Sr. Herring ou do Dr. Snodgrass. Solicitou, apenas, que, se  não fosse muito incômodo, que o Sr. Poe lhe pudesse fazer uma visita após sua recuperação para que pudessem, os quatro cavalheiros, desfrutar de um chá ou café qualquer dia desses. Dr. Snodgrass sorriu afirmativamente enquanto o Sr. Poe era amparado pelo tio. O coche partia em direção ao Washington College Hospital, deixando para trás o Ryan’s 4th e sua algazarra de dia de eleição.

A inconsciência do Sr. Poe continuava, mas parecia respirar sem dificuldades, apesar do suor excessivo. A febre não era muito, mas mantinha-se. Apesar do ar frio do lado de fora, as janelas seguiram completamente abertas. Em parte para refrescar o Sr. Poe, em parte para minimizar o odor desagradável que exalava de suas roupas e pessoa.

Foram recebidos no hospital pelo Dr. Moran. Antes de qualquer exame mais aprofundado, antecipou, solicitaria uma permanência mínima de vinte e quatro horas para o paciente. Depois de vários minutos e poucos papéis preenchidos pelo Sr. Herring, o paciente Edgar Allan Poe já repousava em um leito próximo a uma janela basculante por onde se insinuava um luar azulado sobre as pálpebras fechadas que escondiam órbitas fundas e inquietas, de olhos acelerados, remexendo-se em sonhos inquietos de um sono profundo de águas escuras.

***

Longe podia ver as luzes de Baltimore se aproximarem devagar. Apoiado no parapeito recebia o ar no rosto pálido. Os cabelos despenteados alvoroçavam-se sobre a larga testa. Confiava aos bigodes negros pensamentos ainda mais sombrios. As águas escuras da baía Curtis recebiam o Pocahontas que avançava a fumegantes baforadas na noite. Richmond agora ficara para trás. Na empunhadura prateada da bengala lustrosa observava o seu reflexo deformado. Lembrou do julho anterior em que havia estado em companhia do Dr. Carter em Nova Iorque e que, por descuido, trocara de bengalas com ele. O grasnar fantasmagórico de um corvo fez com sobressaltasse-se, sentindo um frio gélido e mortal subir-lhe a espinha. Umas gaivotas, negras contra o céu noturno, sobrevoavam o navio de modo agourento, girando em círculos como que evocando um enorme redemoinho que engoliria nas águas escuras o barco com todos os seus tripulantes. Achou por bem deixar o convés e procurar um lugar mais seguro no interior da embarcação. Entrou em sua cabine, trancou a porta e atravessou a penteadeira logo atrás. No local onde estava a penteadeira havia ficado apenas, na parede um espelho de moldura oval, lembrando um retrato. A imagem evocou-lhe um quadro agourento de Virgínia morta. Afastou os pensamentos, pegou tremendo, de um frasco sobre o criado-mudo, dois comprimidos e engoliu-os a seco, mastigando o gosto amargo entre os molares, ouvindo o ranger dos dentes, o triturar das peças, imaginando a cor marfim de trinta e dois dentes roubados caindo chacoalhando ao assoalho. Cuspiu em horror os comprimidos esfarelados e sentou-se abraçando os joelhos, com as costas nas paredes e olhos fechados com força.

O descer a rampa do Pocahontas apresentou uma figura distinta, de trajes bem cortados, chapéu negro elegante e sapatos brilhantes. Uma gravata um pouco torta e bela bengala. Só destoavam da elegância os olhos insones vermelhos de olheiras profundas, um brilho de suor sobre a pele do rosto e os cabelos um tanto bagunçados para aquela hora do dia. Seguiu a rua portuária se afastando do píer. Vagou pela cidade, por muito tempo, aproveitando as horas belas do dia, deixando que a mente passeasse de novo por aquelas ruas largas, vendo as árvores, os comércios, o vai-e-vem da urbe. Deixou que o sol lhe aquecesse o corpo e o que carregava dentro dele, que lhe expurgasse as sombras das noites mal dormidas, dos dias, semanas — meses, talvez? — em que vinha vivendo naquele estado de nervos. Vagou por toda a manhã e decidiu que visitaria o bom Dr. Brooks à hora do almoço. Quem sabe lhe fizesse bem um pouco de companhia durante a refeição. Bateu à porta por repetidas vezes, sem resposta. Decepcionou-se e comeu sozinho uma refeição frugal e rápida em qualquer lugar.

Os cartazes das eleições decoravam os cafés, lojas e tavernas. Carros passavam pedindo votos a candidatos e as bandeirolas coloridas se espalhavam pela cidade. O barulho o desorientava e ficara feliz por saber que partiria em breve para a Filadélfia. Quem sabe depois continuasse mesmo até Nova Iorque. Poderia devolver finalmente a bengala do Dr. Carter. Vagou pela cidade, encontrou um par de conhecidos, uma aqui outro acolá, agradeceu educadamente as boas impressões recebidas de alguns de seus livros e logo procurou os arredores da cidade, evitando o incômodo contato com alguém que pudesse lhe reconhecer. Achou que tivesse sido novamente reconhecido por dois homens corpulentos que lhe olharam do outro lado da rua. Mas ao contato com os olhos fundos do escritor, disfarçaram e fingiram conversar entre si. Um receio começou a tomar conta do Sr. Poe. A mão esquerda já tateando dentro do bolso o frasco de comprimidos, a garganta lhe secando. Apressou o passo e tentou afastar-se dos homens enquanto lhes sentia os olhos quentes na nuca. Dobrou uma esquina, recostou-se contra a parede de tijolos e abriu nervosamente o frasco. Atirou dois comprimidos para dentro da garganta sem se preocupar em mastigar. Ouviu um miado longo e agudo e saltou para longe da parede, olhando-a com olhos arregalados e dentes expostos num esgar de pânico. Uma senhora próxima assustou-se com a cena e apertou o gato de estimação no colo, fazendo o bichano saltar para o chão. O sol baixo do fim do dia projetou sua sombra negra e felina na parede de tijolos. Quando um grito ia escalando pela garganta, o Sr. Poe foi alertado por um brado mais grave e mais alto, logo ao seu lado:

— Cuidado!

Por pouco não foi atropelado por um par de cavalos que puxava velozmente uma charrete de duas rodas. O chapéu lhe voou da cabeça revelando os cabelos em pé. “Maluco!” foi o que gritou alguém de dentro do veículo. Aos olhos acusadores dos que estavam em volta, saiu a passos largos cortando as ruas de Baltimore. O corpo quente em contraste com o vento que vinha frio da baía Curtis. Sentia arder os poros e pode imaginar pequenas chagas rubras, como uma peste a lhe cobrir os poros em sangue a verte-lhe o pouco da mal fadada vida que lhe restava, como que uma peste transmitida por um vulto sem rosto. Viu-se golpeando novamente a porta do Dr. Brook a ponto de chamar a atenção de um vizinho.

— O Dr. Brook não está na cidade.

O vizinho arrependeu-se de revelar o fato ao ver a aparência deplorável do visitante, parecendo intoxicado, diria mais tarde, num eufemismo para bêbado, louco ou drogado, como for do agrado do ouvinte.

— Mas a casa está muito bem guardada pelos vizinhos, não se preocupe. — Disse em complemento.

A noite caía e o Sr. Poe resolveu tomar o caminho mais curto para a primeira pousada que prestasse para passar uma noite de descanso, ao menos. Próximo ao local em que estava só encontrou uma velha pensão guardada por uma senhora quase tão velha quanto. Alugou um quarto mofado e com manchas de umidade nas paredes, por falta de um que não as tivesse. Lá fora o vento frio soprava enquanto o Sr. Poe imaginava se ele não entraria pela janela para lhe gelar e matar como num reino ao pé do mar. Assim, em sonos breves e entrecortados passou a noite, vendo nas paredes figuras bizarras que renderiam ainda algumas histórias, se imaginasse que ainda escreveria alguma. Mas da janela, um rufar de asas lúgubres parecia contestar: “nunca mais”.

Passou a maior parte do dia seguinte no quarto, a suportar os calafrios que lhe percorriam o corpo, assoando o bigode melecado com um lenço sempre que preciso. Quando saiu já era a tarde do outro dia. Caminhou pelas ruas e decidiu que compraria a passagem para a Filadélfia e deixaria Baltimore em breve. Passou por uma taverna. Como a maioria delas, era também o local de votação. Pensou na sensação do líquido quente lhe descendo pela garganta, mas numa réstia de força de vontade seguiu em frente. Comeu um sanduíche para aplacar o estômago que reclamava da acidez dos comprimidos da noite anterior, ainda vazio. Quando chegou na estação pediu uma passagem para Filadélfia para o dia seguinte. Separou, de um grande maço, as notas referentes ao valor e entregou ao vendedor. Trazia sua mala de mão e a bengala do Dr. Carter. Quando virou-se para sair esbarrou em dois homens que estavam atrás de si na fila. Desculpou-se e viu os olhos dos homens se deterem por alguns segundos no maço de notas que guardava no interior do casaco. Saiu desconfiado indo em direção aos trens. Esbarrou em um senhor de bigode engomado e quepe de condutor.

— Calma, senhor — disse o homem com um sorriso — Não atropele o condutor se não o trem não sai.

O Sr. Poe se desculpou e se afastou, derrubando um crachá que o homem trazia à lapela com as inscrições “Capt. G.W. Rollings”. O homem virou-se para seguir o seu caminho e esbarrou em dois homens apressados, que não pararam nem para se desculpar. Notou o primeiro homem olhar para trás enquanto se afastava. Por via das dúvidas, resolveu pedir ao responsável pela segurança da estação que desse uma atenção redobrada para os arredores e seguiu para o trem que lhe aguardava.

Vendo-se seguido, passando por uma ruela viu um dos cartazes das eleições falando do candidato dos Whigs e lembrou de seu primo Neilson. Estaria provavelmente envolvido com os preparativos das eleições e morava no outro lado da cidade, mas era a quem talvez pudesse recorrer. O cartaz foi, por uns momentos, coberto por uma sombra que surgiu e logo desapareceu furtiva na escuridão que caía e se adensava. Os candeeiros que se acendiam deitavam uma luz fantasmagórica ao lugar, como fogos-fátuos por entre tumbas. O Sr. Poe pensou ter ouvido passadas cuidadosas e achou por bem acelerar o passo. As passadas atrás de si pareceram também acelerar. Praticamente correndo dobrou uma esquina no que foi agarrado no pulo por um braço forte que saiu das sombras entre dois prédios. Logo, outro homem dobrou a esquina rapidamente e desapareceu também na sombra entre as construções.

A cabeça latejava e girava. O ar cheirava a álcool e láudano e a um passado que parecia querer retornar. O estômago reclamava ácido. Quando os olhos se acostumaram à escuridão percebeu-se deitado numa cama improvisada no chão. Sentou-se. Ao seu redor os dois homens estavam sentados sobre barris de madeira simples, iluminados pela luz de uma lanterna a óleo. Um deles estava com um broche dos Whigs.

— Não me importa se você já votou hoje — um deles começou — Você já está com outras roupas e ninguém vai perceber se você votar novamente. Você vai lá, vai votar pelos Whigs, retorna aqui, troca de roupa e vai votar uma outra vez ainda. Depois você pode pegar a sua maleta, com suas roupas e dar o fora daqui, entendeu? É só ir lá e votar pelos Whigs. E não pense em nos enganar, o mesário estará conferindo os votos.

Colocaram-lhe na lapela um broche igual ao do homem que falava. Repetiram as ordens mais duas vezes, ofereceram mais um trago de uma garrafa que tinham na mão, que o Sr. Poe recusou com a impressão de já sentir, mesmo assim, o gosto do conhaque à boca.

— Estas eleições são muito importantes. E nós não lhe queremos mal algum. Basta fazer como o combinado e o senhor poderá sair sem problemas, ok senhor…?

— O homem lhe perguntou seu nome senhor, seria sensato se respondesse. — completou o outro com uma cara de rufião.

— Poe, o nome é Poe — respondeu o assustado Sr. Poe.

Os dois homens se olharam com certa surpresa e dúvida no olhar.

— Espere aqui que já voltaremos, Sr. Poe — e saíram da sala de paredes úmidas de pedra e limo.

Ficaram alguns bons minutos longe, quase meia hora, provavelmente. As paredes pareciam escorrer uma salinidade maligna e úmida por entre as pedras. Os grandes blocos pareciam se curvar opressivamente sobre o abalado Sr. Poe. A cabeça girou com cabelos desgrenhados projetando sombras monstruosas nas paredes insalubres. Os barris de madeira à sua frente pareciam sentinelas. Imaginava que vinho lhe habitava as entranhas. Sons ecoavam das paredes lembrando murmúrios ébrios emparedados, guardados pelos barris. Pareceu ter ouvido o som de grilhões. Conferiu assustado os punhos: livres. O som parecia vir das paredes ou de algum lugar distante além delas — ou dentro delas. O horror foi tomando conta do espírito já abatido do Sr. Poe que, cambaleante, foi até a porta de madeira e deu-lhe duas batidas como que chamando alguém. A luz da lanterna pareceu ter sido bloqueada por um instante por uma forma humanóide de fronte larga e peluda, vista apenas nas sombras projetadas. Em horror, com o espírito em frangalhos, o Sr. Por se virou para uma sala opressora e escura, de paredes úmidas e sombras que poderiam esconder monstros inimagináveis. Virava a cabeça de um lado a outro, alerta. Conseguiu ver, por outro momento, a sombra de pelos eriçados movimentar-se numa das paredes do fundo. Começou a imaginar longos braços cobertos por pelos acastanhados, uma fronte larga com olhos bestiais, mãos poderosas lhe erguendo pelos cabelos. Virou-se num grito agudo e desesperado, golpeando a porta com mãos, pés e ombros, num desespero crescente. Ouviu os ferrolhos da porta se abrindo e se afastou por um momento. Assim que a porta se abriu o suficiente saiu com a velocidade que ainda conseguia imprimir às pernas bambas, mas foi parado sem muita dificuldade pelo homem com cara de rufião que havia estado com ele há pouco. Foi atirado de volta ao chão do catre e mais dois outros homens entraram. Um deles é o que havia falado com ele antes, que portava um broche. O terceiro homem ele desconhecia.

— Reynolds, seu imbecil! — Disse o terceiro homem.

Reynolds, aparentemente o rufião, se encolheu com desagrado e olhos irados para ele e para o Sr. Poe. O homem do broche se aproximou do Sr. Poe, tirou-lhe o broche da lapela e começou a ajudá-lo a se levantar, enquanto o terceiro homem continuava:

— Esse é o primo de Neilson Poe, seu imbecil! Não há a menor chance de ele votar mais de uma vez sem ser reconhecido. O homem é escritor, volta e meia está nos jornais, por Deus!

Dirigindo-se ao Sr. Poe, já de pé, os olhos afundados nos fundos das órbitas e os cabelos alvoroçados, braços e pernas tremendo, as mãos tateando em vão os bolsos em busca de algum alívio químico:

— Perdoe-nos, Sr. Poe. Houve uma grande confusão, o senhor já pode ir embora. Pensamos que fosse… outra pessoa.

O homem do broche já lhe entregava sua maleta e a bengala de empunhadura prata, agora já suja de lama. Mantinha agora os olhos baixos.

— Reynolds, acompanhe o Sr. Poe à saída — e completou em voz baixa, apenas para o homem — e leve-o direto à estação. Com sorte ele vai embora e evitamos problemas com Neilson.

Deixando o cárcere, o Sr. Poe olhou por sobre os ombros. Viu o terceiro homem e o homem do broche conversando à luz da lanterna. Não pôde rever o vulto peludo de braços longos mas ainda ouvia os murmúrios das paredes suando a salitre e imaginava que pobres almas estariam ali encarceradas. O corpo cambaleante recebeu o ar frio da noite de Baltimore como uma estocada violenta. Quando as pernas fraquejaram, foi amparado por Reynolds. Desvencilhou-se assustado, empurrando o homem com o cabo da bengala contra o peito, quase colocando-o contra a parede de tijolos à sombra da iluminação do noturna. Reynolds, com uma expressão de desaprovação e raiva, agarrou o cabo da bengala e o puxou para si dizendo:

— Eu deveria surrar-lhe com isso!

O Sr. Poe tentou ainda, como pode, manter a bengala em mãos e, com um puxão de cada lado, ouviu-se um clique metálico de uma trava oculta. O corpo lustroso de madeira escura da bengala do Dr. Carter deslizou suave e escorregou revelando, como uma bainha que desfralda a espada, uma brilhante e prateada lâmina delgada de corte único e ponta aguda. O metal intocado refletiu os olhares surpreendidos de Reynolds e do Sr. Poe. Os homens olharam a lâmina fria e olharam-se. Reynolds, num impulso, usou o cabo da bengala que tinha em mãos para afastar a lâmina e tentou agarrar o Sr. Poe. Mas, à visão da arma em punho, o braço recobrou a destreza e, com um movimento circular, desvencilhou-se do corpo da bengala empunhado por Reynolds e foi cravar a ponta aguda no torso do rufião que aterrissou de costas contra a parede. O braço ainda recuou e avançou mais duas vezes, tingindo a roupa de Reynolds de um escarlate que se espalhava pelo tecido. A ponta da lâmina permanecia dentro do peito de Reynolds enquanto na outra ponta a empunhadura prateada pousava na mão relutante do Sr. Poe. O silêncio naquelas sombras era completo. Os olhos arregalados do rufião abatido encontravam as órbitas já quase vazias do escritor. A lâmina parecia vibrar a cada batida vacilante e fraca do coração que suspirava seus últimos ais. O som das batidas, lentas, ritmadas, era tudo o que se ouvia e preenchia os ouvidos e o espírito do destroçado Sr. Poe. tum-tum. tum-tum. Um coração na noite, apenas. Aqueles batimentos que preenchiam a noite e pareciam gritar em acusação.

Olhou em volta para se certificar de que ninguém estava vendo, ou para pedir ajuda, ou com medo de longos braços acastanhados. Um rufar de asas negras e um distante miado apenas responderam ao coração delator. Mas maior horror conheceu o Sr. Poe quando tornou a olhar o corpo fisgado na ponta da espada e no lugar de Reynolds viu sua própria figura, quase como um espelho de si mesmo, de olhos fundos e perdidos, cabelos arrepiados, esgar de horror congelado no rosto. E uma lâmina espetada no peito.

Finalmente, como despertado de um pesadelo, o pobre Sr. Poe recobrou o que pode dos sentidos e tirou a lâmina da figura à sua frente. Tomou o corpo da bengala e reembainhou a lâmina. Partiu apressado e aos tropeços sem olhar para trás, sabendo que de agora em diante também estava morto… morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança. Abandonado de qualquer réstia de luz, sabia que havia assassinado absolutamente a si mesmo.

Dobrou uma esquina com as pernas trêmulas fraquejando, com muito esforço se apoiando à bengala. Deixou cair a maleta que espalhou nas ruas conturbadas roupas e alguns papéis. Contornou um prédio coberto por cartazes de eleição, seguiu pela rua já um pouco mais larga e o joelho acabou vacilando. Um senhor de ampla cintura e olhos claros se aproximou e tocou o ombro para ajudar-lhe a se levantar, mas foi repelido por uma bengalada cega e instintiva que passou ao largo, derrubando o já desequilibrado Sr. Poe. Os olhos vazios e o espírito alquebrado não suportaram mais as emoções e o corpo cedeu amparado pelo Sr. Walker ao lado do Ryan’s 4th.

***

No hospital o Sr. Poe intercalava estados de inconsciência com de consciência delirante. A febre não apenas não cedia como havia aumentado por algumas vezes. Debilitado ao extremo, quando consciente o paciente ainda se mostrava muito excitável e qualquer emoção lhe iniciava uma espécie de breve a intenso frenesi que acabava por culminar num desmaio de muitas horas. O próprio Sr. Neilson Poe veio visitar o primo mas foi impedido pelo Dr. Moran de ver o paciente que estava em estado muito frágil.

Era noite de sábado. A noite agreste novamente aguardava silenciosa do lado de fora da janela basculante. Um grasnar longínquo reverberou nos umbrais do hospital. No quarto vazio, ouviu-se baixo um tum-tum. O som se repetiu. O Sr. Poe abriu os olhos sonolentos devagar. tum-tum. Olhou para o teto branco e alto. tum-tum. Parou por um momento, prendendo a respiração e, em silêncio escutou a noite. tum-tum. Num pulo pôs-se sentado na cama com as costas contra a cabeceira de metal branco. Assustado olhou para o quarto vazio. tum-tum. Ouviu em espanto o som daqueles batimentos novamente. tum-tum.tum-tum. O som de um coração pulsante, vingativo, delator. tum-tum.tum-tum.tum-tum. Parecia vir do assoalho logo ao lado da cama. tum-tum.tum-tum.tum-tum.tum-tum.

O Dr. Moran ouviu um grito bestial de seu escritório. Quando chegou ao quarto do Sr. Poe viu o paciente sendo contido por um enfermeiro. O corpo magro e consumido pela convalescença evidenciando ainda mais o crânio pronunciado por baixo do rosto drenado de vida, os olhos arregalados em pavor insano e dos lábios um grito animalesco fazia vibrar o bigode desalinhado repetindo “Reynolds!” enquanto apontava para o chão como se visse um espectro a se levantar da tumba com garras verdugas. Reynolds! tum-tum. Reynolds! tum-tum-tum.

tum-tum.
tum-tum
.

O relógio começou a primeira de cinco badaladas seguidas na madrugada do dia sete de outubro de mil oitocentos e quarenta e nove. tum-tum. tum-tum. O Sr. Edgar Allan Poe suspirou pela última vez, muito baixo, a ponto de ninguém ouvir, “Reynolds” e, num esforço final, suplicou finalmente:

— Que o Senhor salve minha pobre alma.

Pode ainda, por um breve e último instante, com os olhos vítreos mirados ao teto, imaginar toda a construção do hospital desabando, as largas paredes ruindo sobre ele, como um último sepulcro de um fim em ruínas.

tum-tum.
tum.

tum.

Não escreveu nem citou mais sentença alguma.

Nunca mais.